XXV.
Walter não demonstrou surpresa com o comunicado do filho; tampouco com a convocação imediata para falar com a tia de Olivia. Agiu com naturalidade, como se nada pudesse surpreendê-lo. Há alguns dias tirara o velho anel de noivado da família do cofre e o mandara ao joalheiro para uma limpeza.
O mordomo Partridge estava por perto, muito pálido e digno. Mal pregara o olho na noite anterior. Quando chegou à cozinha, percebeu que seu sobrinho, Ned, já tinha sido informado do noivado pelo jovem patrão e espalhara a notícia entre a criadagem. Grace Higgins notou o desconcerto do pobre homem – provavelmente ele desconfiava de alguma coisa. De qualquer forma, ela ficou mais tranquila, afinal tudo se arranjaria.
-Casar em um mês? Mas por que tanta pressa? – a voz de tia Missy soava estridente e cheia de desconfiança. Nunca deveria ter permitido que Olivia passasse tanto tempo cuidando daquele rapaz.
Rachel olhava intrigada para a irmã, que estava vermelha . Reparou também no sorriso amarelo do noivo. Em compensação, o doutor parecia radiante. Havia algo de muito estranho na atitude dos três.
-Meu filho talvez precise ir à Europa em breve, daí a pressa.
Tia Missy tentou virar a situação, pois não estava convencida em absoluto:
-Seria ótimo. Enquanto seu filho fica fora, nós poderíamos providenciar um enxoval decente para Olivia.
Os noivos se entreolharam, alarmados. Walter objetou:
-Talvez ele permaneça lá por um bom tempo, de seis meses a um ano. Quem sabe até mais...
-E qual o problema, doutor? É o tempo ideal para aprontar o enxoval, o vestido de noiva, a festa... Fazer um casamento decente, sem suscitar falatórios.
Olivia não se conteve e protestou, aborrecida:
-A senhora acha bom um ano de separação entre noivos, tia Missy?
O noivo também externou seu desagrado.
-É muito tempo. Além de tudo, nós não estamos fazendo questão de grandes comemorações. Quanto ao vestido e ao enxoval, podemos cuidar de tudo bem rápido; com dinheiro tudo fica mais fácil.
A velha senhora estava desorientada sob tanta pressão. Achava pouco adequada aquela urgência em casar. Era da época de noivados longos e serenos. Olhou instintivamente para Rachel que, até então, se limitara a ouvir sem dar palpite.
-Tia Missy, é melhor concordar, afinal eles estão com pressa, por causa da tal viagem.
-Mas o que vão falar? Olivia passou mais de um mês na casa do doutor. Podem pensar que aconteceu alguma coisa imprópria.
-Quem liga para falatórios? O importante é que vamos nos casar.-disse Peter.
Tia Missy olhou-o de cara feia. A Europa era uma coisa, Boston era outra, muito diferente. Aquele moço era muito descarado. Definitivamente, não era o marido que imaginara para Olivia.
Walter selou a questão:
-Senhora, não se preocupe. Durante toda a estada de Olivia em nossa casa ela está sendo acompanhada de perto pela nossa governanta, Grace Higgins, uma mulher muito séria. Quanto ao meu filho, esteve adoentado. Os problemas de saúde de Peter colocam os dois a salvo de qualquer maledicência.
-O seu filho agora parece novo em folha, doutor Bishop. –falou Rachel.
Peter ficou apreensivo com o rumo que a conversa ia tomando.
-Eu ainda não tive alta. Minhas costelas ainda não estão boas. O doutor Seymour me recomendou repouso absoluto. Espero que a senhora, tia Missy, se me permite já chamá-la assim, deixe Olivia cuidar de mim por mais alguns dias, até o médico garantir que eu estou totalmente recuperado.
Walter olhava para o filho admirado. Nunca vira tamanha caradura acompanhada de um olhar desamparado e suplicante. Que malandro Peter estava saindo. Sentiu orgulho...
-Mas é inconcebível... noivos morando sob o mesmo teto.
-São só mais uns dias, tia Missy.
Rachel olhou desconfiada para a irmã. Sim, ali havia algo. Para desespero do filho, Walter concordou com tia Missy.
-A senhora está certa. Vamos contratar uma enfermeira para auxiliá-lo. Olivia poderá fazer visitas diariamente. Quando ele tiver alta, poderá vir aqui visitá-las. Vai ser muito romântico, você pode trazer bombons e flores para sua noiva. Poderão conversar e fazer planos para o futuro.
Peter fulminou o pai com o olhar. Agora tinha praticamente certeza de que Walter sabia de tudo e estava zombando de sua cara.
-Viu, Olivia? O doutor concorda comigo. Você volta para casa amanhã.-a tia se sentia aliviada.
Os noivos acharam prudente não insistir. Peter sacou uma caixinha de couro antiga do bolso. Dentro havia um anel. Uma esmeralda oval, cercada de brilhantes. Colocou-o no dedo de Olivia. Estava meio folgado, pois ela tinha os dedos bem finos.
-Olivia, este anel está na família desde a minha bisavó Emily. Agora é seu. Quando tivermos um filho, ele será da esposa dele.
Tia Missy e Rachel passaram por cima do último comentário e foram abraçar Olivia.
O olhar de Nina Sharp quando viu o anel no dedo de Olivia foi de puro desgosto. Uma moça que não conhecia o seu lugar. Desde que a vira andando pra cima e para baixo com Peter Bishop, percebera que era só questão de tempo. Pouco tempo, aliás. De nada adiantaram os anos passados no estrangeiro, a posição, o dinheiro: o rapaz ia se casar com uma irlandesinha pobre e geniosa. Mas era preciso reconhecer: ela era inteligente, soubera conquistar o terreno. Pior para Amy Jessup. Virginia Cox ficaria escandalizada com aquela união. E ao pobre Lincoln Lee, não restava mais do que se conformar e procurar outra.
