Olá, amigas que acompanham "O Labirinto". Muito obrigada pelas condolências pela perda do meu irmão. Conforme havia comentado antes de publicar o capítulo anterior, vou responder pessoalmente às reviews deixadas pelos dois últimos capítulos e também a quem fez perguntas e deixou comentários por mensagem privada.

Sobre as reviews do capítulo 23 "Ilusão", gostaria de dizer que fiquei imensamente feliz com toda a repercussão alcançada, foi o capítulo mais comentado de toda a fic. Gostaria de agradecer a meilimingzi, Lea, a todos que assinam como Guest, Meg, Jane e Rita que foram extremamente gentis ao elogiar a fic e desejar que os capítulos não demorem tanto a serem publicados.

Marie - Será que o Kommandant voltará a tratar Helen de maneira violenta? Espero que este capítulo responda a sua pergunta.

Niobe Krishna - agradeço os elogios e fico feliz que possa ler minha fic no idioma original. Venho tentando traduzir minha fic para o inglês, porque sei que o google tradutor comete erros que complicam o entendimento da história. Sei que também cometo erros na tradução, mas acho que cometo menos erros que o tradutor. Vi que você também começou a escrever uma fic com a temática Amon X Helen e te aconselho que continue. Li o primeiro capítulo, mas, como perdi recentemente o meu irmão, acho que não li com a atenção merecida. Farei isso e prometo que deixarei minha review lá. Continue escrevendo, precisamos de mais autores que deem a sua versão da história desse casal fascinante. Beijo grande.

Kajsa, muito obrigada por suas reviews longas e cheias de ponderações e também pelos elogios. O seu comentário sobre o capítulo 23 foi o fio condutor que eu precisava para o capítulo 25. Por isso, dedico este novo capítulo a você. Espero que goste e volte aqui para deixar outra review inspiradora.

LadyHermioneMalfoy, eu adoro as suas reviews, sempre diretas ao ponto. Também dedico a você o capítulo 25, pois sua review foi também fonte de inspiração para a escrita deste capítulo. Amon e Helen realmente parecem estar presos ao passado, Plaszóvia ainda é parte importante de suas vidas e concordo com a sua análise de que nunca saíram do campo. Talvez seja exatamente isso. Espero que goste desse capítulo e deixe outra review que me inspire a encaminhar este casal a um final digno.

Dessie - Ainda não sei exatamente quantos capítulos essa história terá, talvez 30, não sei ao certo.

Adriana, obrigada por sua longa review. Os capítulos 24 e 25 estão dando o direcionamento que acredito ser o melhor para esta versão da história de Amon e Helen. Volte mais vezes e me diga o que achou.

Saidee, obrigada por sua review. Não posso dar uma resposta precisa a você sobre o final, para não estragar a surpresa, mas o que posso adiantar é que tenho o final planejado. Aguarde os próximos capítulos e por favor, volte a comentá-los.

Kris, eu concordo com tudo o que disse. Espero que goste deste capítulo e deixe outra review. Obrigada!

Ylva, adoro seu nome (ou nickname, você é de qual país?). Eu adoraria escrever um capítulo com algumas tradições judaicas, mas tenho medo de soar ofensiva e por isso coloco poucas referências à religião. Não quero desrespeitar as tradições judaicas ou escrever sobre elas sem conhecê-las mais a fundo. Adoro seu senso de humor e as considerações que faz sobre este casal ter filhos. O que será que o futuro os reserva?

Érita Nogueira, muito obrigada por ter lido "O Labirinto" todo de uma vez, espero que a história tenha uma unidade consistente ao ser lida assim, em sua totalidade. Que bom que você também pode lê-la no original e que esteja gostando. Espero que volte a deixar mais reviews.

Sarah, adorei sua review. Realmente, a grande preocupação dos leitores da minha fic foi se Amon e Helen voltariam a viver como se estivessem em Plaszóvia Espero que este capítulo te dê algumas respostas. Volte aqui e me diga o que achou, por favor.

Jill-Bean, que review excelente você fez sobre o capítulo 23. Vamos ver como Amon e Helen irão se relacionar após a noite em que quase terminaram juntos. O capítulo 25 pretende dar algumas respostas, espero que goste e que volte aqui e deixe um novo comentário repleto de excelentes ideias para que eu continue a história. Que bom que gostou que usei sua sugestão sobre a tentativa de sedução de Helen.

Nathalie, obrigada por sua review. Saiba que sua opinião foi levada a sério e me ajudou na elaboração dos capítulos 24 e 25. Por favor, deixe sua review e me diga o que achou deste capítulo.

Sobre o capítulo 24:

Ada, querida amiga, obrigada pelo apoio. Sinto falta das nossas longas conversas sobre nossas histórias e também sobre nossas vidas. Um dos meus planos depois que terminar essa fic é traduzir Ossessione para o inglês, para que você possa publicá-la em seu perfil aqui no site. O que acha? Sua história é fantástica e tenho certeza que terá mais leitores se estiver publicada também em inglês. Espero que você aceite. Beijo grande.

Guest - Espero que este novo capítulo responda a sua pergunta. Volte aqui e deixe outra review, obrigada!

Kajsa - Demorei um pouco mais a publicar o capítulo, mas espero que algumas dúvidas que você teve tenham uma resposta. Adoro mitologia grega, que bom que você gostou da comparação com Hades e Perséfone. Aguardo sua review.

Guest - obrigada pelo carinho.

Guest - obrigada pelas condolências. Que bom que gostou das comparações entre Sam e Amon. Achei que seria interessante para a história que os leitores soubessem um pouco mais sobre Sam, do ponto de vista de Helen. O que será que o futuro reserva a eles?

Guest - obrigada pelas condolências.

Grace - obrigada por sua review e espero que goste desse capítulo.

LadyHermioneMalfoy, sim, Hades e Perséfone foram uma inspiração para compor a trama de O Labirinto. Adoro mitologia grega, não à toa meu filho se chama Heitor, lol. Obrigada pelas condolências. Escrever realmente tem me ajudado no processo. Espero que goste deste capítulo.

Sarah, espero que este capítulo responda às suas dúvidas. Por favor, deixe uma review.

Aos que mandaram mensagens privadas, sim, eu me inspiro muito em músicas para escrever a fic. Duas músicas me inspiraram nos últimos capítulos, "All I ever wanted is everything", da banda Bauhaus e "Skinny Love", de Bon Iver. Se quiserem sugerir músicas, por favor, me digam quais são, terei o maior prazer em ouvi-las. Outra influência forte são os livros "20 sonetos de amor e uma canção desesperada", de Pablo Neruda (cujos poemas Goeth cita com frequência) e "O amor nos tempos do cólera", de Gabriel Garcia Marques, que aborda a história de um homem que não esquece um amor do passado.

É isso, segue agora o capítulo 25. Espero que gostem e deixem seus comentários. Beijos, Claire


Permaneço calada olhando para o chão. Ele dá alguns passos em minha direção, porém rapidamente recua e escolhe uma poltrona perto da cama para se sentar. Sem saber o que fazer, eu permaneço onde estava, em pé e em silêncio.

Não sei ao certo quanto tempo ficamos assim, a mim pareceu uma eternidade. Percebo que ele está tenso, mexe as pernas, arruma o vinco das calças, cruza os dedos das mãos, pisca diversas vezes, até que fixa seus olhos em mim. Constrangida, resolvo me aproximar e enfrentar o que fosse preciso. Ambos não tínhamos mais nada a perder.

Me aproximo devagar, sento na beira da minha cama e fico novamente frente à frente com ele. Não consigo desvendar o que se passa em sua mente, só que me sinto incomodada pelo seu olhar pesado e enigmático, que não se desvia de mim. Resolvo falar para quebrar o gelo.

- Eu...

Mas sou bruscamente interrompida.

- Cale-se!

Ao perceber que me assusto, ele ameniza o tom, como se estivesse se desculpando.

- Por favor, foi muito difícil vir até aqui hoje... Deixe-me pelo menos começar...

Ouço ele suspirar profundamente, olhar para cima para, em seguida, voltar seus olhos azuis em minha direção e começar a falar comigo.

- Tudo poderia ter sido tão diferente... - Diz ele, com a voz baixa. Ele inclina seu corpo para frente, coloca os cotovelos nos joelhos, cruza as mãos e apoia seu queixo nelas. Seus olhos desviam-se dos meus e se cravam no chão. Percebo que ele dá pequenas batidas com a ponta do sapato no piso do quarto. Definitivamente, ele parece tenso.

Sem entender, permaneço olhando para ele. Afinal, depois de tantos dias sem vê-lo e depois de tudo o que aconteceu entre nós, eu esperava um acesso de fúria da parte dele, principalmente após ter mandado que eu me calasse. Enfim, espero tudo, menos vê-lo tenso, de cabeça baixa e com a voz vacilante. Uma atitude que não combina em nada com o homem que ele é.

O Kommandant solta outro suspiro profundo e, depois de uma pausa muito longa, olha novamente em meus olhos. Parece que ele está sentindo dificuldade em me dizer o que realmente quer dizer.

Com um tom interrogativo na voz, ele continua.

- Não há a menor possibilidade disso dar certo, não é mesmo?

Então eu finalmente entendo o que ele quer dizer, mas permaneço calada, pois ele já havia ordenado isso. Não ousei desobedecer, pois não queria provocá-lo, afinal, eu sabia que depois de tudo o que houve aquela noite, precisávamos ter uma conversa. Ele então continua.

- Foi tudo tão cuidadosamente planejado, Helen. Eu... Foram anos alimentando cada detalhe do nosso reencontro. Mesmo não tendo a certeza que um dia eu a veria de novo... Mesmo assim, eu continuei... Quando retornei do meu autoexílio vasculhei o continente atrás de você... E por onde passava, comprava uma joia, um vaso ou um móvel que eu achava que poderia ser do seu agrado. Eu fazia isso para manter a esperança de um dia voltar a vê-la...

Intrigada, não me contenho e pergunto para ele, com voz cautelosa, pois não quero irritá-lo.

- Então enquanto me procurava você ia aos poucos preparando o meu cativeiro? Isso significa que você já tinha a intenção de me raptar, não é?

Incomodado, ele muda de posição na poltrona, inclinando seu corpo para trás, e cruzando os braços, em uma atitude defensiva.

- Eu não tinha a intenção de te sequestrar, Helen. Eu comprava coisas para você porque eu tinha certeza que te encontraria um dia. Fazer isso era uma forma de suportar a sua ausência, de manter a minha esperança em vê-la outra vez.

-...Então em sua fantasia, ao me encontrar, eu viria morar com você? Assim, num piscar de olhos?

- Sim.

A certeza presunçosa do seu sim me irrita profundamente.

- Como pode pensar isso? O que o levou a crer que eu aceitaria?

- Eu não sei... Eram fantasias, Helen... Eu não sei.

Ele olha para o lado, para baixo e então volta a me olhar com uma intensidade desconcertante.

- Muitas vezes eu pensei que talvez as coisas não tivessem ido bem para você e talvez estivesse passando necessidade, fome, frio... Muita gente não se recuperou financeiramente no pós-guerra.

- Eu não acredito nisso! Como pode dizer que não queria me sequestrar se, quando vim para cá tinha até mesmo um guarda-roupa completo à minha disposição?!

Ele parece engolir em seco, para só então continuar.

- Eu decidi sequestrá-la depois que nos encontramos em Peterskirche. Você deu a entender que fugiria. Depois, como não apareceu no teatro aquela noite, eu me desesperei e tive medo que você fosse embora da minha vida outra vez... Pensei também na possibilidade real de que você me delatasse para as autoridades austríacas. Enfim, achei que tinha motivos suficientes para tomar uma providência radical se quisesse ficar perto de você!

- Mas... Todas essas roupas... Isso deve ter levado meses...

- Três dias. Foi o que eu precisei para organizar suas roupas. O quarto já existia, é fato, mas não tinha o propósito de ser uma cela. Mandei lacrar as janelas depois. Quando dancei com você naquela recepção depois da estreia da Orquestra, tive uma boa noção do tamanho que você deveria estar usando, tenho boa memória para certas coisas... E os sapatos, eu lembrava do seu número quando precisei encomendar o uniforme completo que você usou em Plaszóvia... Quando decidi trazê-la para cá, depois do nosso encontro na igreja, eu liguei para uma estilista de Viena que mandou um catálogo exclusivo para que eu escolhesse o que poderia ficar bem em você... O tempo que você ficou hospitalizada foi o suficiente para que eu organizasse suas roupas, lacrasse as janelas... Cada detalhe desse quarto foi preparado pessoalmente por mim, para que você pudesse desfrutar disso tudo, ao meu lado...

Fico extremamente irritada por ele achar que eu me enterneceria com a sua louca obsessão. Por mais que eu tente, não consigo evitar dizer palavras amargas para ele.

- Oh, de fato! Isso eu percebi, Herr Kommandant. O senhor foi tão precavido que não descuidou nem mesmo do porão.

Falei com ironia e raiva, pois quero que ele entenda que não compactuo com a sua loucura doentia. Ele recebe o insulto mas não devolve na mesma moeda, parece querer evitar outra discussão, por isso, me responde usando um tom de voz calmo, porém firme.

- Sim, é verdade. Até mesmo do porão. Eu o preparei quase tão rápido quanto o seu guarda-roupa, pois eu sabia que você poderia reagir mal. Na verdade, um lugar como o porão não foi pensado para que você o conhecesse. Ele só seria utilizado apenas em caso de extrema necessidade, pois eu sabia o quanto voltar para um lugar como aquele a neutralizaria.

Ao ouvi-lo dizer essas coisas, me enfureço.

- O porão quase me matou! – Grito.

- A sua tentativa idiota de fuga é que quase a matou.

Ele responde, falando com a voz levemente alterada, ao que rapidamente controla para voltar a usar o tom neutro, não sem antes respirar fundo. Ele parece ter percebido pelo que eu disse que essa conversa seria bastante desagradável, mas ainda assim se conteve para não piorar as coisas ainda mais.

- Acredite, Helen, o porão foi uma medida extrema minha para neutralizar uma medida extrema sua. Eu a conheço tão bem que sabia que precisaria me precaver. Eu não o construí, acredite, coincidentemente ele já existia quando adquiri a casa. O que eu fiz foi adaptá-lo para deixá-lo uma réplica fiel do porão da villa...

Incomodada com os rumos da conversa eu me levanto da cama e me aproximo dele, que continua sentado na poltrona.

- Quer dizer que adaptou-o apenas para me torturar?

- Sim, se fosse preciso. – Ele diz, impassível.

Antes que eu o interrompesse novamente, ele faz um gesto com a mão para que eu esperasse ele terminar de falar.

- Eu cheguei a pensar que não seria necessário lançar mão desse recurso. Que você se comportaria bem...

Não consigo evitar o meu desgosto.

- Que eu me comportaria bem? Você é sádico! É assim que espera ter o meu amor? Me fazendo usar o mesmo maldito vestido de empregada que eu usei há onze anos? Eu tenho certeza que aquele vestido era o meu velho uniforme, Herr Kommandant. Encontrei marcas de costuras que eu fiz nas mangas... Fico com nojo só de pensar em vê-lo descendo as escadarias do porão para resgatar o uniforme que eu larguei lá antes de partir com Herr Schindler para fora de Plaszóvia. Você fez isso tudo de caso pensado!

- Sim, sim, foi tudo de caso pensado. Eu desci ao porão depois que você foi embora e vi que você havia deixado seus poucos pertences para trás. Eu levei do porão o seu uniforme e uma escova de cabelos velha. O resto das coisas que você encontrou no porão daqui eram apenas réplicas. Já seu vestido e a sua velha escova de cabelos me acompanharam nesses onze anos. Foi uma longa jornada!

Não consigo segurar a minha língua e, mais uma vez, despejo sobre ele a minha indignação. Me apoio em uma das colunas que sustentam o dossel da cama, pois sinto que se não o fizer, provavelmente tentarei atacá-lo e não quero que vá embora sem que ouça tudo o que eu quero dizer.

- Como alguém que foi um pai de família consegue infligir dor e até mesmo matar outro ser humano? Como você era capaz de promover verdadeiras carnificinas na Appelplatz e depois voltar para a villa, tomar um banho, jantar e ir dormir, como fazem as pessoas normais? Como conseguia escrever cartas para os seus filhos quando ainda tinha manchas de sangue de crianças inocentes debaixo de suas unhas?

Saio de perto da cama e me aproximo do espelho perto do armário. A expressão que tenho estampada em meu rosto assusta até a mim mesma, pois revela o meu asco, o meu ódio, o meu rancor. Agitada, viro as costas para a minha imagem refletida e volto a olhar para ele, que está fazendo um esforço enorme para manter-se sentado naquela poltrona.

- Meu Deus, como isso é possível? Como você conseguia fazer isso?

Goeth desvia os olhos. Eu aproveito a oportunidade e continuo a falar o que se passa em meu íntimo.

- Você diz me amar, mas no fundo você sabe que não entende nada de amor... Tudo o que você conhece e entende tem a ver com violência, com posse, com sadismo e dor, muita dor. Você é uma pessoa cruel, que não merece ser amado por ninguém! Você não merece nada!

O Kommandant fica calado. Eu continuo despejando o meu horror sobre ele.

- Você matou, roubou, enganou... Fez mal a tanta gente, eu sei porque eu fui testemunha ocular além de vítima... E ainda acha que pode ter o amor de alguém como eu, que vi e vivi tanto horror perpetrado por você em Plaszóvia?

Eu me aproximo dele, agora com a voz embargada. Paro próxima da poltrona, porque quero que ele possa me olhar nos olhos, mas percebo que ele não está disposto a isso, pois continua com os olhos cravados no chão. Sua passividade me irrita, pois quero que ele reaja, que despeje sua ira em mim, que tome uma atitude, pois eu sei que essa nossa discussão só tende a piorar. Na verdade, sua postura calada está me pondo ainda mais nervosa, pois sei que a qualquer momento seu temperamento explosivo pode vir à tona e eu preciso permanecer alerta para quando isso acontecer... Continuo a acusá-lo.

- Por Deus do céu, homem, você matou Lisiek, que era só um garoto... (abaixo o meu tom de voz ao lembrar do meu jovem amigo). Só um garoto... Uma das poucas pessoas com quem eu tinha uma relação de amizade naquele maldito campo!

Abaixo a minha cabeça, tendo a lembrança do sorriso de Lisiek em meu pensamento enquanto permito que uma lágrima de saudade escorra pelo meu rosto. Entristecida, continuo.

- O que Lisiek fez para você? Hein? O que ele fez que lhe custou a vida? Assim como fez com ele, você matou e torturou outros milhares de inocentes...

Mordo os lábios com horror, pois sinto dificuldade em relembrar certos tormentos passados em Plaszóvia. Mas quero que ele saiba que eu sei sobre suas monstruosidades.

- Soube que uma vez você matou 28 pessoas por causa do sumiço de uma galinha no campo! 28 vidas! E tudo por que alguém desesperado pela fome matou uma galinha para comer? Meu Deus, quanta inversão de valores! E não tente me convencer do contrário, porque eu sei bem o que eu vi e ouvi a seu respeito...

Olho para ele, com asco. O Kommandant continua de cabeça baixa.

- Eu via em seus olhos o prazer macabro que você sentia em ser cruel, não apenas comigo, mas com todos que tinham a infelicidade de cruzar o seu caminho. Saiba que o seu sadismo me persegue nos meus pesadelos até hoje e que anos de terapia não foram capazes de apagar a violência dos seus golpes e todas as ofensas e as humilhações que eu passei sob o seu jugo. E ainda quer me fazer crer que me ama? Se eu nem ao menos sou uma pessoa, "no estrito sentido da palavra" para você, então porque se ocupa tanto de mim? O que você viu em mim e que não encontrou em mais ninguém para não conseguir superar isso? Eu não consigo entender...

Agora, o Kommandant está evitando me olhar nos olhos. A crueza de minhas duras palavras parecem ter finalmente atingido este homem que não é capaz de se comover com nada e nem ninguém.

- Olhe para mim, homem... – Digo, com força.

Goeth está com o cotovelo direito apoiado no braço da poltrona, a mão direita cobre a sua boca, como se ele estivesse tentando controlar a sua vontade de me dizer algo. Então ergue os olhos e os mira novamente em mim. Ele parece muito contrariado, mas não me interrompe. Vejo a sua mão esquerda se fechar e abrir, como se estivesse tentando controlar a sua raiva. Eu não me importo e continuo destilando o meu rancor.

- Eu juro, eu tenho feito um esforço sobre-humano para tentar te entender... Para me colocar na sua pele, mas infelizmente não posso calçar os seus sapatos se você jamais calçou os meus.

Após essa torrente de sinceridade jogada em sua cara, Goeth está calado e muito pálido. O silêncio cai pesado mais uma vez entre nós dois. As feridas que nos unem são profundas demais.

Leva algum tempo até que ele recomece a falar.

- Tem razão, Helen! – Ele engole em seco ainda tentando manter um ar sereno. – Você tem toda a razão!

Ele se levanta e vai em direção a uma das janelas lacradas do quarto. Sua voz está entrecortada, ele fala baixo, como se estivesse envergonhado ou até mesmo entristecido.

- Eu não calcei os seus sapatos... – Goeth pisca seus olhos seguidamente e demora muito para continuar a responder. - Eu nunca consegui...

Sua voz parece falhar de vez. Ele se cala e abaixa a cabeça tristemente.

Estranhamente, sua atitude me desarma. Por mais que eu tente, sempre que conversamos, meu instinto de sobrevivência faz com que eu me arme com palavras duras e inicie uma discussão ao que ele sempre responde com ironia e sarcasmo, mostrando seu claro desprezo por tudo o que eu represento. Mas, dessa vez, ao vê-lo baixar a cabeça em uma atitude tão atípica dele, me calo.

- Sabe, Helen, eu fracassei com você porque sempre fracassei no que diz respeito às relações humanas.

Ele faz outra pausa longa. Quando finalmente consegue falar, uma torrente de palavras jorram de sua boca, assim como havia acabado de acontecer comigo. Calada, escuto tudo com atenção, evitando interrompê-lo.

- Dentro de mim há um vazio que sempre me acompanhou... Meus pais foram muito cuidadosos com a minha criação, porém sempre lhes faltou o básico: afeto. Eles estavam constantemente preocupados com seus próprios problemas para prestarem a devida atenção em mim ou em qualquer outra coisa que não dissesse respeito a eles mesmos.

O Kommandant se afasta da janela e caminha até o espelho de corpo inteiro, aonde apenas alguns minutos atrás, eu havia me assustado com o meu próprio reflexo repleto de rancor.

- Quando eu era criança, costumava pensar que talvez eu tivesse o dom da invisibilidade, porque por mais que eu me esforçasse eu nunca era notado. Cresci solitário, em meio aos livros da editora do meu pai e em meio a todo esse vazio de uma existência que desconhecia o afeto, a empatia, a ternura, esses sentimentos que fazem de nós o que somos, que edificam o nosso caráter.

Olho para ele, tentando acompanhar seu raciocínio.

- E, à medida que eu crescia, maior era a certeza da minha insignificância. Nada do que eu fizesse era bom o bastante para o meu pai, sempre pronto a me admoestar com sermões ou surras... E minha mãe era uma figura eclipsada, dada a bebedeiras e a se trancar no quarto. Vaguei muito fora de casa até passar em frente ao único lugar em que, mais tarde, eu me senti fazendo parte de algo: a modesta sede austríaca do partido Nacional Socialista, em Viena. Lá, aos 17 anos, eu fui acolhido pela organização paramilitar antissemita Heimwehr, braço austríaco dos Freikorps da Alemanha. Assim eu ganhei uma identidade, deixei de ser o filho de um livreiro qualquer de Viena e passei a ser notado, a ter o meu valor dentro do partido. Eu não era mais invisível! Quando me juntei às SS austríacas, no final dos anos 30, eu passei a ter um trabalho, fiz muitos amigos, e ganhei um motivo para lutar pela anexação da Áustria pela Alemanha: o pangermanismo. A ideologia do partido hoje não me serve mais, mas naqueles dias... Ah, naqueles dias, Helen, em que eu era jovem e altamente impressionável, fez todo o sentido para mim. O modo como fui acolhido pelos meus companheiros de militância fez com que eu sentisse a obrigação de retribuir o que eu vinha recebendo: o doutrinamento partidário, a camaradagem que só existe no exército e a sensação de pertencimento. Por isso, Helen, eu faria tudo, tudo o que estivesse a meu alcance para que os objetivos do partido fossem também os meus objetivos. A minha vida passou a ser pautada pelo Nazismo...

Eu continuo calada, porque o que Goeth está dizendo, ainda que soe horrível para mim, parece preencher as lacunas que eu não conseguia visualizar em minhas tentativas de calçar os seus sapatos. Deixei que ele continuasse, pois, estranhamente, o achei aberto para finalmente calçar os meus.

- Mas, mesmo com tudo o que o partido me proporcionou, uma posição na elite da SS, medalhas e condecorações por cumprir com eficiência o que eles esperavam de mim, o maldito vazio voltou a me assombrar. Depois que perdi o meu filho e o meu primeiro casamento ruiu, eu percebi que a pouca empatia que eu era capaz de sentir em relação aos outros havia desaparecido. Eu estava anestesiado para o mundo, pois nunca mais queria sentir aquela dor monstruosa que me paralisava e me assustava tanto... E, para esquecer todo o fracasso da minha vida até aquele momento eu cometi o mesmo erro e me casei pela segunda vez antes de embarcar para as minhas missões na Polônia. Eu fui pai novamente, eu amava os meus filhos, mas, sinceramente, algo muito maior em mim estava morto. Eu não me importava com nada e preenchia o meu vazio interior com tudo o que você me viu fazer em Plaszóvia: com torturas, mortes, farras com prostitutas e muitas bebedeiras. Meu comportamento era autodestrutivo por natureza. E, por mais que algumas coisas tenham te chocado ou te ofendido profundamente, Helen, eu me arrependo apenas de muito poucas delas. Somente as que dizem respeito a você.

Aturdida, cravo meus olhos nele, esperando que ele finalmente concluísse o que queria me dizer.

- Antes de te ter aqui eu poderia dizer que não faria nada diferente, se pudesse voltar no tempo. Mas depois que você voltou para a minha vida, eu digo que talvez eu fizesse sim, algumas coisas diferentes. Talvez eu não mostrasse a você uma natureza tão perversa, talvez eu tentasse mostrar a você um pouco do homem que se esconde atrás do monstro. Eu até tentei fazer isso aqui... Mas já era tarde, não?

Olho para ele sem saber o que dizer. Ele então, continua.

- O problema, Helen, é que eu não sei se existe algo bom em mim. Eu não sou um homem bom. Nunca fui... A maioria dos meus atos foram imorais, amorais ou insanos. E tudo por escolha própria. Por isso não acho que exista bondade em mim... Talvez muito pouco...

Ele se afasta do espelho e lentamente se aproxima de mim. Eu saio de onde estava e também me aproximo dele. Ficamos novamente frente a frente.

Ele pega a minha mão esquerda e continua a falar.

- Eu, que nunca fui um romântico, fui sozinho em Buenos Aires a um sarau de poesias de um poeta chileno, Pablo Neruda. Não sei o que me levou até lá, mas foi uma das experiências mais enriquecedoras que eu tive em toda a minha vida. Aquele poeta parecia entender perfeitamente bem o meu estado de espírito...

Ele suspende a minha mão e a encosta em seu peito. Sinto as batidas aceleradas do seu coração na palma da minha mão, ao mesmo tempo que percebo que o meu coração também parece estar acelerado. Nossos olhares se cruzam e ele continua.

- ... Lembro bem do final de um dos seus poemas, que dizia (imita um sotaque espanhol) "Me dê amor, sorria para mim e me ajude a ser bom. Não se machuque em mim, seria inútil, não machuque a mim porque machuca você". Mais do que apropriado a nós dois, não?

Goeth inclina seu rosto em direção à minha mão e a beija muito de leve. Seu beijo faz com que os pelos do meu braço se arrepiem. Ele percebe o meu estremecimento, mas opta por fingir que não notou. Sinto que ele está evitando me provocar.

Eu continuo olhando para ele, tentando digerir tudo o que disse. Seus olhos que vagavam pela minha mão se voltam para mim enquanto ele retoma sua postura ereta. Ao soltar a minha mão, noto que me encara tristemente.

- Mas, mesmo sendo o que eu sou, esse ser bestial aos seus olhos... De uma coisa eu tenho certeza: jamais diga novamente que o que eu sinto por você é uma "tara doentia". Mesmo que eu quisesse que fosse apenas isso, e, acredite, tive momentos em minha vida em que cheguei mesmo a pensar que fosse apenas a luxúria pelo proibido, a vida acabou me mostrando que era muito mais do que desejo...

Ele respira fundo, como se estivesse ganhando coragem para continuar.

- Helen, eu já te disse isso antes, mas não tenho nenhum problema em repetir outra vez. Farei isso quantas vezes for necessário para que você entenda de uma vez: o que eu sinto por você é a única coisa que me conecta à minha humanidade. É o que eu tenho de bom em mim! E por isso eu nunca superei você... Porque ninguém mais depois de você foi capaz de me fazer sentir tão humano.

Seus olhos ficam levemente úmidos. Seu ar genuinamente entristecido e fragilizado lhe dá um pouco de uma dignidade nunca antes percebida por mim. Percebo que ele se sente constrangido por novamente se apresentar tão aberto diante de mim, pois desvia seus olhos. Ele tenta disfarçar, olhando para o chão por um instante. Mas logo recupera o fôlego e mira seus olhos em direção aos meus para então continuar.

- E apesar desse sentimento ser incompreensível até mesmo para mim, pois ultrapassa todas as convicções que pautaram a minha vida, você... (respira fundo) Você, Helen representa o meu lado bom, a pessoa que talvez eu pudesse ter sido se eu não tivesse feito as escolhas que fiz...

Muito impressionada por suas palavras, eu tento dizer alguma coisa.

- Eu...

Ele então faz um gesto com a mão, como a dizer que eu não o interrompesse.

- Não, não se sinta obrigada a dizer nada... Até eu estou surpreso, pois não esperava que fôssemos conseguir conversar sem iniciarmos uma nova discussão.

- Eu não quero brigar – Digo com sinceridade.

- Nem eu...

Ele se afasta um pouco, voltando para perto de uma das janelas lacradas e muda de assunto.

Depois daquela noite eu...

Ele volta a olhar para mim e desiste de manter a distância. Ao vê-lo se aproximar outra vez, instintivamente eu me aproximo também. Estamos tão perto um do outro que sinto o cheiro suave de sua colônia pós-barba. Sua aparência atual, mais magro, extremamente polido e refinado nos gestos pouco lembra a do sanguinário e corpulento comandante de Plaszóvia. Mesmo estando mais velho, parece ter remoçado, pois não tem mais o aspecto inchado e doentio, resultado de tantas bebedeiras. Se eu não soubesse quem ele era, julgaria que se trata de um remanescente da aristocracia austríaca, belo, encantador, com dinheiro e educado. Olho para ele tentando desviar esse pensamento e focando em quem eu sei que ele é. Ele parece perceber o meu esforço e, mesmo estando tão perto, evita me olhar nos olhos e retoma o tom baixo e entrecortado da voz.

- Eu fantasiei muito em como seria se... vivêssemos em uma realidade paralela ou se eu... se eu tivesse seguido por outro caminho. Se a guerra não tivesse acontecido, se eu não tivesse me juntado ao partido, eu teria conhecido você?

Olho para ele, ainda muito impressionada por tudo o que disse. Ele continua, parecendo alheio à minha expressão facial.

- Será que um dia eu poderia ter ido a Cracóvia, quem sabe cuidando dos negócios editoriais da minha família, e tivesse cruzado com você em algum lugar da cidade? Quem sabe eu entrasse em alguma loja e esbarrasse em você... Será que teríamos nos olhado? Será que você teria olhado e sorrido para mim, como tentou fazer quando eu te escolhi para ser a minha empregada no campo?

Ele faz um gesto para que eu não o interrompa.

- Nessa realidade paralela, eu poderia ser feliz com você? Você poderia ser feliz comigo? Será... Será que poderia ter sido tudo diferente?

Eu sei que são perguntas retóricas, que nem eu e muito menos ele temos condições de responder, simplesmente porque não existe realidade paralela. A realidade, crua e dura é a que infelizmente pautou as nossas vidas. Ele, um nazista fiel a seus princípios e eu, uma judia fiel aos meus, ainda que eu vacile em minha fé... Duas existências completamente distintas que foram forçosamente aproximadas por uma maldita guerra!

O Kommandant parece perceber que eu estou ficando bastante confusa e muda abruptamente de assunto.

- Há ainda algumas coisas que você precisa saber.

- O que mais eu preciso saber? – Digo, tentando preparar o meu espírito.

- Que eu a perdi nas cartas para Schindler.

Pasma com o que eu acabo de ouvir, não consigo evitar dizer:

- Como?

- Schindler e eu jogamos uma partida de black jack valendo a sua ida para Brünnlitz ou a sua ida a Auschwitz.

Perplexa, continuo olhando para o rosto do Kommandant, agora mais do que nunca sem saber o que dizer.

- Eu a perdi de propósito. Eu negociei você com Schindler para que você pudesse viver!

Eu continuo sem acreditar no que estou ouvindo.

- Eu sabia que precisaria fugir porque provavelmente seria preso. Eu também sabia que, àquela altura, eu não tinha condições de saúde para tentar uma fuga levando uma prisioneira judia comigo. Eu estava tão doente que passei a temer por minha vida... E apesar de não entender bem a confusão de sentimentos que eu tinha em relação a você, já naquela época eu sabia que se havia alguma coisa que eu poderia fazer de bom em minha vida, seria garantir a sua. E então eu percebi que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que você fosse poupada.

- E então você...

Permiti que Schindler a levasse, pois eu sabia exatamente quais eram os planos dele. Ele achou que eu era algum tipo de idiota, por certo. Eu inclusive o incentivei a pensar assim, pois dessa forma consegui ainda mais dinheiro do que precisava e conservei as nossas vidas, que era o que eu mais queria. Eu já estava com o meu plano de fuga na cabeça. E precisava estar sozinho para poder realizá-lo. Indo embora com Schindler para a Tchecoeslováquia, eu teria a certeza que você sobreviveria à guerra. Você e sua irmã!

- Minha irmã?

Ao ouvi-lo falar em minha irmã sinto o sangue fugir do meu rosto.

- O que você está tentando me dizer? – Pergunto, extremamente perturbada pela inesperada revelação.

- No final da guerra, quando sabíamos que perderíamos, eu tive uma conversa com Stern, meu contador judeu, na qual ele casualmente me disse que você tinha uma irmã trabalhando no subcampo de Bosch.

- Itzhak Stern te contou? Pensei que ele havia contado a Schindler...

A memória do calado contador de Herr Direktor, com seus óculos redondos e ar intelectual veio à minha mente.

Por certo que ele havia comentado sobre isso com Schindler. Mas naquela época Oskar pouco podia fazer, pois sua irmã estava na fábrica de Bosch, fora do alcance dele. Por isso acredito que Stern também veio falar comigo, pois sabia que se Schindler não poderia entrar na fábrica de Bosch, por certo eu poderia. Só sei que assim que eu soube, tratei de encontrá-la. Coloquei meus mais fiéis oficiais no encalço da sua irmã. Eu precisava fazer isso. Por mim... Ou melhor, por você!

- Eu não consigo dizer absolutamente nada, estou estupefata demais para isso. Deixo que ele continue.

- Foi tudo muito rápido. Stern me contou de caso pensado, pois ele já sabia que Plaszóvia teria suas atividades encerradas em poucos dias, ele estava tentando livrar sua irmã de Auschwitz. Mas, me contou fingindo uma mera casualidade. Eu acho que ele tinha noção do impacto que isso provocaria em mim. Muita gente no campo já desconfiava que eu agia diferente quando se tratava de você.

Reúno forças e pergunto a ele.

- Não me diga que você...

Ao que ele me interrompe.

- Sua irmã me custou um quadro valiosíssimo. Eu a comprei de Bosch, usando um atravessador para que ele não soubesse que era eu por trás do negócio e fiz com que ele a entregasse a Schindler, sem nem ao menos tê-la visto. Confiei em sua palavra de que entregaria a sua jovem escrava Anna Hirsch, de 16 anos diretamente para Schindler. Por isso acredito sinceramente que Anna nunca me viu no campo, pois ficava muito reclusa, como todos que trabalhavam exaustivamente para Bosch... Enfim, nem mesmo Oskar ficou sabendo que eu havia comprado sua irmã. Anna lhe caiu no colo por um aparente acaso do destino e ele a acolheu. Conhecendo Oskar como eu conheci, acredito que não fez perguntas a Bosch quando ele ofereceu sua irmã provavelmente em troca de algo de menor valor, apenas para não despertar ainda mais suspeitas. E mesmo que as tivesse feito, Bosch não teria lhe dado muitas explicações, porque ele também não as tinha. Provavelmente Oskar deve ter agradecido à providência divina, eu não sei... E, sinceramente, não me interesso em saber. Reuni-la à sua irmã foi uma das poucas coisas boas que eu fiz em Plaszóvia. Ou em toda a minha vida, se preferir pensar nesses termos.

- Você...

- ...O mais interessante é que Bosch não queria vender ninguém. Mas eu sabia que o quadro o ajudaria a ter os fundos necessários para sair da Polônia e voltar para a Alemanha antes que os russos alcançassem a região de Plaszóvia. Por isso ele não fez perguntas ao meu atravessador. Ele tinha pressa em partir, assim como eu tinha pressa em que Anna fosse para a fábrica de Schindler.

- Você... Meu Deus... Você salvou a minha irmã! – Completo com dificuldade a frase interrompida por ele.

- De certo modo, sim.

- Eu não sei o que dizer...

- Não há o que dizer.

Agora eu consigo entender as palavras de Frau Müller, que momentos antes havia me dito que ele "havia feito mais por mim do que qualquer outra pessoa". Ouço-o continuar.

- Eu já te disse que antes de entender o que eu sentia por você, eu pensei as coisas mais absurdas. Eu confundia meu amor por você com feitiços, com ódio... Acho que esses dois sentimentos, apesar de conflitantes se parecem muito... O fato é que amar você não me tornou alguém melhor, não fez com que eu me redimisse de nada. Eu sei que eu sou o mesmo. E eu vou continuar o mesmo. Talvez, ao reuni-la à sua irmã, eu quisesse ser alguém melhor aos seus olhos.

Ele respira fundo.

- Mas, infelizmente é tarde para mim. Eu só posso ser o que eu sou, ainda que portando outro nome e usando apenas trajes civis.

Atônita, percebo que ele está querendo dar essa conversa por encerrada, mas eu quero continuar conversando com ele. O choque causado por essa revelação inesperada e a necessidade de mantê-lo no quarto me fez fazer uma pergunta que em outro momento eu não faria, porque antes eu queria saber o mínimo possível sobre ele.

- E depois disso tudo, quando você estava na Argentina chegou a pensar que um dia voltaria à Áustria?

- Sim, só não imaginei que levaria tanto tempo. Na Argentina eu estabeleci conexões com uma rede de proteção aos ex-membros do partido. – Ele me lança um olhar perverso. – E te digo, garota, não há serviço de caça aos nazistas eficiente o suficiente para nos pegar... Somos muitos, vivemos nas sombras, nos esgotos, em toda parte. Estamos vivos e ativos.

- Como pode dizer essas coisas? Como pode não ter medo de ser pego?

- Porque Amon Goeth pagou sua dívida com a sociedade. Eu fui julgado e condenado à forca, lembra-se? Já te disse isso antes, sou ficha arquivada. Estou morto! E ninguém procura por quem já morreu, certo?

- Não teme ser reconhecido? – Digo. – Eu o reconheci assim que o vi naquele maldito labirinto em Schönbrunn!

- Às vezes sim, mas muito pouco. O fato de ter sido condenado fez com que eu nunca fosse procurado, como outros colegas meus. Eu não fugi. Ao contrário de muitos, eu fui julgado e deixei de existir. Faço parte do passado. Amon Goeth está morto! Eu sou outra pessoa agora! É certo que me preocupei quando me revelei a você, apesar de sentir que algo me dizia que você não me denunciaria.

- Eu... E quando começou a me procurar?

- Assim que a minha nova identidade me permitiu. O momento em que mais arrisquei a minha vida foi ter voltado a Cracóvia, achando que talvez você tivesse ficado por lá. Jamais imaginei que você teria emigrado para os Estados Unidos, e, você pode até achar engraçado, mas nunca me passou pela cabeça que você pudesse ter se casado. Sei lá porque eu achei que isso nunca aconteceria.

- Você achou que ninguém seria capaz de me amar? – pergunto, irônica.

- Não, eu jamais diria isso... Em Plaszóvia, inclusive, eu tinha pavor que outro homem pudesse ver o que eu via em você. Se a vissem com os meus olhos, certamente estariam perdidos, como eu. Muitas vezes me peguei pensando em como era possível, com tantos homens dentro daquele campo, que nenhum deles tenha ficado perturbado simplesmente ao passar por você, ao se aproximar de você e sentir o seu cheiro, eu...

Ele se cala. Eu tento mudar o assunto.

- Eu recomecei a vida longe de toda aquela loucura que foi a Polônia durante a guerra. - É tudo o que consigo dizer a ele neste momento.

- Sim, depois que eu vasculhei toda a Polônia, imaginei que você poderia ter imigrado. Eu só não fazia ideia para onde...

Um silêncio pesado ameaça se impor entre nós outra vez. Constrangida, baixo meus olhos e tento encerrar a conversa com dignidade, pois estou extremamente tocada por ele ter feito o que fez para salvar a minha irmã.

- Eu queria poder dizer alguma coisa a você, mas o que me vem à cabeça é apenas "obrigada"!

Então Goeth me olha, parecendo surpreso.

- Não há o que agradecer.

Ficamos mais um tempo sem conseguir dizer nada um para o outro. Goeth se afasta, olha mais uma vez para sua imagem refletida no espelho. Eu o acompanho e, ao ver a minha imagem refletida logo atrás da sua, ele se vira abruptamente e caminha rápido em minha direção. Assustada, dou um passo para trás. Ele sente o meu medo e para antes que fiquemos perigosamente muito próximos.

Ouço sua voz dizer, em um tom suave com uma nota de súplica.

- Eu só queria que você conseguisse ver um pouco de humanidade em mim!

Perturbada, sinto como se não pudesse mover meus lábios. Goeth, no entanto, olha para mim, como se estivesse pedindo um pouco de piedade.

- Assuma que eu não estava sozinho aquela noite, Helen.

- Eu... Por favor, não vamos falar sobre isso...

- Por que não? Eu sei que você tentou me seduzir para escapar daqui. Mas eu não sou estúpido! E você também não é... Não minta para mim... Ou melhor, não minta para si mesma... Você sentiu o mesmo que eu e...

- Pare, por favor! Você está apenas supondo coisas...

- Não, eu não estou supondo nada! Eu sei! Você sabe!

- O que eu sei? Vamos, fale! O que eu sei, Herr Kommandant?!

- Amon, meu nome é Amon! Diga o meu nome, Helen! Ao menos uma vez!

O senhor sempre vai ser o comandante de Plaszóvia para mim!

- Ele eleva o tom de voz.

- Não! Chega! Você sabe que naquela noite bastou o primeiro beijo para enterrar todo um passado!

- Não! Não diga isso... – Olho para ele, irada. – O passado sempre esteve aqui! Tudo o que acontece aqui é reflexo do nosso passado...

Ele baixa o tom de voz e usa outra vez um tom suplicante.

- Pode haver um futuro, Helen!

- Não. Não pode!

- Eu sei que você não fingiu enquanto esteve em meus braços!

- Como pode ter tanta certeza? "Está na natureza dos judeus mentir". Não foi isso que você me disse tantas vezes quando queria encontrar uma desculpa para me machucar?

O Kommandant me olha pasmo, como se não conseguisse acreditar na força da minha resistência. Sua expressão muda rapidamente. Finalmente ele parece tão cansado disso quanto eu. Porém, ele baixa novamente o tom de voz para insistir mais uma vez.

- Você não mentiu...

- Quem pode garantir?

- Helen, não tenha medo, não se afunde outra vez em seu próprio rancor...

- O que quer dizer com isso?

- Você não quer admitir porque o seu rancor em relação a mim é ainda maior do que o seu orgulho em não querer admitir que sente algo por mim... Você passou a me ver de outra forma aqui!

- Não, não passei. Eu sinto ódio de você, apenas isso!

Ele ri, como se estivesse constatando que até nisso somos parecidos.

- Eu também levei muito tempo para admitir. Eu também confundi o que eu sentia com ódio... Eu sei o quanto é difícil, acredite em mim... Eu demorei muito a ultrapassar as minhas crenças e admitir a mim mesmo que era mais do que luxúria, mais do que a vontade de flertar com o proibido, mais do que estar enfeitiçado...

- Ele se aproxima novamente. Acuada, fecho os meus olhos, pois não quero olhar nos olhos dele e admitir algo que eu não posso reconhecer. Balbucio um quase inaudível

- Não...

Com os olhos fechados, sinto ele pegar nas minhas mãos. Sinto também sua respiração entrecortada e seu hálito quente na minha nuca. Seus lábios roçam em meu ouvido são e, com voz suave, ele diz.

- Eu te amo!

- Não...

- Eu te amo, Helen!

- N...N... Não...

- Eu te amo!

- Oh, Deus!

- Calce os meus sapatos, Helen. Por favor!

- Eu...

Abro meus olhos e sinto ele se afastar para poder me observar melhor. Vejo nos olhos dele o pedido desesperado por uma resposta. Mas eu sou incapaz de dizer o que ele quer ouvir. Eu jamais conseguiria. Ele então baixa os olhos, dá um suspiro profundo e diz

- Isso não terá fim, não é?!

Estranhamente, essa discordância parece ser o nosso único ponto de acordo. Goeth olha para mim com olhos suplicantes.

- Se a mim fosse dada a chance de começar tudo de novo, Helen, acho pouco provável que eu fosse fazer diferente... Por mais que eu muitas vezes até deseje isso...

Ele então solta as minhas mãos, se afasta e se encaminha para a porta, conformado. Ao tirar a chave do bolso da calça, Goeth me dá as costas e continua.

- Exceto que eu teria preferido não te ver naquela fila... Porque largar a vida que eu tinha e apagar o meu passado foi muito difícil... Mas certamente foi muito mais fácil do que será precisar esquecer você.

Perplexa e muito surpresa com tudo o que acabo de ouvir, pergunto.

- O... O que você quer dizer com isso?

Herr Kommandant abre a porta, sai e, sem olhar para trás, diz,

- Que você venceu! Amanhã você vai embora daqui.