Amigas para sempre
Talitha acordou aninhada aos braços fortes de Máscara da Morte. Soltou um doce suspiro e já estava fechando os olhos novamente quando lembrou que aquele era o dia em que partiria. O coração então ficou pesado e ela se encolheu ainda mais acordando assim o rapaz italiano.
- Hum? Talitha? Que horas horas são? – Carlo perguntou sonolento.
- Eu não sei. – a outra respondeu tristemente fato que não passou despercebido pelo cavaleiro de ouro.
- O quê foi? – ele perguntou.
Ela ficou alguns instantes em silêncio.
- É hoje. – respondeu por fim.
Máscara mirou o teto pensativo.
- Hum...
- Eu não queria ir – a jovem disse – Não agora que tudo estava se ajeitando...
- Não se preocupe. Shaka é um bom mestre e vai cuidar de você. Além disso, eu ouvi dizer que a Índia é um lugar lindo.
- Mas...
- A única coisa chata – o cavaleiro a cortou – É que eu terei que esperar dois anos para te ver novamente.
- Carlo...
- Tudo bem – ele disse abraçando-a fortemente – Enquanto você estiver na Índia, eu irei treinar para passar o tempo.
- Hum...
- O quê foi?
- Eu ficarei dois anos longe e o Afrodite estará aqui o tempo todo...
- E?
- Como "e"? E se você acabar na cama dele novamente?
O canceriano pensou um pouco. Depois começou a falar com uma voz marota:
- Duvido muito. Depois do que eu experimentei ontem não vou mais querer saber de ir para outra cama que não seja a sua.
A jovem corou.
- Seu pervertido!
X-X-X-X-X
Helena fechava a última mala quando Mú entrou no quarto.
- Está tudo pronto? – o cavaleiro perguntou.
- Sim. Acabei agora.
- Muito bem.
Ambos então se encararam por algum tempo até Helena corar e desviar o olhar. Fingindo não perceber a reação da pupila, Mú resolver puxar algum assunto.
- Você vai gostar do Tibet. É um lugar muito agradável para se treinar.
- Hum...
- É um tanto frio à noite, mas você é forte e tenho certeza de que isso não irá te incomodar.
A moça ficou calada.
- Algum problema? – o cavaleiro perguntou estranhando a atitude da discípula.
- É só que eu irei partir. Ficarei longe do santuário por dois longos anos. – Helena respondeu.
- Você vai sentir saudades de todos, não é?
- Sim. – a loira respondeu se encaminhando para a janela. Mú a seguiu.
- É. Eu também irei sentir falta do santuário. – ele disse.
- Mas eu irei ficar dois anos fora. É muito tempo.
- Concordo. Mas você verá que passará rápido. Logo, logo você estará de volta.
Os dois ficaram um tempo olhando a paisagem.
- Eu vou sentir falta do santuário. Das meninas...
O cavaleiro nada disse.
- Eu vou sentir falta até mesmo das brigas de Saga e Kanon, daquele jeito pervertido de Milo, do jeito irritantemente calmo de Shaka e Dohko...
Mú riu.
- No final... O santuário acabou se tornando o meu lar.
O ariano olhou com ternura para a jovem.
- Fico feliz em ouvir isso. – ele disse.
- Todos aqui acabaram se tornando a minha família. No início em evitava ao máximo contato com todos principalmente com os homens. Achava que todos eram como o meu pai: covardes e violentos. Eu lhe disse que meu pai chegava a casa e batia em mim e na minha mãe?
Mú ficou espantado com a declaração da jovem. Mais espantado ainda por ela comentar aquilo de forma tão simples. Notou então como Helena mudara desde o início do treinamento. Antes ela teria falado aquilo com ódio e rancor. Agora, falava como se fosse apenas uma das tantas lembranças que tinha.
- Não, você nunca havia me dito isso.
- Pois é. Ele batia em mim e na minha mãe. Então eu prometi a mim mesma que isso jamais aconteceria novamente. Eu não deixaria nenhum homem me bater novamente.
- Entendo. Era por isso que você era tão violenta comigo nos treinos.
- Sim.
- E foi por isso que você aceitou se tornar uma amazona?
- Foi.
Mú ficou pensativo.
- Agora as coisas começam a fazer sentido. – ele disse. Helena riu.
- Tudo na vida tem uma explicação.
- Pois é.
O silêncio então pairou sobre eles mais uma vez. Ambos continuavam olhando a paisagem pela janela.
- Mestre Mú...
- Sim?
- Eu quero lhe fazer um pedido.
- Pois não?
- Eu queria que você me aplicasse um intenso treinamento.
O cavaleiro então se virou para encarar a pupila.
- Para que?
- Eu quero ficar forte. Muito forte. Não só para ninguém mais bater em mim. Eu também quero proteger as meninas.
O ariano arregalou os olhos.
- As minhas amigas – Helena continuou – São a coisa mais importante para mim. Eu quero ser forte o suficiente para protegê-las. Não quero mais ver Talitha se machucar. Nem ela e nem nenhuma das outras.
Mú olhou com ternura para a jovem. Definitivamente Helena mudara. Não havia mais quase nenhum traço da antiga Helena na de agora.
- É um pedido muito nobre. – ele falou.
- E então?
O cavaleiro de ouro suspirou e depois mirou a aluna. Os olhos brilhavam.
- Muito bem. Eu irei lhe aplicar um treinamento que irá te deixar mais forte do que qualquer um. Mas já vou avisando: não vou ser paciente como fui até hoje.
A garota sorriu.
- Combinado! – ela exclamou animadamente.
X-X-X-X-X
- Então Júlia. Nesse tempo em que estiver fora eu quero que você treine assiduamente, ouviu bem?
- Ouvi, Aioria. Zeus! Você é tão chato!
O leonino fez uma careta.
- Mulher minha não pode ser fraquinha não.
- Alto lá! Não vem falando como se eu fosse propriedade sua! Pode tirar o leãozinho da chuva!
- Eu quero você bem forte. Como eu irei ter filhos poderosos se a mãe deles for fraquinha?
Apesar de ter ficado sem-graça com o cavaleiro falando sobre ela ser a mãe de seus filhos, Júlia começou a gritar com o namorado.
- Pare de falar como se você fosse meu dono! Olha que eu te largo e nunca mais volto para o santuário hein!
Foi a vez de Aioria começar a gritar.
- Duvido muito! Você me ama demais para me largar e se você fizer isso tem um monte de mulher aqui me dando mole! A Marin é uma que apesar de ser minha amiga se eu quisesse já teria levado pra cama há muito tempo!
Aquela havia sido a gota d'água.
- Ah! É assim Aioria de Leão?!
- Não! Espera! Eu não quis dizer isso! – o cavaleiro tentava consertar a besteira que tinha acabado de fazer.
- Foi exatamente isso que você quis dizer! – a leonina gritava para todo o santuário ouvir – Já que é assim vai lá levar a galinha pra cama que eu não tô nem aí! Nem vou mais voltar quando acabar o treinamento! Quem sabe eu não fique com o Kanon? Quem sabe a gente não tem um caso e acabe não voltando para o santuário? Afinal vamos estar sozinhos durante um ano inteiro...
Aioria então ficou vermelho e começou a gritar mais alto que a namorada.
- Ah é? Pois se isso acontecer eu vou atrás de você! Te trago de volta nem que tenha que te arrastar pelos cabelos! Jamais deixarei você com aquele projeto de coisa ruim!
- Olha como você fala do meu mestre!
- Eu falo do jeito que eu quiser e você é minha, Júlia! Minha! Ai do Kanon se ele encostar um dedo sujo dele em você durante esse treinamento. Ai dele!
- Já falei que não sou sua propriedade!
- Mas é a minha mulher! Minha esposa e não vou deixar ninguém te tirar de mim! – o cavaleiro gritou tão alto que ficou sem fôlego. A mulher olhou espantada para o namorado. Não acreditava no que tinha acabado de ouvir.
- Aioria...
- O quê foi? – o leonino perguntou arfando.
Júlia olhou emocionada para o namorado. Se jogou no pescoço dele e lhe deu um beijo digno de cena de filme deixando o cavaleiro ainda mais sem fôlego.
X-X-X-X-X
Clara não acreditava que iria fazer aquilo. Pensou em dar meia volta, mas já que havia chegado até ali, era sua obrigação continuar. Inspirou profundamente e deu duas batidas na porta de madeira. Esperou pouco tempo até abrirem.
- Você? – Shina perguntou espantada.
- Oi. Será que eu posso entrar? Queria conversar um pouco...
Ainda desconfiada, a amazona de cobra abriu passagem para a aluna de Dohko entrar. Indicou uma cadeira, mas a garota se recusou a sentar.
- Vai ser rápido – Clara falou – Eu não tenho muito tempo. Estarei partindo em breve.
- Sim. Ouvi dizer que você e as outras aprendizes ficarão um bom tempo longe treinando. – Shina comentou.
Um silêncio incômodo baixou sobre as duas.
- E Então? – Shina perguntou quebrando o silêncio – Por que veio até aqui?
Clara hesitou um pouco antes de responder.
- Diga. – falou Shina.
- Eu... Eu queria te fazer um pedido...
A amazona de cobra estranhou.
- Um pedido? Que tipo de pedido?
Mais uma hesitação de Clara.
- Eu queria que você cuidasse do Shura. – a aluna de Dohko falou ruborizada.
Shina se espantou.
- Eu sei que você e ele estão juntos – Clara continuou dizendo – E eu gosto muito dele. Sempre gostei. Desde que cheguei ao santuário. Eu sempre o via treinar de longe. Nunca tinha coragem de chegar perto dele para conversar.
Shina ouvia a tudo calada.
- Eu sempre o achava incrível. Principalmente quando usava a "excalibur". Sempre ficava admirando-o de longe. Nunca tive coragem de chegar perto dele. Sempre achei que ele era demais para mim. E estava certa.
A mulher de cabelos verdes sensibilizou-se.
- Quando eu descobri que vocês estavam juntos e devo dizer que descobri isso da maneira mais vergonhosa possível eu fiquei muito mal. Queria morrer. Eu gostava tanto do Shura...
- Clara...
- O Shura tentava conversar comigo, mas eu sempre me afastava. Era humilhação demais. Mesmo porque não havia necessidade de se explicar nada. Estava claro como o dia.
Shina sentia pena daquela menina. Clara devia amar Shura quase tanto quanto ela.
- Agora estou partindo e eu e ele ainda não conversamos. E eu não quero isso. Deixar as coisas como estão é a melhor solução. Entretanto...
Shina então viu uma lágrima escorrer pela face de Clara.
- Entretanto, mesmo sabendo que ele está com você e que eu jamais poderei tê-lo, eu não consigo deixar de amá-lo. Não consigo...
Agora várias lágrimas escorriam pelo belo rosto da jovem.
- Por que está me contando tudo isso, Clara?
- Porque você é a namorada do Shura e merece saber a verdade. Merece saber que um dia, uma outra mulher o amou tanto quanto você.
Shina ficou desconcertada.
- Por amá-lo tanto que eu quero que ele seja feliz. E a única pessoa que pode fazê-lo feliz é você, Shina. Não sou eu nem mais ninguém.
A amazona de cobra estava extremamente sensibilizada.
- Eu a invejo. Queria muito estar no seu lugar. - Clara falou
Shina ficou desconcertada.
- Este é o meu pedido antes de ir embora: por favor, cuide do Shura e o faça muito feliz.
A mulher de cobra olhou profundamente para a garota a sua frente.
- Eu cuidarei. Por você eu cuidarei.
- Obrigada...
- Um dia, Clara você encontrará um homem que seja digno de todo esse seu amor. Um homem que cuidará de você e a fará a mulher mais feliz do mundo.
Clara sorriu.
- Eu estarei torcendo por você, Clara.
- Obrigada, Shina. Eu estarei torcendo por você e pelo Shura. Sejam muito felizes.
X-X-X-X-X
Aaminah olhava intensamente para o pedaço de papel. Fazer ou não fazer? Valeria a pena? Lembrou-se do conselho que recebera de Saga:
"É melhor você resolver tudo o que tiver para resolver antes de partir. Demorará bastante tempo até que você retorne para o santuário."
A jovem então suspirou e optou por fazer. Não tinha nada a perder mesmo. Sabia que jamais receberia alguma resposta, mas não se importava. Na verdade, ela não queria nenhuma resposta. Só queria que ele soubesse. Só isso. Com uma caneta preta rabiscou algumas palavras no papel branco e o dobrou.
X-X-X-X-X
Kamus havia acabado de chegar ao seu templo. Estava cansado e estranhamente triste. Já fazia um bom tempo desde a última vez que se sentira assim. Quando fora mesmo? Na última briga com Aaminah? Na briga em que eles se separaram?
O cavaleiro então se dirigiu para o banheiro e tomou um longo banho. Ela iria embora. Iria embora e não havia nada que ele pudesse fazer. Sentiu o coração pesar.
Com uma toalha branca amarrada na cintura, o rapaz se dirigiu para o quarto molhando o corredor atrás de si. Pegou umas mudas de roupa no armário e já ia colocá-las quando reparou em um pedaço de papel em cima da cama. Estranhando, foi até lá e pegou o bilhete. Abriu-o com cautela e pôde distinguir a letra caprichada da ex-pupila. Arregalou os olhos ao ler a mensagem. No papel, havia apenas uma frase. Uma única frase que fez o coração do jovem cavaleiro acelerar.
"Eu ainda te amo..."
X-X-X-X-X
Debaixo de uma árvore, perto da arena, seis silhuetas podiam ser vistas. O vento fresco soprava tentando varrer o sentimento ruim das meninas, mas não conseguia. Nos olhos de cada uma podia-se ver dor e tristeza. Ninguém falava nada, mas cada uma sabia o que a outra estava sentindo.
- É estranho, né? – Talitha quebrou o silêncio – Quem diria que um dia nos separaríamos?
- Pois é. E eu que achava que iria ver você se machucar até o fim do treinamento. – Helena comentou de forma triste.
- E eu achava que continuaria vendo você ficar forte, Helena. – Clara comentou também triste.
Helena riu. Um riso triste.
- No final – Júlia dizia pensativa – Nós não vamos ver umas as outras se tornarem amazonas.
Silêncio.
- Atena... que idéia foi essa de nos separar? – Clara perguntou mirando o chão.
Silêncio.
- Eu tenho uma coisa para dar para vocês. – Amanda falou.
- O quê? – Aaminah perguntou.
A aluna de Aioros então puxou uma bolsinha que estava amarrada na cintura.
- O que é isso? – Talitha perguntou curiosa.
- É um presente. – Amanda respondeu docemente. Abriu a bolsinha e de lá puxou seis pulseirinhas.
- Foi você que fez? – Júlia perguntou admirada.
- Foi. Essas pulseiras são um presente para vocês, minhas amigas. Para que uma nunca se esqueça da outra.
As outras meninas ficaram comovidas. Amanda separou as pulseiras e amarrou no pulso de cada uma. Escrito em cada pulseira, podia-se ler a frase: "Amigas para sempre".
- Amanda... Que coisa mais brega... – Helena comentou olhando para a frase. Tinha lágrimas nos olhos. As outras riram. Também tinham lágrimas nos olhos.
- Como você é insensível, Helena. – Aaminah comentou. Não tinha raiva na voz.
- Não sou – a aluna de áries falou baixo – Mas vocês sabem como eu sou. Posso acabar perdendo a pulseira. – e tirou um pequeno estilete do bolso.
- O que vai fazer com isso? – Talitha perguntou.
- Se um dia eu perder a pulseira – Helena falou se aproximando da árvore – Eu quero poder olhar para essa árvore e ler a mesma frase que estava na pulseira – e dizendo isso começou a talhar na madeira. As meninas se aproximaram e ficaram olhando. Depois, Helena passou a estilete para Aaminah que escreveu o nome. Em seguida a marroquina passou para Clara e assim sucessivamente. No final, a árvore estava com o seguinte dizer:
"Helena
Aaminah
Clara
Talitha
Amanda
Júlia
Amigas para sempre"
X-X-X-X-X
Amanda estava parada na saída do santuário e tinha Aioros ao seu lado. A jovem via dez silhuetas se afastarem com o pôr-do-sol.
- Você vai ficar bem? – o rapaz perguntou.
- Vou. – a moça respondeu. – São apenas dois anos.
- Dois anos é muita coisa...
- Pode ser. Mas não para amigos de verdade. Para amigos de verdade, não importa quanto tempo passe, não importa o que aconteça. Amigos de verdade serão sempre amigos.
Aioros sorriu. Olhou de soslaio a pupila e viu que apesar da voz calma, ela chorava.
- Você quer dizer alguma coisa? – ele perguntou.
- O que eu posso dizer? Bem, eu amo as minhas irmãs. Apenas isso...
O cavaleiro ficou comovido.
- As suas irmãs irão voltar. – ele falou.
- Eu sei. E eu estarei aqui esperando por elas. Pelas minhas amigas, minhas irmãs, minhas Amazonas de Diamante...
FIM
N.A: Pois é. Acabou. Espero sinceramente que todos vocês tenham gostado da história. Talvez achem que eu acabei de forma meio abrupta, mas eu tenho meus motivos. Já estou planejando fazer uma continuação e todos aqueles que quiserem dar sugestões sintam-se livres para fazê-lo.
Agradeço a todos que acompanharam a fic e também agradeço a Maria Luiza Afonso, Nina R, Pegasus Saint, Danda, Juh-chan, Flor de Gelo, Polly, Sakura Spinelly, Selene Tatsu, Haru-chan17, Kaliope Black, Chidory Maxwell, Sakamoto e Motoko, Morgane Le Fay, Royal One, Maia Sorovar, Uriel Ren Megami por deixarem reviews.
Por fim, eu dedico esta fic a todas as Aaminah, Talitha, Júlia, Helena, Amanda e Clara. A todas as guerreiras fortes, frágeis, confusas, decididas, debochadas, choronas, encrenqueiras, tímidas, meigas, irritadiças, animadas, comilonas, bondosas, independentes, dependentes, violentas, traumatizadas, apaixonadas... A todas essas mulheres que lutam todos os dias e fazem desse mundo um lugar melhor para se viver.
Obrigada
