Capítulo XXV – Perseguição

Narrado por Brian

Eu não sabia como ainda não tinha batido com o carro. O velocímetro marcava 160km/h e o meu pé se recusava a diminuir a pressão sobre o acelerador. Eu sabia que estava agindo de forma impulsiva e que aquilo poderia acabar muito mal, mas a lembrança de todos os momentos angustiantes que passei ao lado dela assistindo impotente enquanto ela gritava durante os pesadelos sem que eu pudesse tirá-la de lá não me deixava desistir. As sirenes dos vários carros da polícia atrás de mim faziam um barulho ensurdecedor. Pelo espelho retrovisor, eu podia ver os faróis piscando freneticamente em uma ordem clara para que eu parasse. Mas o ódio que eu sentia não me permitia obedecer. Eu não podia perder de vista o carro que disparava pelas estradas bem à minha frente. Eu iria atrás dele até o inferno, mas ele nunca mais chegaria perto dela novamente. Eu não conseguia acreditar na audácia daquele cretino. A imagem do rosto aterrorizado de Mel ao vê-lo parado diante da sua casa quando chegamos me servia de combustível para continuar perseguindo aquele animal. Eu tinha certeza de que jamais me esqueceria daquela cena.

Mel e eu tínhamos passado a manhã de domingo com Seth e Sofia no Parque Yost. Tínhamos feito um piquenique e Seth levara um violão. A rara manhã ensolarada tinha sido agradável e descontraída e tanto Sofia quanto Mel pareciam relaxadas. Havíamos conversado sobre a gravidez de Sofia, relembrado nossas travessuras de criança, tínhamos rido das coisas engraçadas que fazíamos, como quando Sofia e Mel tinham pintado a cara do tio Emmett com o batom vermelho da tia Rose enquanto ele dormia na rede da casa de praia em uma de nossas viagens de férias.

Voltávamos para casa em um clima gostoso. Ao meu lado, Mel mantinha um lindo sorriso nos lábios, seus olhos tinham recuperado o brilho que eu tanto amava e, embora os pesadelos ainda a atormentassem à noite, ela estava se recuperando a olhos vistos. Porém, ao estacionar o carro na porta de casa, tudo mudou em poucos segundos. Eu havia descido do carro e aberto a porta para que ela saísse. Seu sorriso brilhante enchia o meu coração de esperança. Desde o dia em que ela me pedira para irmos ao shopping, ela vinha apresentando uma melhora assustadora em seu estado psicológico. Mas tudo pareceu se perder assim que o seu olhar se fixou do outro lado da rua, atrás de mim. Eu vi, com riqueza de detalhes, as feições em seu rosto mudarem da serenidade ao desespero em uma fração de segundo. Seu sorriso se apagou instantaneamente, seus olhos se encheram de lágrimas com uma rapidez jamais vista e eu pude sentir as suas mãos trêmulas umedecidas com um suor frio apertarem ansiosas as minhas.

Meu olhar seguiu o seu e eu custei a acreditar no que meus olhos me mostravam. A minha vontade era correr até ele e socá-lo até a inconsciência, mas o corpo trêmulo de Mel, então agarrado ao meu, me implorava para não deixá-la. Seth, que havia estacionado o carro logo atrás do meu, já saía disparado na direção de Mark, a expressão furiosa em seu rosto deixava clara a sua intenção. Olhei para o interior do carro, me deparando com o rosto assustado e confuso de minha irmã que não sabia o que estava acontecendo ali perto. Corri em sua direção levando Mel comigo e abri a porta do carro para tirá-la de lá.

_ Mel, leve a Sofia para dentro de casa e fique lá com ela, está bem? – pedi ansioso para me juntar a Seth.

Ela não disse uma palavra sequer. Na verdade, não era preciso. A expressão em seu rosto me dizia o quanto ela estava assustada com aquilo tudo. Mel guiou Sofia para dentro de casa enquanto eu corria na direção de Mark que havia conseguido se desvencilhar de Seth e corria de volta para o seu carro. Eu não podia perdê-lo de vista. Iria colocá-lo na cadeia a qualquer custo, aquela expressão de puro terror nunca mais tomaria conta do rosto da minha menina. Corri de volta para o meu carro enquanto ouvia os pneus do carro de Mark cantando no asfalto, saindo em alta velocidade dali. Ainda pude ouvir os gritos desesperados de Mel que saía correndo de casa tentando me impedir, mas pude ver quando Seth a segurou antes que ela chegasse a mim. O olhar em seu rosto e o leve aceno de cabeça me deram a segurança de partir. Eu sabia que ele cuidaria da minha irmã e de Mel enquanto eu estivesse longe. Elas estavam a salvo, seguras dentro de casa, e isso era tudo o que me importava.

O toque estridente do meu celular me tirou dos meus pensamentos. Não precisei olhar no visor para saber quem era. Desde o momento em que eu arrancara a toda velocidade da porta de casa, Mel não parava de ligar para o meu celular. Eu tinha certeza de que ela estaria apavorada, com pânico de que algo acontecesse comigo, mas eu sabia que, se ouvisse a sua voz chorosa ao telefone me pedindo para voltar, eu não conseguiria prosseguir. Deixei mais uma vez que a ligação caísse na caixa de mensagens e me concentrei no carro à minha frente. Eu não fazia ideia de quanto tempo havia se passado desde que aquela perseguição começara: segundos ... minutos ... horas talvez. A única certeza que eu tinha era a de que aquele cretino iria pagar por tudo o que tinha feito, por cada lágrima derramada, por cada segundo de angústia que todos nós vínhamos enfrentando desde aquele maldito dia.

Dirigíamos como loucos pela estrada cheia de carros. Os motoristas abriam caminho assustados com o ruído das sirenes dos carros da polícia. Mark passava rasgando o ar por entre os carros, sem se preocupar se causaria um acidente que poderia tirar muitas vidas, inclusive a dele. Tínhamos deixado os limites de Edmonds havia algum tempo e seguíamos na autoestrada em direção ao norte. Meu celular tocava insistentemente de tempos em tempos, mas eu não podia atender ... não na velocidade em que dirigia. Qualquer descuido poderia acabar em uma enorme tragédia. À minha frente, o carro de Mark ganhava cada vez mais velocidade, me obrigando a pisar cada vez mais fundo no acelerador. Uma velha caminhonete que se arrastava pela estrada foi jogada para fora da pista quando o carro de Mark bateu em sua lateral na tentativa de abrir caminho. Por um breve momento, eu achei que ele também perderia o controle do volante, mas ele conseguiu retomar a linha reta na estrada imprimindo ainda mais velocidade ao carro. O motor do meu carro rugia alto com o esforço extra exigido pelo excesso de velocidade. Eu sabia que estaria encrencado quando tudo aquilo acabasse, mas, desde que Mel pudesse ter paz e tranquilidade, nada mais importava.

Muitos quilômetros mais tarde, eu percebi os carros da polícia ficando para trás. Só então entendi o que estava acontecendo. Estávamos perto da fronteira entre os países e entraríamos em outra jurisdição. O tempo estava acabando. Se Mark conseguisse ultrapassar a fronteira, suas chances de escapar ficariam ainda maiores. Uma curva fechada era tudo o que nos separava do Canadá. Mark entrou na curva sem reduzir a marcha. Instintivamente, aliviei o pé no acelerador, mas não o suficiente para que ele tomasse a dianteira. Os carros da polícia já não corriam atrás de nós, apenas um helicóptero nos acompanhava, o ruído do seu motor se misturando ao toque do meu celular que chamava novamente. Tudo aconteceu muito rápido. Uma enorme barreira de carros fechava a estrada pouco depois da saída da curva. Eu vi, horrorizado, o carro de Mark se chocar contra os veículos atravessados na estrada. A violência do choque arrancou o carro do chão, fazendo-o voar vários metros adiante para bater novamente no asfalto capotando diversas vezes até parar com as rodas para cima perto de um penhasco. Eu tinha poucos milésimos de segundos para frear, antes que o meu carro tivesse o mesmo destino. Afundei o pé no freio e as rodas travadas fizeram com que os pneus se arrastassem pelo asfalto, deixando no ar um forte cheiro de borracha queimada. Vi, tarde demais, que o carro perdia velocidade, mas não seria o suficiente para evitar que eu me chocasse contra a barreira de carros no meio da estrada. Só tive tempo de virar o volante jogando a lateral direita do carro na direção da barreira e de firmar o meu corpo contra o encosto do banco travando firmemente minhas pernas e braços na parte dianteira do carro. A pancada veio com força, ativando todos os airbags do carro ... chacoalhando o meu corpo de forma dolorosa ... me levando para a inconsciência.

Narrado por Mel

Meu corpo todo havia sido tomado pelo mais completo desespero. O medo que senti ao vê-lo novamente não era nada comparado ao pânico que eu sentia agora. O que Brian estava tentando fazer afinal? Se matar? Meu coração saltou como louco em meu peito quando o vi entrando em seu carro para perseguir o carro de Mark que já disparava pela rua da minha casa. Corri aos gritos em sua direção, mas Seth me agarrou, me impedindo de alcançá-lo. Eu gritava, esperneava e chorava desesperada tentando me livrar do aperto de aço de Seth, mas quanto mais força eu fazia, mais ele me apertava.

O carro de Brian sumia das minhas vistas com a velocidade de um raio enquanto Seth me arrastava para dentro de casa. Na sala, Sofia tremia abraçada ao tio Edward que tentava acalmá-la, preocupado com o bebê. Tia Bella vinha apressada da cozinha trazendo um copo de água com açúcar para que ela bebesse, mas ficou ainda mais preocupada quando me viu naquele estado.

_ Mas o que está acontecendo aqui, afinal? – ela perguntou confusa.

Eu não conseguia responder. Minha mente repassava a cena de Brian arrancando com o carro a toda velocidade atrás de Mark. Meu medo de que algo de ruim acontecesse com ele me drenava as forças.

_ Mark estava aqui em frente quando chegamos. Ele conseguiu fugir e Brian foi atrás dele de carro! – Seth explicou deixando-me sentada no sofá e tomando Sofia nos braços.

Eu ligava insistentemente para o celular de Brian, mas o telefone chamava até cair na caixa de mensagens. Eu já nem conseguia mais pensar direito e a cada vez que eu tentava e não conseguia falar com ele, minha angústia e meu desespero aumentavam ainda mais. Por que será que ele não respondia? Tudo o que eu queria era que ele voltasse para mim são e a salvo. Deus do céu! O simples pensamento sobre a possibilidade de um acidente me fazia querer gritar. Ele não podia fazer aquilo comigo ... eu precisava dele para viver ... ele tinha que voltar para mim!

Seth e tia Bella haviam subido levando Sofia para o quarto. Eu ainda tentava falar com Brian enquanto tio Edward falava ao telefone com a polícia. Eles precisavam fazer alguma coisa, sei lá, ir atrás deles, prenderem Mark e trazerem Brian de volta para casa. O maldito celular só caía na caixa de mensagens. Eu andava de um lado para o outro na sala discando incessantemente o número de Brian. Parecia um animal enjaulado. Eu não era sequer capaz de respirar direito. A sala me parecia absurdamente abafada, sem oxigênio suficiente para encher os meus pulmões. Abri a porta da frente arfando em busca de ar. Meu corpo já perdia as forças curvando-se para frente, minhas mãos mal conseguiam segurar o celular que rediscava centenas de vezes o número de Brian sem que ele respondesse nem mesmo uma vez. Pânico ... dor ... absoluto desespero. Minhas pernas fraquejaram e meu corpo foi envolvido pelos braços fortes do tio Edward antes que eu atingisse o chão.

As lágrimas que eu tanto tentara reter finalmente desceram com força, aliviando um pouco a pressão que eu sentia no peito . Tio Edward me abraçava com força, me ninando como se eu fosse uma criança em seu colo. Mesmo que ele tentasse me passar segurança e tranquilidade eu percebia que ele também tremia. Era o seu filho lá fora, perseguindo um maluco pelas ruas em alta velocidade. Nenhum pai ficaria tranquilo diante de uma situação daquelas.

_ Edward? – a voz assustada do meu pai entrou pela porta da sala – Filha, o que foi que aconteceu? – ele correu até nós a praticamente me arrancou dos braços de tio Edward.

_ Brian ... Mark ... o carro ... – foram as únicas palavras que consegui dizer em meio a tantos soluços enquanto me agarrava ao corpo do meu pai em busca de apoio.

_ O que? O que está acontecendo? Por que você está assim, Mel? – ele perguntou ainda confuso.

_ Brian saiu feito um louco de carro atrás do Mark, Emmett. – tio Edward respondeu com a voz sufocada – Deus do céu! O que esse menino tem na cabeça? Sair pelas ruas em alta velocidade perseguindo um criminoso desse jeito?

Aquelas palavras só me fizeram tremer ainda mais. Meu pai me apertava em seus braços, acariciando minhas costas tentando me acalmar enquanto meus soluços sacudiam todo o meu corpo violentamente. Voltei a discar o número de Brian. Nada. Somente a maldita caixa de mensagens. Estava prestes a tentar mais uma vez quando Gabriel desceu as escadas correndo e ligou a televisão.

_ Vocês precisam ver isso! – ele disse com os olhos arregalados.

Gabriel ligou o aparelho e a imagem de dois carros correndo por uma estrada logo se materializou na nossa frente. Vários carros da polícia os seguiam e a velocidade altíssima que eles imprimiam aos veículos para acompanhar os outros dois era evidente. O repórter narrava a perseguição com a voz alarmada. "aproximadamente1horaemeia,apolíciavemperseguindodoiscarrospelasestradasdoestadodeWashington.NossasfontesinformaramqueaperseguiçãoteveinícionacidadedeEdmonds,masaindanãotemosnotíciadoqueteriadesencadeadoessacorridadesenfreadapelasestradasdoestado.Ajulgarpeladireçãoqueoscarrosestãotomando,tudoindicaqueelestentarãoultrapassarafronteiradoCanadá..."

O repórter continuava a narrar aquela loucura enquanto eu reconhecia horrorizada o carro de Brian rasgando a pista logo atrás de outro que, certamente, era o de Mark. Uma velha caminhonete tinha sido jogada para fora da estrada pelo carro de Mark e os carros seguiam cada vez mais velozes para o norte. De repente, percebi confusa que os carros da polícia começaram a ficar para trás. O que eles estavam fazendo? Estavam desistindo? Mas antes que as minhas perguntas encontrassem uma resposta, a imagem na televisão se transformou no prelúdio de uma enorme tragédia. O carro de Mark saía disparado de uma curva fechada e se chocava contra uma imensa barreira de carros atravessada na pista, voando por sobre os veículos e capotando diversas vezes antes de parar de cabeça para baixo. Meu corpo todo reagiu com uma intensa sensação de dor. Meus músculos travaram, enrijecidos como um bloco de concreto enquanto eu assistia, atormentada, o carro de Brian deslizar no asfalto deixando-lhe uma enorme marca negra para, em seguida, se chocar violentamente contra os carros da polícia que interrompiam a pista.

_ NÃO! – reuni todas as minhas forças em um grito que saiu rasgando o meu peito e a minha garganta.

Meus olhos procuravam algum sinal de que Brian estivesse bem. Eu esperava que ele saísse do carro a qualquer momento, mas os minutos se passavam e a porta do carro não se abria. Aos poucos, fui tendo a consciência de que ele não estava bem, que algo de muito ruim havia acontecido com ele. Meu corpo, de repente, ficou mole. O celular caiu da minha mão, eu não sentia mais o meu corpo. Respirar tinha se tornado um trabalho hercúleo. Piscar os olhos demandava um esforço enorme e tudo o que eu pensava era em uma forma de não sentir aquela angústia ... aquela dor ... aquele inferno. Naquele momento, tudo perdeu o sentido para mim. Eu não via mais significado na vida, sentia-me incapaz de diferenciar cores, perfumes. Eu não conseguia mais pensar. Eu tinha deixado de existir. Eu não queria mais existir sem ele. O melhor que eu tinha a fazer era me entregar de vez, desistir de tudo, morrer. Talvez, assim, a dor passasse mais rapidamente.