Capítulo Vigésimo Quinto.
Catelyn estava sentada na biblioteca do palácio na manhã seguinte à chegada da comitiva de Loras Tyrell. Ainda não conhecera a esposa de Stannis, mas foi informada de que elas deveriam se reunir antes do almoço. Hoster estava adormecido numa cesta a seu lado e Tywin havia saído bastante cedo àquela manhã, ela não tinha exatamente certeza de onde ele estava. Desde o inicio do dia anterior, ambos estiveram extremamente atarefados.
-Lady Selyse Baratheon e sua filha, Sua Graça. – uma moça anunciou, após bater na porta da biblioteca e interromper os pensamentos da rainha. Escancarou a porta, admitindo a entrada da mulher.
A primeira impressão que Cat teve foi que a esposa de Stannis parecia ter sido afogada e ressuscitada. Os olhos eram fundos e sua pele era macilenta e pálida. O nariz era um pouco avantajado e ela era magra como alguém que viveu cem dias de fome. A menina, Shireen, tinha metade do rosto recoberto por escamagris, o que plantou um medo genuíno em Catelyn, devido à presença de Hoster no mesmo ambiente. Mas tirando isso, a menina era bem bonita.
-Um bebê! –ela exclamou, aproximando-se com passos rápidos, excitada por estar na presença de uma criança.
-Shireen, não se aproxime muito. –a mãe advertiu, e a menina se deteve.
-Mas eu ia apenas...
-Não, Shireen.
Catelyn sentiu-se incomodada pela situação desconfortável criada tão instantaneamente naquele ambiente. Era certo que preferia não ter a menina e Hoster muito próximos, mas não podia deixar de sentir-se mal quando viu as feições leves e agradáveis da menina se tornaram sombrias e tristes. Certamente era renegada em todos os lugares em que chegava. Catelyn indicou o sofá para que as duas sentassem. Puxou uma cadeira para si e tentou ser agradável.
-Obrigada por nos receber. –Selyse Baratheon disse, parecendo bem incomodada.
-Eu peço desculpas pela situação que se formou. Vocês foram tiradas de casa e trazidas até aqui como...
-Prisioneiras.
-Sim. Prisioneiras. Eu estive em semelhante situação até poucos dias atrás e posso entender perfeitamente o que vocês sentiram. O Senhor meu Marido e eu consideramos seriamente como agir com vocês durante uma reunião na noite passada. Com o governo de Westeros tendo sido passado pra mim por Lorde Stannis, eu acredito que seja justo que vocês tenham alguma compensação significativa. Então eu quero informar a senhora que Lorde Stannis agora é protetor das Terras da Tormenta, assim como das antigas terras da Coroa, incluindo a cidade de Porto Real. Eu acredito que agora vocês irão se instalar na Fortaleza Vermelha. Não parece ser muito, mas por agora é o máximo que eu posso fazer.
-É muito mais do que o irmão dele fez ao ser coroado. –Selyse pontuou.
Catelyn sorriu.
-Stannis certamente já sabe disso. –ela murmurou, encarando Catelyn- Lady Melisandre enxerga nas chamas.
-Em todo caso, eu lhe enviei um corvo ainda na noite de ontem.
-Quando nós iremos até onde está o senhor meu pai? –a menina perguntou.
-Vocês são livres para partir quando desejarem, mas se for do seu agrado, poderíamos ir juntos quando eu esteja finalmente recuperada do parto. Não fazem mais do que vinte dias desde o nascimento do bebê, e eu ainda não estou bem o bastante para outra longa jornada.
Selyse apenas observou Catelyn friamente, evidenciando que não estava muito inclinada a passar mais tempo ali do que o estritamente necessário.
-A senhora é muito bonita. –a menina disse, abrindo um sorriso envergonhado.
-Oh, obrigada, Shireen! –Catelyn segurou a mão da pequena, tocando o lado saudável de seu rosto- Você também é linda, jamais permita que alguém lhe diga o contrário. –a menina sorriu satisfeita- São ordens da Rainha, você deve sempre levar em consideração.
-Sim senhora.
Selyse agora tinha a sombra de um sorriso nos lábios.
-Eu acredito que torna-la Rainha tenha sido uma decisão acertada. –ela disse- Talvez não fosse a mesma coisa se a coroa fosse pertencer a Tywin Lannister, mas a senhora é uma Tully. Uma donzela Tully que sobreviveu na toca dos Leões. Isso demonstra a força e a sabedoria que você tem.
-Obrigada.
-Se não houver mais nada a ser dito, eu gostaria de sua permissão para me retirar com minha filha.
-É claro. Sintam-se à vontade para andar pelo castelo, ele está dentro dos seus domínios e eu sou a convidada aqui.
-Obrigada, Sua Graça.
Elas rumaram para a porta, após Shireen depositar um beijo nas costas da mão de Catelyn.
-Shireen! –Cat chamou, ao perceber o olhar curioso da menina em direção ao cesto onde Hoster começava a protestar por atenção.
-Sim, sua Graça? –ela deteve-se alarmada.
-Venha até aqui. –Catelyn pegou a cesta onde o bebe estava e colocou no sofá, numa altura em que a menina pudesse observar sem dificuldades.
-Sua Graça, é melhor não. –Selyse disse preocupada- Shireen, não toque o menino.
-Sim senhora, mamãe. Ele é... –ela olhava maravilhada para Hoster- Tão pequeno.
-Não tão pequeno quanto outros bebês. –Catelyn pontuou- Sansa, minha filha mais velha, era bem menor que ele aos vinte dias de nascida.
-Eu nunca vi outro bebê antes. –ela assinalou- Nunca pude estar perto o suficiente de nenhum. Por causa do meu rosto. A senhora não tem medo?
-Eu mentiria se dissesse que não. Mas tenho fé de que ele vai ficar bem. Assim como tenho certeza de que você também ficará bem.
-Obrigada, Sua graça. –Selyse disse, quando a filha finalmente se afastou o menino e veio para junto dela.
-Obrigada você, Lady Selyse.
Quando elas se retiraram, Catelyn fez uma longa oração à Mãe, pedindo proteção para seu filho, e também para pequena e doce Shireen. Quando Tywin entrou na biblioteca, encontrou a esposa absorta em divagações.
-Querida?
-Olá. –ela sorriu
-Você esteve com Lady Baratheon, eu suponho?
-Sim. Ela e a menina.
-Hoster estava aqui? –ele alarmou-se.
-Estava. Mas não há com o que se preocupar. –ela foi até o marido, colocando as mãos sobre o peito dele.
-Todos os Lordes das Terras Fluviais foram informados sobre sua nomeação como Rainha. Eu acabo de chegar do acampamento, há uma festa acontecendo desde ontem.
-Eu deveria ir?
-Não, ninguém espera que você apareça. –ele murmurou- Muitos deles estão vindo para cá. Há um assunto que você deve decidir.
-Sobre o que?
-O que faremos com Petyr Baelish?
-Tywin, isso é com você.
-Sim, eu serei seu executor. Mas as ordens devem ser suas.
-Que ordens? Essa é a punição que ele terá pelo que fez comigo. Você é livre para fazer o que quiser, contanto que não seja tão cruel quanto um esfolamento nem tão misericordioso quanto uma decapitação.
-E você pretende assistir?
Ela pensou por um instante. Petyr fizera de sua infância e inicio de juventude algo doce e bom de ser vivido. Mas sua obsessão tornou-se doentia. Colocou a vida dela e de Hoster em risco, ocasionou uma grande mobilização em Westeros...
-Sim. –ela disse finalmente.
-Devemos fazer disso um ato público, ou um pouco de tortura no calabouço.
-Tywin, eu odeio quando você me pergunta o que fazer. Faça o que quiser, onde quiser e como quiser.
-Sim, sua graça. –ele sorriu.
-Estou começando a odiar isso também. Eu sou sua esposa, não sua rainha. É muito estranho.
-Mas é assim que serão as coisas agora.
-Eu ainda posso desistir? –ela disse sorrindo tristemente- Não era isso que eu tinha em mente quando falávamos sobre desarticular o Oeste de Westeros. Eu imaginei que as posições estariam invertidas, você seria a base e eu apenas o apoio.
-As decisões serão suas, mas eu jamais permitirei que você passe por isso sozinha.
-Como você se sente a respeito de tudo isso?
-Eu estou orgulhoso de você. –ele respondeu afastando os cabelos dela de seu rosto- É mérito seu que tudo tenha acontecido dessa forma.
-E o que eu fiz para merecer isso? Eu quero dizer, eu sou sua esposa e sou uma mulher bastante normal... Uma mãe, Senhora de um castelo, mas isso não faz de mim alguém feita para governar os sete reinos. Isso é algo mais parecido com você.
-Eu não sei exatamente o que você fez para merecer a coroa, mas é como se não dependesse das suas atitudes, e sim de quem você é. E eu só posso me sentir orgulhoso por isso. Eu ofereci apoio financeiro, eu fiz tudo o que foi necessário. Eu estaria enfurecido ou preocupado se fosse diferente. Se Stannis tivesse enviado uma carta a Daenerys Targeryan, declarando sua soberania, ai sim eu estaria pronto para iniciar um massacre. Mas não sinta como se você estivesse me escondendo debaixo de sua sombra. Nós temos o poder, isso é o que queríamos, não importa por que caminho ele tenha vindo. Nós dois somos apenas um, e eu me sinto mais livre para articular as coisas sabendo que você cuidará perfeitamente bem dos assuntos mais práticos que envolvam o povo.
-Fazem apenas vinte e quatro horas e eu já me sinto incrivelmente pressionada. Minhas mãos doem, eu já enviei tantos corvos desde o nascer do dia que sequer sei como continuar.
-Devemos ir devagar. Não há nenhuma pressa. Algumas medidas devem ser tomadas. –Tywin murmurou- Mas tudo isso pode esperar.
-Que medidas?
-Apenas comece a considerar esses pontos, não é estritamente necessário que nada seja decidido agora. Mas a criação de um Conselho, a definição da linha sucessória... Se o domínio será da Casa Lannister ou dos Tully...
-Acredito que Tyrion seja o Terceiro na linha de sucessão. Após Sansa e Hoster.
-Tyrion? Catelyn...
-Tyrion. E se Tyrion tiver filhos, passará aos filhos dele. Eu não discutirei isso. Sansa será Senhora do Norte, as obrigações dela serão com seu senhor. E Hoster será criado para ser um príncipe justo e aprenderá como governar. E se algo acontecer a ele há Tyrion.
-No seu reino, haverá a necessidade de uma Mão? –Tywin perguntou para mudar de tema, desconfortável por perceber que Catelyn considerava mais Tyrion do que o próprio Tywin fazia.
-Esse é o nosso reinado, e eu tenho você para dividir o fardo comigo. Então, não.
-Sobre o Conselho, Varys se mostrou leal, o próprio Stannis, seu tio Brynden parece realmente bastante preparado... Lorde Stark deve ter voz em decisões mais gerais, mas sem retirá-lo do Norte.
-Kevan.
-Kevan. –Tywin concordou- Loras Tyrell para a Guarda Real.
-Devemos cuidar das nomeações apenas quando estivermos em Casterly Rock. Após a coroação e coisas do tipo. Eu estive pensando em coisas mais femininas... –ela sorriu parecendo envergonhada- Os Sete Reinos caem no meu colo e eu estou pensando na decoração da Sala do Trono e em como devem ser as coroas!
-Querida, você tem todo o direito de ser vaidosa. Você sempre foi, agora não seria diferente.
-Eu não pretendo usar o Trono de Ferro. Ele é o sinal da submissão de Stannis, mas eu não sou forçada a utilizá-lo. Ou sou?
-Você não é forçada a nada. Mas por que não usar o Trono?
-Porque não temos mil espadas e um dragão para forjar outro Trono. Você se sentará ao meu lado, como o Rei que é. Sem contar que eu tenho medo daquelas laminas afiadas e ele é visualmente agressivo.
-Isso talvez não seja uma ideia muito boa. –ele pontuou, desconsiderando o senso estético da esposa- Nós divergiremos o tempo inteiro, como sempre.
-Vamos aprender a lidar com nossas opiniões sem externa-las ao publico. E querido... Eu tenho certeza de que não sempre estarei disponível para as obrigações da coroa, isso será com você. Hoster acabou de nascer e antes de qualquer outra coisa, eu tenho obrigações com a minha família.
-Tudo bem. Se você quer que as coisas sejam assim, eu estou de acordo. Dois tronos, duas coroas.
-Fardo dividido.
Tywin não estava confortável com aquilo, mas sabia que era a única forma de evitar que Catelyn se sentisse pressionada. Resolveu cuidar das cartas que chegaram, muitas delas em apoio à nova Rainha, outras contendo os primeiros problemas e pedidos. Catelyn foi receber os Lordes das Terras Fluviais, que chegavam para dobrar os joelhos. Da janela ele pode observar como ela atuava com humildade perto daqueles homens, o que de certa forma poderia indicar uma fraqueza. Preocupou-se com isso por um instante até perceber que talvez fosse daquele modo que ela conseguiria ser amada por todos.
Ao cair da noite, após um dia cheio e cansativo, Tywin notava que a esposa estava pálida e visivelmente cansada. Ela e o irmão conversavam no que parecia ser o primeiro momento de paz dela durante o dia. Falavam sobre algo acontecido na infância dos dois e parecia ser uma boa lembrança. Ele a abraçou e Tywin pode ouvir que ele aconselhava que Catelyn fosse descansar um pouco antes do jantar.
-Eu concordo. –ele disse passando o braço em torno das costas dela- Você parece estar a ponto de desmaiar.
-Eu cuidarei dos convidados. –Edmure disse- Você precisa tomar conta de si mesma em primeiro lugar, suas obrigações com Westeros virão depois.
-Lorde Mallister me informou que a maior parte das pessoas que está aqui agora, espera que Petyr Baelish seja executado essa noite. Eles ainda não entendem o motivo dele permanecer vivo. –Catelyn atualizou o marido.
-Sim, eu sei que eles pretendem isso. Eu vejo o cárcere como uma forma de prolongar seu sofrimento. –Tywin respondeu simplesmente- Mas se você acredita que devemos fazer isso hoje...
Catelyn pareceu sentir o peso da decisão que estava prestes a tomar.
-Você não quer fazer isso. –Tywin percebeu no olhar dela.
-Você não pode deixa-lo vivo. –Edmure ajuntou.
-Não. –ela disse olhando para o marido- Eu não quero fazer, mas é o certo e o necessário. Edmure você se recorda dos ensinamentos de Lorde Rickard Stark?
-De alguns...
-Você se lembra de quando ele disse, na primeira vez que esteve em Riverrun, que o homem que dá a sentença é o mesmo que deve brandir a espada?
-Você é uma mulher. –Edmure rebateu, prevendo o que ela diria.
-Eu fui a vitima, eu devo ser a executora. Seria politicamente útil. Faria de mim...
-Temível. –Tywin completou com um sorriso enviesado nos lábios- Eu estaria totalmente de acordo, se não soubesse como você ficará depois disso.
-Eu preciso aprender a ser forte. Forte nesse sentido.
-Cate... –ele pareceu inseguro.
-É melhor não, irmã.
-Seria bom se ninguém precisasse morrer, mas já que é assim... Eu mesma o farei.
