Em abril daquele ano, morreu Maeda Toshiie, o mais respeitado dos cinco regentes. Devo acrescentar que foi uma morte natural e Tokugawa nada teve a ver com isso, apesar de o fato lhe ser favorável. Agora não havia mais ninguém realmente à sua altura para detê-lo.

- Gostaria de mais saquê, senhorita?

Aceitei apenas para ser educada, pois não gostava muito de saquê. Molhei os lábios enquanto prestava vaga atenção à conversa das pessoas à mesa.

Já faziam vários meses desde o acontecido, e quando o ano de 1600 chegou a situação era de hostilidade aberta entre os regentes. De um lado, Tokugawa; do outro, os outros regentes leais ao clã Toyotomi. Mas Tokugawa não estava sozinho; entre seus aliados, estavam tanto homens que lhe juraram lealdade quanto homens que não tinham amor nenhum aos burocratas.

- Miyabi-san está pensativa hoje.

A voz de Minoru me acordou de meus pensamentos. Ele não estava com Mariko hoje.

- Qual o problema em pensar?

- Divida seus pensamentos conosco, oras.

Dei de ombros.

- Não é nada que ninguém nunca tenha pensado.

- Ah, então eu já sei do que fala. - Takahara entrou na conversa. - Souberam que o clã Sanada foi pro outro lado?

Acenei um sim com a cabeça. Nobuyuki estava do lado de Tokugawa, mas seu pai e seu irmão mais novo foram para o lado dos regentes.

- É melhor Tokugawa-sama ter cuidado. O Oeste fica mais forte a cada dia. - Era assim que começávamos a chamar, Exército do Leste e do Oeste. - Ishida deve estar comprando todos. Nossa sorte é que o desgraçado é tão odiado que alguns estão no Leste apenas para pegá-lo. - Takahara disse, com o seu sorriso de bêbado característico.

Ishida Mitsunari era o líder dos burocratas, leal ao falecido Toyotomi Hideyoshi. Ele era um homem detestável, e muitos daimyos o odiavam. Apesar de ser dito que o líder do Oeste era Mori Terumoto, um dos regentes, todos sabiam que era Ishida que estava por trás de tudo.

Takahara continuou falando sobre política, porém eu notava que Minoru não tirava os olhos de mim. Aquilo me perturbou; apesar de no ano anterior ele ter casado com Mariko e ela estar grávida de poucos meses, ele continuava me tratando com preferência, e nos víamos sempre que estava em Edo.

Levantei-me e pedi licença, pois estava cansada. Minoru disse que ia me acompanhar até a hospedaria, exatamente o que eu temia, e Takahara resolveu que ia ficar um pouco mais.

Saímos pela porta do estabelecimento e não haviam muitas pessoas na rua. Eu nem tinha notado que era tão tarde, era para ser apenas uma pequena saída para dar as boas vindas à Minoru, que não vinha para Edo a muitos meses. Caminhamos um pouco sem nada dizer, até perto da hospedaria de Yuya-sama, quando o senti tocar de leve meu braço.

- Miyabi...

Apenas olhei para ele, que sorriu maliciosamente.

- Não vai dizer que sentiu minha falta?

Sorri levemente como se achasse uma piada engraçada.

- Minoru-san devia ter cuidado ao falar essas coisas em público. - Apesar de que não havia ninguém na rua para nos ver.

- Bem, eu digo que senti sua falta.

- Minoru-san...

- Não finja que não sabe como eu te olho, Miyabi. Desde que nos conhecemos...

- Pelos deuses, você é casado - Eu cortei, com exasperação. Eu não acreditava que estava ouvindo aquilo.

- E o que importa? Não me impede. E você não é casada.

- Quem você acha que eu sou?

Minoru me puxou de repente e me beijou. Não vou dizer que foi ruim... Há tanto tempo eu não sabia o que era um beijo, mas foi forçado. Imediatamente me lembrei de Keisuke. Eu o empurrei, limpando a boca com a manga do kimono. Sei que não tinha sentido nenhum, mas sentia como se estivesse traindo Keisuke. Minoru pareceu ofendido, e tentou se aproximar novamente.

- Fique longe de mim - Eu disse agora com raiva, me virando para a hospedaria. Ouvi Minoru dar um breve riso de desdém.

- Ele está morto! Você não vê?

Não me virei. Apenas fechei a porta às minhas costas, deixando-o falar sozinho.