Saí do carro e andei ao lado de David, caminhando para dentro da casa de Branca de Neve. Emma passou por nós, ancorada nos braços da mãe – os olhos fundos e vermelhos denunciavam o quanto chorava. David as acompanhou e eu entrei sozinho. Assim que atravessei o longo corredor, passei pela porta verde e adentrei a residência. Na cama, Killian estava deitado. No canto, Leroy estava sentado, ao lado de Blue.

"Leroy. Madre." Cumprimentei e eles acenaram com a cabeça, em silêncio. Tinkerbell estava recolhida no canto, e apenas me encarou por alguns segundos, me dando a chance de ver seus olhos vermelhos pelas lágrimas. Puxei uma cadeira perto dela, e ela sorriu, um tanto entristecida.

"Tinker." Eu toquei de leve em seus ombros, e ela desmontou em meus braços, de modo que a única saída que tive foi segurá-la, acariciando seus cabelos. "Fica calma, fada."

E foi nesse exato momento que Regina e Thomas atravessaram a porta. Os olhos de Regina cruzaram com os meus instantaneamente, e ela pareceu perplexa com aquela cena. Thomas entrelaçara seus dedos nos dedos da mão dela, e eu me perguntei se ele estava na casa dela quando ela recebeu a notícia. O fato de eles estarem juntos na madrugada, sozinhos, fez meu estomago revirar.

"Boa noite." A voz de Thomas cruzou a sala e Tinkerbell se desvencilhou de mim com rapidez. Havia algo no olhar que ela trocou com Regina que me fez pensar no quanto esse abraço custaria à pequena fada. Regina caminhou até o pirata e então deslizou as palmas sobre o corpo dele, envolvendo-o em sua nuvem roxa.

"Ele não está morto."

A voz dela soou como hipnose. Um silêncio mortal se estendeu por alguns segundos, até que Tinkerbell saiu de perto de mim e caminhou até ela. "Como não? O coração dele não bate e ele não está respirando."

"Ele está enfeitiçado pelo Immobilus. É um feitiço de paralisia, que dá a parecer que está morto mas não está."

"E quem faria algo assim?"

"Quem lançou centenas de feitiços em nós..." Resmungou Leroy, atraindo os olhares de todos ao redor.

"Seu duende miserável! Está insinuando que eu fiz isso com ele?" Regina ergueu uma bola de fogo no ar mas Thomas puxou-a pela cintura, estabilizando-a e fazendo com que ela a apagasse rapidamente.

"Regina, não dê ouvidos. Ele está estressado e com sono."

"Mas eu não faria algo assim! Eu não sou mais aquela pessoa, não importa o que vocês digam." Regina não conseguia esconder quão irritada estava. Eu entendia. De repente, de ajudadora ela passara a ser a vilã e tudo isso porque as pessoas simplesmente não conseguiam esquecer quem ela havia sido. Emma entrou correndo e abraçou Killian, o que me fez pensar que alguém lhe dissera sobre o feitiço. Branca e David pararam na porta e notaram o estranhamento presente ali na sala. "Quer saber..." Continuou Regina, irritada. "Vocês que se danem! Eu vim aqui para ajudar, eu vim aqui porque eu quero ser uma pessoa melhor, mesmo que meu próprio filho não vá se lembrar disso. Mas vocês... vocês são um bando de hipócritas. Vivem pregando essa merda de 'nunca desista de quem se ama', 'acredite', 'todos merecem uma segunda chance' mas são os primeiros a crucificar os outros! Eu estou farta de vocês."

Regina saiu da sala, deixando um mal-estar entre nós. Thomas saiu logo depois dela e eu deveria ter deixado que ele a consolasse, mas algo dentro de mim me empurrou em direção à saída e quando dei por mim tinha corrido pelo corredor, chamando-a pelo nome. Quando cheguei na porta frontal, gritei seu nome. Regina parou, e Thomas continuou alguns passos antes de parar. Corri até ela, ciente de que Thomas assistia tudo a dois passos de distância.

"Regina... Você não pode levar aquilo a sério."

"Você não tem o direito de dizer o que eu devo ou não sentir nesse momento, Robin."

Olhei em seus olhos e vi que ela estava magoada. Minha vontade era de abraça-la e beijar o topo de sua cabeça e sussurrar coisas lindas que a fariam sorrir. Mas eu não posso e sei disso. Primeiro, porque seu 'namorado' me dará um soco no meio da mandíbula. Segundo, porque não estamos nessa dinâmica. Nosso tempo passou e de repente, estamos desajustados.

"Eu sei, desculpe." Segurei seus braços, aproximando-a de mim, e senti quando os olhos dela deslizaram pelo meu rosto, como se pela primeira vez naquela madrugada exaustiva, ela tivesse se dado ao luxo de observar meu rosto com calma. Parecia que ela estava relembrando-se de cada pedacinho dele, cada milímetro dele.

"Robin, me solta." Pediu ela, a voz baixa.

"Regina, eu..." Mas ela não me deixou falar. Pediu novamente para que eu soltasse, e eu me neguei a aceitar seu pedido. De repente, um par de mãos duras nos separou, e o homem barbado e com olhos ferozes parou na minha frente, bloqueando a visão dela.

"Ela pediu para você soltar. Você tem algum problema de audição, dude?"

"Estamos conversando." Sibilei, irritado. Nossos rostos estavam próximos, e eu sabia que ele estava pronto para briga. Mas eu não podia chegar em casa com o rosto cheio de hematomas e ter que explicar a minha mulher que tinha trocado socos com outro homem por causa de outra mulher.

"A conversa acabou, pelo que eu vi." Continuou ele, mas desisti de responder quando Regina apertou as unhas contra o antebraço dele.

"Vamos embora, Thom."

Thomas olhou em meus olhos novamente, enquanto Regina afastava-se sem olhar para trás.

"Fique longe dela, Locksley." Ameaçou ele, me encarando.

Fiquei observando ele correr e alcançá-la, passando os braços pela cintura dela e puxando-a para o seu abraço enquanto caminhavam para dentro da noite escura. Pensei em suas palavras e por um minuto de loucura, tive vontade de rir.

Fique longe dela.

Como se eu conseguisse, amigo.


Voltei para dentro da casa. Emma estava deitada sobre a cama, com a cabeça pousada sobre o peito de Killian. Leroy e Blue já haviam ido embora, e Tinkerbell fumava um cigarro na varanda, de modo que por cima do silêncio só havia a conversa rarefeita de David e Branca na bancada da cozinha.

Sentei-me em uma das banquetas e Branca me serviu um café. Sorri, e David olhou para a filha, que dormia abraçado ao corpo inerte do pirata. "Ela ainda não sabe."

"Não sabe o que?" Perguntei, e vi o casal trocar um olhar cumplice. "Ei, tem algo mais que eu deveria saber?"

"Robin." Começou David. "Nós encontramos algo. Mas não queríamos falar nada para Regina ou Emma, porque sabe como elas são. Elas enfiariam os pés pelas mãos e daria tudo errado e tudo que precisamos agora é de discrição."

"Estou acompanhando."

"Havia um bilhete na mão do Hook quando o encontramos na biblioteca."

Branca olhou a filha enquanto dava um gole no café. "O bilhete estava preso por baixo do seu anel, o que pode ter sido um recado de Killian. Como se ele desconfiasse que algo fosse acontecer."

"E o que dizia lá?" Meu Deus! Por que fazer tanto suspense?

"Dizia apenas Regina é a resposta."

"Regina? Mas o que Regina pode ter a ver com tudo isso?"

"Achamos que ele também se refere à morte de Belle e Rumple." Alegou David.

Meus pensamentos levaram instantes para se organizar e eu conseguir criar uma linha de raciocínio um pouco lógica. Ele estava insinuando que Regina tinha algo a ver com a morte de ambos?

"Regina não matou Belle." Defendi, certo de que aquela era a maior calúnia que já ouvira. David podia ter sido um príncipe no passado, mas as vezes não passava de um babaca.

"Como você pode ter certeza?"

"Pensei que você fosse amiga dela." Sibilei venenosamente na direção de Branca, que me olhou como se eu a tivesse ferido. "Pensei que vocês dois fossem mesmo os propagadores da esperança. Regina não teria porque matar Belle e eu confio nela. Sei que não foi ela. Talvez ela seja o motivo, ou talvez ela seja parte de algo que resultou nisso, mas aposto que ela não tem a mínima ideia de nada disso."

"De qualquer modo, precisamos entender porque ele escreveu isso. Tem que ter alguma razão."

Levantei-me e entreguei a xícara à Branca. "Obrigada pelo café, estava maravilhoso." Virei-me para David. "E eu concordo com você. Tem que ter alguma razão para o pirata ter escrito isso. Mas pense duas vezes antes de apontar o dedo para Regina e acusa-la de algo que ela não fez. Lembre-se de que vocês são líderes para esse povo. Podem liderá-los para o bem, mas também pode liderá-los para o mal."


POV Zelena

Acabei de acordar, e Robin não está aqui. Tenho certeza de que encontraram o corpo de Killian e deve estar aquele alvoroço ridículo na cidade. Devem ter feito grupos e toda aquela parafernália de sempre. Como esse povo me cansa!

Saio da cama e pego meu notebook. Dou graças ao ser abençoado que inventou este aparelho, que viabiliza muito as minhas pesquisas. Nem preciso mais ler e reler aqueles livros enormes sobre magia negra, que são maçantes e parecem ter sido escritos pelo avô de Matusalém. De vez em quando, sinto-me triste por ter matado Rumpelstiltskin – ele teria muito a me ensinar.

Volto a pesquisar minha querida enteada, enquanto me lembro de Killian e de como as coisas saíram do controle. Eu jamais imaginaria encontrar Thomas Diggs em Storybrooke. Eu jamais imaginaria que o veria novamente. Foi um pesadelo se tornando realidade, de uma maneira tão repentina que me derrubou feito um boxeador.

Saí correndo da lanchonete e liguei para Killian. Ordenei que ele corresse para a biblioteca. Ele resmungou, mas eu o obriguei, afinal, eu já tinha seu coração desde o começo e ele era obrigado a me obedecer.

Mas Killian não estava colaborando. Ele se recusara a matar Regina. Seu amor pela loira oxigenada estava cegando seu discernimento, e eu estava desesperada, totalmente vulnerável por ter encontrado Thomas. Ele ameaçou contar a verdade e eu não pensei duas vezes antes de enfeitiçá-lo. Foi um erro e eu percebi no exato instante em que o pirata caiu aos meus pés. Um erro causado por outro erro. Um erro que era resultado da minha fraqueza, da minha derrota, da minha inabilidade de lidar com o passado.

Um passado chamado Thomas Diggs.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Você não precisa ter medo dele, idiota. Olhe para você agora. Você é a Senhora das Trevas. Mas mesmo assim, é impossível parar a avalanche de inseguranças e medos que me consome. Thomas sabe quem sou, e não falou nada ainda por algum motivo. Mas ele poderia me desmascarar. Mas não o fez, e isso é mais assustador do que qualquer outra coisa.

Encontro alguns artigos e os abro em diferentes abas, enquanto meus olhos se fixam nas fotos de crianças lindas e loiras, estranhamente familiares. Todas se parecem com Abby e calafrios percorrem meus braços. Com quem estou lidando? A cada parágrafo lido, mais perto do inacreditável eu me encontro. Não posso acreditar. Isso, é uma lenda, não é? Não pode ser real.

Se for real, todos os meus problemas acabarão. Todos. Regina conquistará o ódio eterno de Robin e eu serei mais poderosa do que qualquer ser vivente que se move sobre a terra. Mas para isso, Abby terá que morrer.