Notas da Autora
Após meses, Mutaito tem que continuar sua jornada pessoal.
Enquanto isso, Uranai ainda...
Então, após anos, Muten decide...
Capítulo 25 - Especial - O passado de Muten e Uranai - final
Quando Uranai chega aos limites da propriedade, ela passa a trotar com o animal por outro caminho, distante da casa, contornando uma parte da propriedade, até que chega a uma espécie de barracão velho com bastante feno amontoado.
Então, ajuda a senhora a descer do cavalo, para depois amarrar as rédeas do mesmo em um galho próximo dali, para depois orienta-la dentro do barracão, com a velha vidente exclamado, feliz:
- É um luxo! Muito obrigada jovem!
- Daqui a pouco é o almoço. Irei trazer para a senhora.
- Muito obrigada. – ela sorri e senta em um monte de feno.
- Eu estou ansiosa para a minha aula.
- Já eu, estou ansiosa para ver o seu talento, jovem.
Então, ela se despede entusiasmada e toma um caminho alternativo, contornando uma parte da propriedade, ao fazer o animal galopar, para que simulasse estar chegando da cidade naquele instante.
Então, enquanto entra pela frente, abrindo a porteira, encontra Muten, ao longe, limpando os estábulos, até que desmonta e retira a sela, manto e arreio da égua, para em seguida solta-la no pasto e em seguida, se dirige até a cozinha, pois, sempre ajudava a sua mãe a preparar a comida.
- Que bom que chegou filha! Preciso que descasque e corte algumas batatas. Acabei de abater algumas galinhas velhas, que estavam gordas. Vai dar um bom gizado e penso em colocar algumas batatas.
- Pode deixar, kaa-chan.
Nisso, ela pega algumas batatas e senta-se à mesa rústica, começando a descasca-las.
- Precisamos ordenhar as vacas e depois, levar o leite para vendermos na cidade.
- Eu irei ordenhar as vacas e Muten irá colocar os baldes na carroça.
- Ótimo. No fim da tarde, vou ate a cidade. Acredito que conseguirei um bom dinheiro.
- Com certeza, kaa-chan.
Nisso, Muten chega à cozinha e ambas torcem o nariz, enquanto a genitora deles fala ameaçadoramente, com uma colher de madeira nas mãos, ao vê-lo estender a mão para pegar uma fatia do bolo de milho que a mãe havia feito na parte da manhã:
- Tome um banho antes de comer, mocinho. Somos pobres. Mas, pelo menos, somos limpos. Não quero um filho meu andando maltrapilho ou sujo.
- Tudo bem, kaa-chan.
Ele fala, aborrecido e caminha para fora, para depositar as roupas sujas e em seguida entra pelos fundos, para um pequeno banheiro anexo a casa, enquanto ouve a mãe dele falar:
- Não se esqueça de lavar as suas roupas e coloca-las para secar. Além disso, vai lavar a louça, pois, a sua irmã vai ordenhar as vacas.
Muten revira os olhos, pois, odiava lavar louça.
Porém, não era louco de questionar a sua genitora, que apesar de ter um bom coração, era consideravelmente brava quando queria e naquele dia, ele tinha deixado suas obrigações de lado e sabia que sua mãe já estava irritada por causa disso.
- Sim, kaa-chan! – ele exclama, antes de entrar no pequeno banheiro.
Na cozinha, a senhora fala em um suspiro:
- Espero que o seu irmão seja mais responsável... Ele está se tornando um mocinho.
- Ele vai se tornar, kaa-chan.
Uranai fala, sendo que estava apoiando indiretamente o seu irmão, tentando apaziguar a genitora, pois, graças à fuga dele para ver os artistas marciais, pode encontrar uma mestra para lhe ensinar o ofício da vidência, auxiliando-a no primeiro passo para realizar o seu sonho.
Então, horas mais tarde, após Muten lavar a louça, sendo que nesse interim, Uranai se esgueirou para levar um prato de comida a velha vidente, antes de começar a ordenhar as vacas.
Horas mais tarde, o jovem havia colocado o último galão de aço na carroça, enquanto a irmã ter atrelava Hinata, pois, era a égua de sua mãe.
Então, a senhora surge com a melhor roupa que tinha e um chapéu florido que ela adorava e sobe na carroça, enquanto falava aos filhos:
- Já está tarde. Fiquem em casa, que volto daqui a algumas horas. Vou passar no mercadinho para comprar alguns ingredientes.
- Vamos ficar, kaa-chan. – Muten fala com um sorriso no rosto, pois, poderia ir ao seu esconderijo, praticar um pouco de artes marciais.
Já, a sua irmã, iria aproveitar para começar os exercícios que a sua sishio passou para ela fazer com o globo.
Então, cada um deles, com o seu próprio segredo, caminham para casa, para depois saírem escondidos.
Ela saiu pela porta da cozinha, falando que ia pegar algumas lenhas, previamente cortadas, sendo que na verdade, ia até a sua sishio, enquanto que Muten ia para o seu quarto.
Já no seu quarto, ele abre a janela e desce para o chão, usando uma árvore velha e após descê-la, se esgueira por trás da casa, pegando uma trilha semioculta pela mata, se dirigindo para um local, um pouco longe dali, nos limites do lado norte da propriedade, sabendo que a sua irmã e mãe nunca iriam para aquele lado.
Muten sorriu imensamente ao avistar a espécie de boneco de madeira articulado rústico que montou, seguindo as técnicas de construção que viu uma revista, sendo que se encontrava coberto, para protegê-lo da chuva e vento, assim como qualquer intempérie.
Então, após retirar a espécie de lona, o jovem começa a ensaiar alguns golpes que se recordava, ao se lembrar dos movimentos que os jovens discípulos executavam, sendo que leva vários golpes do boneco, por não ter bloqueado eficazmente os movimentos do mesmo.
Enquanto acariciava a sua cabeça, devido aos golpes que levou, ele escuta uma voz bondosa:
- Você deve prestar atenção na defesa, jovem. Não basta ter um ataque poderoso, se a sua defesa fica aberta.
Ele vira para trás, preocupado, pois, não reconhecia a voz, até que observa um senhor de bigode branco, sorrindo bondosamente, enquanto exibia um semblante gentil, sendo que sentia certa superioridade emanando dele.
Mas, era algo que vinha de sua pessoa, como uma superioridade, não sendo de riqueza e de status e sim, de caráter, além de emanar uma hombridade, inimaginável.
- Percebo que tem um grande talento nato e acho incrível, por ser alguém tão jovem.
Ele se aproxima do senhor de semblante sorridente e bondoso de bigodes brancos, cuja feição era estranhamente conhecida, até que se recorda aonde viu e fica abismado, custando a acreditar que o que estava vendo era real, pois, ele era Mutaito, tido como um dos maiores nomes das artes marciais e um mestre reconhecido mundialmente.
Ele acompanhava avidamente revistas de artes marciais, sempre que conseguia colocar as mãos em alguma e era de conhecimento geral, que ele era humilde e que, portanto, havia poucas fotos dele, enquanto seguiam-se relatos, além de algumas entrevistas, uma vez que não se interessava pela fama, sendo descrito como um homem virtuoso e com uma humildade incrível, assim como uma amabilidade sem limites.
- O senhor é Mutaito-sama?
- Pode me chamar só de Mutaito, jovem e fico feliz em ter seguido por esse caminho. Eu acho que o destino me levou até você.
Nisso, o jovem se curva, pois, era uma honra inimaginável poder vê-lo, pessoalmente, ainda mais um mísero fazendeiro como ele.
Nisso, o mestre se agacha e apoia a mão no ombro do jovem, enquanto sorria bondosamente, falando:
- Pode ficar de pé, jovem. Não sou melhor do que você. Somos todos humanos. Ninguém é melhor do que ninguém. Além disso, sinto que tem um caráter forte.
Muten fica boquiaberto, enquanto olhava consternado para Mutaito, lutando para acreditar que o que ouvira era verdade, assim como o fato que um mestre de renome como ele, havia se curvado para ficar na mesma altura dele, assim como o elogiava, enquanto mostrava um semblante gentil e uma humildade nobre.
- O senhor é mesmo real?
- Sou jovem... Aliais, qual é o seu nome? – ele pergunta com o seu costumeiro sorriso gentil no rosto.
- Muten Roshi, Mutaito-sama.
- Pode me chamar só de Mutaito.
- Sim, Mutaito-sa... Quer dizer, Mutaito.
- Bem, melhor. – nisso, ele sorri, sendo retribuído pelo jovem.
- O senhor acha que tenho algum talento? – ele pergunta expectante.
- Sim. Você só precisa lapidar.
Nisso, ele se aproxima e executa os mesmos golpes do jovem e depois, explica os erros na postura, o ajudando a ficar na postura correta, assim como, para prestar atenção a sua volta e se concentrar, conseguindo fazer o jovem lutar por alguns minutos, sem levar um golpe do boneco de madeira com galhos que rodava sobre o eixo.
- Incrível!
- Foi o que eu disse. Você tem um talento bruto. Só precisa ser lapidado.
- Eu adoraria treinar com um mestre... mas, sou somente um humilde fazendeiro.
- Um humilde fazendeiro com a alma de um artista marcial.
- Sério? – Muten fica maravilhado.
- Sim... Ficaria feliz em tê-lo no meu doujo.
- O senhor gostaria mesmo? – ele pergunta, estarrecido.
- Me sentiria honrado em ter um jovem talentoso como você.
Muten não havia se enganado com o ar de nobreza de caráter, assim como de humildade de coração, além de bondade, revelando que Mutaito era muito mais do que imaginava e somente o fato de vê-lo, já poderia ser considerado uma honra inatingível por muitos.
- Porém, você ainda tem que crescer. Além disso, deve ter algum familiar. – ele fala gentilmente.
- Tenho uma mãe e uma irmã mais velha, chata.
Mutaito ri levemente e fala:
- Normalmente, há alguns conflitos entre irmãos. Mas, acredito que ela o ame, assim como a sua mãe.
- Eu também acho... Mas, elas são tão chatas.
O jovem suspira, desanimado e Mutaito sorri, ao se recordar como era com os seus irmãos, que atualmente, eram todos falecidos.
- Eu já tive irmãos mais velhos e sei como é...
- Verdade?
- Sim. Nós nos amávamos, mas, sempre vivíamos brigando, assim como discutindo. Nossos pais penavam para nos separar. – ele fala enquanto ria gostosamente, se recordando de seus tempos de infância.
- Então, o senhor sabe o que passo.
- Perfeitamente. Por isso, falei aquilo. Afinal, apesar de lutarmos entre nós, vivemos bons momentos em família em um pequeno casebre, dentre as montanhas.
- Casebre? Mas... com a sua fama.
- Eu era jovem. Éramos uma família grande, mas, unida. Vivíamos da terra, como você vive com a sua família. Claro, muitas bocas, pouca comida. Mesmo assim, não importava as adversidades, nós sempre estávamos juntos, enfrentando e superando as mesmas. Éramos seis irmãos e uma irmã, a caçula, que tomou de mim o título de mais novo. – ele ri levemente - Ela se chamava Sakura e automaticamente, se tornou o meu xodó. Eu adorava cuidar dela e claro, uma única menina entre homens, era paparicada por todos.
- Eu vejo que o olhar do senhor exibe certa tristeza ao se lembrar dela.
- Quando ela era pequena, acabou saindo de casa, sendo que meus pais estavam ocupados, na hora e a maioria de nós estava no campo, arando a terra. Ela escapou do cercadinho e acabou sendo picada por uma cobra venenosa. Quando descobrimos, foi tarde demais. Minha irmã deixou um grande vazio dentro de nós, assim como a sensação de culpa. – ele fica triste, pois, eram lembranças consideravelmente dolorosas, apesar de ter passado décadas.
- Lamento por fazê-lo se lembrar. – Muten encosta solidariamente a mão no braço dele.
- É inevitável não se lembrar dela... Foi um duro golpe, que com o tempo, administramos, superando juntos, com um apoiando o outro. Um dos efeitos foi o fato que nossas brigas diminuíram.
- Entendo... Acho que devo ficar o máximo possível com elas, pois, não sei o dia de amanhã e não quero ter qualquer arrependimento. – Muten fala pensativo.
- Com certeza. Você deve aproveitar todos os momentos com elas, pois, nunca se sabe o dia de amanhã.
- Isso é verdade.
Após alguns minutos, sorrindo, ele pergunta:
- Que acha de eu ensinar alguns exercícios e golpes para você, embora que você deve desenvolver seu próprio estilo, assim como irei lhe ensinar a meditar? Ela é bem útil, mesmo fora das lutas.
- O senhor faria isso? É sério?
Muten pergunta com um brilho nos olhos, enquanto lutava para acreditar que era verdade, o fato de que um renomado mestre como ele e famoso, iria treinar um humilde fazendeiro.
- Claro jovem. Pretendia ficar algum tempo por essa área. Além disso, vou considerar uma honra treinar, mesmo por alguns meses, um jovem talentoso como você.
- Muito obrigado, sishio!
- E quando você crescer e quiser aprimorar seu talento, ficarei feliz de recebê-lo em meu doujo.
- O meu sonho está se tornando realidade! Ser um discípulo de artes marciais é o primeiro passo para eu ser um mestre de artes marciais!
- Com certeza, será um mestre maravilhoso... Eu acredito nisso. – ele fala sorrindo – O que acha de fazermos alguns exercícios?
- Eu adoraria!
Distante dali, no barracão, a velha vidente olhava sorrindo o seu globo, vendo Muten e Mutaito, enquanto falava, com a voz quase etérea:
- As rodas do destino estão girando... Os diversos encontros predestinados estão ocorrendo. Mas, há aqueles que ainda irão surgir. Afinal, o destino tem os seus planos e resta a nós, aceita-los.
Então, o globo se apaga e ela bebe mais um gole de suco, enquanto observava as estrelas, como se pudesse lê-las, sendo que seu olhar se perdia, enquanto se recordava do rumo que o planeta tomaria, pois, tais encontros eram necessários, para que as cortinas se abrissem, revelando um palco intenso de acontecimentos, sendo que muitos deles iriam selar o destino não só do planeta, assim como do universo.
Afinal, havia visto tudo o que ocorreria, enquanto que jurava a si mesmo, manter segredo do que viu, para que não influenciasse no destino de ninguém, pois, assim era necessário, para que as rodas do destino girassem sem qualquer empecilho.
Inclusive, ensinaria a sua discípula, os perigos de alterar o destino e que a vidência devia ter seu crivo de julgamento.
Meses se passam e escondido da genitora, Uranai prossegue com os seus estudos, recebendo elogios de sua mestra com o seu dom latente, assim como era ensinada sobre requisitos e julgamentos.
Já, Muten, se esforçava nos treino e havia conseguido um avanço considerável.
Porém, Mutaito devia prosseguir em sua jornada e, portanto, após alguns meses, chegou o dia da despedida deles:
- Não queria que o senhor fosse.
- Lamento jovem... Mas, preciso partir. Estou no final de uma jornada de autoconhecimento, digamos assim.
- Então, até os mestres fazem isso?
- Se for necessário, sim.
- Entendo... – ele fica cabisbaixo.
Então, sente Mutaito afagar carinhosamente a cabeça dele, enquanto sorri e fala:
- Continue com os exercícios e treine a meditação para acalmar o seu espírito, permitindo que tenha uma visão mais clara de tudo a sua volta.
- Irei fazer isso. Eu prometo! E quando crescer, eu irei até o doujo do senhor.
- Mal vejo a hora de nos reencontrarmos. Eu dei o endereço, certo?
- Sim. Eu guardei bem e acabei, inclusive, memorizando o mapa. – ele fala sem graça.
- Agora, aproveite o máximo possível o tempo com a sua família, para que não possua arrependimentos no futuro.
- Pode deixar, sishio!
- Adeus, Muten... Ou melhor, seria dizer... Daqui a alguns anos.
Nisso, o jovem abraça Mutaito, que afaga a cabeça dele, paternalmente, uma última vez, enquanto se despedia, voltando a seguir o seu caminho, com Muten vendo um grande e magnífico homem partindo, dono de um coração bondoso, assim como humilde, com uma hombridade e caráter sem limites, ultrapassando todos os seus sonhos, sendo que se curva levemente.
Algumas semanas depois, Muten e Uranai estão andando no mercado, sendo que haviam colocado as compras amarradas nas selas de seus cavalos, quanto a jovem vê o seu otouto correndo rapidamente até uma banca e passa a segui-lo, puxando os animais pelas rédeas:
- Muten! Espera!
Então, ao se aproximar, vê seu irmão mais novo absorto, admirando um grande pôster de um mestre de artes marciais.
- É um pôster de Mutaito-sama! – ele exclama deslumbrado – Eu preciso dele!
Nisso, ele põe a mão no bolso da calça simples e descobre que está sem dinheiro, até que olha para a sua irmã, com um olhar pedinte e uma voz suplicante:
- Por favor, onee-san, me empresta o dinheiro? Preciso de dez zenys.
- Está achando que eu sou banco, Muten? – ela pergunta asperamente.
- Por favor... Eu imploro! – ele se prostra perante ela.
- Levanta! Está fazendo a gente passar vergonha. – ela fala corada, olhando preocupada para os lados.
- Eu imploro.
Após alguns minutos, ela suspira cansada e fala:
- Tudo bem... Vou emprestar o dinheiro para você comprar o seu pôster. Porém, terá que me devolver, hein? Eu nunca esqueço um dinheiro emprestado.
- Eu vou devolver, eu prometo.
- Aqui está o dinheiro. – ela pega a pequena carteira dela e entrega o dinheiro.
Então, Muten compra feliz o pôster e devolve o dinheiro a sua irmã, algumas semanas depois.
Alguns anos depois, ocorre uma briga imensa, com a mãe deles alterada, discutindo com o filho, agora com dezoito anos, que revela seu sonho e o fato que iria partir em uma jornada para ir até Mutaito.
Após horas de discussão, ele parte determinado a seguir o seu sonho, sendo que Uranai confortava a mãe deles, que havia desabado na cadeira da pequena cozinha rústica, sendo que compreendia o que seu otouto fez.
Afinal, sabia do sonho dele e não poderia condená-lo, pois, ela também tinha o seu sonho.
Porém, o sonho dela ainda podia esperar, ao jurar que ficaria com a sua mãe, pois, ela precisava dela naquele instante.
Ao longe, a velha vidente olha Muten partindo e consente com a cabeça, satisfeita ao ver o destino seguindo o seu curso esperado, enquanto voltava para dentro da cabana, onde se manteve oculta por vários anos, sendo que ficaria por mais algum tempo, pois, o treinamento de Uranai ainda iria demorar alguns anos.
