Mais um capítulo de No You Boys e nesse eu fiquei um pouco sensível, pois estamos... bem, estamos chegando ao fim.

Muito obrigada a quem chegou até aqui comigo. Vocês são os melhores, de verdade.


Todo mundo diz que se você bebe com os amigos mais próximos, não há perigo de ficar bêbado. Só mais engraçado.

Certo, não é todo mundo que diz isso. Mas Lily Luna Potter sempre tinha seus lemas e, querendo ou não, alguns faziam bastante sentido.

– Rose, Scorpius está me encoxando.

– Vamos trocar de lugar, Lily – eu disse depressa.

– Não! Não troque de lugar, vai atrapalhar tudo! – exclamou James. – Amor, leia a próxima pergunta. Estou preparado!

Alice, que sempre tinha joelhos fracos para beber e jogar twister alternativo (inventávamos nossas próprias regras) ao mesmo tempo, foi a primeira de nós a literalmente cair do jogo. Agora ela precisava ler as perguntas. Embaralhou as cartinhas, franziu a testa...

– Está tudo girando...

– Leia logo, Alice! – gritamos para ela, porque a qualquer momento a posição em que estávamos começaria a nos incomodar.

– Ok! Calma! Essa pergunta vai para o James. O que eu disse na nossa primeira noite juntos?

– Fácil – ele disse. – Oh, James, isso foi tão delicioso. Vamos repetir?

– Errado! – ela falou depressa. – Beba!

Com certeza ninguém estava acertando as respostas de propósito. James abriu um sorriso arrogante. Ele precisava pegar o copo de álcool sem sair da posição que estava, o que, quando você já está bebendo há algumas horas, era quase impossível.

Mas James sempre foi bom em tudo, e conseguiu beber o gole.

– Qual é a resposta certa? – fiquei curiosa.

– Eu falei a ele: "estou com cede, tem água aqui?". Foi no acampamento que fizemos juntos – explicou.

– Ah, você estava se referindo aquela noite?!

– Não estava me referindo a primeira noite que dormimos juntos – retrucou. – Mas quando passamos o tempo junto.

– Como é que você espera que eu lembre disso?

– Joga a próxima pergunta, Alice! – gritou Lily, era quase possível escutar suas costas estralando.

– Essa é para o Scorpius sobre a Rose.

Como estávamos de frente para o outro, sorrimos como dois detetives espertos. Até parece que não saberíamos responder perguntas sobre nós mesmos. Por isso, e só por isso, ainda estávamos sóbrios naquele jogo.

Mais ou menos.

– Scorpius, qual o inseto que Rose tem mais medo?

– Joga uma pergunta difícil, Alice – ele disse entediado. – Estou sóbrio demais, preciso beber-

– Qual, Scorpius?

– Rose tem medo de aranhas.

– Errado! Essa foi uma pegadinha, Scorpius – sorriu Alice. – Aranhas não são insetos, e sim aracnídeos. Faltou na sua aula de biologia.

– Ocupado aplicando a biologia nas garotas – disse Albus e eles deram um high-five sem realmente caírem no tapete.

– Qual a resposta certa, então? Barata?

– Rose tem pavor de borboletas.

– QUÊ? – todo mundo exclamou.

– Que assustador! – disse Hugo. – Tem medo do que, afinal, maninha? Das cores das asas ou do fato de que elas são tão mutantes?

– Podem debochar. Isso é trauma de infância! Uma vez o tio George disse que borboletas podem te cegar.

– Eu não sabia que você tinha medo de borboleta – disse Scorpius, ainda estático no jogo, mas agora bastante surpreso. Eram em jogos como esse que percebíamos que, talvez, não sabíamos tudo sobre nós mesmos. E isso era legal, no final das contas.

– Não é que tenho medo... Eu tinha quando eu era criança. Mas agora só não vou com a cara delas.

– Isso é estranho – admitiu Lily. – Poxa, Rose, sempre tive essa visão de você acordando todas as manhãs como a Branca de Neve, atraindo todos os lindos insetos e animais, cantando com eles na janela. Agora você arruinou isso.

– Não foi minha intenção – prometi, piscando, enquanto mudávamos nossas respectivas posições no tapete do jogo.

– Agora essa é para a Lily sobre o Hugo – anunciou Alice, no exato momento em que a música Raise Your Glass começou a tocar.

Era o celular da Lily.

– Espera, espera! – ela pediu quando começamos a reclamar. – Preciso atender.

– Você vai nos derrubar!

Mas ela ignorou Hugo. Usando somente uma mão e se equilibrando com os dois joelhos e o cotovelo, Lily pegou o celular do bolso.

Quando viu o número que ligava para ela, ela caiu.

– Já volto.

Ela ignorou os xingamentos dos irmãos para sair da sala da casa de Alice e James e atender ao telefone longe de nós. Quase me derrubou, mas eu e Scorpius éramos, tipo, mestres nesse jogo. Scorpius jogou o braço dele passando por cima da minha barriga e seu peito encostou-se às minhas costas para ele adquirir a posição necessária do jogo.

– Confortável, ruiva?

– Você vai perder tão feio. Próxima pergunta, Alice!

Mas me superestimei. Ou Scorpius trapaceou, porque o rosto dele estava bem próximo ao meu, e eu tinha cócegas quando alguém respirava muito perto do meu pescoço. Acabei caindo e perdendo a rodada. Scorpius, Hugo e Albus ainda estavam no jogo, mas não fiquei muito tempo para assistir.

Precisar ir urgentemente ao banheiro e encontrei Lily observando alguma coisa no quarto de hóspede da casa de James e Alice. Curiosa, eu entrei no quarto e percebi que ela estava apenas... pensativa.

– Ah, oi, Rose. Perdeu?

– Scorpius trapaceou.

– Assoprou o seu pescoço de novo, não é?

– Odeio quando ele faz isso! Você está bem? Olha, eu sei que... isso é difícil para você. Ver a gente se divertindo como antes, e Scorpius e eu vamos nos mudar daqui um mês e...

– Não é isso – ela disse baixinho. – Eu estava me acostumando com a ideia de poder comprar o seu apartamento. É maior do que o que eu estou agora.

– Quem era no telefone?

Ela mentiu quando disse:

– Ninguém.

Cruzei os braços.

– Lily.

– Não é o que está pensando. Não estou traindo o Hugo. Se eu estivesse, eu não daria tanto na cara.

– Então o que é? Você pode falar comigo. – Sentei ao seu lado na cama e envolvi um braço no pescoço dela. – Estou um pouco bêbada, e meus conselhos ficam melhores quando estou assim.

– Rose, ano passado eu me inscrevi em um concurso na faculdade... um programa – acrescentou. – Você dá a sua ideia e ganha recursos para fazer essa ideia acontecer. E minha ideia meio que foi aceita.

– Por que está dizendo isso sem ficar histérica? É uma ótima notícia!

– Porque eu me inscrevi nesse concurso sem ter nenhuma expectativa... Foi ideia do seu irmão – ela me encarou brava como se eu fosse culpada pelo Hugo ser o que ele era, ou sei lá. – Ele falou: "ah, não custa nada tentar." E agora recebi uma ligação para confirmar o dia e horário que eu devo pegar o avião.

Fiquei meio em choque.

– Para onde você vai?

– Vai parecer estranho... Nunca conversei sobre isso com você, Rose, porque era um daqueles sonhos idiotas, sabe? Que você tem certeza que nunca ia dar certo. Pode não parecer, mas eu me preocupo com a situação crítica do mundo. Por que acha que sou contra filhos? Eu... eu me inscrevi nesse concurso para criar um Documentário. Eles gostaram da minha ideia e agora estão me dando a oportunidade de criar um Documentário na Índia sobre as famílias de lá.

– ÍNDIA? – eu gritei.

Foi muita informação em dois minutos. Eu precisei me levantar. Como Lily Luna podia esconder aquilo de mim? E depois achava que tinha o direito de ficar brava comigo por não ter contado a ela que eu ia me mudar para uma cidade que ficava só duas horas de Londres? E agora ela vinha me dizendo que ia para outro continente?

– Quanto tempo vai ficar lá, Lily?

– Eu não sei! – ela exclamou também nervosa. – Depende do tempo que demorar para o documentário ficar pronto! Pode demorar meses...

– Ou anos! Lily. O quanto você quer isso?

– Fodidamente – ela respondeu. – Sabe o quanto foi difícil achar uma coisa que você é realmente boa? E gosta de fazer?

– É por isso que você passou a levar mais a sério o seu curso na faculdade, não foi? Porque você estava com um objetivo.

– É, foi por isso.

– Por que não me contou?

– Porque você quase foi morta por uma ex-vadia do passado do Scorpius. Você foi demitida e não teve trabalho fixo por quase um ano. E você recebeu a ligação da escola de Liverpool e começou a falar sobre morar por lá. E você e Scorpius estão ficando noivos. E eu achei que você tinha mais coisas com o que se preocupar. Mas, acredite, eu quis te contar o tempo todo.

– Uau, Lily – foi só o que consegui dizer depois de um tempo. Não adiantava ficar brava, principalmente porque eu estava mesmo feliz por ela. – Isso é maravilhoso. É sério, eu nunca pedi por outra coisa. Sempre quis te ver assim.

– Eu nem sei se vai dar certo.

– Não é você que sempre disse para mim que devemos tentar mesmo se no final der tudo errado?

– Bem, eu digo isso quando se trata de um cara na sua cama – confessou. – É bem diferente. Essas coisas importantes da vida, tipo trabalho, meio que me deixam assustada. Acho que agora te entendo porque você ficou assim depois que Scorpius te pediu em casamento.

Ela cutucava a capinha do celular e eu dei um suspiro, voltando a sentar ao seu lado.

– É, foi uma grande surpresa no começo. Mas quanto mais tempo eu passo ao lado dele, mais eu começo a perceber que há mil motivos para ir em frente com isso, independente do que for acontecer. E se você, Lily, confia que morar na Índia por alguns meses pode ser bom pra você e seu futuro... siga seu próprio conselho. Ou... você está assim por causa do Hugo?

– Não, não, eu já conversei com ele. Ele quer que eu faça essa viagem mais do que eu mesma. Ele sempre foi um grande suporte, sabe?

– É – admiti. – Uma das grandes qualidades do meu irmão. Estou feliz por você, Lils.

Sorri para ela e Lily não queria admitir, mas ela estava bastante emocional naqueles dias. Devia ser por isso que ela ficou chateada por eu estar saindo de Londres. Não teríamos mais o mesmo tempo que tivemos juntas durante tantos anos. Ela me abraçou e fomos interrompidas por um furioso James:

– Lily, você contou para o Scorpius que eu fiz aquele curso de culinária!?

– Não. Eu contei para a Rose.

– E eu contei para o Scorpius.

– Sério, James, não é algo que devia se envergonhar – ouvimos a voz de Scorpius.

Ele voltou para a sala, mandando Scorpius calar a boca.

Lily e eu nos levantamos.

– Você já contou ao James?

Parece que eu contei ao James? – ela girou os olhos.

– Ele vai ficar bem orgulhoso.

– É por isso que estou enrolando pra contar. Ele vai agir como aquele irmão que sempre desejou para mim o melhor tipo de futuro... Definitivamente, não tenho saco para isso.

Mas, quando ela contou a ele, pude jurar que James não queria deixá-la ir. Lily faria muita falta.

A notícia que Lily ia passar meses na Índia para tentar montar seu primeiro grande trabalho depois que se formou na faculdade deixou todos nós orgulhosos por ela, apesar de bastante tristes porque a ideia de que não veríamos Lily por um bom tempo era algo difícil. Já passei por um período intenso de saudades pelo Scorpius quando ele esteve na Alemanha, mas com Lily era diferente. Sem contar que ela estaria há quase dez horas de distância. Com quem eu passaria minhas tardes fazendo as unhas enquanto escutava sobre suas desventuras amorosas e assistindo a Ellen Degeneres entrevistar nossos artistas preferidos?

– Er, comigo? – tentou Scorpius quando lamentei em voz alta do dia seguinte.

– É diferente – eu disse e ele deu de ombros. – O louco é que não tive nem tempo de processar isso e Lily já está arrumando as malas. Eu só achei que como ainda nós dois teremos mais algumas semanas em Londres, aproveitaríamos mais noites de twister juntos.

– Sim, está acontecendo tudo muito depressa, mas é o jeito que as coisas são – ele disse sabiamente. – Nem sempre tudo tem que ser planejado. E isso vai ser bom para a Lily. Ela sempre foi do tipo que se deu bem com qualquer coisa, Índia não vai ser diferente. Não se preocupe com ela.

– Não me preocupo – eu menti. – Sei que Lily sabe se cuidar sem mim.

Scorpius sorriu, porque ele sabia que eu estava mentindo, e me deu um beijo antes de sair de casa. Ele passava bastante tempo na companhia dos advogados do pai dele, com o objetivo de tentarem reconquistar o legado e construir uma empresa do zero, depois que ela foi presa com a venda feita pelos Parkinson, agora na prisão que, com certeza, não ia durar muito tempo, considerando que a família tinha seus contatos e podiam sair de lá a qualquer momento. Mas os advogados do pai de Scorpius eram os melhores, e Scorpius garantiu a mim que agora estaríamos longe desses problemas. Eu esperava que sim, a última coisa que eu queria me preocupar agora era com Sarah Parkinson voltando para nos assombrar ou tentar foder o meu namorado em todos os sentidos.

Apesar de todas as mudanças, apesar dos momentos que eu passava perto do Três Vassouras e sabia que agora ele estava fechado, minha vida nunca esteve tão... nos eixos. Eu fui aceita para lecionar em uma grande escola, com um salário muito bom em uma cidade que eu poderia me acostumar a viver ao lado de Scorpius. Mesmo com a distância, ainda existiam redes sociais e os feriados para matarmos as saudades.

Por incrível que pareça, era Alice quem estava bem afetada por isso.

Estávamos ajudando a Lily ajeitar suas malas no apartamento dela, porque seu voo sairia logo na manhã seguinte. Não teve tempo de ajeitarmos uma festa de despedida, apenas um almoço n'A Toca com os parentes mais chegados. Os pais dela ficaram bem orgulhosos e confiantes de que isso seria importante para Lily. Todos estavam contentes pela grande oportunidade de conhecer o mundo lá fora para se tornar uma grande profissional algum dia.

– Acha que devo levar mais roupas ou...

– É melhor comprar por lá. Você já arrumou algum lugar pra morar?

– Sim.

– E o que exatamente você vai fazer? – perguntou Alice, observando a rua de Londres pela janela do quarto de Lily. - Quero dizer, qual vai ser o tema do seu documentário.

– Segredo. Eu não posso contar a vocês a minha ideia. Primeiro porque não tenho a menor ideia se isso vai dar certo. Não fique triste, meninas, eu posso voltar na próxima semana.

– Você não vai voltar – eu disse. – Você não é daquelas que desiste. Então não volte.

– Alice?

– Oi? – ela finalmente virou o rosto para nós duas.

Assustamos porque ela estava com os olhos aguados.

– Ah, isso? É a poeira. Você devia limpar mais constantemente esse apartamento e...

– Alice, sem enrolar. Desembucha.

Ela se afastou da janela e forçou um sorriso.

– Eu estou feliz por vocês duas.

– Você não parece feliz – franzi a testa.

O charme da Alice sempre foi o de ser misteriosa; ouvia mais do que falava. Ficava na dela muitas vezes. Mas, dessa vez, ela desabafou mesmo tentando não parecer que estava com vontade de chorar:

– Justamente no momento em que James finalmente tem na cabeça a ideia de termos filhos e construirmos uma família... vocês não vão estar aqui. Principalmente você, Lily, você estará tão longe. E ele é seu irmão. E eu sei que você é contra essa coisa de ter filhos, mas eu sempre quis ter. Mas o mais importante? Eu queria que vocês pudessem estar comigo nesse momento.

– Opa. Quem disse que não vamos estar com você? – eu disse inconformada. – Não vamos fugir. Não é como se fossemos embora para sempre.

– Eu sei, mas... não sei. Eu queria todas vocês aqui para sempre – ela disse rindo, porque isso era... bem... era impossível, e nós sabíamos. – Mas, hum, tirando todo esse drama... estou mesmo feliz por vocês e muito orgulhosa. Depois de tudo o que vocês duas aprontaram juntas e eu só tive que puxar suas orelhas. Drogas, homens casados, algumas garotas...

– Isso foi só a Lily – apressei-me a dizer.

– Não vamos esquecer que a Rose dormiu com um cara que tem um filho – lembrou Lily. – E era o aluno dela. E quando você quebrou o queixo do seu primeiro namoradinho? Sem preço.

– Julian não foi meu primeiro namoradinho. Ele foi meu primeiro beijo de língua e foi um desastre. Na primeira e na segunda vez, porque, é, eu soquei o cara na segunda vez.

– E você, Alice? – Lily perguntou curiosa. – Algum podre seu que queira compartilhar?

– Ah, tenho vários podres. Vocês não me conheciam na época.

– Você não tem nenhum podre, né?

– Eu, er, eu já fingi orgasmo. – Um pouco envergonhada, acrescentou: – Com James. Ainda namorávamos! E era final de semestre! Trabalho de conclusão! Eu não podia perder meu tempo... mas James era tão... sabe? E eu não podia perder meu tempo.

– Calma, Alice – eu falei depressa, vendo seu desespero por achar que pensávamos que ela não amava mais o James. – Não precisa se explicar pra gente. Não é como se você fosse ser condenada por isso. Eu, por outro lado – sorri. – Scorpius nunca foi um problema. Ele sabe exatamente o momento...

– Vocês dois se acham perfeitos, não é? – Lily girou os olhos. – Uma vez eu namorei esse cara que era tão entediante. Fingia tanto com ele que eu me sentia uma atriz pornô. E das boas. Quase segui carreira teatral por causa dele. Era bem convincente, sabe?

Alice e eu nos entreolhamos.

Tive que abraçar minha prima.

– Vamos sentir sua falta, ruiva – eu disse, rindo. – Você e seus casos.

– Não chorem – pediu, mas ela me abraçou de volta.

A campainha tocou, mas antes que Lily se afastasse para atender, Hugo entrou trazendo um balde de cervejas congeladas.

Ele ficou bem sem-graça quando me viu. Achou que teria o lugar inteiro só para os dois.

– Oi! – ele disfarçou. – Trouxe umas cervejas para vocês. Minha maninha e cunhadinha e-

– Corta essa, Hugo – eu disse. – Já estávamos de saída.

– É, não pretendemos atrapalhar a despedida particular aqui.

– Eu amo vocês – sorriu Lily. – Agora tchau.

E nos empurrou para fora do apartamento. Quando fechou a porta atrás de nós e ouvimos o som de rock do outro lado da porta, Alice franziu a testa.

– Como você acha que eles vão ficar?

Na manhã seguinte, alguns minutos antes de Lily pegar o vôo, nós tivemos que escutar a discussão deles.

– Não me espera, Hugo.

– Eu vou esperar, falei que vou.

– Eu não quero que você me espere. Posso demorar anos pra voltar! Como é que vai se aguentar sem comer alguém, hein? Eu sei que você não vai conseguir, então vamos terminar.

– Estarei esperando.

– Vamos terminar.

– Não.

– Vamos.

– Ok, vamos.

– Vamos? Assim? Sem discussões? Vai aceitar numa boa?

– Lily.

– Porque tudo bem. Não é como se eu não pensasse em pegar uns indianos-

– Cala a boca.

O beijo que eles deram precisou ser interrompido pelo pigarreio que veio da garganta de James, ou eles nunca se soltariam. Scorpius se aproximou de Lily, segurando seus ombros.

– Lembra quando eu estava entrando no avião para Frankfurt e você me apressou? Eu vou dizer o que você me disse. Tchau, Lily, Tchau!

– Ah, Scorpius! – ela exclamou abraçando-o. – Um dia sentarei na sua privada de ouro.

– Devem ter várias privadas de ouro pela Índia – ele sorriu abraçando-a de volta. – Fica bem, beleza? E juízo.

– Olha quem tá falando. Cuida da Rose. E eu quero dizer cuida mesmo. – Piscou o olho, fazendo-me ficar imediatamente vermelha, do jeito que só Lily sabia fazer. Meus tios e pais estavam por perto, caramba!

Ela se afastou dos braços de Scorpius para me dar mais um grande e apertado abraço.

– Eu te amo, ruiva – ela disse baixinho. – Obrigada por tudo.

Ela ter falado aquilo fez a ficha cair. Lily sairia do país. Eu não a veria por um longo tempo. Comecei a chorar e isso deixou Lily sentimental também, aí nós duas começamos a chorar juntas. Foi lindo.

Demoramos no abraço, não paramos de dizer o quanto nos amávamos, meio que histericamente. Ouvi Scorpius comentar:

– Ela não demorou tanto assim quando foi se despedir de mim.

Há uma diferença entre se despedir do seu melhor amigo que virou namorado, e se despedir da sua prima, que foi sua melhor amiga por todos os anos. Eu lembrava quando ela nasceu.

Ok, não me lembro dos detalhes.

Mas não tenho nenhuma lembrança minha que não tivesse Lily na minha vida.

Mas eu sabia que isso um dia ia acontecer. Apenas não sabia que seria tão depressa.

Finalmente nos soltamos e Lily se virou para Alice.

– Eu não quis dizer aquelas coisas.

– O quê?

– Sobre bebês. Vocês deveriam ter mesmo. James vai ser um grande pai. E se eu não estiver com vocês no momento em que encontrarem um perfeito Potter... liguem o tablet de vocês e a webcam. Não vamos chorar, estamos num mundo globalizado.

– Tchau, Lily – sorriu James, com um abraço bem dado. – Não vá criar problemas por lá, hein?

– Até parece que não me conhece, Jay.

Quando ela chegou no Al, apontou o dedo pra ele:

– Vê se arruma logo uma nova namorada ou vão achar que você é gay. Não que eu não apóie, sabe como sou simpatizante.

– Eu também te amo, Lily – disse Albus girando os olhos, enquanto dávamos risadas.

Depois de se despedir de todos os outros familiares que a acompanharam para o aeroporto, Lily deu aquela digna viradinha de rosto, uma última olhadinha no ombro, para seguir com o seu grupo da faculdade para dentro do avião. Desejei boa sorte para ela. Lily merecia.

Eu teria ficado desanimada nas próximas semanas, mas não era como se Lily não tivesse facebook. Atualizava seus status quase toda hora. Não dava nem tempo de sentir saudade dela. Resumo de sua primeira semana: exótico. Especialmente as comidas. Lily só estava tirando foto de comidas. Até parece que o documentário que ela estava fazendo era sobre as comidas de lá.

Mas também tive mais tempo com os preparos para sairmos de Londres. Recebi ao menos cinco visitas das pessoas que estavam interessadas em comprar o apartamento, sendo que Scorpius já havia comprado um para nós em Liverpool.

– Eu nunca podia imaginar que mudar seria tão exaustivo – comentei com Scorpius durante a noite, enquanto tentava responder aos cinco concorrentes que queriam o apartamento, pelo chat do facebook. – É sério, eles estão quase criando uma guerra e o apartamento nem é tão bom!

– Nem é tão bom? Você não tem nem ideia, Rose. A vista que você tem aqui é incrível.

Ele estava observando pela sacada. Eu me levantei do sofá para ficar ao lado dele, passando um braço em suas costas e observar o mesmo que ele observava.

– Está tentando achar a mulher que tira a o biquíni toda sexta-feira a tarde, não está?

– Será que ela se mudou? – apertou os olhos. E sorriu quando eu dei um tapa nele. – Estou só brincando! Juro que não aparecia no seu apartamento só para ver a safada do outro prédio.

– Ah, jura?

– Juro. Era totalmente para transar com ela também.

– Já estou vendo que vamos durar tantos anos juntos – falei sarcasticamente. Franzi a testa quando comecei a reparar. – Uou, eles são enormes.

– Insistia que eram naturais ainda, dá pra acreditar?

– São totalmente falsos. Aposto que se espetar os peitos dela com uma agulha... vão estourar na hora.

– Não é uma imagem excitante. Eu gosto mais dos seus – ele disse com consideração.

– Isso significa muito, obrigada, Scorpius – dei um beijo nele, rindo.

– Ei – ele disse agora sério. – Que acha de passarmos nossa última noite aqui... com cerveja e pizza? Celebrar os velhos tempos.

– Cerveja e pizza – concordei.

– E sexo. Depois.

– Com certeza.

Sentamos juntos na cadeira de piscina quando a pizza chegou, olhando para o céu de Londres e abrindo várias cervejas.

– Ah, isso é como a Noite dos Caras. Só que sem os caras – ele acrescentou. – E sim com a garota da minha vida.

Beijou-me na testa e eu estava sentindo seu cheiro tão bom.

– Scorpius, – eu disse brincando com o selo da garrafa de cerveja –, como você imagina sua despedida de solteiro?

– Boa pergunta, Rose. Eu imagino todas essas strippers fazendo um incrível Lap Dance no Albus. Ele está precisando depois de tudo. O cara tem medo de transar de novo, Rose, e isso é preocupante – explicou.

– Muito considerável da sua parte – eu admiti.

– Você confia em mim? – ele quis saber, enrolando um pedaço do meu cabelo nos dedos.

– Sim, confio – eu respondi sem hesitar. – Não estaríamos aqui depois de vinte anos se eu não confiasse em você, certo?

– Mesmo depois de tudo o que eu aprontei?

– Você não agia assim porque era um cara desconfiável, acho – eu disse baixinho. Tirei a conclusão naquele momento. – Você só não tinha certeza do que queria.

– Agora eu tenho.

Ergui minha cabeça para encarar os olhos cinzas dele. Não sorrimos, porque de alguma forma aquilo ficou bem sério. Meu coração estava palpitando, praticamente quase saindo pela boca, junto com aquelas palavra:

– Você vai me pedir em casamento de novo. Meu Deus, você tem uma expressão específica quando vai me pedir em casamento.

– Tenho?

– Sim! É sexy. É tipo "não quero só transar com você, quero te ver usando um anel nesse dedo". E, sim, Scorpius, coloca logo o anel no meu dedo.

Sua expressão era uma mistura de riso e seriedade.

– O olhar que você viu é o olhar de "eu vou te dar um beijo e vamos transar na sacada", pra falar a verdade. Mas pode ser traduzido para esse também – vasculhou o bolso e tirou a mesma caixinha que vi há semanas atrás.

Eu coloquei as mãos na boca.

– Está acontecendo.

– É, está acontecendo. Quer que eu fique de joelhos? – ele perguntou.

– Não – eu disse depressa. – Eu não preciso de um conto de fadas ou tradições. Eu só preciso disso. Meu melhor amigo, a sacada que sempre ficamos juntos e... Londres. É perfeito para mim e não precisa de fogos de artifícios ou uma música para ser romântico. Precisa ser verdadeiro e eu sei que com você, Scorpius, tudo foi verdadeiro.

Ele segurou minha mão e colocou o anel em meu dedo. Pesava inúmeras lembranças divertidas, tristes e dramáticas. Pesava os anos que tivemos e os que iríamos ter.

Eu jurei a mim mesma que eu não ia chorar em momentos como esses, porque era ridículo, mas acho que só quando você realmente passa por esse momento, você começa a morder sua própria língua com todas as coisas que você prometeu não fazer.

E depois de vários anos eu fiz Scorpius morder a dele.


NA: No primeiro capítulo, Scorpius disse: "Ei, lembra o que você disse sobre eu arrumar uma garota que me fizesse morder a língua com todas as coisas que penso sobre relacionamentos?"

E aqui estamos.

O final de No You Boys Never Know está acontecendo.

Já disse muitas vezes que a fanfic estava chegando ao final, mas na verdade eu nunca tive certeza. É bem difícil chegar numa nota final dos últimos capítulos para dizer: ei, esse é o último ou o penúltimo. Principalmente depois de tanto tempo. É, foram mais de dois anos. Empaquei muitas vezes, sim, mas eu nunca tive vontade de abandoná-la, eu só queria ter um tempo para pensar em novas histórias.

Eu quero finalizar No You Boys, e não deixá-la parada como eu fiz por alguns meses. Acho que a melhor forma de fazer isso é mostrando que os personagens vão seguir caminhos diferentes. É um daqueles momentos em que você, autor, precisa terminar e deixar com que os leitores imaginem o final. O que vai acontecer com a Lily, será que ela vai voltar porque seu trabalho não vai dar certo? Como ela e o Hugo viverão? Como Alice e James vão conviver com a chegada de um filho? Scorpius e Rose serão felizes para sempre?

Só não digo que a fanfic acabou com esse capítulo,

porque estou preparando um epílogo.

preparem-se comigo e comentem!