N.A.: Um capítulo mais light. Lelê é um doce nordestino de milho, é bem legal. E quero ver quam acerta quem deixou o dinheiro pra Sarinha na mesinha!
Beijos a todos.
CAPÍTULO 24 - Sinto sua falta...
Sara pensou que não conseguiria chegar ao refeitório. Todo seu corpo doía e tremia e parecia que pisava em agulhas. Chegou cambaleando ao trabalho e foi alvo de olhares desconfiados.
- Andou bebendo? - Perguntou Amir.
- Não... Primeiro dia de treino... - Respondeu ela.
- Oh, seu mestre te esfolou hein? - Ria Benir.
- Mais ou menos...
- Deixe de conversa e vamos começar logo. Daqui a pouco os mortos de fome aparecem. - Completou Omir. E iniciaram suas tarefas.
As aulas durante o resto da manhã ocorreram num ritmo lento, a morena fazia um esforço tremendo para se concentrar. A hora do recreio foi uma festa, todos adoraram o lelê, quitute doce feito de milho que tinha levado. Quando retornou ao Santuário tinha a sensação de que havia levado uma surra com cabo de vassoura. "É só uma questão de costume, só uma questão de costume. Vai virar rotina.", pensava, tentando elevar seu ânimo. Ao passar pela casa de Áries porém seu coração voltou a doer. Decidiu que com ou sem proibição iria falar com Kiki.
Deu a volta no templo, aproximou-se sorrateira da janela que julgava ser de seu quarto e olhou para dentro. A visão que teve deixou-a paralisada e boquiaberta. Ugo estava apenas de cueca levantando pesos. Já devia estar fazendo aquilo há algum tempo pois seu corpo tinha uma fina camada de suor. Ficou vendo o italiano se exercitar distraída que só notou a situação perigosa em que se encontrava quando algo estalou próximo.
- Quem está aí? Apareça! - Era a voz de Mu e vinha em sua direção.
Sem pensar a brasileira escancarou a janela do colega e pulou dentro, fechando-a em seguida.
- O que está fazendo aqui, Daniel? - Perguntou o aprendiz irritado.
- Shh! Seu mestre vai me descobrir... - Respondeu ela olhando para fora. Áries não se dera por satisfeito e continuava sua procura pelo intruso. - Onde posso me esconder?
- Esconder? Está louco! E mesmo que eu te ajude, meu mestre virá aqui e vai me obrigar a mostrar todos os lugares possíveis.
- Ele sabe que está em casa?
- Não, ele chegou agora, não nos encontramos ainda.
- Maravilha! - Sorriu a garota, vendo que o cavaleiro se aproximava da janela do quarto.
- Por qu... - O rapaz não pôde completar a pergunta pois foi puxado para um armário e fechado lá dentro, com a garota em seus braços.
- Quieto, ele veio pra cá. - Sussurrou. Ugo ainda tentou falar algo mas teve a boca tapada. A morena agora prestava atenção nos sons vindos de fora. Nem notou que o espaço apertado e cheio de roupas fazia com seus corpos se colassem mais.
O garoto começou a suar mais, além do abafado local a pressão de seu colega sobre seu tórax estava deixando-o confuso e excitado. Teve que fazer um tremendo esforço para não cometer um ato impensado.
Percebendo que o perigo passara, Sara abriu a porta e pulou fora do cubículo, o cabelo grudado na face deixando-a ainda mais bonita. Reparou que o colega tinha as bochechas muito vermelhas e evitava olhá-la.
- Obrigado, Ugo.
- De nada... - Retorquiu atrevendo-se a mirar seu rosto. "E não é que se parece mesmo com uma garota? Talvez Damien e Adonis não sejam tão loucos assim...", pensou intrigado. Afastou os cabelos dela da testa e os colocou atrás da orelha, fazendo-a corar. "É, talvez... Vamos tirar a prova...". E segurando-lhe os ombros para que não fugisse aproximou as bocas. Ia conseguir seu intento se um barulho na porta não tivesse desviado sua atenção.
- Ugo, está aí? - Os dois aprendizes se olharam desesperados, ela pensando que seria trucidada por estar ali e ele por estar naquela situação constrangedora com outro homem. Num segundo a menina havia se enfiado embaixo da cama, exatamente antes do cavaleiro de ouro adentrar o quarto. - Por que não me respondeu? E essa roupa?
- E-eu estava me exercitando mestre. - Disse mostrando os pesos no chão.
- Bom, continue assim. Viu por acaso alguém rondando o templo?
- Não, ninguém.
- Certo, acho que estou ficando paranóico... - Suspirou Mu. - Vou para o ginásio, o aguardo lá. - E saiu. Esperaram ainda alguns minutos para terem certeza de sua partida e a garota saiu de seu esconderijo.
- Obrigado Athena! - Rezou ela e olhou o amigo. - Melhor se trocar não?
- Ah é... O que pretende agora?
- Ora, ver o Kiki! Tchauzinho! - E se despediu sorrindo, deixando o colega desolado.
Procurou pela casa até chegar ao quarto do pequeno. Este estava sentado numa cadeira, olhando através da janela, uma expressão de tristeza na face.
- Tudo isso é saudade? - Perguntou ao entrar.
- Daniel! - Ele pulou e correu para os braços abertos da menina ajoelhada, que o abraçou forte. - Senti tanto sua falta. - Começando a chorar no ombro dela.
- Não fique assim, homens não devem demonstrar fraqueza...
- Mas tava com medo de nunca mais te ver...
- E quem disse que ia te esquecer? Sabe que não faria isso. Agora seja firme e me dê aquele sorriso! - Pediu beijando-lhe as bochechas. O ruivo sorriu e ela limpou-lhe o rosto. A ausência do pequeno era um duro baque já que era o único que a apoiava. Queria vê-lo todos os dias e até dar aulas com as outras crianças mas vistas as circunstâncias não seria possível ainda. - Kiki, assim que puder venho te buscar. Não sabe quanto sinto falta dessas pintinhas. - Brincou.
- E eu de seus olhos... - Murmurou acariciando as pálpebras fechadas para receber o carinho. Deixaram-se matar as saudades por mais algum tempo até que ela falou, triste:
- Tenho que ir, meu amor. Vou treinar.
- Dohko tá aqui?
- Não, seu mestre me levou até a China e ele me passou um treinamento para eu fazer aqui. E não é nada fácil!
- Você vai se sair bem, é a pessoa mais forte que conheço!
- Mesmo? Que bom ouvir isso. Agora tenho que partir, desculpe...
- Vai não... - Pediu o menino com os olhos marejados.
- Vamos fazer assim, para que não pense que te esqueci, sempre que eu vier te ver vou deixar uma flor plantada embaixo de sua janela. E logo teremos um jardim enorme! - Exagerou abrindo bem os braços e fazendo-o rir.
- Vou olhar todos os dias!
- Até breve então, Kiki. - E surpreendeu-o com um selinho. O ruivo corou de imediato e sentiu-se tão quente que poderia ferver de vergonha. Abraçou-a com força e pediu que tivesse cuidado, não suportaria vê-la sofrendo de novo. Ela então partiu, deixando no coração infantil um sentimento novo: um amor de mãe.
