Capítulo 25
O tio escreveu assim que chegou a Londres, dizendo que Mr. Bennet estava com ele no Cheapside, e as buscam continuavam sem sucesso. Dizia ainda que Mr. Bennet estava quase aceitando voltar para Longbourn.
A verdade era que o espírito de Mr. Bennet não era voltado para a ação. Sua vida era estar em sua biblioteca ou no jardim, com seus livros e suas flores. O ímpeto que o lançou a busca de Claire foi motivado pela raiva de ter sido ludibriado em sua calma ilusão de ter ensinado a Claire uma lição de insignificância. Agora que a ira tinha se desvanecido, o que ele mais queria era voltar para casa e deixar tudo a cargo do irmão. Ficou combinado então que Mr. Bennet voltaria para casa, autorizando Mr. Gardiner a falar em nome dele para qualquer tipo de acordo, e Mrs. Gardiner aproveitaria para voltar a Londres. Em dois dias, Mr. Bennet estava de volta a casa, e Mrs. Gardiner partia.
Mrs. Bennet não saia da cama para nada. Suas refeições eram servidas no quarto, e ela se lamentava dia e noite, alternando falas raivosas dirigidas contra Wickham e a filha com lamentações pela "pobre Claire". Mr. Bennet, irritado com a rotina estafante das duas filhas mais velhas ocupadas em cuidar da casa, da mãe e das irmãs mais novas, disse um dia na mesa do café:
- Da próxima vez que alguma de vocês resolver fugir, vou colocar meu pijama e minha touca e vou passar os dias na cama dando trabalho a todo mundo.
Ao que Lizzy respondeu:
- Você acha que uma de nós faria isso papá?
- Não farão por que agora não terão oportunidade. E você, Lizzy, será a mais prejudicada. Só sairá de casa acompanhada de uma de suas irmãs mais velhas, e mesmo assim só para ir a Meryton e somente uma vez por semana. Bailes, só se eu e sua mãe comparecermos e não dançará nem uma valsa. E principalmente, nada de oficiais! Se você for uma boa menina, em quinze anos eu a levarei para ver um desfile!
Lizzy, que acreditou no pai, saiu da mesa aos prantos.
Nesse meio tempo, receberam uma carta de Mr. Locke, contando as novidades sobre o jardim, sobre a casa, sobre os paroquianos, e contendo uma dura reprimenda pela situação em que a família se encontrava com a fuga de Claire, apesar de esta ser uma situação já esperada, pelas informações que sua cara Charlote tinha dado sobre o comportamento da moça em questão. Lembrava que ele poderia estar agora envolvido em tal escândalo, e exortava Mr. Bennet a nunca mais receber sob seu teto os fugitivos e a banir a filha de sua convivência, renegando-a e excluindo-a da herança a que teria direito, no que era firmemente apoiado por Lady de Bourgh, a quem tinha exposto todo o caso.
Lendo a carta para Kate, Mr. Bennet comentou:
- Detesto escrever, mas por nada neste mundo deixaria de me corresponder com Mr. Locke. Ele me diverte imensamente. E veja sua noção do perdão cristão, sugerindo que eu renegue minha própria filha!
Passaram-se mais alguns dias sem novidades, até que o expresso parou a porta dos Bennet. Kate e Jane, que voltavam de um rápido passeio pelo jardim, entraram em casa correndo atrás do pai, sendo informadas que ele estava no pequeno bosque atrás da casa. Novamente saíram correndo, encontrando o pai com uma carta na mão. Kate, que era mais rápida que a irmã, chegou ao pai antes e o abordou:
- Papá, o que aconteceu? A carta é de meu tio? O que diz?
- Sim, a carta é de meu irmão, mas não sei o que diz, porque ainda não abri.
Jane, que acabava de chegar, estava ansiosa:
- O que está esperando papá? Podem ser boas noticias!
- Kate, pode abrir e ler se quiser.
Kate tomou a carta das mãos do pai, e sentiu que havia novidades, pois o envelope estava cheio. Quebrou o lacre e leu o seguinte:
"Londres, 09 da manhã
Caro irmão,
Escrevo para lhe trazer novidades. Depois de muitas buscas infrutíferas, encontrei-os. Eles estavam o tempo todo em Londres, estão juntos e bem."
Jane exclamou:
- Que bom! Eles estão casados!
"Eles não estão casados, e não encontrei em nenhum dos dois inclinação para tal. Depois de alugarem um coche na estrada de Brighton, o dinheiro que tinham quase acabou, e eles só puderam alugar um pequeno quarto numa hospedaria barata, de onde não saiam em nenhum momento, com medo de serem apanhados.
Conversei rapidamente com Claire e ela estava absolutamente convencida de quê seu lugar era ao lado de Wickham. Foi dificílimo tirá-la da hospedaria, mas agora ela já está em minha casa, de onde não tem permissão de sair sob pretexto algum.
Já com Wickham, conversei longamente por duas vezes. Na primeira conversa, não obtive dele mais que evasivas e a plena certeza de que não se casaria com Claire, já que ele ainda tinha esperança de fazer fortuna pelo casamento. Na nossa segunda conversa deixei claro que Claire não estava desamparada e que a família dela exigia uma reparação rápida para os danos causados a reputação dela, e das irmãs por conseqüência. Depois de muito negociar, fiz um acordo com ele em seu nome, como estava autorizado.
O acordo foi o seguinte: Claire receberá a parte que lhe cabe na herança agora, e que remonta a mil libras, além de uma mesada de cem libras por ano enquanto você ou minha cunhada estejam vivos. As dívidas que ele tem em Meryton, Brighton e Londres devem ser saldadas, o que pelos cálculos dele chega a três mil libras. Eles precisam de um lugar para morar e Wickham almeja uma posição no exército regular e para isso precisa de dinheiro também. Aceitei todas estas condições em seu nome, só espero seu aval para dar andamento aos papéis do casamento, e não quero ouvir falar em reembolso. Aceite isso como um presente de casamento para minha sobrinha, apesar de saber que ela não merece. A única coisa que peço é que você os receba em sua casa após o casamento. Darei mais detalhes na próxima carta.
Atenciosamente, seu querido irmão
E. Gardiner."
Os três ficaram em silêncio, absorvendo a notícia. Foi Jane quem quebrou o silêncio:
- Papá, o senhor vai aceitar o acordo não?
- Sim, que jeito há.
- Então escreva rápido papá! Quer que eu escreva para o senhor, sei que o senhor não gosta de escrever.
- E não gosto, mas esta carta é minha obrigação. Seu tio deve ter ficado muito endividado para honrar este acordo.
- Endividado como, meu pai? Pelas contas que fiz, não se gastarão mais que cinco mil libras agora. E cem libras por ano não é muito.
Kate resolveu falar:
- Minha querida Jane, você acha que um homem como Wickham aceitaria se casar com Claire por menos de quinze mil libras?
- Quinze mil libras?
Mr. Bennet suspirou e disse:
- Se ele aceitasse por menos, eu já teria que começar nossas relações desconfiando da inteligência de meu genro. E logicamente que terei de repor ao meu irmão cada centavo. Agora, devo escrever dando meu consentimento a tudo isso.
Jane então se lembrou da mãe:
- Mamã não sabe de nada ainda. Podemos contar a ela?
- Claro, e levem a carta com vocês.
Kate e Jane subiram e leram a carta para Mrs. Bennet. A mudança em seu rosto foi rápida e visível. Abriu um sorriso e sua felicidade não encontrou limites:
- Claire, casada! Minha linda Claire casada, e aos quinze anos! Oh que mundo maravilhoso, uma filha casada. Lizzy, me ajude a levantar. Quanto será que seu pai vai dar a ela para o enxoval? Preciso escrever a ela agora, exigindo que ela não compre nada antes que eu possa indicar quais são as melhores lojas. Hill, suba aqui, cumprimente as meninas, Miss Claire vai se casar. Oh, você terá que fazer uma jarra de ponche para o casamento dela, e eles terão que se casar com uma licença especial, faço questão.
Rapidamente, ela se levantou da cama, vestiu um roupão por cima da camisola, e com os cabelos desfeitos, foi descendo as escadas para falar com Mr. Bennet. Kate a abordou:
- Só importa que ela se case mamã? Não vê como ela está fazendo isso?
- Kate, não me amole. Quando você tiver cinco filhas crescidas, é só nisso que vai pensar.
E desceu as escadas, sem prestar na atenção na resposta de Kate:
- Você não o conhece.
