Capítulo 25 – Despertar
O dia seguiu em uma aparente calma. Como a batalha fora desgastante para ambos os lados, a paz parecia reinar nas ruas e nas localidades adjacentes. Kasbeel, gravemente ferido, adiou os planos de pulverizar Dacota do Sul inteira; precisava, acima de tudo, descansar e, em seguida, se reunir com Rafael, para definirem juntos os próximos passos a serem dados. O certo é que, para prosseguirem com a rebelião, os desertores deveriam tirar Cass de cena o mais cedo possível. Tornara-se, portanto, uma questão de honra e de extrema urgência pegar o corpo de Jimmy Novak e, assim, se vingar de Dean pela morte de Zacharias – porque prometera a si mesmo que o faria.
Quanto aos Winchester's, apenas saíram para comprar comida suficiente para quatro dias; queriam permanecer na residência de Bobby, pois tinham muito a esclarecer. E, além do mais, os irmãos sabiam que os inimigos tornariam a atacá-los.
– Ao menos pudemos retardar o caos – comentou Dean ao mais novo, assim que terminou de comer outro hambúrguer.
– É, isso é bom, em parte; poderemos nos preparar melhor.
– E vocês têm alguma idéia de como? – perguntou, aflito, o caçador mais velho.
Os rapazes se entreolharam. Não sabiam o que responder ao mais experiente. Eles desejavam ter algo em mente para falar, porém foi Azrael quem se pronunciou:
– Deixaremos que venham, nos expor agora seria fatal.
– Tem certeza disso? Talvez possamos...
– Possamos o que, Robert? – o outro temeu prosseguir com o raciocínio; a voz do anjo era tão firme, que o assustou por alguns instantes. Como, entretanto, já entendera que o irmão de Cass era severo assim quase sempre, comentou:
– Bem, temos Sam aqui. Ele pode aniquilar o líder da coisa toda... Certo? – todos assentiram. – Então por que não vamos até eles?
– Porque não pretendo perder Sammy de vista – respondeu Samael, que surgira repentinamente, por detrás dos Winchester's, que tiveram um sobressalto. – Desculpem-me pelo susto, é que ouvi vocês a conversar e...
– Ta tudo certo – tranqüilizou Dean, preocupado com o novo amigo.
– Você está bem? – perguntou o Winchester mais jovem. O ex-rebelde fez um gesto afirmativo com a cabeça e quis saber:
– Onde está Castiel?
– No quarto, descansa agora – informou Azrael.
– Como ele ficou ao não saber... – parou a questão; a batalha fora tão intensa, que mal se recordara se o irmão do anjo se encontrava ali quando o segredo quase fora revelado.
– Como reagiu ao... Ao não saber da verdade? Bem, demonstrou grande pânico. Esperava que você fosse contar, mas compreendeu que, por estar muito ferido, não pôde fazê-lo. A muito custo o fiz adormecer – esclareceu, após sentar em uma cadeira, Azrael.
– Eu lamento por tudo isso, não desejava que o ser mais puro que conheci em anos de luminescência se mostrasse tão frágil...
– Não quero ser chato – interrompeu o loiro. – Primeiro... Peço que se acomode em uma cadeira ou até mesmo no sofá; ainda está machucado e, francamente, não esperávamos que despertasse com tanta rapidez. E, depois... Precisamos que nos relate tudo...
– Dean! – exclamou Sam, como se quisesse lhe indicar que não era uma boa hora para tocar no assunto.
– Ta tudo ok, Sammy, eu entendo perfeitamente... – fez uma pausa e baixou a cabeça. – Seu irmão tem toda razão.
– É... Posso até estar certo... Mas não precisa se encolher desse jeito, falô? Só queremos saber exatamente o que houve, para poder ajudar melhor.
– Eu sei, não é de vocês que eu tenho medo – e lançou um olhar a Azrael.
– É de mim? Por quê?
– Parece que é porque você tem essa pinta de brigão, cara – comentou, em uma brincadeira, o mais velho dos Winchester's.
– É, faz sentido – concluiu, com um breve sorriso, o irmão de Cass. – Mas, acredite, por pior que seja a verdade, não ficarei furioso; como já foi dito aqui, necessitamos saber... Acalme-se e nos conte tudo; a porta do quarto onde Cass está foi trancada por mim; as janelas também. Fiz inúmeros selos de segurança; os inimigos não se atreverão a adentrar a casa de Robert Singer, porque há várias armadilhas; portanto, fique à vontade.
Atônito frente à tamanha receptividade por parte de todos que ali se encontravam, Samael suspirou e se levantou. Começou a andar de um lado para o outro, o que quase fez com que Sam protestasse; antes que o rapaz dissesse algo, contudo, o ex-rebelde se retirou; foi ao quarto onde antes dormia, pegou sua arma de guerra, voltou à sala e tornou a sentar. O nervosismo dele era evidente. Embora todos tentassem deixá-lo tranqüilo, aquilo parecia improvável. Ele, porém, chegou a uma conclusão óbvia que, para si, era um tanto desafiadora:
– "Ou falo agora, ou nunca mais..." – e tomou fôlego para iniciar.
– Tudo começou em um dia lindo. Talvez seja redundante dizer isso, pois me refiro a um lugar sagrado, mas aquele Ciclo... O que significa cem dias para vocês, era mais sublime do que os anteriores. Eu não sabia direito o porquê, até que compreendi. Retomaria os trabalhos no mundo celeste após alguns longos meses de recuperação; eu estava em uma missão desgastante em outro lugar, por isso não retomei, de imediato, minhas tarefas na casa ... dEle... – engoliu em seco e continuou: – ... Sentia-me ansioso por voltar a treiná-los...
– Quem? – perguntou o loiro, interrompendo-o.
– Os anjos... Eu era o encarregado de treiná-los. Eu era o dono do exército... o Miguel estava um posto acima. Mas enfim, prosseguindo... Como passei muito tempo fora, não tinha a mínima idéia de como tudo se encontrava por lá. Qual não foi minha surpresa ao avistá-lo no novo grupo que eu orientaria... Castiel, com seu olhar meigo e gentil. Eu o educara, por dois meses, quando ainda era um bebê, mas depois Azrael o auxiliou. E, como teve missões fora do Céu também, não pôde continuar a ensiná-lo, não é? – o irmão assentiu. – Pois bem, por isso ele entrou para o exército angelical.
– Foi... Por esse motivo? – perguntou o ser celeste.
– Sim... Foi o que Cass me disse – esclareceu, retomando a palavra. – Eu não o via há muito, e nunca o tive como um filho; isso era uma exclusividade dEle... Não cabia a nós. E desde aquele dia eu... Eu... – gaguejou um pouco e disse: – Comecei a sentir coisas estranhas.
– Como assim? Que tipo de coisas?
– Não acha essa questão muito íntima, Sammy? – brincou o irmão.
– Cale a boca Dean! Eu só penso que temos de saber de tudo...
– Ei, fiquem quietos – pediu Bobby.
– Bem, eu não podia vê-lo. Era uma torrente inexplicável de sensações, não podia, sequer, dominar tudo que sentia. E tinha de manter as aparências, para que não desconfiassem... Por mais que os anjos não tivessem experiências amorosas, não queria que descobrissem algo que era único para mim.
– E o que você fez? – questionou o dono da casa.
– Fui pedir auxílio a ... Ele. Mas Deus estava ocupado para me prestar qualquer tipo de ajuda. Disse-me que, como já era grande, poderia cuidar de meus assuntos pessoais sozinho.
– E então foi isso que você fez, só que resolveu cuidar desses assuntos acompanhado, não é, espertalhão? – comentou o loiro, em outra brincadeira.
– É – admitiu sorrindo. – Notei que Cass também não me olhava nos olhos, o que despertou minha curiosidade. Como nenhum dos anjos tinha treino comigo no início do próximo Ciclo, solicitei a ele que viesse ao meu encontro, e que estivesse sozinho.
– E a partir daí, o que houve? – quis saber Azrael.
– Conversamos bastante. Perguntei-lhe o porquê de não me encarar; seu irmão corou, como nunca o vi fazer antes e baixou a cabeça... Pedi-lhe que ficasse calmo, afinal de contas, não faria nada para feri-lo. Ele falou que confiava em mim, mas que temia fazer algo indevido... Questionou-me sobre ser certo ou não o que pensava. Quando lhe perguntei o que era, não me respondeu com palavras; Cass me beijou. E foi ali que percebi quão seria difícil tornar a treiná-lo junto com os outros.
– É, fui informado, após a sua expulsão, de que você não instruía mais meu irmão com a turma – comentou o ser celeste.
– Exato. Passamos, então, a nos encontrar em locais secretos. Havia recantos do Céu que não eram habitados por quaisquer criaturas; lá, portanto, poderíamos nos ver, e eu o treinava em separado. Quanto a nós em específico... Não nos atrevíamos, contudo, a maiores investidas em um solo sagrado como aquele; limitávamo-nos a ficar próximos, a trocar alguns beijos. Os outros, principalmente Rafael, desconfiavam de nossa conduta, o que não nos abalou. Quando descobri o planeta que depois seria chamado de Terra, minha felicidade se tornou completa; teria para onde levá-lo, teria como consumar o que sentíamos um pelo outro.
– E foi como procedeu?
– Sem dúvida, Robert – respondeu. – Aqui pude instruí-lo a ser um bom soldado, a se tornar um servo de Deus, a crer na palavra dEle, ainda que a revolta já crescesse dentro de mim.
– Por que fez isso, se já estava descontente? – questionou Dean.
– Porque o amava demais; não queria para ele o que certamente ocorreria comigo.
– E como a relação de vocês dois foi descoberta?
– Fomos seguidos pelo Arcanjo metido, Sammy, foi ele que nos viu juntos. E comentou com Miguel a situação. Como a Terra já estava destinada ao homem, tomaram minha relação com Cass como algo pecaminoso e me expulsaram. Ciclos depois, voltei ao Céu e iniciei a famosa batalha que os humanos conhecem.
– Ah! Agora entendemos – comentaram todos. – Mas você não soube do que fizeram com a memória dele? – perguntou Azrael.
– Sim, só muito tempo depois. Em uma luta contra um pequeno contingente de anjos, fui informado por Rafael. E, séculos após essa batalha, tive de enfrentar Cass.
– Nossa, deve ter sido um golpe muito duro pra você, não? – Dean proferira tais palavras em um tom bastante calmo, o que surpreendeu o ex-rebelde; acostumara-se a ver o Winchester mais velho utilizar um jeito firme de se pronunciar; aquilo era novo para o anjo.
– Sim, claro. Eu não duelei contra ele. Apenas o observei, não tive reação alguma... E não lhe falei nada, porque sabia que não adiantaria...
– Espere aí que não entendo... Por que, então, quis matá-lo quando Jô e Helen morreram na maldita explosão? – questionou o caçador mais velho. – E pior ainda... Por que o fez quando dominou Sam?
– Nunca pretendi aniquilar aquele que me fazia sentir tudo de novo – iniciou, com lágrimas nos olhos. – Eu só estava tão obcecado pela missão equivocada de destroçar com a Terra e com vocês humanos... Não me dei por conta de que o machucava... E foi somente no Inferno que percebi o quão infantil fui, e irresponsável também... Feri o dono do mais belo e límpido par de olhos celestes – Lúcifer engoliu em seco e prendeu a espada à cintura; estivera, por todo o tenso diálogo, segurando-a.
– Por isso permanecia dias em silêncio? – o jovem caçador se recordara de quando Samael se mantinha distante.
– Exato. Eu queria refletir sobre minha existência angelical, queria verificar se havia algo de bom em mim... Por isso, e por tantas outras coisas, que disse que somos semelhantes, Sammy – o mais novo corou.
– Bem, agora que entendemos tudo, e que o anjão ali não ficou tão irritado com você – o loiro apontou para Azrael, embora notasse o constrangimento de Sam. – Por que não contamos tudo para o Cass?
– Preciso pensar, certo? Mas talvez não haja outra saída, não é?
– É – responderam em uníssono.
– Tudo bem então, vou dar uma volta por aí – mentiu, a fim de zelar pela segurança dos amigos. – Preciso esfriar a cabeça.
– Não... Você precisa repousar cara – argumentou Dean.
– Eu sei, mas não vou demorar... Prometo.
– Ei Sam, acho que se você falar será melhor – brincou o irmão, antes, porém, Samael saiu em um bater de asas. Os Winchester's ficaram se encarando, e Bobby disse:
–
Alguém precisa ir atrás dele, garotos! – e os dois foram em direção à porta, para ir até o Impala, pedindo a Azrael que permanecesse por ali.
(...).
O local onde tinha ido não era muito distante da moradia em que estivera antes. Mas, obviamente, não se tratava de um lugar privilegiado, ou com imagens belas. Fora parar em uma rua quase que deserta; só não era vazia de pessoas mortas e de veículos destruídos. O horripilante cenário não o impressionava; como o comandante supremo do Inferno, já vira coisas bem piores. Surpreendeu-se, no entanto, ao observar quem o esperava com a espada em punho.
– Esse não deveria ser o refúgio natural de um Arcanjo, não é, Rafael? – desdenhou, enquanto tirava a espada da cintura.
– Isso não compete a você – bradou, após atingi-lo de raspão no peito.
– Pode ser. E o que quer fazer com Castiel e seu receptáculo... Diz respeito a quem? – desafiou, sem recuar frente ao ataque.
– Certamente não a um sujeito incestuoso... Demônio de merda!
– É o que veremos, criatura pomposa! – e os anjos partiram para um duelo insano e feroz.
O que vai acontecer... Só no próximo capítulo!
