N/A: A música da caixinha do Kurt é LA VIE EN ROSE, cantada pela Cristin Milioti. De verdade, é uma música que expressou totalmente meus sentimentos enquanto eu estava postando esse capítulo! É minha música favorita de todo o mundo, e quero compartilhar com vocês a partir daqui! 3
Blaine estava em seu laptop, procurando casos de cirurgia oculares que deram certo e casos que deram errados. Cinquenta folhas já haviam sido impressas e imprimiria ainda mais. Finn havia o pedido um favor, para que colocasse em papel tudo que sabia sobre a cirurgia de Kurt, para que todos ficassem informados para tomar a decisão juntos, mas o que Blaine temia era que Kurt já tivesse tomado a sua.
– Blaine! - Gritou Katie correndo pra dentro de casa. Seus olhos estavam banhados em lágrimas salgadas, sua leve maquiagem escorria pelas bochechas vermelhas de Katie. Ela parecia desesperada. - Blaine!
O moreno correu até a sala, e ao encontrar a irmã naquele estado apenas a abraçou forte, como sempre fazia. Tinha em mente alguns motivos para isso ter acontecido, mas não poderia perguntar agora. Katie precisava apenas saber que estava segura no momento.
– Shhhh. - Balançava a irmã devagar em um abraço apertado. A cabeça da ruiva descansava na curva do pescoço de Blaine. - Calma, coalinha... Estou aqui e posso esperar o tempo que você quiser.
– Eu quero ir embora. - Ela gritava durante o choro desesperado. Não estava bem, nem um pouco. Seus olhos estavam inchados e seu coração batia forte. Os olhos do médico começaram a se marejar novamente. - Eu quero ir embora daqui. - Ainda gritava chorando.
– Apenas me conte o que aconteceu e te prometo que iremos embora o mais rápido possível, Katie. - Afagava as costas da irmã, a deixando em um lugar seguro.
– Mark está com outra, e... e papai e mamãe foram embora. - Falou soluçando.
– Como assim embora? - Cerrou os dentes. Sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.
– N-nos encontramos e eles m-me contaram que estavam indo embora. Para nunca mais voltar. M-me contaram que voltar foi um erro, e t-teria sido bem melhor nunca ter voltando a f-falar conosco. - Katie chorava com mais desespero do que antes. - E-eles me abandonaram novamente. T-todos me abandonam. Por quê?
O irmão mais velho apenas abraçou a irmã com força, trazendo-a para seu peito o mais perto possível. Nunca pensou que passaria por aquele sentimento novamente. Desde o primeiro dia soube que não poderia confiar naquelas pessoas novamente, aquelas pessoas sem escrúpulos. Quem em sã consciência faz algo assim?
Olhe para Katie. Uma mulher tão linda e independente. Em um dia havia perdido o namorado e os pais. Blaine não poderia deixar a mais nova sentir que havia perdido o irmão também. Apenas a abraçou e em alguns minutos Katie estava cochilando sobre seus braços. Deixou uma mensagem na secretária para a irmã, e saiu de casa. Havia prometido levar um amigo ao aeroporto.
Blaine dirigiu pra longe do aeroporto, apenas se lembrando do enorme sorriso estampado no rosto de Sebastian. Se viu naquele pobre garoto, com os olhos brilhantes de tanta esperança e sonhos. Blaine suspirou e pegou a via rápida até sua casa. Tomaria um banho, colocaria seu jaleco no armário para tirá-lo de lá apenas após as festas. O natal chegava, o frio aumentava e Blaine ao sair de casa sentiu falta de seu casaco de couro e seu cachecol que havia ficado na casa de Kurt.
Seu carro seguiu até a loja de lembranças mais próximas e escolheu uma pequena caixinha de música prateada, e ao abri-la La Vie en Rose tomava conta do local em uma melodia calma e viciante, diferente da de Louis Armstrong. Por dentro, era revestida por um veludo bordô, dando charme à pequena caixinha. Antes de seguir para a casa de Kurt, Blaine passou novamente em sua "mansão" pegar os restos do presente.
[...]
– Querido, o que você está fazendo? - Carole passou pela porta do quarto de Kurt, que estava praticamente dentro de seu guarda-roupas, com suas peças todas espalhadas pelo chão. Kurt tinha os cabides em braille nas mãos, mas não conseguia escolher uma roupa bonita o suficiente. Seus olhos vagos estavam banhados em um mar de lágrimas. Carole ao ver a situação do filho correu até o mesmo e o abraçou forte, foi quando Kurt caiu no choro em desespero. - Shhh, shh.. Estou aqui.
E ficaram um tempo ali, abraçados no meio do quarto. Kurt chorou de um jeito que estava esperando chorar há muito tempo. A dor em seu coração era enorme, era como se sua vida nesses últimos meses houvessem entrado em um quarto escuro, e como se todas as paredes estivessem cada vez mais próximas, e Kurt não conseguia mais respirar.
– Shhh. - Carole tinha Kurt nos braços como se fosse seu filho de sangue. E realmente sentia como se fosse. Os braços de Carole o segurando eram a única coisa que Kurt precisava naquele momento. Após um choro desesperado, cheios de soluços e muitas lágrimas, Kurt havia se recuperado e agora apenas tinha a respiração pesada. - Q-quer falar sobre isso, querido?
– Eu estou sentindo que o dia hoje vai ser péssimo. - Kurt disse em um pequeno sorriso, ainda abalado pela crise de choro anterior.
– Por que você acha isso? - Carole finalmente soltou o castanho, que se sentiu com um vazio por dentro. Kurt torceu os lábios e deu de ombros. - Quer ajuda para escolher sua roupa?
– Sim, por favor. - Kurt sorriu e foi abraçado novamente pela madrasta.
– Que tal aquela sua camiseta roxa com aquela sua calça branca?
– Pensando melhor, não quero ajuda... - Kurt falou brincando, levando um tapa leve de Carole. Ambos gargalharam baixo e foram providenciar uma roupa para Kurt vestir.
Kurt não deveria estar tão nervoso em relação ao jantar que ele e Blaine iriam ter, mas seu corpo, de alguma maneira, o dizia para se preparar para o pior. Blaine nesse momento estaria do outro lado da cidade, se preparando para o jantar. O castanho pediu ajuda à Carole, que preparou um risoto vegetariano (porque Kurt sempre falava ao médico para se cuidar na alimentação), e também pediu para que todos da casa se ausentassem por um tempo, que precisava ter uma conversa sadia e madura com Blaine.
Carole, Burt e Finn haviam ido jantar a la Breadstix e Kurt acabou ficando com a casa só para si. Poucos minutos depois o carro de Blaine estacionou ao lado de fora da casa.
O médico mal saiu do carro e suas mãos já tremiam em desespero. Guardou sua chave do carro no bolso do blazer e caminhou até a porta. Em uma das mãos havia uma rosa, branca, a cor da esperança... E em outra havia um embrulho de caixinha. Ao colocar os pés pra fora de casa naquele dia, Blaine sabia que o diria seria uma merda. Sabia desde o princípio, desde que a primeira coisa no dia dera errada, sabia que aquele dia seria um dos piores de sua vida.
Kurt abriu a porta ao ouvir da campainha e Blaine se surpreendeu com o visual do jovem. Nunca havia visto Kurt tão lindo e bem produzido, o que fez o clima ficar ainda pior.
– Oi. - Soltou ele, em um tom triste.
– Oi. - Blaine colocou as duas mãos no rosto do mais jovem e ambos lábios se tocaram levemente, passando a energia negativa de um corpo para o outro.
Blaine entrou na casa de Kurt, o que dias atrás poderia sentir como sua casa. Sabia cada canto daquele lugar, e um simples olhar já quebrava o coração do mais velho. Não era bom com romance, não era bom com drama. Blaine sempre achou que havia nascido sem coração, igual a uma máquina que você liga e desliga quando quer, mas Kurt mudou sua visão. Kurt o fez sentir humano novamente, mas e se Blaine não quisesse se sentir humano?
– Kurt... Eu não consigo fazer isso. - Falou com a garganta seca.
– Podemos pelo menos comer? - O mais novo tinha lágrimas nos olhos, mas era muito orgulhoso para as deixar cair, ou para que sua voz embargasse. De todas as vezes que Blaine viu Kurt chorar, essa era a que mais doía.
A janta aconteceu silenciosamente. Ambos caminharam até a mesa e Blaine ajudou Kurt a se sentar e servir. Comeram em silêncio por quarenta minutos. Quarenta minutos sem trocar uma palavra sequer, e Blaine até se arriscava a olhar para o amado.
– Por favor, fale algo antes que isso me mate sufocado. - Kurt suspirou.
Os olhos de Blaine se encheram de lágrimas ao ver a vida daquele jovem sendo desperdiçada. Estavam há sete, oito meses juntos e haviam tido brigas, é normal de casal, mas nenhuma tão boba e ao mesmo tempo tão séria como essa.
– Eu falei com um oftalmologista de Ohio e... - Kurt iniciou a conversa, mas foi interrompido por um homem de 24 anos cheio de lágrimas nos olhos e com a voz embargada.
– M-me desculpe, Kurt. Mas não posso fingir que está bem quando não está... E-eu... Nunca deveríamos ter feito isso. - Falou rouco.
– O que você...? - Kurt sentiu seu coração se apertar. Aquele era o sentimento que esteve sentindo o dia todo, desde a mensagem de Blaine com um breve "passo na sua casa as oito, precisamos conversar".
– Isso não está mais dando certo. - Kurt sentia que podia morrer a qualquer momento e que pior que aquilo não ficava. Mais então vieram as palavras que mais magoaram o castanho em toda sua vida. - L-liguei mais cedo para o Hospital de Atlanta. Começo a trabalhar lá segunda-feira.
Kurt se sentiu sem chão. O garfo caiu de sua mão e seus olhos que antes seguravam as lágrimas agora não faziam a mesma função. Queria imediatamente acordar daquele pesadelo, queria acordar no peito de Blaine, que quando visse o estado em que Kurt estava iria o abraçar e dizer que estava tudo bem, mas sabia que aquilo estava longe de ser um sonho.
– V-você está terminando comigo na véspera de Natal? - A voz de Kurt saiu quase inaudível. Lágrimas escorriam por seu rosto nesse momento.
Blaine se levantou e caminhou até a porta, com o intuito de ir embora, mas Kurt simplesmente não poderia deixá-lo ir sem o perguntar um motivo. O perguntar por que havia tomado aquela medida.
– E-espera! - Se levantou também. - Isso foi pelas coisas que falei ontem? Se sim, m-me desculpe. Eu nunca... - Foi interrompido.
– Não é por causa disso. - Disse Blaine limpando as lágrimas de suas bochechas.
– Como você pode fazer isso comigo? - Gritou na porta de sua casa, para todos os vizinhos e para quem mais quisesse ouvir. - Você disse que me amava. Você não tem sentimentos? - Kurt estava aos prantos. Não poderia deixar Blaine ir.
Blaine sentiu uma pontada no coração, então deu meia volta e foi até a porta da casa de Kurt, aonde o castanho se sentia perdido, sem mais vontade de viver.
– Comprei uma coisa pra você, de natal. - Entregou o embrulho que estava nas mãos.
Kurt sentiu o embrulho quadrado, uma caixa talvez. E assim que parou de prestar atenção ao namorado, ou ex-namorado, ouviu seus passos até a rua, ouviu Blaine entrar no carro e dar partida. Kurt desesperadamente correu atrás do carro. Blaine saiu dirigindo sem olhar para trás, apenas subiu a rua e desapareceu. Kurt continuava correndo, não sabia para onde ia, não enxergava nada, apenas não podia deixar Blaine ir embora.
Ao correr desastradamente, Kurt acabou tropeçando e caindo na rua lamenta.
– Blaine. - Sussurrou, apertando o embrulho contra si. Mas já era tarde demais, Blaine já havia ido embora.
[...]
– Aquele não é o Kurt?
Disse Finn no meio de uma conversa animada no carro com Carole e Burt. Todos olharam aquele jovem rapaz estirado no meio da rua, em prantos. Burt o levou nos braços até sua casa, mas Kurt se recusou a falar o que havia acontecido. Apenas pediu para ficar sozinho em seu quarto.
Após um banho Kurt sentou na janela de seu quarto e podia ouvir os brindes das outras casas. Era meia-noite, era oficialmente natal. De repente pequenas gotas preencheram o vidro da janela de onde Kurt estava, e a chuva tomava conta da rua. Kurt pegou em suas mãos a caixinha que havia ganhado do ex-namorado e a abriu.
Uma música suave tomou conta do lugar.
Hold me close and hold me fast
The magic spell you cast
This is la vie en rose
Mais algumas lágrimas caíam no rosto do castanho. Seus dedos checaram as coisas que haviam dentro daquela caixinha. O primeiro objeto que Kurt pegou havia sido um caco de vidro, o que o lembrou de como conheceu o namorado. Blaine havia ido embora e havia lhe dado presentes que o faziam lembrar de todos os momentos que passaram juntos, que sacana!
When you kiss me Heaven sighs
And though I close my eyes
I see la vie en rose
Alcançou também um papel pequeno, que em braille dizia Scary Movie 5. Kurt se lembrou do dia que havia ido ao cinema com Blaine, mesmo cego. Lembrou da semana após o filme, em que Blaine só conseguia falar sobre Lindsay Lohan e Charlie Sheen.
When you press me to your heart
I'm in a world apart
A world where roses bloom
Kurt dedilhou a caixinha e pegou o próximo objeto, era algo como um bichinho de pelúcia e pelo tato deduziu que era um panda, o que o fez seu coração doer ainda mais. Kurt havia dado para Blaine aquele pequeno panda. Kurt suspirou. O outro objeto era uma miniatura de carro, o que Blaine havia levado para casa no dia do casamento de Burt.
And when you speak
Angels sing from above
Every day words seem
To turn into love songs
De repente tudo começou a fazer sentido e Kurt percebeu que Blaine não havia lhe dado a caixinha com o intuito de o fazer lembrar, mas sim com o intuito de esquecer. Tudo de Kurt que havia na casa de Blaine, qualquer pedacinho que pudesse lembrar o castanho estava naquela caixa e Blaine estava apenas devolvendo para o dono.
Give your heart and soul to me
And life will always be
La vie en rose
Kurt fechou a caixinha, com lágrimas a escorrerem por seus olhos. Sua vida havia mudado completamente em oito meses, e agora mudaria novamente. Blaine queria que Kurt pegasse todos os momentos passados e jogasse no lixo, sem um motivo sequer. Kurt estava quebrado.
E, ao ouvir todos os vizinhos festejarem o natal, ao ouvir a música natalina vinda da rua e ouvir as gotas da chuva baterem na janela, Kurt nunca se sentiu tão mal. Talvez quando perdera sua mãe, mas agora perdera o namorado. Dezenove anos e duas perdas enormes em sua vida. A vida não é fácil, ou deus estava apenas brincando com o Hummel?
