CAPÍTULO 24 - PRENÚNCIO
"Ela dormiu. Claro que ela dormiu!"
Esta era a justa paga que ele recebia por ter ultrapassado o limite com a notável criatura que o deixou ensandecido de desejo e dolorosamente excitado. Kuon suspirou resignado. Não havia o que fazer além de reconhecer que era providencial que ela praticamente desmaiasse após o orgasmo, já que ele havia esquecido por um segundo, um mísero segundo que ele ainda não deveria possuí-la. Um segundo era tempo suficiente para que ele planejasse despi-la e afundar-se nela.
Removendo cuidadosamente a mão para não acordar Kyoko, Kuon sorriu ao ouvi-la suspirar tranquilamente. Ao menos a noite terminava em contentamento para um dos dois, o que já era muito melhor do que a perspectiva de antes onde eles se separariam pesarosos e confusos para remoerem sozinhos as palavras trocadas. E estando Kyoko feliz, ele também ficava feliz, apesar de agora ele se preocupar com o bem-estar dela assim que ela acordasse na manhã seguinte.
Evitando usar o banheiro da suíte, Kuon silenciosamente se dirigiu ao lavabo. Inevitavelmente cogitou se masturbar ali, mas lhe pareceu errado. Como se ele estivesse ultrapassando um limite ao dar vazão ao próprio desejo reprimido no apartamento da namorada, sem o consentimento desta. Sorriu ironicamente consigo mesmo. Como se ele tivesse se importado com limites alguns minutos antes! Bom, ao menos não tinha ido até o final. "Mas somente porque ela dormiu!", lembrava-o a própria consciência. Agora ele se sentia hipócrita.
Lavou as mãos com certo pesar, pois não queria remover de si os vestígios do que acabara de ocorrer. Logo dispensou a ideia, contudo, ao perceber que nem toda a água e sabão do mundo o fariam esquecer da primeira vez em que ele tocou Kyoko intimamente. "Sim, primeira vez!", era o pensamento que lhe aquecia a alma. Ela apenas começava a ser dele, de todas as maneiras que ele a queria, e inusitadamente parecia a primeira vez para ele também. Porque era: a primeira vez que Kuon tocou intimamente a mulher amada, que diferentemente da outra primeira vez, não ocorreu com curiosidade, estranhamento e um certo didatismo, mas com volúpia, afeto, ternura, desejo, gratidão e realização.
Ao terminar de se recompor, voltou para a sala de estar a fim de buscar o álbum e ir embora, quando a caneta que usara para autografar a foto para Akemi lhe deu a ideia de deixar um bilhete para Kyoko. Seria algo mais pessoal e imediato que uma mensagem de celular, e talvez mais eficiente em impedir que ela passasse o dia (ou dias) em conflito consigo mesma. Já podia até imaginar ela pirando quando acordasse e recordasse os eventos daquela noite. Por isso mesmo ele fora cuidadoso ao não pronunciar uma palavra nem acender a luz do quarto: mantendo tudo exclusivamente no estímulo táctil, ela teria menos em que se concentrar. Ele não teria um gosto, um rosto, um som, somente os dedos dele lhe dizendo o que e como fazer, e se isso ainda fosse demais para ela, poderia convencer a si mesma que tudo não passou de uma ilusão sensorial e ele nunca esteve no quarto dela.
"Eu sou o namorado dela, afinal de contas", pensou com orgulho. Fazia sentido que fosse ele a ensina-la, e conseguia até se convencer que continuava cumprindo a promessa feita ao Taisho, afinal, ele não seria o adulto da relação se deixasse a própria namorada sofrer, sem qualquer assistência, as ânsias que ele provocava nela. "Um homem tem sempre que se responsabilizar pelo que fala e faz", era o que seu pai sempre lhe dizia.
Na falta de papel, pegou o lenço do bolso e pensou no que escrever. Era muito difícil encontrar palavras para descrever o que ele estava pensando e sentindo naquele momento: o quanto ele lamentava por te-la magoado; o quanto ele respeitava a opinião dela, mas continuava acreditando que ele estava agindo corretamente; quão frustrado ele estava por não poder permanecer ali com ela para garantir que ela encararia bem a situação na manhã seguinte; e quão apavorado ele estava dela o considerar um aproveitador de donzelas ingênuas, por mais que agora ele soubesse que ela ficaria furiosa com ele se ele a chamasse assim.
"Você não sabe o quanto me deixaria feliz passar a noite inteira com você. Por favor, nunca se esqueça que eu te amo". Assinou apenas "K" e deixou o apartamento.
Manhã seguinte
Kyoko acordou ao som do despertador sentindo-se estranhamente calma e relaxada. Resmungou o fato de que gostaria de dormir mais cinco minutos (ou horas), até que as lembranças da noite anterior se abateram de uma vez sobre ela: a escolha da foto, a briga, Kuon no quarto dela. A massagem, as mãos entrelaçadas, a aula sensual na qual ele a ensinou a descobrir a si mesma. As mãos dele provocando sensações alucinantes no corpo dela e a avidez com a qual ela correspondeu a cada carícia.
Ela sentiu uma pressão desconfortável e uma constrangedora umidade ao se lembrar das coisas indecentes que eles fizeram. E por mais que Kyoko queimasse de vergonha por admitir, ela ansiava não só por repetir a experiência, como também por aprender mais daquelas deliciosas travessuras.
Kuon não teria se preocupado tanto com Kyoko surtando naquela manhã se soubesse que ela entraria no modo "kouhai exemplar", ávida por deixar seu senpai orgulhoso.
Após se aprontar para mais um dia de trabalho, ela parou de postergar e finalmente verificou qual mensagem Kuon havia lhe enviado naquela manhã, apenas para sentir o estômago afundar ao constatar que ele estava silencioso feito uma tumba, e para piorar havia mudado o status no celular de "disponível" para "ocupado". Ela se perguntou se aquela era a maneira atual de se terminar um relacionamento, mas logo dispensou a ideia: por mais que a ansiedade para se certificar de que eles superariam a discussão da noite anterior começasse a se intensificar e a incutir pensamentos negativos na mente dela, Kyoko não achava plausível que um homem tão bem-educado quanto ele fizesse tal coisa como terminar um relacionamento covardemente.
Enquanto ela lutava contra o pessimismo e pensava no que fazer, avistou o lenço que ele deixou sobre a mesa da sala de estar. Ela leu a mensagem uma, duas, três vezes; e já que era um lenço, ela o usou para a enxugar a furtiva lágrima de alegria que lhe escorria pelo rosto.
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Yashiro nunca viu Ren se comportar de maneira tão estranha: ora suspirava com uma expressão apalermada de puro contentamento, ora mostrava-se inquieto e com uma expressão de profunda concentração em assuntos problemáticos. Ao mesmo tempo em que o agente se sentia compelido a perguntar o que havia acontecido (ou estava acontecendo), temia não saber o que fazer com a resposta, então, no debate interno sobre o que fazer, acabava perdendo tempo e nada fazendo.
Kuon, por sua vez, estava tendo um péssimo dia de trabalho. Não que ele não estivesse nadando a braçadas em cada cena que gravava, mas o fazia em modo automático, usando 100% de experiência e 0% de paixão. Se ele tivesse alguma lembrança do fato, saberia que estava agindo exatamente como quando teve febre e Kyoko conseguiu move-lo e faze-lo trocar de roupa apenas usando frases do script: enquanto sua boca pronunciava as palavras corretamente e seu corpo se movia conforme determinado, sua mente parecia incapaz de esquecer os sons que Kyoko fez na escuridão do quarto. Sua mão direita parecia ter adquirido uma singular memória táctil, já que ele quase podia sentir Kyoko a todo instante, quente, úmida e trêmula.
Ele cogitava, quando chegasse em casa, encher a banheira com gelo e mergulhar nela, já que o banho frio não surtia mais efeito. Nem quando era um adolescente cheio de hormônios nos Estados Unidos ele pensava tanto em sexo, e de uma forma tão pervertida. A Kyoko-chan de sua infância desapareceu completamente de sua mente. No lugar dela, havia uma sereia que despretensiosamente o excitava além dos limites e o impelia a persegui-la como um animal no cio.
Kuon sorriu, um sorriso feroz e carnal que fez Yashiro ruborizar e decidir definitivamente não fazer perguntas, já que decisivamente não saberia o que fazer com a resposta.
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Shoko estava em seu limite com Sho. Desde a conversa com Kyoko, naquela fatídica quinta-feira à noite, a agente tentava elaborar um plano de ação que fosse bem-sucedido, o que significava que ela não poderia simplesmente dizer ao cantor "procure Kyoko, ela aceitou transar com você. E seja impressionante!". Afinal, se ela dissesse a Sho que Kyoko sabia que havia se tornado o alvo das fantasias dele, não só ela se colocaria em situação difícil por ter sido quem revelou tal fato, como resultaria ainda no cantor fazendo birra e gritando que ele nunca, nunca teve qualquer atração por Kyoko, e com isso Shoko obteria o oposto de seu intento, que era fazer o cantor procura-la. Então, como convencer Sho a se aproximar da jovem atriz e seduzi-la sem que ele se sentisse inferior por ser ele a procura-la, o que inevitavelmente o faria rejeitar a ideia?
Muito complicado, de fato.
Outra questão espinhosa era a maneira como Sho tratava o sexo: um ato existente para lhe satisfazer, somente. Logo, ainda que Shoko, por um milagre, conseguisse convence-lo a buscar Kyoko, ele o faria com a mentalidade de alguém que acredita que a satisfação da parceira deve ser satisfaze-lo, e certamente Kyoko ficaria extremamente aborrecida se Sho a procurasse com tal intenção. O tiro sairia pela culatra.
A solução imediata que a agente encontrou, portanto, foi a de ensinar o básico sobre sexo ao cantor enquanto ela buscava uma saída para o problema de convencer Sho a seduzir Kyoko, sem saber que não seria necessário nem uma coisa, nem outra. Sho não precisava de muito incentivo para procurar Kyoko, nem de aulas extras sobre como satisfazer uma mulher, já que as fantasias do jovem giravam basicamente em torno de domar Kyoko com o prazer que ele implacavelmente a faria sentir. Nos delírios eróticos de Sho, ele não a deixava descansar enquanto ela não estivesse rouca de tanto gritar o nome dele.
Se Shoko não conhecia este lado de Sho, era simplesmente porque ele não se importou em mostrar. Nem para ela, nem para as várias namoradinhas que ele teve na escola antes de assinar com a Akatoki. O sexo entre eles era tão utilitário para ele quanto era para ela, o que apenas aumentava a irritação dele quando Shoko disparava orientações e comentários, como se ele tivesse algum interesse em saber se ela o achava apressado ou não, desleixado ou não. Talvez agora, além de se manter de olhos fechados, ele também teria que usar fones de ouvido enquanto a fodia.
"Não... não, Sho! Já lhe disse que você está fazendo isso errado!"
"Como pode estar errado, se é um único caminho? Não é como se eu fosse me perder!"
"Você não pode simplesmente se mover como se eu fosse uma substituta para a sua mão! Olhe para a sua parceira, identifique como ela quer que você se mova, onde ela quer que você friccione!"
"Arrrgghh! Chega!" E removendo-se bruscamente de dentro de Shoko, Sho descartou a camisinha enquanto caminhava furioso para o banheiro. Até o único arranjo que ainda funcionava em sua vida estava desafinando. "Já que agora você está empenhada em me dar aulas, aqui vai uma lição para você: um homem não gosta de ser criticado durante o sexo!"
Shoko resistiu à vontade de zombar quando ele disse "homem", porque massacrar um pouco mais o orgulho ferido dele iria contra os planos dela, mas a raiva e a frustração que ela estava sentindo a fez falar mais do que gostaria. "Pois saiba que se você não se dedicar mais às minhas aulas, você nunca será páreo para Tsuruga Ren!"
Ela se arrependeu no instante em que as palavras deixaram sua boca. Sho imediatamente saiu do banheiro absolutamente furioso. Caminhava nu e lentamente em direção à cama como um predador.
"Tsuruga Ren? Não serei páreo para Tsuruga Ren? E que caralho ele tem a ver com isso?"
Ela se sentia encolher enquanto se escondia com o lençol da cama, como se cobrir a própria nudez a protegesse da fúria que emanava de Sho.
"É por isso que você tem me dado essas lições? Para me deixar mais parecido com Tsuruga? E como você pode saber como ele é na cama?" As palavras eram praticamente sibiladas e carregadas de ódio.
Percebendo que ele estava perigosamente perto, ela se levantou de um salto e correu para a porta do quarto tencionando fugir, mas foi interceptada por Sho, que a prendeu contra a parede exatamente como ele fez com Kyoko anos antes no estacionamento do estúdio TBM após abduzi-la na escola.
"VOCÊ TEM OFERECIDO A ELE O QUE VOCÊ DEVERIA OFERECER SÓ A MIM? RESPONDA-ME!"
"N-n-n-não!" E no pânico para se livrar da fúria de Sho, Shoko deu a pior resposta possível. "É Kyoko quem está!"
N/A – Mais um capítulo, minhas lindezas! XD
Não fiquem bravas comigo, eu juro que não pretendia encerrar assim, mas eu demoraria muito para fazer uma atualização se eu não publicasse agora! Beijos!
