24. A Rosa à Revelia

"Não era hora de falar, mas de agir, e, com um de seus movimentos rápidos como um raio, Sininho se colocou entre a boca de Peter e a droga e bebeu tudo, até a última gota."

(Peter Pan - James Barrie)


Quando Tonks foi despertada no meio da noite por murmúrios agoniados, ela não se surpreendeu; jogou mecanicamente os cobertores para longe das suas pernas, atravessou o quarto e sentou na ponta do sofá que a prima usava como cama.

Bervely suava e se contorcia sob a luz débil do abajur em formato de estrela, e os olhos se movendo convulsivamente por debaixo das pálpebras. Outra coisa que ela fazia, provavelmente sem saber, era estrangular com uma mão o pulso onde jazia aquela pulseira velha de couro que ela usava o tempo todo.

– Bervely – a sacudiu, primeiro suavemente – Vamos lá. Acorde. É só a droga do pesadelo mais recorrente do século. – e como isso não adiantou, balançou o ombro dela com um pouco mais de vigor – Bervely, acorda!

Isso serviu para a garota abrir os olhos como se tivesse levado um choque, demorando-se vários minutos para focá-los. Quando o fez olhou ao redor do quarto, a respiração se acalmando, e deitou a cabeça apaticamente no travesseiro suado.

– Eu nunca sei se é melhor te acordar ou deixar passar, eles parecem intermináveis. – Tonks mordeu a parte de dentro das suas bochechas, indecisa.

– Tanto faz. – a garota murmurou, fitando o teto.

– É a sétima vez essa semana – a outra ignorou o tom derrotista dela – Você devia falar com alguém.

– "Alguém" me diria que estou tendo crises de abstinência de poção do sono, o que é o mínimo que eu tenho de aguentar por ter me viciado nela. "Alguém" usaria palavras menos duras, é claro, mas na mesma intenção.

Mesmo com uma careta, Tonks não pode encontrar um argumento contrário. O "alguém" a quem se referiam era a sua mãe, e isso era exatamente o que Andromeda diria. Mas Andromeda não tinha conhecimento do quão terríveis aqueles pesadelos pareciam, e ela nunca ia saber se dependesse de Bervely, porque esta a fizera jurar que não contaria.

– Sabe, talvez conversar ajude… – sugeriu, não pela primeira vez. Mas Bervely meramente se esticou para se desviar dela e pulou da cama, indo para o banheiro. Assistindo a prima sair, Nimphadora suspirou pesadamente, coçando os olhos.

Aquela cena se repetira cada noite desde que Bervely chegara no chalé acompanhada por Snape, há uma semana. Ele contara uma história confusa sobre a Black estar tendo alucinações na escola com o seu primo morto, e como isso quase a levara a um acidente fatal. As palavras "vigilância constante" e "cuidado com o consumo de substâncias de qualquer espécie" foram utilizadas. Andromeda trancara o armário de ingredientes sob a escada e se tornara extra-vigilante com a saúde de Bervely: checava a regularidade dos seus batimentos cardíacos três vezes por dia e aparecia na lareira para saber se ela tinha se alimentado corretamente nos intervalos de seus turnos no St. Mungus.

Esta, por sua vez, mal reagia às novas restrições, o que se tratando de Bervely, era uma grande e não exatamente positiva novidade. Pela sétima vez Nimphadora cogitou ir atrás dela e obrigá-la a desabafar, arrancando dela cada partícula da sua dor bem ao modo da sua família, mas se segurou. Bervely não era uma Tonks, e segundo a sua mãe, a melhor política era lhe dar espaço.

Todo o espaço que precisasse.

Uma vez trancada no banheiro, Bervely mergulhou suas mãos na água que fluía gelada da torneira e encharcou o rosto. Por um momento mal desperto, lhe veio a sensação de que essa era a primeira noite após aquele dia, que ela fora deixada por Snape ali em St. Catchpole, caíra exausta na cama e mergulhara em um pesadelo familiar, para ser então acordada pela prima, como acabara de acontecer.

Apesar do peso persistente em seu coração não ter arrefecido nem um centímetro, ela podia averiguar a passagem dos dias de acordo com o tamanho e escurecimento das suas olheiras. Falara sério quando dissera a Tonks que não fazia diferença ser ou não acordada no meio do pesadelo…

Afinal quando estava nele, os monstros esticavam essa memória sobre a superfície da sua mente como uma bandeira, e era tudo que ela conseguia ver, de novo e de novo.

E quando estava acordada… bastava fechar os olhos e era como se estivesse lá mais uma vez.

– BD –

Uma semana antes

De joelhos em frente ao túmulo de Hector Carmichael, confrontada pela lápide cinza talhada com seu nome, com a data da sua morte, decorada com o sino de ouro, e mesmo tendo neve fresca encharcando seus joelhos, pernas e botas, ela sentia a mente deslocada, como se alguém tivesse aberto uma janela e deixado entrar uma corrente de ar.

Ela se deu conta de que a verdade estivera lá, num canto escuro, esperando o momento de vir a tona. Quando ela estivesse pronta para lembrar. Não fora assim que o Hector da sua imaginação dissera?

O Hector que ela criara. Aquilo era tão absurdo. O abraçara com toda força, em Hogsmeade. Dormira abraçada a ele em seu dormitório na Sonserina. Pegara em sua mão, e sentira seu beijo.

Mas ele nunca estevivera com ela de verdade naquele outono.

– Eu me sinto… – ela procurou palavras. Nenhuma daquelas escritas na lápide ajudavam. "A Boy Forever" queimava em suas córneas.

Snape fechou os dedos sobre o ombro dela numa espécie de suporte silencioso.

– Você deve estar congelando. É melhor irmos…

Ele tentou levá-la a se erguer, mas ela resistiu, endurecendo as suas pernas.

Não.

Não suportaria se afastar do túmulo de Hector. Seria como deixar para trás o último pedaço dele que existia, e a ideia a dilacerava.

– Bervely… – o professor, ela soube, tentava usar o tom severo de aviso que lhe era tão inerente, mas que não funcionou como o esperado dessa vez.

– Eu mandei cartas. Ele me respondeu todas elas. Como uma alucinação responde cartas, o senhor poderia me explicar? – perguntou num tom rebelde. Um pedaço relutante dela ainda se negava a acreditar que criara os últimos três meses, que fora tudo um produto de sua mente.

– Você tem essas respostas? Guardadas com você, em algum lugar do seu dormitório agora?

Os ombros dela caíram levemente, a boca ficando seca.

– Eu… eu as queimei. Porque não queria que ninguém as encontrasse e descobrisse que ele estava se comunicando comigo.

– Ou, porque a parte de você que esteve criando essas fantasias entendeu que era um tipo de falha na sua alucinação, e se apressou em justificá-la. Você certamente imaginou receber essas cartas-resposta, e imaginou queimá-las.

– Isso… não…

– Ontem, após deixá-la na enfermaria, eu interroguei a Srta. Holmes, afinal foi ela quem me levou até a Torre de Astronomia. Após muito pressioná-la, ela finalmente me revelou que há um certo tempo você lhe fez uma confissão na qual afirmava que o seu primo estava vivo e retornara. E depois disso, ela chegou a encontrá-la na Torre de Astronomia uma outra vez, de forma suspeita e com dois copos de poção, quando seria impossível estar acompanhada devido às circunstancias de vigilância do castelo aquela noite. Isso a preocupou.

Bervely não disse nada. Tara no final das contas a entregara, traíra o seu segredo. E isso, aparentemente, salvara a sua vida.

– Eu imediatamente contactei a sua tia através do Flú. Narcissa me contou as circunstâncias da sua fuga no verão passado, o seu persistente estado de negação. Não foi preciso muito para juntar isso à um consumo exagerado de Poção do Sono, quando ela mencionou pesadelos. Ora, o principal efeito colateral de Poção do Sono usada em excesso são as alucinações. A sua tia me convidou a vir até a Mansão Malfoy e visitar o local onde o seu primo foi sepultado. Quando estive aqui mais cedo, encontrei isso.

Snape tirou do bolso um bolo de pergaminhos molhados e borrados. Ela reconheceu os envelopes fechados, e apesar da tinta desfeita, era possível identificar a sua própria caligrafia, com as suas iniciais. Ela pegou as cartas com as mãos insensíveis de frio.

– Algumas corujas entendem que o último endereço de um bruxo é o seu túmulo. – ele disse num tom mais baixo, percebendo a expressão mortificada no rosto dela.

– E os Malfoy nunca viram…?

– Eles não visitam muito esse lugar. – explicou Snape, entendendo onde ela queria chegar – aparentemente há uma certa mágoa envolvendo a morte do garoto, e Narcissa nunca superou que Lucius o enterrasse em seu quintal.

– Esse era… – ela fechou os olhos. Ardiam muito, mas não conseguia derramar nenhuma lágrima, por mais que desejasse. – Era o desejo dele. Não sei como Lucius poderia saber, no entanto.

– Acho que ele gostava e prestava mais atenção no garoto do que jamais quis admitir. Segundo sua tia me relatou, o falecimento o afetou profundamente.

"A todos nós", ela pensou amargamente, "mas eu fui a única que enlouqueceu e foi parar no hospital, e depois ainda inventou que ele tinha voltado e planejou uma fuga com o projeto da minha imaginação."

Havia um gosto de fel no fundo da sua garganta que só aumentava todas as vezes que pensava nisso. Ela tentou refrear a pergunta que queria fazer, principalmente porque tinha medo da resposta, mas ela saiu mesmo assim:

– Professor Snape… eu estou ficando louca?

Ele virou o rosto para olhá-la, apesar de ela não ser capaz de retribuir, e continuasse a fitar a base da pedra fincada no chão.

– Não. Nada disso é culpa sua. Você foi a vítima de um arranjo muito cruel e acidental, que a deixou vulnerável. Ande, vamos sair daqui. Não lhe fará nenhum bem pegar uma febre quando o seu coração ainda está fraco.

Dessa vez ela obedeceu, deixando-se levantar e largando o bolo de cartas molhadas no chão. Não mostrou resistência à aparatação conjunta apesar do inevitável enjoo, e quando percebeu que não estava de volta aos terrenos de Hogwarts, lhe custou muito erguer os olhos para descobrir onde tinham desaparatado.

– Por que me trouxe aqui? – aturdiu-se ao reconhecer o chalé dos Tonks, com o telhado salpicado de neve e as luzes acesas.

– Entendo que a Dra. Tonks era a medibruxa responsável pelo seu caso no St. Mungus no período do seu internamento, além de poder oferecer atenção continuada ao processo de desintoxicação da poção. Em acréscimo ao fato de que tem um parentesco com você e se mostrou receptiva em acolhê-la para o recesso de inverno.

Bervely não disse nada, haviam outras coisas em sua cabeça. Enquanto andavam o curto espaço entre o portão de entrada e a varanda, a marca dos seus passos na neve lhe lembravam do momento em que saíra seguindo as pegadas de Hector pela neve e o encontrara caído no chão, e saltara sobre ele. Tocara a pele fria do seu rosto e demorara para compreender que ele não estava observando o céu, mas que aqueles eram os olhos opacos da morte.

Snape a ajudou a subir o lance triplo de escadas para a varanda, e prontificou-se a bater na porta, mas ela arfou.

– Espere.

Ele se virou surpreso a ponto de vê-la procurar o corrimão coberto de flocos de neve e sentar-se desajeitada nos degraus. Ele voltou-s preocupado com a palidez dela.

– Se sente mal? Sente taquicardia? Dor?

– Apenas… espere um momento. – ela pediu com a voz abafada.

O mestre de poções se aproximou e cogitou mais de uma vez se deveria, por fim decidindo sentar-se nos degraus ao lado dela e esperar.

– Respire… – ele sugeriu, a voz tão suave quando ele podia fazê-la, achando que estava diante do desmanchar de um ataque de pânico. – Fale. O que houver em sua mente – acrescentou, achando que não fora claro o suficiente.

– É apenas… – ela tentou seguir a sugestão e respirar fundo, mas tudo que conseguiu foi um fôlego estrangulado de agonia – Ele morreu sozinho, no meio da neve, sem ninguém para quem pedir ajuda. Ele pode ter agonizado por minutos inteiros e eu não… se eu estivesse lá! Se eu tivesse chegado um momento antes, talvez…

– Eu lhe garanto que não havia nada que pudesse fazer, Srta. Black. – garantiu-lhe muito seriamente – Se a poção para Adormecer que envenenou a Srta. Lovegood lhe deu algum tempo de reação, o mesmo não teria acontecido com a Morto Vivo. Quando fez seu efeito, foi instantâneo. Como cair no sono. Não houve dor…

– Os olhos dele estavam abertos – ela rebateu, lembrando-se. Os olhos, a garganta e o coração queimando, cada uma seu jeito.

– Sim, às vezes dormimos de olhos abertos, não é mesmo?

– Eu não tenho permissão do diretor para deixá-la aqui, mas acho que posso conseguir, sendo o seu responsável legal. – acrescentou, à guisa de explicação. – Então, se não fizer objeção, penso que não há necessidade de voltar ao castelo até que o próximo trimestre tenha início. Foi aqui onde passou o seu verão, não foi?

Ela não respondeu a isso. Uma nova agonia se alastrava pela sua consciência, como uma mancha cáustica que se alastrava sobre um tecido, destruindo toda a estampa e fazendo uma trilha queimada de branco.

– Eu o matei.

– Eu imaginei que chegaríamos a isso. –disse o mestre com certa resignação cansada.

– Todo esse tempo eu fui acusada pelos meus tios, e eu nunca acreditei. Porque é claro que eu me mataria antes de machucar Hector de qualquer maneira, mas no fim… a culpa toda foi minha. EU devia ser aquela que bebe o veneno em seu lugar, mas ao invés disso, eu o envenenei!

– De fato foi a sua Poção do Morto Vivo incorretamente produzida que reagiu com os elementos da sua outra poção, a que tomaram algumas horas antes, na noite de Natal. A reação foi fatal, mas a culpa não foi sua.

– Eu o matei! – repetiu. Se falasse aquilo vezes o suficiente, talvez seu cérebro pudesse compreender a extensão e gravidade das suas ações. Talvez com o entendimento de que era a responsável por tirar a vida de Hector, ela conseguisse entrar em algum modo natural de autodestruição e ter o que merecia.

– Você não o forçou a beber a Poção do Morto Vivo, senhorita Black. Você nem mesmo lhe ofereceu esta poção. Eu suponho que ele a tirou do seu estoque sem a sua permissão.

– ISSO NÃO MUDA NADA! – ela gritou, querendo avançar no homem e sacudí-lo. Snape, melhor do que ninguém, sabia que o pocionista era o responsável maior pela falha em sua fórmula. Se ela produzisse uma poção errada e alguém a tomassem cem anos depois, quando ela já estivesse morta, ainda assim seria culpada, para todos os efeitos.

Snape não pestanejou diante do seu grito. Ele a observava puxar seus cabelos e se curvar sobre si mesma como se sentisse dor.

– Talvez ajude-a saber que a poção fazia parte dos planos de fuga do seu primo.

– Não era um plano de fuga! – ela lhe disse bruscamente. – Hector não estava fugindo! Ele estava indo morar com o pai, é diferente!

– Não.

– Porque ele fugiria? Fugir da família dele, que coisa idiota de se fazer!

– Estamos de acordo na parte da idiotice. Eu tive acesso à carta que o seu primo deixou à guisa de despedida no fatídico dia… você se recorda dela?

Ela parou com o movimento obsessivo.

– Sim. – disse de forma vazia.

– O que dizia?

– Dizia… Me perdoe, não posso me despedir… e… Não culpem a Charlotte.

– Exato. A parceira de fuga do seu primo. A sua tia acredita que você ficou com raiva dela naquele dia, não foi essa a razão, Bervely? Por que ela era a culpada por Hector ter de fugir, e acabar morto por isso?

– Eu… não. – tentou lembrar-se, confusa. Embora os acontecimentos daquele Natal pudessem ser lembrados agora, seus sentimentos sobre o dia ainda eram um tanto nublados. – Eu fiquei com raiva dela, porque ele ia levá-la para morar com ele, e abandonar o resto de nós.

O professor negou vagarosamente. Havia quase pena em seus olhos encovados, o que não era um sentimento que Bervely gostava muito de ver direcionado à sua pessoa.

– Hector e Srta. Summers planejaram fugir de ambos, os Malfoy e o pai dele. Hector pretendia fingir que se suicidara por conta das pressões de seu pai, usando a Poção do Morto Vivo, e depois a Srta. Summers o encontraria e lhe daria a contra-poção e eles escapariam da retaliação de ambas as famílias, vivendo felizes para sempre na clandestinidade.

Os olhos dela se arregalaram em descrença e horror.

– De onde eles tiraram essa ideia insana e como o senhor poderia saber disso?

– A sua tia forçou a Srta. Summers a revelar os detalhes do plano antes que fugisse do hospital. Aparentemente ela procurou inspiração na literatura trouxa do século XVI para dar fim aos seus problemas.

Bervely fitou Snape longamente, sem fazer ideia do que o professor queria dizer. Mas no fim das contas usar uma estratégia ridícula como aquelas era bem a cara de Charlotte.

– Mas se ela sempre soube, por que todos me culparam pela morte de Hector? Não que eu não tenha culpa, mas eles sempre fizeram parecer que eu tive a intenção – protestou, magoada, mas também subitamente irritada.

– Bem, Narcissa parece acreditar que você os estava ajudando o tempo todo, a pedido do seu primo. Que lhes forneceu a poção de bom grado, mas se arrependeu na última hora e sabotou a poção. E empurrou a Srta. Summers da escada por essa mesma razão.

Ela arfou. Sentiu-se traída pela tia, mais uma vez. Como se fosse jamais ajudar Hector a fugir com Charlotte e deixar a sua família! Só então foi capaz de captar a última afirmação do professor, e ela se virou demonstrando uma curiosidade fria.

– Eu a matei, então, é isso? É por isso que ela sumiu também?

Snape lhe olhava com uma espécie de preocupação suspensa.

– Você não matou ninguém, senhorita Black. – ele repetiu muito cuidadosamente – A Srta. Summers esteve no hospital enquanto serviu com informações ao Sr. seu tio Malfoy, e depois ela desapareceu.

Ele disse a última parte num tom tão peculiar, com um significado claramente encoberto, que acionou um alarme na cabeça dela. E de repente ficou claro porque Charlotte estava sumida.

– Ela desapareceu – questionou, astutamente – oi foi desaparecida?

Snape nada disse, mas seu olhar grave dizia tudo. Tirar inconveniências do caminho era uma das especialidades de Lucius Malfoy, e após toda aquela história Charlotte era uma delas, mais do que nunca.

Bervely percebeu que não sentia muito por isso.

– Avise-me se houver qualquer coisa que precisar até a data de retornar à Hogwarts. – disse o bruxo após mais um pouco de silencio torturado da garota, fitando longamente o tapete fino de neve à sua frente e tentando absorver a perda que ameaçava lhe engolir quando as palavras cessavam. Ela estranhou a oferta generosa vinda do professor.

– Por que?

– Sou seu responsável legal, lembra-se?

Ela chegou a abrir a boca para responder, mas no mesmo momento a porta da frente se abriu e Andromeda apareceu sob o portal, ainda usando as vestes de medi-bruxa, e parecendo levemente afobada e muito preocupada.

– Prof. Snape!

– Dra. Tonks – ele lhe disse numa polida resposta, e ela se perguntou o quanto a bruxa já sabia sobre o que acontecera à ela.

– Bervely, querida, entre e se esquente, você também, professor. Estão esperando há muito tempo? Não os ouvi chá recém feito, e temos muito a conversar, não é mesmo?

Ela obedeceu, arrastando as botas encharcadas e os pés insensíveis para dentro. Se jogou numa cadeira e deixou os adultos se atualizarem do quando ela estava perdida, vulnerável e fragilidade. Não prestou atenção em nada disso, incapaz de se livrar da ideia fixa e verdadeira que dominava a sua mente:

Se ela não tivesse falhado na Poção Morto Vivo, ou não tivesse lhe feito beber Neverland aquele dia, Hector ainda estaria vivo.

– BD –

– … você também estaria devastada se descobrisse que o seu amor de adolescência está morto quase dois anos depois do fato acontecer!

– Não é só isso, eu acho que ela se sente culpada.

– Você se preocupa demais Andie. Lhe dê algum espaço…

– Eu dei a ela duas semanas de espaço!

– Isso é tempo, e não é a mesma coisa. Você se lembra como foi com a mãe dela? Sorumbática por meses, se arrastando por essa casa como se o mundo tivesse acabado.

– Não é comparável!

– Eu só estou dando um exemp—

Bervely entrou na cozinha, interrompendo os sussurros dos tios ao seu respeito. Ela puxou uma cadeira e se sentou nela, sem fixar o olhar em nenhum deles ou lhes dar bom dia. Não queria ser hipócrita.

– Bom dia, querida. Dormiu bem? – Andromeda tentou um sorriso animador. Para ser honesta ela estava mesmo lutando para lhe dar espaço, mas não era a mais paciente das mulheres e não ocultava os sinais da sua frustração com o estado apático da sobrinha.

– Claro. – foi o que ela disse, numa voz que supôs ser convincente. Obviamente não foi, pois os tios se encararam com preocupação. Bervely olhou ao redor, procurando uma saída, ter aparecido para o café da manhã lhe parecendo agora uma má ideia. – cadê Tonks?

– Foi na vila comprar nozes e gengibre para os biscoitos!

– Ah.

Se esquecera que já era véspera de Natal. A essa altura, gostaria de poder dormir no dia vinte e quatro e só acordar no fina do recesso, só para garantir que nada terrível aconteceria. Infelizmente, essa opção era bem remota agora que não tinha mais acesso à poção do sono.

– Sabe, querida, eu e Ted pensamos em algo que pode lhe animar.

Ela olhou sem emoção para Ted Tonks, que lhe deu um sorriso que pretendia ser animador, mas saiu forçado. Ela abaixou os olhos para as torradas e bacon que a tia acabara de lhe servir, e seu estômago embrulhou.

– Hum. – foi tudo o que disse.

– Como um presente de Natal, sabe? É o primeiro que passamos em família, nós e você, digo, não há nada de mal em fazê-lo especial, não é mesmo?

– Não quero presentes. – ela disse com sinceridade. Tardiamente, se lembrou que talvez estivesse machucando os sentimentos de Andromeda, que vinha sendo tão tolerante com ela, mas naquele momento Nimphadora entrou pela porta da cozinha e, ao pisar no linóleo, escorregou e tomou uma bela queda, espalhando as compras pela neve atrás de si.

– Dora! – sua mãe exclamou, correndo para ajudá-la – Você nunca aprende?

– São essas botas – ela disse à guisa de desculpa, jogando os pesados coturnos longe com mágoa – você pensa que essas solas de borracha vão te dar uma tração decente, mas elas só se enchem de maldita neve e ficam lisas feito a língua do diabo!

– Olha o palavreado, garota – Andy reclamou, mas por detrás dela, Ted dava risada.

Uma vez que a família voltara ao modo desastrada-mas-contente, Bervely se concentrou em suas torradas, sem nenhuma intenção de comê-las, mas achando interessante como elas se esfarelavam sob os seus dedos. Na maioria do tempo estava assim, meio entorpecida, com a sensação de que o mundo acontecia à parte, mas não perto o suficiente para atingí-la.

Não entendia como as pessoas podiam rir. Ser felizes, comemorarem o Natal.

Hector estava morto. Que sentido fazia todo o resto?

Ela encontrara, nos últimos dias, um prazer sádico e abusivo que consistia em olhar para dentro de si e rodear a extensão do enorme buraco que essa verdade causara. Gostava de se imaginar em sua borda, fitando a escuridão, analisando como era enorme e oco e chamava por ela. Sabia que uma hora ou outra pularia nele, mas gostava de protelar.

Provocá-lo. Provocar a própria dor, cutucá-la, desafiá-la a lhe engolir inteira.

Lembrava-lhe constantemente da extensão da sua culpa, porque não podia se esquecer. Nem por um minuto, para o resto da sua vida.

Se não tivesse errado, Hector estaria vivo.

– … hein, Bervely, o que acha?

O som do seu nome a chamou de volta, para aquela realidade que acontecia à despeito dela, e focalizou Ted. Olhou para ele perdidamente, sem saber qual fora a pergunta.

– Eu disse, o que acha de patinar no rio hoje? Está finalmente congelado o bastante para segurar um bom feitiço de deslizamento.

– Ah, eu… não. Obrigada.

Ele pareceu levemente frustrado, mas ela não se demorou ali no mundo real o suficiente para reparar. Voltou para a beira do seu próprio abismo, balançando as pernas no vazio. Era difícil respirar quando havia um oco tão enorme em seu peito, e às vezes precisava de toda a sua concentração.

Não viu os Tonks se comunicarem por gestos, Ted dando de ombros como quem diz "desculpe, eu tentei", Andromeda suspirando como em "vamos achar outro jeito" e Nimphadora rolando os seus olhos "nossa, vocês são tão discretos". Eles vinham tentando tirá-la de casa há duas semanas, mas convencê-la a fazer uma atividade ao ar livre não estava surtindo efeito.

A alternativa apareceu quando Ted pegou o jornal de alguns dias atrás para usar como proteção de uma superfície na oficina, e Andromeda reconheceu a foto do seu vizinho em uma matéria. Ela saltou para o jornal e o arrancou do marido, o sacudindo como se fosse a solução de todos os seus problemas.

– Oh, eu tinha esquecido! Os Weasley cancelaram a viagem ao Egito, não é mesmo, por causa da multa do Ministério! Eles devem estar aqui em Ottery para o Natal!

– Cruzes, mãe – Tonks abismou-se – pare de falar isso como se fosse uma coisa feliz. O que há de errado com você?

– Não, é terrível, é mesmo terrível. Mas nós deveríamos convidá-los para passar o Natal conosco, imagina como será triste, todas as crianças ficaram em Hogwarts para o feriado e eles estão naquela casa sozinhos!

– Ótima ideia, Andy. Artur sempre tem uma visão peculiar para os móveis, e Molly pode trazer aquele quentão com o wisk… só para os adultos completou, olhando acusadoramente para a filha, que assobiou para o teto, fazendo-se de desentendida.

– Então é isso! Dora, vá até a Toca hoje e queira convidar os Weasley.

– Ah, mãe, pára de me fazer de mensageir–

– Você pode levar Bervely com você. Não é bom andar sozinha por ai com tanta neve. – atropelou o protesto da filha, deixando suas intenções claras. Era uma boa coisa que Bervely andasse sempre tão distraída porque de outra forma ela teria percebido aquela terrível desculpa da tia e suspeitado das suas intenções.

– Tudo bem, se a Bervely for comigo.

A garota lhe deu um vago olhar.

– Tanto faz.

– BD –

Odiou cada minuto da travessia do leste para o oeste de St. Catchpole, que teve de fazer com Tonks por causa da resposta impensada que dera. Para começar, precisou vestir roupas de frio encantadas com feitiços de aquecimento e impermeabilidade, que as deixavam ainda mais pesadas, e não importava o quão enfeitiçada estava aquela luva, seus dedos continuavam congelando.

A ponta do nariz parecia feita de pedra quando cruzaram a escorregadia ponte sobre o rio. Este por sua vez estava completamente congelado, mas ainda parecia letal, e ela ficou grata a si mesma por ter negado a ideia de patinar ali em cima. O esforço de cair num buraco de água gelada e salvar a si mesma da morte por hipotermia não estava nos seus planos de recesso.

Ou então ela não se salvaria. A ideia soou atrativa, mas não pode se ater muito a ela, porque depois da ponte o chão ficou escorregadio, e precisou de atenção redobrada para não cair e quebrar o pescoço.

Eles enfim chegaram à Toca. Era uma casa torta e precária, encurvada, prestes a despencar. Nada em sua aparência justificava o sorriso luminoso de Tonks ao vê-la.

– Passei um bocado da minha infância aqui, brincando com Charles. Você só sabe o que é diversão de verdade depois de desgnomizar o jardim dos Weasley.

Duvidando seriamente daquela máxima, ela seguiu a prima até a cerca baixa, onde Tonks soube o ponto exato onde pressionar a sua varinha e murmurar o encantamento que as deixaria entrar. Isso deve ter desencadeado algum aviso dentro da casa pois, quando cruzaram a distancia do quintal, uma mulher gorda e baixinha e muito ruiva já as esperava com a porta aberta.

– Oh, querida! – o que sem sombra de dúvidas era a mãe da comitiva Weasley pegou Tonks num abraço, lhe deu tapinhas satisfeitos e a afastou para lhe admirar – mas que visita bem vinda! E quem é a sua amiga?

Bervely recuou um passo, com medo de precisar passar por algum contato físico com a mulher.

– É minha prima, Bervely.

– Ah, seja bem vinda! Qualquer um da família de Dora também é da nossa família! Venham! Acabei de terminar um bolo cítrico, está quentinho!

Bervely congelou ali por um momento, fria de repulsa. Anos de criação Malfoy ativaram um alarme em sua cabeça, e ele gritava para não entrar na casa dos traidores de sangue e amantes de trouxas pobretões. Eles eram párias, e pisar em sua moradia era uma desonra imperdoável. Quando ela se deu conta, as duas lhe olhavam em diferentes níveis de estranhamento, já de dentro da sala.

– Algum problema, querida? – o da Sra. Weasley era inocente e preocupado.

Já o de Nimphadora tinha um quê de sagacidade e ameaça subliminar.

– Você precisa de um convite explícito, Bervely? Como aqueles que temos dar aos vampiros na primeira vez que entram na casa de alguém?

Ela piscou, balançando a cabeça.

– As minhas… botas. Estão encharcadas.

– Oh não se preocupe… feitiço de absorção, vê? Basta pisar nesse tapete e esfregar um pouquinho e elas saem sequinhas do outro lado. Foi o meu filho Percy quem enfeitiçou.

Bervely respirou profundamente, ignorando o bolo em sua garganta, e deu um passo para dentro. Uma parte dela esperou a justiça sangue-puro descer dos céus e acusá-la de injuria, ou então o som chiado do seu nome queimando na árvore genealógica da família, mas nada disso aconteceu. A não ser pelo olhar fuzilante de Nimphadora quando a senhora Weasley não estava olhando.

– Se você me envergonhar nem que seja um centímetro na casa dessas pessoas decentes e boas, eu juro que eu…

– Cale a boca, Nimphadora. – mandou, falando o seu nome de propósito. O cabelo da garota ficou escarlate, junto com seu rosto.

Não me chame.

– Meninas! Aqui na cozinha. Chá de polca ou de cavalinha?

Elas seguiram a voz da matriarca Weasley até a cozinha apertada e atulhada de coisas. Obviamente uma ceia de Natal estava em curso, e pela quantidade de travessas e ingredientes, não parecia ser destinada à apenas ela e o marido.

A senhora lhes serviu chá e bolo antes que Tonks conseguisse falar a que veio, embora a garota não parecesse assim tão apressada em expor os seus motivos. Bervely encarou sem grandes pretensões o bolo no pratinho lascado, então deixou o seu olhar vagar pela cozinha enquanto as duas trocavam amenidades, falavam sobre o tempo e a escola e tudo mais.

Era extremamente claro o quanto eles eram pobres. Não só porque seus móveis e utensílios eram desgastados, mas pela própria existência de uma cozinha adaptada para bruxos, e não para elfos – coisa que os Weasley jamais poderiam bancar. Ela estudara a história das linhagens o bastante para saber que os antepassados daquela família tinham perdido todas as suas posses ao resolverem quebrar com a tradição e misturar seu sangue com o sangue impuro dos trouxas. A associação lhes custara todo o seu respeito, status e riqueza na sociedade bruxa, e eles tinham sido execrados e considerados lixo pelas demais famílias nobres por essa miscigenação.

Ora, isso não parecia tirar a paz de Molly Weasley. Ela duvidava que já tivesse conhecido alguém de sorriso tão amplo e caloroso.

– …inclusive a mamãe me mandou aqui para chamar você e o Sr. Weasley para cear conosco. Ficamos sabendo da multa do Ministério, sentimos muito por isso, aliás. Precisaram cancelar sua viagem para o Egito, não é? Deve ser triste passar o Natal aqui, só vocês dois, enquanto os meninos ficaram em Hogwarts…

– Oh, querida. Isso é muito gentil! Sem dúvida nos aceitaríamos a oferta, mas você não vai acreditar no que aconteceu hoje de manhã, uma surpresa e tanto! Na verdade, vocês os perderam por pouco, foram até o bosque buscar um pinheiro… Você vê, como não íamos passar o feriado aqui, nem nos ocupamos em decorar uma árvore!

– Eles? Então os meninos voltaram da escola à tempo?

– Oh, não! – A Sra. Weasley limpou as mãos em seu avental florido, com uma cara de meia culpa – na verdade nem contamos para eles que não viajamos, sabe, iam ficar sentidos de não poder vir pra casa de última hora. Estou falando de Gui e Charles! Quando eles souberam que não íamos mais ao Egito, se uniram e vieram para cá de supetão essa manhã!

Enquanto o rosto da prima se abria em satisfação, Bervely sentia como se um alerta soasse no fundo do seu cérebro pela segunda vez naquela manhã. O seu primeiro impulso foi se levantar e ir embora, mas ela se segurou, apertando as mãos no tampo da mesa.

– Ah, isso é ótimo! Não vejo Charles desde o ano passado!

– Porque não esperam eles voltarem? Ah, quer saber? Fiquem para o almoço! Tenho certeza que os meninos vão adorar.

– Mas é claro! – Tonks disse, para o horror de Bervely. – vou avisar mamãe. Pode me emprestar a sua coruja?

A Sra. Weasley indicou um poleiro perto da chaminé, onde estava uma horrorosa coruja das torres, a mesma aparência velha e desgastada como tudo mais dos Weasley. Ela não parecia capaz de voar, mas Tonks rabiscou um bilhete e colocou em sua pata mesmo assim, sob o olhar feio de Bervely. Ela só correspondeu depois de despachar o animal, não antes de adulá-lo o bocado para sair no frio, num voo errante.

– O quê? – perguntou de má vontade.

– Eu não vou ficar para o almoço. – Bervely lhe avisou com irritação.

– Por favor não me diga que isso é sobre eles serem Weasley, novamente! – a garota ralhou, as pontas do cabelo atingindo tons perigosos de laranja.

– Eu nem queria vir, pra começo de conversa.

– Por que é claro que é muito melhor ficar em casa se afundando em auto-piedade!

– Sim, na verdade é!

Elas precisavam sussurrar, pois a Sra. Weasley estava por ali remexendo em potes e caçarolas e lhes lançando ocasionais sorrisos. Tonks se aproximou dela, ao mesmo tempo que inspirava fundo e mudava a sua postura.

– Olha, Bervely, eu sei que tem sido difícil toda a coisa com o seu primo. Mas você precisa reagir!

– Isso não tem nada a ver com Hector! – ela rosnou. Odiava quando alguém se referia a Hector, porque ninguém tinha direito de mencioná-lo. Ninguém entendia. – Tem a ver com… – abaixou sua voz à um murmúrio inaudível – você não se lembra o que ele fez no meu aniversário?

– Ah, pela unha encravada de Merlin. Isso faz um século! Além do mais, e daí que Gui trouxe a Holmes daquela vez? O importante é que ele veio lhe ver no seu aniversário. Além do mais, você vê Holmes aqui em algum lugar?

Ela puxou ar, transtornada. Para Tonks tudo era sempre tão simples!

– Não importa se Holmes está ou não aqui! Eu não quero ter de aturar nenhum deles. – ela quase falou Weasley, mas não queria arriscar chamar a atenção de Molly para aquela discussão sussurrada delas – Eu não quero aturar pessoas, quanto mais aquelas que…

– Aquelas pelas quais você se sente atraída?

Bervely sentiu que poderia sacudir a garota pelos cabelos até ela se tornar da cor de um hematoma.

– Isso é passado, Nimphadora. Foi um lapso. Agora me deixe em paz, eu vou voltar para casa, de onde eu nunca devia ter saído para começo de conversa.

E Bervely até tentou dar meia volta e sair por onde tinha entrado, mas seu caminho foi barrado pelos garotos Weasley. O mais velho deles continuava sendo a visão infernal da tentação com seus ombros lagos e cabelos compridos e couro por toda parte.

– Charles! – Tonks exclamou atrás dela, e foi correndo abraçar o seu amigo de infância. Isso fez Bervely desviar os olhos, a lembrança pungente de um dia ter corrido para os braços de Hector de forma parecida lhe ferindo.

Gui tomou seu tempo para olhá-la de cima a baixo, sem ligar se isso era algo deselegante de se fazer. "Porque ele é um maldito Weasley sem educação", ela completou, infeliz, sob a análise feroz do rapaz.

– Vê algo que o perturba, Weasley? – ela perguntou sem esconder a irritação.

– Vejo você em minha casa. É como achar uma lagartixa num aquário, você não fica especialmente preocupado, mas gostaria de entender como é que ela foi parar ali para começo de conversa. – ele disse com um ar de graça.

Felizmente a Sra. Weasley se aproximou gingando do grupo e deu tapinhas nas costas de seu filho mais velho a fim de apressá-lo.

– Gui, Charles, coloquem logo essa árvore no meio da sala, eu já desci do sótão os nossos enfeites. As meninas vão almoçar conosco, eu eu fico feliz de elas estarem aqui porque podem ajudar com a decoração. Andem, queremos isso pronto antes do seu pai chegar do Ministério!

Os quatro seguiram para a sala, que não era muito maior que a cozinha. Lá se apertavam dois sofás e duas poltronas, uma lareira e uma estante, e muitas, muitas fotos de ruivos em porta-retratos de molduras descombinadas. O excesso de tons de cobre e alaranjado em seus cabelos faziam os olhos doer. O pinheiro recém colhido foi colocado na sala e espanado de toda a neve residual, e várias caixas de enfeites cheirando à poção anti-mofo foram abertos diante deles pelo tapete.

– Olha só que gracinha – Tonks vibrou, puxando um penduricalho de Natal em meio aos mil que haviam dentro da caixa – de quem são esses?

Era um cubo transparente cheio de dentes de leite.

– Esses são do Percy – Charlie se inclinou sobre ela para alcançar a caixa, invadindo o seu espaço pessoal, mas Tonks não pareceu se incomodar – os meus estão aqui em algum lugar. Às vezes quando eu quebro mais algum na reserva de dragões eu mando para mamãe acrescentar ao meu cubo.

Pela hora seguinte eles decoraram a arvore de Natal dos Weasley com o conteúdo daquelas caixas, e ela logo ficou clara a tradição de os penduricalhos serem produzidos pelas crianças da família. Então ao invés de anjos de cristal, fadinhas cintilantes e festões de ouro, eles tinham montes de bolas mal pintadas cheias de pequenas digitais, esculturas de animais feitas em massinha e endurecidas com feitiços para durar, os cubos com os dentes de leite de cada membro da família, festões com retalhos coloridos e uma grande estrela de sucata com o nome de cada um deles em garranchos, que foi parar no topo da árvore.

Haviam sete bolas vermelhas, uma para cada nascimento da prole Weasley, e também um coração de porcelana com "Molly e Arthur - Together Forever". Ao invés de pendurá-lo na árvore ela se pegou olhando para ele, até que as letras se desfocaram e já não o via mais, mas não conseguia se mover dali, com a peça fria nas mãos, e a mente travada na lembrança de outra frase, aquele epitáfio.

A Boy Forever.

– Black? Está tudo bem com você?

Era o Weasley de novo, falando sobre o seu ombro e a sacudindo para longe da borda do seu buraco interior. Percebeu que deixara cair o enfeite e esse se partira de encontro ao chão.

– Droga. Sinto muito. – disse, a voz tão abafada que poderia ser de outra pessoa.

– Não se preocupe, esse é só o primeiro enfeite que meus pais encomendaram, para o seu primeiro Natal como uma família. – o rapaz disse, e sacando sua varinha, murmurou o feitiço que emendou a porcelana – Isso vai para a árvore também. É o último..

Ela observou Gui pendurá-lo no centro da árvore em destaque, enquanto sentia novamente aquela necessidade de voltar para casa, se deitar no seu sofá-cama em posição fetal e abraçar os seus joelhos. Suas fronteiras estavam abertas, a sensação a incomodava, como se o que antes fosse protegido sobre ela estivesse exposto e vulnerável por debaixo da sua casca esfolada.

– Eu pensei em escrever, do Egito. – ele lhe confessou, com uma expressão especulativa. Ela fitava árvore sem realmente vê-la.

– Por que você faria isso?

Ele lhe respondeu com outra pergunta:

– Gostou do meu presente, aquele que lhe trouxe no aniversário?

– Nunca o abri. – disse sinceramente.

– Almoço pronto, queridos! – anunciou a Sra. Weasley, e em seguida apareceu na sala e se desmanchou em elogios para a árvore. Bervely desejou saber se elas viam a mesma coisa, pois tudo que tinha na sua frente era um pinheiro caótico e muito colorido, cheio de coisas aleatórias que não necessariamente faziam referência ao Natal.

Enquanto a maioria deles comia – Bervely passeava as ervilhas e pedaços de frango de um lado a outro do prato inventando diferentes padrões – Tonks, o recém chegado Sr. Weasley e Charles tagarelavam sobre automóveis trouxas, incentivados pela recente multa que a família recebera por enfeitiçar um carro voador e deixar seu filho caçula ir com ele para Hogwarts em setembro. Tonks defendia os vintage, Charles os esportivos e o patriarca gostava dos "de câmbio manual", embora o significado disso fosse um mistério.

Ergueu o rosto experimentalmente para descobrir porque Gui não estava brigando por seu ponto de vista, e encontrou o olhar dele – a estivera observando. Percebeu que a atração que um dia sentira por ele e se encontrara uma vez à flor da pele agora estava amortecida pela bolha de irrealidade na qual ela se encontrava. Também via Guilherme através de um vidro fosco, ele acontecia lá do outro lado da vida, onde o mundo seguia sem se importar se Hector estava vivo ou morto.

– Então, como assim você não abriu o meu presente? – o ruivo interrogou em voz baixa através da mesa, sem que os outros, entretidos na conversa de carros, o ouvisse. – O que fez com ele, jogou fora?

– Sim. – ela confirmou. Não havia ponto em mentir, se ele queria mesmo entrar nessa questão.

Gui sorriu descrente.

– Que ingrata. Escolhi com tanto carinho.

Ela rolou os olhos. Não era possível que ele fosse tão obtuso a ponto de saber que a irritara naquele dia, tendo a audácia de trazer Tara consigo sem que ela fosse convidada.

– O que era, afinal?

O sorriso dele se amplificou, satisfeito.

– Parece que nunca vamos saber, não é?

– Hora da sobremesa! – Molly anunciou quando todos tinham raspado seus pratos ou, no caso de Bervely, deixado a sua comida tonta. Com um aceno capaz da sua varinha a bruxa mandou todos os pratos para a pia e as travessas de comida para o fogão, e trouxe levitando uma forma de pudim, tudo isso sem sair do seu lugar. – esse é o meu pudim especial de véspera de Natal, Bervely, você não deve ficar constrangida em repetir quando perceber que vai ser a coisa mais deliciosa que já provou na vida!

Ela lhe deu um sorriso forçado e suspirou para a fatia enorme que lhe foi servida. Não era muita afeita à doces na sua vida, e especialmente não vinha estando muito afeita à comida naqueles últimos dias. Seu estômago protestou em resistência quando deu a primeira colherada.

– Por que não vamos comer o nosso pudim lá em cima? Eu mal posso esperar pra ouvir aquele disco novo de Scanton Dragon Horn que você trouxe da Romenia, Charles, aposto que as meninas vão gostar também. – Gui sugeriu, já se levantando.

O irmão lhe olhou um pouco confuso, mas Tonks saltou feliz com a sugestão, e de repente eles não tinham mais escolhas.

A senhora Weasley olhou com desconfiança para o casal que o cuidador de dragões e a metamorfomaga faziam indo em direção as escadas.

– Portas abertas, vocês, não se esqueçam! Ah, esses jovens…

Bervely os seguiu, a taça de pudim em sua mão, a sensação de que estava avançando mais fundo nas entranhas do monstro da desonra enquanto subia as escadas tortas da casa dos Weasley. Tonks claramente conhecia o caminho de cor, indo inclusive na frente do grupo, e ela se perguntou quantas vezes a menina já subira para o quarto de Charles antes de ele ir morar na Romênia.

Ela tentou ficar alarmada com o fato de que estava indo para um quarto de garotos com Guilherme, mas só estava grata à ele por tê-la livrado de comer o pudim na frente da Sra. Weasley.

Eles foram até o último andar e entraram no quarto à esquerda: o teto era baixo e inclinado, as paredes forradas de um papel autocolante que imitava couro de dragão cinza claro, e haviam duas camas de solteiro. Estava organizado, mostrando claramente que não era usado há um bom tempo, e conservava algumas coisas antigas do meninos.

Havia bastante espaço no centro sobre um tapete trançado para sentarem, e Charles e Tonks mergulharam sobre um baú cheio de discos mágicos. Estes eram parecidos com os trouxas, mas às vezes as músicas mudavam de ritmo ou até de letra a depender das circunstancias, coisas que vinil trouxa jamais faria.

Ela já vira um disco se recusar a tocar em Durmstrang, ou ficar rouco quando estava fazendo muito frio.

– Mamãe não estava contando vantagem quando falou que esse pudim é a coisa mais perfeita que vai comer na vida. – Guilherme lhe advertiu, vindo sentar ao seu lado e recostando-se na mesma cama que ela escolhera.

– Não como muito doce.

– Tem certeza que você é desse planeta?

– Na maior parte do tempo eu tenho as minhas dúvidas.

Ele deu risada e colocou a própria taça vazia de lado.

– Posso comer o seu então?

– A vontade. – ela lhe entregou o doce e ficou observando ele levar a colher à boca distraidamente, envolvendo-a com os lábios finos e avermelhados, as mandíbulas fortes se movendo a cada colherada. Era sensual, mas simplesmente não a alcançava.

– Você viu o tanto de coisa que a mamãe está preparando para a ceia de amanhã? – Charles rolou os olhos para Tonks, ambos sentados sobre a cama deles, escolhendo que música iriam ouvir. Aparentemente Scanton Dragon Horn fora mesmo apenas uma desculpa.

– Sim. Por um momento eu pensei que todos estariam aqui. Está de dar água na boca.

– É porque temos uma convidada super especial amanhã e Molly adora exibir seus dotes culinários – o rapaz zombou, lançando um olhar para Gui, que retribuiu de cara feia.

– Charles, não começa.

– O quê, to mentindo? Não é todo dia que você recebe em sua humilde casa a Princesa da Sonserina. Não é assim que a chamam, Bervely?

– Desculpe? – ela estivera distraída novamente.

– Holmes, a grande salvadora do Natal dos Weasley, ela não é a Princesa da Sonserina na escola?

Tonks escolheu aquele momento para lançar um olhar preocupado prevendo uma reação de Bervely, mas a garota não fez como se importasse.

– Eu suponho. – deu de ombros.

– Como assim salvadora do natal dos Weasley? – a metamorfomaga inquiriu – o que ela fez para merecer a honraria?

Gui lançou mais um olhar de aviso para o irmão, mas isso não o impediu de continuar.

– Ela soube que mamãe e papai não iam mais poder viajar para o Egito e visitar o Gui, então mandou para ele as passagens para vir de surpresa, como presente de Natal adiantado. Você vê, eu já vinha de qualquer jeito quando soube, mas a Romênia é aqui do lado, já o Egito… Mamãe ficou tão feliz que até tricotou um suéter para a menina e a convidou para passar o Natal conosco!

– Uau – Tonks tinha as sobrancelhas muito arqueadas – Isso é… hum. Bem impressionante. Quero dizer, conhecer os pais é um grande passo, não é, do namoro sério.

Bervely reparou que Gui não parecia exultante com a notícia, mas talvez fosse só o jeito com que o irmão estava lhe delatando.

– Vocês deviam dar uma passada aqui amanhã. – Charles continuou, certamente achando que insistir no assunto fazia sentido – Black, você não é amiga dela? Você não disse isso pra mim uma vez, Gui?

– Não, eu não disse. – rosnou o ruivo mais velho, um tanto contrariado. Era uma mudança e tanto do dia do seu aniversário, em que Gui parecia crente de que elas eram próximas.

Bervely ficou intrigada com o que teria acontecido, além do mais ela mesma não sabia em que pé ela e Tara estavam depois que a garota salvara a sua vida ao chamar Snape para a Torre de Astronomia. Provavelmente aliviada por ter menos uma concorrente para lidar na disputa à monitoria-chefe?

– Okaaay, eu acho que podemos ouvir As Esquisitonas Acústico – Tonks anunciou, num tom mais alto querendo quebrar o clima pesado que se instalara – é um clássico, ou não é?

A banda barulhenta preencheu o quarto, os três engataram uma conversa animada sobre algum show deles que tinha sido transmitido pelo rádio no ano passado e Bervely puxou uma revista em quadrinhos de Bert e o Hipogrifo, só para ter com que se ocupar. Ela facilmente escorregou para o seu isolamento entorpecido e cheio de luto, repassando involuntariamente os últimos três meses de alucinações com Hector e tentando convencer a si mesma de que não tinha acontecido.

Ela sentia que se pudesse desconstruir cada momento daqueles, seu cérebro ia entender que nunca acontecera, e parar de lhe dar a impressão de que o primo apareceria a qualquer momento, com um sorriso infinito, com um sino, com uma aventura na manga.

Não. Ele não ia voltar. Seu corpo estava enterrado no bosque, não devia passar de uma pilha de ossos a essa altura. Foi tão irreal pensar em Hector como uma pilha de ossos que foi quase engraçado.

– Do que está rindo? – Gui voltou a se dirigir a ela, se inclinando para ser ouvido através da música – sempre achei esses gibis de Bart muito bobos.

– Eles são. – concordou, fechando a revista. Quando ergueu o rosto, foi para dar de cara com Charlie e Tonks envolvidos em tamanho beijo que não se sabia bem onde começava a boca de um e terminava a do outro. – Oh, merda.

Gui abriu um sorriso gigante para aquilo.

– Você ainda não tinha visto, né? Haja distração.

– Muita coisa na cabeça.

– É. Tara me contou… – diante da afirmação ela virou o pescoço tão rápido que estalou. Havia alarme em seus olhos, que Gui percebeu e recuou – o seu problema com as poções. E sobre o seu primo.

– Ótimo. – ela xingou, travando seus maxilares e cerrando seus olhos. Ia matar Holmes assim que a encontrasse.

– Ela não quis entregar você, só estava preocupada. E eu… sinto muito.

– Uma droga que você sente. – Bervely se levantou abruptamente – E uma droga que ela estava preocupada.

– Black, pra onde você v––

– Me deixa em paz, Weasley!

Ela saiu do quarto a passos rápidos, desceu as escadas para o nível térreo e zuniu para fora da casa antes que a Sra. Weasley detectasse a sua presença na cozinha. Só quando o vento gelado chicoteou seu cabelo ela se deu conta de que deixara o casaco lá dentro e estava completamente desprotegida para o frio, apenas com um suéter e uma calça jeans, para variar emprestados de Tonks.

– Black, espera! – Gui veio correndo atrás dela.

Como ele tinha as pernas muito mais longas que as dela e ela não podia correr muito sem se esborrachar no chão, o rapaz não teve problemas em alcançá-la. Tomou a sua frente para impedir que avançasse, e era a primeira vez que o via zangado de verdade.

– Larga de ser maluca, você vai congelar!

– Me deixa congelar, então!

– De onde tira tanta teimosia? – ele arrancou a própria jaqueta de couro e jogou em torno dela, que caiu pesada e inacreditavelmente quente sobre os seus ombros. – Olha, eu não quero me meter nos problemas de vocês duas—

– Então não se meta!

– … mas você deveria escrever para ela! – terminou, irritado. – Tudo que eu ouço desde que as férias começaram é o seu nome quando conversamos na lareira, e ela realmente não ia me contar o negócio das poções e da Torre, mas ela estava assustada!

– Ela falou da Torre também? – rosnou, irada. – Eu vou estripar Holmes!

– Faça o que quiser, mas não a ignore. As pessoas não gostam de ser ignoradas. – disse ele severamente. – Anda, vou te acompanhar até em casa.

– Não tem necessidade!

– Não estou te dando outra opção, caso não tenha percebido! – ele exclamou, deixando claro que podia ser tão teimosa quanto ela. – Não pode me impedir de andar ao seu lado. A não ser que queira ficar parada aqui até congelar, e acredite, você vai primeiro do que eu. Ou então você pode voltar para a minha casa.

Bervely bufou contrariada, mas foi andando no que ela presumia que era a direção do rio. Tudo estava coberto de infinito branco, e os pontos de referência se encontravam encobertos pela neve, mas como Gui permaneceu uma companhia calada ao seu lado, ela supôs que estava certa.

Um bom tempo de silêncio depois eles alcançaram a ponte e a atravessaram, e ela enterrou mais as suas mãos na jaqueta morna, olhando para o ruivo de relance.

– Você deve estar congelando.

– Não se preocupe com isso. Estou acostumado.

– Ah, não me diga que faz muito frio nos desertos egípcios. – zombou, achando que ele estava querendo contar vantagem

– Você ficaria suspeita em como pode ser frio dentro de uma pirâmide.

– Você trabalha em uma pirâmide? – rebateu com descrença. Agora tinha certeza que ele estava contando vantagem.

– Lógico. Pra que acha que elas servem hoje em dia?

Ela franziu seus lábios e não lhe respondeu. O chalé apareceu em seu campo de visão, o telhado coberto de neve parecendo uma decoração de bolo, as luzes internas acesas e muitas luzinhas douradas já piscando do lado de fora.

– Entregue em segurança. – ele fez uma mesura que ficou desajeitada em toda a sua altura.

– É, não com minha anuência. Aqui, obrigada pela jaqueta que fui obrigada a usar.

– Disponha. – ele lhe deu uma piscadela. – Hey. Promete que vai pensar em melhorar?

Ela franziu ligeiramente para ele.

– Do que isso te importa?

– É pela minha sanidade mental. Mesma razão que você vai escrever uma carta para a Tara avisando que continua viva e não se jogou de nenhuma torre nessas últimas duas semanas.

– Você vai vê-la amanhã – disse com azedume – Diga você mesmo.

– Humm. Ciúmes, Black?

– Não, Weasley. Pode ficar com a Princesa da Sonserina toda para você.

– Não era dela que eu estava falando.

Bervely o ignorou e entrou em no chalé, sabendo mais do que vendo que ele estava ali lhe observando com um sorrisinho idiota e convencido na cara.

(Continua)


_ Cenas do próximo capítulo _

"Ela deitou no chão da cela imunda, estendeu seus braços abertos e se deixou devorar.

Os monstros vieram e cavaram nela, procurando algo de bom com que se banquetear. Eles se depararam mais uma vez com o vazio, o buraco, a dor, e irritados, enfiaram seus dedos longos e podres nas piores memórias e as esticaram sobre seus olhos abertos, obrigando-a a reviver tudo de novo…

() Erradicara Hector do mundo, merecia ser devorada pelos monstros. Merecia entregar a sua alma…

"Entregue", uma voz que era ao mesmo tempo familiar e louca persuadiu em seu ouvido, "entregue e estaremos livres…"

Ela cogitou a proposta. (…) Talvez a obliteração de um corpo sem alma não fosse tão ruim assim.

Sem alma, não havia culpa.

"Entregue…""


Nota: Não dá pra fugir dessa dor, né? Espero que os esclarecimentos de Snape tenham sanado as principais dúvidas, mas o tema não vai se extingui intenção deixar algumas coisas por conta da imaginação, mesmo ;)

O próximo cap é tenso e eu vou TENTAR postá-lo mais cedo, na quarta feira, então fiquem ligados, ok?


Guest: Obrigada, vou continuar sim, continue comentando também, muito me agrada =)

Gabriela: Oi! Bom saber disso :) O hábito de comentar é muito importante pra a motivação do escritor, viu, moça? Eu não vou parar de postar e espero te ver mais por aqui. Daqui até o final muita coisa acontece, curta a viagem :P Bjos e até o próximo!

Abby: Pois é, nem tudo é o que parece :' mas segura firme aí e vamos em frente! Bom te ver por aqui :*