Disclaimer: Por muito que adore a história e as personagens do anime Shingeki no Kyojin, estas obviamente não me pertencem e todo o crédito vai para a criatividade e talento do Isayama Hajime.

Muito obrigada por todas as reviews *.* E sem mais demoras cá está o novo capítulo que devia ter sido postado antes, mas por falta de tempo só pude atualizar hoje. Espero que gostem ;)


Surpresa

Depois de despedirem-se do Sr. Arlert ao fim da tarde uma vez que quiseram aproveitar o horário das visitas até ao final, todos dividiram-se entre os carros de Jean e Bertholdt para irem até à casa do professor Levi.

Tinha sido uma surpresa geral ver que aquele homem pouco sociável oferecia a sua própria casa para passarem o Natal. Para os amigos de Eren, estarem juntos nessas épocas festivas tinha-se tornado um hábito já que por razões pessoais, cada um deles estava impedido ou não queria estar com a sua família de sangue. Portanto, numa época dedicada à família e à união, a amizade que os ligava era um laço muito importante que não deixava que se sentissem sós.

Já por seu lado, Levi passava o Natal com os seus pais e em algumas ocasiões, a família de Hanji também os acompanhava. Ele preferia algo simples e calmo. Por conseguinte, não esperava aceitar a ideia absurda de levar alguns dos seus alunos e amigos deles para casa, mas eis que se encontrava precisamente nessa situação. Agora que refletia melhor sobre o assunto, concluía que precisava fazer algumas compras porque precisava alimentar um bando de adolescentes em fase de crescimento.

"Como é que me fui meter nisto?! Ah sim, aquela loira manipuladora levou a melhor sobre mim com um comentário estúpido sobre o Eren. Esse que também parece ter a mania de dormir com qualquer um que lhe dê uma almofada e uma cama", pensava cada vez mais irritado.

Assim que estacionaram os carros diante do prédio onde vivia o professor, este ouviu uma voz familiar.

- Mon cher! (Meu querido/amor).

Levi virou de imediato o rosto na direção da voz e logo viu um sorriso brilhante. A mulher fechou a porta do carro e veio até ele com uma expressão que não deixou ninguém indiferente.

- Maman? - Respondeu na sua língua nativa que fluía naturalmente quando a escutava.

"É francês?", perguntou-se Eren surpreso, "Se percebi… é a mãe dele? Sim, espero que seja, caso contrário está demasiado perto dele".

- Oh, graças a Deus que chegaste e estás bem. – Disse, afagando o rosto dele. – Estava tão preocupada. Por esta altura, já nos costumas ligar para combinar as coisas para o Natal e este ano…

- Desculpa. – Pediu, sorrindo um pouco ao ver ela continuava a dar-lhe pequenas festinhas no rosto. – Tenho tido tanta coisa na minha cabeça que... eu sei que não é uma boa desculpa, mas prometo que não volta a acontecer.

A mulher de cabelos negros cacheados, olhos castanhos e vestida elegantemente, notou então os olhares curiosos dos jovens que pareciam surpresos por ver o professor com uma postura tão relaxada e até com um sorriso.

- Ah… - Armin foi o primeiro a tomar iniciativa. – Penso que o professor não teve tanto tempo por minha culpa. Ele esteve a ajudar-me a mim e aos meus amigos. Lamento se isso a preocupou.

- São os teus alunos, mon cher?

- Oui… ah, sim. – Disse, corrigindo-se em seguida ao ver que os olhares curiosos retornavam ao ouvir o seu sotaque francês.

- Oh, que grupo tão simpático e adorável. – Disse sorridente ao ver que todos lhe sorriam, alguns um pouco envergonhados. – Prazer, sou a Catherine, a mãe do Levi. – Apresentou-se.

Uma perguntava pairava na cabeça de todos: Como é que alguém que parecia ser a reencarnação da simpatia e sociabilidade conseguia ser mãe de alguém para quem sorrir devia ser um mito? Fora isso, conseguia ver as semelhanças entre os dois. Principalmente uma que Annie destacou num tom mais baixo para não atrair olhares mortais: o professor Levi e a mãe partilhavam a mesma altura. O que levou alguns deles a fazerem apostas sobre o pai dele que se encontrava no apartamento a arrumar os presentes e outras coisas que tinham trazido para passar o Natal.

Eren e Bertholdt ajudaram Catherine a levar uma mala e dois sacos do carro. De seguida, todos se dirigiram para o elevador enquanto ela pedia que todos se apresentassem e no fim da pequena 'viagem' de elevador, ela já sabia o nome de todos.

- Vamos ter casa cheia este ano. – Anunciou Catherine ao entrar no apartamento e encontrar o seu marido a descer de um banco, depois de colocar mais uma decoração de natal.

Santiago, assim se chamava o homem de quem Levi não tinha herdado a altura. Era bem mais alto, embora também tivesse os cabelos negros e já era mais fácil ver de quem Levi retirava a sua inspiração para olhares indiferentes. Ainda que após uma troca de palavras inicial, todos relaxaram na sua presença e chegou inclusive a esclarecer que provinha de descendência portuguesa que acabou por imigrar para França, onde acabou por conhecer a esposa. Também tinha uma história no exército, embora só ao fim de quinze anos de serviço é que decidiu dedicar-se ao ensino. Era claramente a inspiração do filho. Assim que viu Levi, disse que não devia preocupar a mãe, "desaparecendo" sem mais nem menos.

- Lamento imenso. – Disse Levi num tom que soava estranho para os presentes que não estavam habituados a ver aquela postura menos autoritária.

- Oh, não te preocupes com isso, mon cher. – Disse Catherine sorridente e já com um avental. – Parece que terá tido as suas razões e por isso, antes de começar a cozinhar, será que Armin podias explicar o que aconteceu? Pareciam tão abatidos quando toquei no tema.

Levi suspirou ao ver a hesitação do seu aluno. Esse era o sinal que Armin precisava para saber que não havia outra opção senão contar a verdade, mesmo que o professor não se quisesse promover com o ocorrido. O rapaz explicou o que aconteceu com o seu avô e todo o contexto dos últimos tempos sob o olhar atento de todos.

- Não precisas ficar assim, filho. Ele está grato e com razão. – Disse, acariciando os cabelos de Levi que virava o rosto. – Foi muito amável da tua parte e só me faz ter ainda mais orgulho em ti.

- A tua mãe tem razão. Não é razão para ficares assim. – Concordou o pai dele.

Era óbvio para o professor que os alunos e amigos estavam a divertir-se com a cena em silêncio. Pelo menos até certo ponto, pois também havia algo que os entristecia naquela cena de carinho. Aquela pequena parte do seu coração que tinha uma certa mágoa por não terem uns pais que os tratassem daquela forma.

No caso de Reiner, Bertholdt, Annie e Jean esse era um pensamento que lhes cruzava a sua cabeça. Como era bom ter o apoio das figuras parentais e que houvesse alguém que os tratasse daquela forma. Em vez disso, os pais nem ao menos queriam ver a cara deles, nem mesmo durante uma época como aquela.

Quanto a Armin, Mikasa e Eren o vazio era diferente. Nunca tinha havido qualquer figura parental de que sequer se pudessem recordar. O primeiro ainda tinha alguma família que lhe proporcionasse momentos daqueles, mas os dois irmãos só se conseguiam perguntar como seriam as coisas senão tivessem crescido num orfanato. E se em vez disso, tivessem tido uns pais que os cuidassem daquela forma? Para Mikasa era mais fácil dissipar esse pensamento. Bastava que segurasse a mão de Eren e este lhe devolvesse o sorriso relembrando que à sua maneira eram família. Não é que o rapaz de olhos verdes não a considerasse como família ou mesmo os seus amigos, mas… havia sempre aquele vazio que o relembrava que um dia alguém não o quis e abandonou-o naquele lugar.

- Estás bem, Eren?

Repentinamente ao regressar à realidade que o rodeava viu os olhares curiosos e um pouco preocupados dos presentes na sala. À sua frente, estava Catherine que tocou de leve o seu rosto, dizendo:

- Um rapaz assim tão bonito não devia ter esse ar tão triste.

Eren corou um pouco e sorriu, dizendo que não se passava nada e que apenas se perdeu em pensamentos sem importância. Mikasa, Annie e Armin trocaram olhares e suspeitaram da razão daquele ar abatido que esteve na expressão do adolescente de olhos verdes.

- Como vamos ter mais pessoas do que pensava aqui, vou precisar de algumas mãozinhas na cozinha. Alguém se candidata? – Perguntou a mãe de Levi.

- Posso ir ajudar. – Ofereceu-se Mikasa.

- Também posso ajudar, sobretudo na área dos doces e bolos. – Falou Armin e Annie optou por sentar-se perto de Eren que passou também a ter Bertholdt ao seu lado. Entretanto, Reiner e Jean tinham começado uma conversa com Santiago sobre a vida na França e o tempo no exército. Já Levi perguntava-se do porquê do comportamento abatido de Eren. Se bem que várias ideias lhe passaram pela cabeça. Não acreditava que tivesse boas lembranças do Natal, principalmente no tempo em que passou no orfanato. Porém, algo lhe dizia que ia além disso. Aquela época festiva em específico salientava os laços familiares e quem sabe, fosse isso que o deixasse com aquele sorriso que tentava não quebrar na frente dos outros.

"Considerando todos aqueles sonhos como reais, naquele tempo, fechava-me para os outros porque cresci sem família e num meio que não me permitia criar laços com os outros. No entanto, aqui… sinto como se tivesse tido muito mais sorte do que aquilo que realmente mereço. Se eu pudesse Eren… trocaria contigo. Merecias muito mais do que eu crescer numa família que te amasse…", pensava o professor que se levantou discretamente do sofá e decidiu ir até à cozinha, ver se precisavam de ajuda e claro, verificar se não estavam a sujar tudo.

- De certa forma, entendo como se sente. É triste pensar que não fomos desejados neste mundo e que por isso, se livraram de nós, deixando-nos naquele orfanato.

Era a voz de Mikasa que fez Levi parar perto da porta e naquelas poucas palavras, entendeu que de alguma forma, a mãe dele tinha tentado conhecer um pouco mais dos seus alunos e acabara por descobrir que eram órfãos. Pelo menos, dois deles podiam dizer isso. E embora, não tivessem qualquer laço familiar com o Sr. Arlert, este acolheu-os.

Contudo, mais do que essa parte da história que ele já conhecia, as palavras da rapariga de longos cabelos negros fizeram-no entender outra coisa. Ela e Eren pensavam de forma semelhante, o que significava que em épocas como aquela, os dois mais do que nunca, sentiam que por não serem desejados, acabaram por ser abandonados. Era quase como admitir que eram descartáveis e o professor só podia imaginar o quanto aquilo os devia magoar, mesmo que não quisessem demonstrar.

Pouco depois das palavras tristes, Mikasa foi abraçada. A jovem corou ligeiramente.

- Nunca digas uma coisa dessas, Mikasa. – Pediu Catherine. – Tenho a certeza absoluta que és muito amada pelos teus amigos. O Sr. Arlert também é um bom homem. Tenho a certeza que te ama como se fosses sua neta de sangue e não cria qualquer distinção entre vocês. – Afastou-se ligeiramente para limpar uma lágrima que caía pelo seu rosto. – Tens tanto de adorável, como tens de forte. Coloca um sorriso lindo e não penses tanto no que poderia ter sido, mas pensa em como podem ser as coisas daqui para a frente. Para todos os efeitos, tens aqui uma família. Amigos também são família e eu… - Segurou as nas mãos da rapariga. – Também quero fazer parte desse círculo de amigos que te quer bem.

- Obrigada… - Deixou cair mais algumas lágrimas. – É tão gentil… não sei o que dizer. – Limpou o rosto, envergonhada.

Catherine virou-se para Armin e também o abraçou, dizendo:

- Ah, quero ficar com todos! São tão queridos e lindos!

Armin e Mikasa riram um pouco com os gestos de carinho que eram muitas vezes, intercalados com apelidos carinhosos franceses. No entanto, uma coisa era certa: era o carinho, o abraço e as palavras mais próximas que alguma vez tinham tido de uma mãe. Mesmo que não fosse a mãe deles, sentiam como se naquele momento, pudessem apreciar um pouco da sensação que apenas uma mãe podia transmitir a um filho.

Levi sorriu um pouco, afastando-se da cozinha sem ser visto.

"A minha mãe nunca muda…", concluía em pensamento e voltou à sala, onde ouvia com atenção algumas histórias do seu pai que já conhecia, mas que admitia que não se cansava de escutá-lo. Nunca pensou encontrar tanto reconforto na voz de alguém. Contudo, crescer com uma família que lhe dava tanto carinho, fez com se sentisse relaxado com coisas tão simples como ouvir histórias.

Além disso, notou que Eren também parecia interessado na conversa, sobretudo quando Santiago falava dos países que já tinha visitado. Os olhos verdes praticamente cintilavam com o que ouvia. Nada na sua expressão era capaz de esconder o quanto parecia fascinado com a ideia de viajar e conhecer novos lugares, culturas e pessoas diferentes. Vê-lo tão cativado pelo que ouvia, fazia com que Levi tivesse que controlar uma vontade de sorrir. Tentou ocupar a cabeça com outras coisas e a certa altura, ao sentir os aromas que se desprendiam da cozinha, levantou-se novamente para ir ver como andavam os preparativos.

Mais tarde, entre todos arrumaram uma bonita e generosa mesa de Natal. Ninguém podia negar que Catherine era uma cozinheira de mãos cheias e que tinha trazido comida para alimentar multidões. Jean chegou a comentar sobre isso e Santiago disse que a mulher era mesmo assim. Mesmo que só fossem os três a passar o Natal em casa, ela comprava sempre a mais para o caso de ter visitas. Ela vibrava com essa possibilidade e por isso, naquela noite estavam a realizar um dos sonhos dela que era ter a casa cheia de bocas para alimentar e pessoas para abraçar. A essa altura, apenas Eren parecia ter escapado dos abraços carinhosos que surgiam repentinamente após algum comentário por parte dos seus amigos. Fosse um elogio à comida ou à gentileza da mulher que parecia ter nascido com um sorriso no rosto.

- Deixe-me adivinhar, a Catherine é cozinheira. – Sugeriu Jean.

- Não, querido. – Respondeu pela quarta vez à tentativa de adivinhar a sua profissão.

- Estilista? – Tentou Bertholdt. Mesmo o rapaz normalmente reservado sentia-se à vontade na presença de Catherine que sorriu mais uma vez, acenando negativamente.

- Professora? – Arriscou Reiner. - Andamos aqui a ser exóticos com as profissões em vez de irmos ao básico.

- Também não. – Respondeu, colocando mais um pouco de comida no prato dele.

- É alguma investigadora de alguma área científica? - Atirou Armin curioso ainda que o nome Catherine não lhe soasse familiar nos livros que já tinha lido, mas como existiam tantas áreas científicas diferentes…

- Bibliotecária? – Tentou Mikasa antes de deixar que Catherine respondesse.

- Não, queridos. Mas andam lá perto. – Replicou no mesmo tom animado e levantou-se mais uma vez para ir até à cozinha pegar em mais uma das mil e uma sobremesas que tinha preparado com Mikasa e Armin. De regresso, Eren e Annie observaram o mesmo gesto que podia ter passado despercebido, mas era elegante e era uma dica básica.

- Bailarina. – Afirmaram os dois ao mesmo tempo e trocaram olhares antes de se rir.

- Acertaram! – Disse, juntando as mãos.

- Huh?! Tu perguntaste-lhe, Jaeger! – Disse Jean irritado.

- Acredita no que quiseres, Jean. Se tivesses um pingo de atenção, tinhas visto o movimento que a Catherine fez antes de pousar as coisas na mesa. – Disse Eren, tentando não deixar a sua irritação levar a melhor.

- Foi uma dica bem óbvia. – Concordou Annie e recebeu um beijo no rosto de Catherine que disse que esse era o seu prémio por ter acertado.

- E agora, o abraço ao único menino que anda a fugir de mim. – Disse, aproximando-se de Eren que ficou um pouco tenso.

Sim, ele tinha evitado falar muito ou tecer demasiados elogios àquela mulher carinhosa. E porquê? Toda aquela atmosfera familiar estava a recordá-lo daquilo que nunca teve e não queria arruinar a noite de Natal com o seu ar triste. Portanto, a partir do momento que aqueles braços o rodearam com carinho, soube à partida que estava mais vulnerável. E como se isso não fosse suficiente, vieram aquelas palavras sussurradas:

- Não podemos mudar o passado, mas não te esqueças que a tua família, os teus amigos, todos aqui presentes estão muito felizes por te terem conhecido. Para todos nós, teres nascido e existires é algo que nos faz muito feliz. Não deixes que ninguém te diga o contrário, não deixes que tu mesmo acredites que isto não é verdade…

- Eren? – Chamou Mikasa preocupada e Levi fez um sinal para que os deixassem e não interferissem enquanto o rapaz de olhos verdes escondia o rosto com lágrimas naquele abraço. A esse se juntavam palavras e alguns beijos nos seus cabelos que lhe transmitiam aquilo que ele só podia reconhecer como amor de uma mãe.

- Vou raptar-vos a todos, está decidido. – Anunciou Catherine, continuando a acariciar os cabelos de Eren que entretanto estava mais calmo e acabou por rir com os seus amigos. – Estou a falar a sério, são todos tão adoráveis que não faço ideia de como os vossos pais vos deixaram passar o Natal fora de casa.

- A situação do Armin, da Mikasa e do Eren é delicada, mas pelas vossas caras deduzo que os vossos pais estejam vivos e bem de saúde. – Comentou Santiago, bebendo mais um pouco de vinho. – Não me interpretem mal. Passar esta época com tanta gente aqui em casa tem sido uma experiência memorável.

- Digamos que os nossos pais não aceitam escolhas que fizemos nas nossas vidas e por isso, nem sequer nos querem ver… nem mesmo em épocas festivas. – Resumiu Annie, vendo a relutância dos seus amigos. – Estou a seguir o meu sonho de ser coreógrafa e para isso, tive que sair de casa e parar de ser tudo aquilo que os meus pais pensavam que era melhor para mim.

- Também já não vivo em casa. – Foi a única coisa que Jean disse.

Eren sabia que explicar a situação dele não iria soar bem. Por muito compreensivos que os pais de Levi fossem, saber que ele tinha saído de casa por não se conformar com a vida simples que levava não ia ser fácil de engolir. Muito menos, se ele contasse como fazia para se sustentar desde que tinha saído da alçada dos pais.

- Os nossos pais não lidam nada bem com certas escolhas que fazemos… - Murmurou Bertholdt. – Por isso, por muito que nos custe, às vezes temos que fazer escolhas destas. Não é que me queixe muito, até porque tenho ótimos amigos e isso de certa forma para mim também é família.

- Vivemos juntos. – Afirmou Reiner confiante. – Eu e o Berth.

- De verdade? – Perguntou Catherine com um brilho nos olhos. – Formam um casal tão bonito! Por que razão alguém haveria de ter algo contra?

Não só Bertholdt como Reiner foram apanhados desprevenidos. Todos à exceção de Levi e o seu pai que continuavam a beber o vinho e pouco ou nada impressionados com a resposta da mãe e mulher, respetivamente.

- A Catherine não acha estranho? – Perguntou Jean curioso.

- Estranho? – Indagou surpresa. – Se eles gostam um do outro, só posso desejar que sejam muito felizes juntos. O amor não é um padrão. Não é uma fórmula exata que cada um tem que seguir. O amor é livre, quebra barreiras, ultrapassa fronteiras. – Colocou-se entre Reiner e Bertholdt. – Acho que um pai e uma mãe deviam ficar felizes quando veem os filhos felizes. O que os outros pensam é totalmente irrelevante.

- Mesmo que fosse o seu filho? – Perguntou Annie e nesse instante, Levi teve que servir-se de toda a sua habilidade para manter-se impassível e não engasgar-se com o vinho que estava a degustar na companhia do pai.

Obviamente que se ele conseguiu passar despercebido, ver Eren engasgar-se com um pedaço de bolo de chocolate foi no mínimo caricato. Mikasa teve inclusive de lhe bater nas costas e obrigá-lo a beber água enquanto Armin pedia que levantasse os braços.

- Se o meu Levi estiver feliz, seja com uma mulher ou um homem para mim é exatamente igual, não concordas Santiago?

- Sim, embora deva dizer que gostava que prolongasse os genes e o nome de família. – Brincou.

- Ora, adota ou usa barrigas de aluguer. – Retrucou Catherine. – Com este mundo moderno e cheio de possibilidades mesmo que o meu Levi se interesse por alguém do mesmo sexo, ainda posso ter netos. Basta haver vontade.

- Apenas perguntei porque acho que no nosso meio de amigos, estou habituada a ver os pais a idealizarem vidas para nós e quando saímos desse caminho, parece que deixamos até de ser família. – Comentou Annie, tentando desviar a atenção de Eren que ainda estava corado e bebia o seu segundo copo de água.

- Penso que antes de um filho nascer, sempre idealizamos algumas coisas. – Começou o pai de Levi um pouco interessado no ar tenso do filho que agora, parecia acalmar-se. – Mas acho que ser pai ou mãe é aprender que desde que os nossos filhos sejam felizes, isso para nós devia ser mais do que suficiente. E eu tenho bastante orgulho no homem que o meu filho se tornou.

- É verdade. – Concordou Catherine. – Se eu gostava que o meu filho fosse médico? Ou que ele casasse já amanhã e me desse netos?

- Mãe…

- Não, prefiro que seja feliz. Acho que se todos os pais se lembrassem disto, tudo seria melhor.

- A propósito, Catherine quando admitiu há pouco que era bailarina, referia-se a música clássica? – Armin decidiu puxar outro assunto antes que Eren acabasse por morrer sufocado devido a mais algum comentário ou até mesmo o professor Levi perdesse a compostura que estava a manter como um verdadeiro campeão.

Internamente, os dois agradeceram pela mudança do rumo da conversa.

A mulher de cabelos negros cacheados era formada em dança clássica, mais precisamente ballet e agora que não atuava em espetáculos, dava aulas. O que gerou um protesto de Reiner que disse que tinha dito "professora" como sugestão de profissão e afinal, tinha acertado. Para compensar o seu amuo, Catherine colocou mais três rabanadas no prato dele e contou que além da música clássica, interessava-se pela dança em geral. Consequentemente, além de dedicar-se de corpo e alma ao ballet, arranjou sempre algum tempo para explorar outros tipos de dança e aprendê-los. Esse tipo de conversa chamou ainda mais a atenção de Annie que começou a falar sobre alguns artistas conhecidos e ambas, pareciam ter gostos semelhantes. Eventualmente, Annie gabou-se do seu orgulho que era a banda "Hunters" que ela tinha ajudado a formar e orientava em concertos amadores.

- E se afastarmos ali a mesa de centro e atuarem para mim? Gostava tanto de ver!

- Falta um elemento. – Lembrou Bertholdt.

- Nós cá nos arranjamos. – Disse Jean animado com a ideia. – Vamos surpreendê-la, Catherine.

- Sei que estamos no último andar, mas controlem-se com o ruído. – Avisou Levi.

A jovem de cabelos loiros ligou as colunas da aparelhagem ao seu MP4, onde guardava todas as músicas que a banda "Hunters" usava nos seus concertos. Reiner e Jean afastaram a mesa de centro e Eren e Bertholdt trocaram algumas impressões. De seguida, Annie anunciou que iriam mostrar uma boa atuação de uma das músicas preferidas dela. Antes que Jean pudesse contestar, disse que preferia que Eren assumisse a parte vocal principal da música que começou a tocar, apenas com o instrumental e assim revelou as quatro vozes afinadas que se moviam perfeitamente ao som da música. "This Love" foi apenas a primeira de várias músicas que os quatro elementos da banda mostraram.

Durante aquilo que se poderia chamar de um "concerto privado", Mikasa que estava sentada ao lado de Annie, murmurou:

- Esta é uma das razões pelas quais nos damos tão bem… - Apontou discretamente para o irmão que acabava de executar uma coregrafia no mínimo sugestiva. – És a única que o consegue convencer a fazer este tipo de coisas.

- A verdade é que também me aproveito da situação. – Admitiu divertida.

Também Catherine teceu vários elogios, não só às vozes harmoniosas, mas também à coreografia. Afirmou mais do que uma vez que Annie estava sem dúvida a seguir uma boa carreira e a certa altura, exigiu demonstrar também ela o que sabia fazer em termos de dança. O que viram não foi ballet, pois ela pediu que colocassem outros tipos de músicas. Quis dançar com cada um dos presentes e o único que conseguiu escapar foi Levi que depois de ver Eren a atuar de forma provocante e sugestiva, bebeu um pouco mais do que inicialmente era a sua intenção.

Com a chegada da meia-noite, veio a troca de presentes. Essa que deixou Catherine triste porque dizia que se soubesse que iria ter mais pessoas em casa, teria comprado presentes. Como resposta, os convidados disseram que também lamentavam não ter nada para lhe dar uma vez que Levi já lhes tinha oferecido a própria casa para passarem a noite e os pais ajudaram na decoração e preparação da refeição.

- Oh Eren… não era preciso. – Disse Mikasa surpresa com o par de botas que estava dentro da caixa e recordava ter visto há cerca de dois meses atrás. Só que como eram muito caras, optou apenas por observá-las pela vitrina.

- Precisavas de umas e sei que gostaste dessas. – Foi a resposta do irmão.

- Mas eram caras…

- E então? Eu trabalho por alguma razão, Mikasa. – Sorriu. – Acho que tenho o direito de querer dar um miminho à minha irmã de vez em quando.

Ela abraçou o irmão e beijou-o no rosto, agradecendo mais uma vez pelo presente.

Eren sabia que nesse mês estava bem mais exausto do que nos anteriores já que se ofereceu para fazer todas as horas extras disponíveis. Essa era outra das razões para não ter saltado refeições nos últimos tempos. Não era somente a falta de apetite, mas também a falta de tempo.

Contudo, tudo isso era compensado pelos sorrisos que via à sua frente. Armin ficou emocionado mais uma vez porque um livro para ele era sempre o melhor presente. Bertholdt e Reiner também agradeceram pelas luvas e cachecóis, até mesmo o Jean murmurou algum agradecimento quando recebeu uma carteira. Já Annie também o abraçou para agradecer pelo perfume e ainda havia outras pequenas lembranças para outros amigos que ele tinha deixado em casa.

- Este ano juntámo-nos para comprar o teu. – Anunciou Armin ao entregar juntamente com Mikasa. Era um presente com umas dimensões consideráveis. – Todos demos um bocadinho para ser mais fácil comprar. Portanto, isto não é só no nome dos nossos amigos aqui, mas também o Connie, a Sasha, a Christa e a Ymir.

Surpreendido e ao mesmo tempo, curioso Eren começou a abrir o presente. Estava muito bem embrulhado e mesmo quando alcançou a caixa, não era possível ver do que se tratava até que a abriu e…

- Wow… não era preciso. – Começou por dizer. – Isto deve ter sido uma fortuna.

- Entre todos não foi assim tão difícil juntar. – Disse Annie satisfeita pelo ar alegre do seu amigo ao retirar a guitarra do interior da caixa.

- Vem com dois amplificadores por isso, aconselhamos-te a só usar isso durante o dia a menos que queiras vizinhos furiosos atrás de ti. – Falou Reiner.

- Sempre disseste que querias ter uma guitarra elétrica, Eren. – Lembrou-o Jean. – Então, os teus bons amigos como boas pessoas que são, procuraram uma. E já que íamos comprar, resolvemos comprar uma boa.


*Levi*

Ele estava tão feliz e ao mesmo tempo emocionado com a prenda dos amigos que até mesmo o Jean, o alvo de toda a sua "simpatia", ouviu um agradecimento.

Se por um lado, gostava de o ver assim, por outro fez com que me sentisse um pouco culpado por não lhe ter comprado nada. Ainda que ele pudesse argumentar que já lhe tinha dado o presente por causa da situação do Sr. Arlert, não pude deixar de pensar que gostava de o ter feito sorrir daquela forma.

Ao aperceber-me do rumo dos meus pensamentos, concluí que não devia ter bebido tanto vinho. Obviamente, o meu cérebro estava a ser devorado pelo álcool e isso não era bom. Precisava manter-me racional até que pudesse deitar-me e acordar no dia seguinte com uma puta de ressaca que me faria repreender a minha falta de controlo com o álcool. Não era algo habitual. Bebia esporadicamente e em quantidades reduzidas. E porquê? Infelizmente, a pior pessoa à face da terra que poderia saber o motivo, conhecia a razão e em primeira mão. Além dessa razão embaraçosa, havia a normal. Nunca fui alguém que tivesse grande interesse em noitadas temperadas com álcool ou outras substâncias. Bebia socialmente, o que se pode dizer que não era algo nada comum.

- Bon Anniversaire, mon cher!

E lá se ia pelo cano abaixo, a ideia de que a minha mãe ia ser mais discreta quanto ao meu aniversário. Se há coisa que odiava era ter todas as atenções viradas para mim, sobretudo em ocasiões como aniversários.

No entanto, não tive escolha senão ouvir isso da parte dos convidados e notar como o Eren o disse de um modo bem mais acanhado. Além disso, pude ver alguma tristeza no seu rosto quando viu a minha mãe entregar-me um presente. Não precisava pensar muito para concluir que se sentia mal por não me ter comprado nada.

Eventualmente, precisava dizer-lhe que não era preciso pensar nisso.

Também queria ter tido a oportunidade de dizer isso aos meus pais, antes de descobrir que na garagem do prédio tinha um carro à minha espera e como se isso já não fosse um presente bom o suficiente, juntaram uma pequena viagem a uma estância de neve. Disseram que como andava com muito trabalho, devia aproveitar para descansar e relaxar. A estadia era para duas pessoas e por isso, sei que a intenção deles era que fosse com alguém.

"Sempre tão subtis com as suas dicas casamenteiras", pensei enquanto guardava as reservas da estância e saía do meu quarto, onde os meus pais iriam dormir. O quarto de hóspedes iria ficar com a Mikasa e a Annie uma vez que me recusava a deixá-las dormir na sala com a maioria. Embora deva dizer que alguns ficaram demasiado à vontade já que sem pedir ou perguntar, Jean ocupou o sofá com Armin que parecia bem contente com a ideia. Quanto a Reiner e Bertholdt ficaram no tapete junto à televisão e adormeceram pouco depois, sem grande disputa pelo lugar onde queriam ficar. Vi o Eren fazer uma cara insatisfeita por ter que dormir perto do sofá, enquanto dizia:

- Quero dormir por isso, controlem-se.

Com o cobertor e a almofada na mão, resolvi deitar-me perto da mesa e virado para a estante. Não seria uma boa ideia sequer ter o Eren no meu campo de visão. Estava a lutar por agarrar-me aos últimos instantes sobriedade. Não queria imaginar o que podia acontecer se deixasse o álcool falar por mim. As últimas memórias que tinha de um acontecimento assim, não eram bonitas. E a Hanji ainda tinha provas fotográficas e vídeos, o que também não ajudava.

"Por falar nela…", estiquei o meu braço até alcançar o telemóvel e optei por ignorar as dezenas de chamadas não atendidas. Ela podia ter muitos defeitos, mas merecia pelo menos que lhe desejasse um bom Natal. Enviei também uma mensagem ao Irvin com um P.S a dizer que esperava que as coisas entretanto estivessem resolvidas. Enviadas as mensagens que queria, puxei o cobertor e larguei o telemóvel num canto. Precisava dormir, a minha cabeça estava a dar demasiadas voltas.

Ainda não tinha descansado o suficiente para sentir os efeitos do álcool a desvanecer quando ouvi passos. Se os passos se distanciassem, provavelmente teria tentado mergulhar no sono novamente, mas assim que percebi que se dirigiam a mim, apenas um pensamento passou pela minha cabeça.

"Eren".

Virei-me e vi que tinha acabado de abaixar-se ao meu lado.

- O que estás a fazer? – Perguntei num tom baixo.

- Toda a gente está a dormir com companhia… só nós é que…

- Eren, volta para o meio dos teus amigos. – Falei e vi que estava a ignorar-me quando inclinou-se sobre mim.

"Puta que pariu, não posso ver os teus olhos tão perto… não agora, não com esta vontade de…"

- Desculpa por não te ter comprado nada… - Murmurou.

- Não tens que pedir desculpa por algo assim.

- Herzlichen Glückwunsch zum Geburtstag! – Sussurrou Eren perto dos meus lábios.

- Essas palavras todas são só para desejar um feliz aniversário? – Perguntei, colocando a mão no seu ombro para manter a pouca distância que ainda nos separava. – Eren não faças isto comigo…

- O quê, Levi? Só quero dar-te um beijo para te desejar um bom aniversário…

Não devia. Mais do que nunca, devia ter dito que não. A qualquer momento, um dos miúdos na sala podia acordar e bastava olhar naquela direção para verem o que se passava. Ou mesmo se algum dos meus pais se levantasse durante a noite e ao olhar para a sala visse aquilo, não saberia como explicar.

Porém, mesmo sabendo que não era o mais seguro, deixei que me beijasse. Não ofereci qualquer resistência, deixando que dominasse o beijo. A minha mente estava a apagar-se. A parte racional estava a desaparecer por completo. Queria aquela boca, aquelas mãos, aquele corpo junto do meu. Com uma das mãos agarrei os seus cabelos e a outra procurou tocar aquela pele morena por baixo da camisola. Senti que se arrepiou, continuando a explorar a minha boca enquanto se posicionava sobre mim e movia os seus quadris contra mim. Assim que o fez pela terceira vez, tive que parar o beijo e levar a mão à boca para silenciar um gemido.

Uma ínfima parte na minha consciência ainda tentava recordar-me das consequências caso alguém ouvisse e nos apanhasse naquela situação. Isso não o deteve, apesar de não ter acesso à minha boca começou a beijar o meu queixo, o meu pescoço e depois subiu até à minha orelha.

- Levi… - Sussurrou e movimentou novamente os quadris sobre mim.

- Merde! – Deixei escapar entre os dentes e nesse momento, em vez de fazer o mais lógico que seria parar com aquilo, deixei que a parte em mim que não gostava de estar naquela situação viesse ao de cima. Portanto, antes que pudesse sequer entender o que estava a acontecer, troquei as nossas posições. Olhar para ele de cima para baixo era uma sensação muito melhor. Cobri a sua boca com a minha mão e olhei para os seus amigos que continuavam a dormir como se nada tivesse acontecido.

Como não fui exatamente silencioso ou subtil na troca de posições, pensei que pudesse ter acordado alguém, mas ao ver que continuavam imóveis, voltei a minha atenção para Eren que com o rosto avermelhado, observava-me expectante.

Quis fazer com que provasse um pouco do próprio veneno e por isso, movi os meus quadris e logo vi que não tivesse tapado a sua boca, podíamos ter problemas.

- Já te tinha dito antes, não sou do género submisso. – Murmurei, perto da sua orelha. – Devia castigar-te por não prestares atenção ao que te digo, mas… - Passei a língua na sua orelha e senti as suas mãos pressionarem os meus braços. – Como quiseste dar-me um presente pelo meu aniversário, acho que mereces ser desculpado. Além disso, acho que não vamos conseguir dormir depois disto, mon cher… - Pude ver como se arrepiou. – Gostas de ouvir-me falar em francês? Quem diria que as tuas fantasias caminhavam por aí…

- Hum…

- Não, não feches os olhos. – Pedi. - Tu as de très beaux yeux. – Ao ver a sua expressão algo confusa, resolvi esclarecer. – Falei dos teus olhos… sou fascinado por eles. Desde da primeira vez que os vi… - Podia ver como o seu rosto ficava cada vez mais avermelhado, fruto não só do que lhe dizia, mas também devido ao movimento do meu corpo sobre o dele. Pelas coisas que lhe estava a dizer, com certeza o álcool estava assumir as rédeas do momento. – Vou tirar a minha mão da tua boca… quero beijar-te, mas promete-me que te comportas…

Ele assentiu e não esperei duas vezes, retirei a mão. Substituí-a pelos meus lábios e só conseguia pensar em como era delicioso, ouvi-lo gemer diretamente contra a minha boca. As suas mãos quentes tocavam a minha pele por baixo da camisa e arrepiava-me com o deslizar das suas unhas.

- Ngh… não pos…não posso mais… - Sussurrou com dificuldade ao afastar-se da minha boca.

- Podes acabar quando quiseres, mon cher… - Murmurei perto da sua orelha. – Je t'adore, Eren…

Aquelas palavras parecem ter sido o suficiente para que tivesse que cobrir a sua boca, mesmo de atingir o clímax. Era a prova inequívoca de ainda era bem jovem para chegar aquele ponto, apenas comigo a roçar o meu corpo no dele.

Contudo, não podia dizer que não gostava de o ver completamente ruborizado, a tentar manter a respiração controlada e sem nunca desviar aqueles olhos verdes.

Acariciei o seu rosto.

- Sorte a tua que a tua irmã te ofereceu roupa, assim quando acordares vais tomar um banho e mudar de roupa. E não, não é uma sugestão.

- Onde vais? – Perguntou ao ver que me levantava.

- Resolver o meu problema, mon cher. Por muito erótico que seja ver-te nesse estado, normalmente preciso bem mais do que isto… - Sorri de lado. – Vou ensinar-te a ser mais resistente com o tempo… - Afastei-me e deixei-o, deitado no chão sobre o cobertor.


*Eren*

Só queria mesmo dar-lhe os parabéns e pedir desculpa por não lhe ter comprado nada… Ok, sendo mais honesto, também esperava que o vinho que tivesse bebido, o deixasse menos distante. Sabia que tínhamos que ser discretos, mas custava-me estar debaixo do mesmo teto que ele e nem sequer, receber algum olhar da sua parte. Em alguns momentos, sentia como se estivesse a ignorar-me por completo e nas raras vezes em que o vi dirigir-me algum olhar, não sabia como devia reagir. O frio na barriga e a vontade de sorrir na sua direção não eram coisas fáceis de controlar.

Portanto, quando o vi deitado sozinho naquele canto não resisti. O Berth e o Reiner já tinham adormecido nos braços um do outro, o Armin e o ser cujo nome me custa pronunciar (Jean) também, isto depois de terem estado quase a devorarem-se à minha frente. Será que o meu melhor amigo podia ter um pingo de consideração por mim? Pelos vistos não.

Frustrado, fui ao encontro de Levi que estava muito mais influenciado pelo álcool do que alguma vez pensei. Aquilo era uma descoberta surpreendente, mas acima de tudo interessante. Ele aparentemente ficava um tanto carinhoso a julgar pela forma como me tratava com os apelidos em francês. Não que me incomodasse. Aliás, como podia negar que aquele tom e aquele sotaque eram atraentes?

Contudo, mais do que isso, houve um momento em específico que não esperava. Por muito carinhoso que estivesse, como um gato que ronronava perto da minha orelha, nunca imaginei que fosse ouvir um "Je t'adore". O meu francês é bastante básico, mas nessa expressão não havia engano. Era o básico dos básicos e a questão que se colocava era: estaria ele tão embriagado que dizia as coisas por dizer? Tipo, fruto do momento? Algo que dizia sem pensar ou… era como se dizia? Quando as pessoas estavam bêbadas por norma eram mais verdadeiras?

Tapei a minha cara com o cobertor enquanto pensava nessa hipótese. Tecnicamente, tínhamos assumido uma relação sem nunca haver uma declaração em palavras. Para dizer a verdade, houve uma tentativa da minha parte que acabou da pior forma possível: connosco a discutir. Depois disso, cheguei a debater-me com o tema. Só que nunca sabia quando ou como puxar esse assunto. Sempre pensei que seria eu a envergonhar-me de alguma forma para dizer algo assim. Ele não parecia do tipo que dizia isso abertamente e por isso, não esperava algo assim. Parte de mim, queria ouvi-lo declarar-se algum dia, mas agora chegava à conclusão que não estava preparado. E a prova disso? O frio na barriga que continuava a deixar-me irrequieto, o som dos meus batimentos que soavam cada vez mais altos embora, já devesse estar bem mais calmo porque já fazia algum tempo que ele tinha saído. O que devia dizer? Será que lhe devia responder? Será que devia pedir que repetisse para ter a certeza que não tinha sido nenhum engano? E se repetisse? Se repetisse, seria prova suficiente? Ou teria que esperar até estar sóbrio para ter realmente a certeza?

- Eren… quero deitar-me. – Ouvi-o dizer e estremeci por completo.

Já estava de volta? Há quanto tempo estaria a rolar ali no chão? Afastei ligeiramente o cobertor do rosto e vi-o abaixar-se, bocejando um pouco.

- Vou… - Ia sair e voltar para o meu lugar perto do sofá, mas ele agarrou o meu pulso.

- Onde vais?

- Dormir? – Respondi sem entender o porquê da interrogação.

- Fica… - Pediu.

"OH MEU DEUS… ele está a pedir… ele está a pedir que fique a dormir com ele! Vamos, diz qualquer coisa! Sê forte, Eren! Chama-o ao razão! Diz-lhe que vos podem ver a dormir juntos e isso não é bom!"

- Po…podem ver-nos. – Falei.

"Consegui dizer qualquer coisa! Se não tivesse gaguejado, teria sido melhor. Bem, não se pode ter tudo".

- Só até eu adormecer, depois podes ir. – Pediu, continuando a encarar-me e a segurar no meu pulso.

Alguém pode explicar-me como se diz que não a um pedido daqueles? É praticamente uma missão impossível e por isso, pouco depois, estava debaixo do cobertor com ele encostado a mim. A comparação que tinha feito antes entre ele e um gato encaixava perfeitamente naquele momento. Assim que me deitei, aconchegou-se. Começou por agarrar a minha camisa e um encostar o seu rosto ao meu pescoço. Num primeiro instante, parecia querer cheirar o meu pescoço e logo se queixou da minha camisola de gola alta, dizendo que estava proibido de usar roupas assim. Mesmo assim, não se afastou e manteve-se nessa posição, deixando-me imóvel por vários instantes.

Eventualmente, ganhei coragem e em vez de manter as mãos longe dele, pousei uma nas suas costas, puxando-o um pouco mais contra mim. Ouvi um suspiro que parecia transmitir alguma satisfação.

- Isto vai ser uma noite longa… - Murmurei, tentando controlar o meu nervosismo que não podia ser mais evidente por oposição a Levi que parecia estar prestes a adormecer.

Depois de ele ter adormecido, não sei ao certo quanto tempo passou, mas tive um dos momentos mais difíceis da minha vida: sair daquele abraço "carinhoso"? Não sei se era demasiado afetuoso ou mortífero. Assim que tentei levantar-me com receio que alguém nos visse, quase fiquei sem braço ao tentar afastar-me. Nem sei ao certo como consegui escapar e penso que só o medo das consequências de nos verem juntos, fez-me tentar por todos os meios sair dali e ser bem-sucedido ao fim de longos minutos.

Quando regressei ao local onde ia passar o resto da noite, só conseguia pensar numa coisa: "Será que ele se ia lembrar de tudo aquilo na manhã seguinte? E se sim, como iria reagir? Ou melhor, como é que era suposto eu reagir? Como se nada tivesse acontecido? Tantas perguntas e nenhuma resposta boa o suficiente para tranquilizar-me".


Preview:

« (...)

Ah a propósito, tens que se mais autoritário.

- O quê? – Perguntou o Jean sem perceber.

- O Armin quer possivelmente que compres um chicote. – Falou, tentando conter o riso e falhando miseravelmente.

- Caralho! Do que é que vocês falam, afinal? Porque é que ele te conta essas coisas?!

- Somos amigos, ainda que deva dizer que mesmo conhecendo-o há tanto tempo, ele conseguiu traumatizar-me. – Admitiu Eren. – Pensava que ele era bem mais inocente.

- Não fazes ideia de quem estás a falar… - Deixou escapar sem pensar.

- Porque dizes isso? (...) »