- Temos de ter cuidado na maneira como falamos com eles, Hermione. – Luna alertou-me, parecendo um pouco ansiosa.

- Claro. Mas porquê?

- Porque são pessoas terríveis com a Maggy, não sabemos o que são capazes de nos fazer se nos intrometermos.

- Eu trouxe uma declaração do ministério… - informei-a, tentando acalmá-la.

- Pois, não sei se isso nos adiantará de muito. Cormac, tem sempre a varinha pronta. Ao mínimo ataque da parte deles, petrifica-os. – disse Luna, parecendo de seguida sentir-se um pouco mais segura.

- Não se preocupem. – Cormac disse, orgulhoso com a responsabilidade.

Batemos à porta e à terceira vez surgiu um homem atarracado de bigode escuro. Era baixinho e gorducho, quase que não se via o pescoço. O fato preto que exibia com certeza que tinha sido feito à medida.

- O que pretendem? – perguntou sem grande simpatia.

- Nós somos da Associação de defesa dos direitos dos elfos e viemos cá por causa de uma denúncia. – apresentei o meu cartão e Luna fez exactamente o mesmo que eu. Cormac McLaggen, por sua vez, colocou a mão ao bolso e procurou desajeitadamente o cartão.

- Denúncia? – a palavra foi praticamente cuspida da boca do homem. – Maggy, chega cá imediatamente! – gritou exasperadamente.

Uma elfo de orelhas semelhantes às de Dobby e de olhos cor de mel surgiu atrás da porta, tremendo da cabeça aos pés. Vestia uma camisa amarelada bastante suja.

- Sim, senhor Beans? – perguntou educadamente.

- O que vem a ser isto? Estes jovens dizem que receberam uma denúncia numa tal Associação…

- Olá, Maggy. Está tudo bem? – dirigi a palavra a elfo e esta pareceu bastante admirada e lisonjeada por estar a falar com ela. Os olhos arregalados fizeram-me sentir ainda mais pena dela.

- Maggy não poder falar com estranhos! – disse, escondendo a face atrás do senhor Beans.

- Quem fez a denúncia? – perguntou Mr. Beans cada vez mais irritado.

- A denúncia foi anónima. – respondi, num tom igualmente exasperado e firme.

- Eu tenho o direito de saber quem denunciou! O que disseram? – parecia totalmente desconcertado.

- Fui eu quem fez a denúncia. – Luna disse, encarando o homem.

- Tu, minha menina, mete-te na tua vida. Tenho mais do que fazer do que aturar um bando de idiotas! – disse, tentando fechar a porta mas Cormac agiu mais rapidamente com os seus óptimos reflexos e com um feitiço abriu a porta por completo, fazendo um barulho estridente.

- Vocês saiam já daqui! Eu faço o que quero. Estou em minha casa e ordeno-vos que saiam ou então…

- Ou então o quê, Mr. Beans? – Cormac perguntou, apontando ameaçadoramente a varinha para o homem que tinha metade do tamanho dele.

- Calma, Cormac. – eu pedi, agarrando-lhe no braço. – Nós vamos resolver isto a bem. – disse, desafiando Mr. Beans com o olhar.

- Por ordem de quem é que vocês estão aqui? – barafustou, quase me fulminando com o olhar.

Eu não lhe respondi assim como os meus acompanhantes. Estendi-lhe apenas um papel, que retirei da minha mala, o qual o informava que o ministério tinha dado ordens para levarmos a Maggy se fosse necessário e também o relembrava da lei que tinha sido decretada sobre os maus-tratos aos elfos. O velho Beans leu o pergaminho com olhos pretos que se assemelhavam a pequenas baratas a percorrerem a folha de um lado ao outro de uma forma tão rápida que eu achei impossível que ele tivesse lido tudo. Antes de voltar a dizer alguma coisa, Mr. Beans voltou a reler a informação mais lentamente.

- Ninguém me vai tirar a Maggy! Serve-me há anos e nunca vieram cá para tal coisa. – resmungou, atirando-me praticamente com o pergaminho.

- Mr. Beans, nós queremos conversar em particular consigo e depois com a Maggy. Seria simpático da sua parte nos convidar a entrar. – Cormac disse, colocando um dos pés na soleira da porta.

Mr. Beans murmurou chateado qualquer coisa que nenhum de nós os três conseguiu captar. No entanto, permitiu que entrássemos na casa dele. Conduziu-nos até uma sala larga com bastante iluminação e apontou para nos sentarmos no sofá.

- Luna, podias ir preparando a Maggy. – sugeri e Luna consentiu com a cabeça.

- A porta à esquerda. – disse Mr. Beans com indelicadeza.

Luna chamou Maggy e seguiram para a porta à esquerda. Antes de seguir Luna, Maggy olhou para Mr. Beans com as orelhas baixas e gemeu. Mr. Beans parecia um pouco tenso e eu acabei por concluir que se devia à presença de Cormac. Contudo, isso confortou-me, não que eu tivesse medo dele mas ter Cormac por perto poderia facilitar as coisas.

- Eu bebia um… - Cormac disse, sendo imediatamente interrompido por mim. Lancei-lhe um olhar de desaprovação. – Tudo bem, vamos lá começar com isto.

Evitei um sorriso e fixei o meu olhar em Mr. Beans que parecia cada vez mais nervoso, enquanto mexia nas suas próprias mãos gordas e pequenas.

- Mr. Beans, você tinha conhecimento dessa lei?

- Não, não sabia.

- Também não me acredito que mudasse os seus comportamentos se soubesse, estou errada? – perguntei ainda com o olhar preso nele.

- Não mudaria, porque não concordo. – disse, tentando ser corajoso.

- Pois, mas está errado. Por isso mesmo penso que o melhor será levarmos a Maggy daqui, o que dizes, Cormac? – perguntei, colocando-me imediatamente de pé.

- Claro, aqui não está segura. – concordou Cormac, levantando-se também.

- Luna, já podes vir. – falei num tom alto para que Luna me ouvisse. - A conversa termina aqui. Já tomamos decisões. – disse de forma clara.

Luna surgiu pela porta a um canto. Parecia estar comovida, o que me levou a crer que Maggy estivesse a contar as maldades que o homem lhe fazia.

- Já está tudo resolvido? – perguntou, um pouco duvidosa. A conversa tinha sido apenas de uns breves minutos. Mas tinha bastado para perceber que Mr. Beans não ia tratar a Maggy bem e isso era o suficiente para a retirarmos de lá. Afinal era esse o objectivo da Associação.

- Sim. – disse firmemente.

- Não, não está. – o homem pôs-se de pé diante de mim. – Quem pensas que és para chegares aqui e me levares a criada?

- Criada? – perguntei num tom de voz acima, como se ele me tivesse ofendido. – Ouça bem, Mr. Beans, se o senhor não quiser ser julgado no tribunal, então será mesmo melhor acabar esta conversa por aqui, ouviu? – perguntei, apontando um dedo ao homem. Senti a mão de Cormac agarrar-me pelo braço.

- Vamos embora, Hermione.

- Espero que estejamos entendidos, porque se o senhor ousa em abrir essa boca para contestar eu juro que o ponho em tribunal e as coisas vão ficar feias para o seu lado! – o meu tom de voz era autoritário e firme.

Por instantes pareceu-me que Mr. Beans ia contestar, mas rapidamente se arrependeu e fechou a boca. Deixou-se cair de forma brusca no sofá e não tirou os olhos de cima de mim, até Luna interromper o silêncio:

- Maggy, tu vens connosco. – Luna disse-lhe docemente. – A menos que queiras ficar aqui e servi-lo… - apontou para Mr. Beans e a elfo encolheu-se a um canto.

Se ela quisesse bastava-lhe ter estalado os dedos e saía dali a qualquer instante. Mas não. Manteve-se no mesmo local com o corpo a tremer de forma tensa. E foi então que eu notei que ela não tinha só medo de Mr. Beans, mas também um profundo respeito.

- Não vais a lado nenhum, Maggy! Se dás um passo para o lado de fora desta casa, eu juro que te vais arrepender! – o homem gritou enquanto nós os três lhe virávamos as costas acompanhados pela Maggy.

Por momentos, Maggy pareceu hesitar, pois tinha lágrimas nos olhos. Mas Luna reconfortou-a, dizendo que o inferno ia acabar se ela saísse dali connosco. Tive vontade de me virar para trás e gritar com o homem, mas Cormac, apercebendo-se da minha tensão, agarrou no meu braço e fez-me sair daquela casa constrangedora.

- Estás protegida connosco, Maggy. Ele não te fará nada de mal. – tentei reconfortá-la com um sorriso ao terminar a frase. A elfo olhou uma vez para trás e sem qualquer outra hesitação caminhou descalça em direcção ao grande portão enferrujado.

Desaparecemos assim que passamos o portão e combinamos encontrar-nos na minha sala. Maggy desapareceu juntamente com Luna, uma vez que não sabia o caminho para o ministério. Rapidamente conclui que foi rara a vez que aquela elfo tinha saído das quatro paredes da casa de Mr. Beans.

- Estavas capaz de matá-lo, Hermione. – Cormac disse sem evitar um grande sorriso quando entramos no meu escritório.

- Ele que vá para o inferno! – falei baixinho para que Maggy não me ouvisse. Pensei talvez que de certa forma isso pudesse afectá-la.

Cormac deu uma gargalhada sonora.

- O que foi? – perguntei, revirando os olhos e sentando-me na cadeira.

- Nunca te tinha visto tão chateada com alguém, isto claro sem contar com o Weasley.

Depois de conjurar três cadeiras dirigi o meu olhar a Maggy. Parecia mais calma e não deixava de procurar o olhar reconfortante de Luna. Acho que nos momentos que Luna esteve com ela no quarto, esta desenvolveu um carinho especial por ela.

- Maggy, queres nos contar o que se passava naquela casa? – perguntei, mostrando preocupação com o bem-estar dela.

- Maggy não poder dizer. Não, não, não. – disse, abanando a cabeça constantemente.

- Calma, Maggy. Aqui estás segura, prometo. – disse Luna, estendendo-lhe a mão que ela aceitou de imediato. – Queres que eu conte o que me contaste?

A elfo baixou as orelhas e acenou afirmativamente com a cabeça. Cormac e eu viramo-nos para Luna, prestando bastante atenção.

- A mulher do Mr. Beans, Sophie, morreu há cerca de três anos. Sophie era uma pessoa muito carinhosa com ela, não era, Maggy? – começou Luna, tentando obter alguma intervenção da Maggy. Assim que a elfo acenou com a cabeça, Luna prosseguiu – Não a tratava como uma criada, apesar da Maggy ajudar muito nas lidas de casa, porque Sophie era uma senhora de idade já muito doente. A doença e a idade mataram a pobre Sophie aos poucos e a Maggy ficou sozinha com o Mr. Beans. Ele estava e está revoltado com a morte da mulher e sempre descarregou tudo na Maggy, que se tornou sobretudo a criada dele.

- Mas ele batia-te, Maggy? – perguntei curiosa por saber se o choro que Luna tinha falado quando veio denunciar Mr. Beans se devia à morte de Sophie ou aos maus-tratos.

- Mr. Beans fazer Maggy bater-se assim! – disse, pegando num bastão que conjurou.

- Não, Maggy, não faças isso. – disse Cormac, tirando-lhe o bastão. – Quer dizer, não precisas. Nós não queremos que te magoes. – Cormac mostrou um lado mais meigo que eu ainda não tinha tido oportunidade de conhecer.

Mais uma vez, Maggy encolheu as orelhas e deixou escapar um gemido.

- Nós vamos encontrar um sítio para ficares. Não tens família, certo?

- Não, Maggy não ter ninguém. – disse com um suspiro desesperante.

- Podes ficar em minha casa durante uns tempos. Depois encontramos-te um lar. – disse Luna, deixando Maggy muito feliz que sorriu pela primeira vez.

- Isso é óptimo, Luna. Bem, desculpem mas eu agora vou ter de começar a trabalhar. – disse, fazendo com que Cormac e Luna se levantassem. – Maggy, já podes tirar essas roupas quando chegares a casa da Luna, és uma elfo livre. – disse-lhe com um sorriso de incentivo. Maggy sorriu-me, exibindo os dentes pequenos e tortos.

- Espero que da próxima vez haja mais acção, Hermione. – disse Cormac, quando Luna já tinha saído com a Maggy.

- Não sejas ridículo. Foi bom assim. – disse, sem conter rir-me dele.

De seguida Cormac deu-me dois beijos em cada uma das faces e saiu. Olhei para a minha secretária e peguei em tudo o que tinha de fazer. Arquivei todos os documentos importantes relacionados com o ministério e quando arranjei um tempo livre comecei a escrever uma carta ao meu chefe, Mike Mayer.

"Mike Mayer,

Em primeiro lugar quero pedir desculpa por não escrever com a frequência que gostava. Mas a verdade é que tenho tido pouco tempo para parar. A associação está em alta e temos tido muito que fazer. Contudo, não se preocupe com os trabalhos do ministério que não estão a ser postos de lado.

Contratei a rapariga que me falou para minha secretária temporária, a Josie. Parece-me ser uma boa profissional, talvez quando vier repense e também queira ficar com ela.

Já tem ideias de quando volta?

Hermione Granger"

A carta estava informal. Mas também não havia necessidade de estar cheia de formalismos quando o próprio Mike os detestava. Depois de acabar a carta decidi escrever aos outros membros a contar o que se tinha passado naquela manhã. Com certeza iriam ficar contentes com as novidades. Já passava das três horas quando sai da sala para ir entregar as cartas à Josie.

- Boa tarde, Josie. Olha envia-me essas corujas por favor. Cuidado especialmente com esta, porque é para o ministro.

- Bom dia. Sim, não há problema, vou ter cuidado com todas. – disse com um sorriso, pegando nos pergaminhos cuidadosamente.

Retribui-lhe o sorriso e dirigi-me à minha sala para pegar no casaco. Antes de ir almoçar, decidi virar no corredor 13 e ir até à sala de Draco. Bati a porta levemente.

- Entre. – disse a voz de Draco do outro lado.

Entrei e vi um Draco muito concentrado no trabalho. À sua frente tinha uma chávena e um prato pequeno com um pão que ainda não tinha sido tocado.

- Draco, ainda não foste almoçar?

- Hermione. – disse, tirando pela primeira vez os olhos das folhas amareladas. – Hoje almoço por aqui. Estou com muito trabalho. – disse-me, colocando outras folhas por cima daquelas quando me viu aproximar.

- Ai sim? – perguntei, sentada numa das pernas dele.

- Sim. Está do pior… - disse, fingindo que limpava o suor da testa e sorrindo.

- Está bem. Eu vou almoçar agora, se mudares de ideias podes me encontrar no bufete. – informei-o, retirando-me da sala, mas não sem antes de lhe dar um leve beijo nos lábios.

Quando cheguei ao bufete, este estava vazio como era de esperar. Pedi empadão de carne com uma salada e sentei-me com o tabuleiro numa das muitas mesas vagas. Estava prestes a acabar a refeição quando surgiu uma figura loira à minha frente. Ellen colocou a mão direita na cintura e olhou com ar de riso para mim.

- O que foi? Nunca viste ninguém a almoçar às três? – perguntei, irónica.

- Granger, Granger… se não é o Draco eu não sei o que é feito de ti. – disse Ellen com um sorriso maldoso nos lábios.

Mas afinal a que é que ela se estava a referir? Eu não estava nada a gostar daquela conversa e muito menos daquele sorriso maldoso.

- Há alguma coisa que me queiras dizer, Rowland? – perguntei, olhando seriamente para a loira.

- Nada, nada. Só espero que percebas rapidamente por ti própria. Pensei que o Draco me tinha dito que tinhas sido a melhor aluna de Hogwarts! – disse, continuando com um tom irónico que me tirou completamente do sério.

Levantei-me e encarei-a com algum desprezo durante algum tempo. Não admitia que ela me chamasse de burra.

- Se queres dizer alguma coisa sê directa, Rowland. Não estou com a mínima paciência para os teus jogos. – disse-lhe entre dentes.

Ela apenas se riu, mais uma vez sarcástica. Teve ainda o descaramento de me virar as costas e seguir o seu caminho como se não se tivesse cruzado no meu. Naquele momento tive vontade de gritar de raiva. Porquê que quando os meus dias pareciam que estavam a correr bem, alguém tinha de aparecer para estragar tudo? Bruscamente peguei nas minhas coisas e fui para o escritório.

Então, pelos vistos, Draco andava a falar de mim à Ellen Rowland. Todavia, pelo menos eram elogios. Sorri ao pensar na valente seca que Ellen deveria apanhar quando estava com ele, se ele estivesse sempre a falar de mim.

O meu dia chegou ao fim e eu estava exausta. Estava com fortes dores de cabeça e precisava de estar com ele. Queria ir para casa e poder descansar até me doer o corpo de não fazer nada. Quando saí da porta para ir em direcção ao corredor 13, ouvi alguém chamar-me. Virei-me de costas e fitei Josie que exibia o seu melhor sorriso de desculpas.

- Desculpe, miss Granger, eu sei que estava de saída. Era só para lhe entregar a correspondência.

- Podias ter colocado na minha secretária e eu amanhã via isso…

- Mas tinha uma carta do ministro, pensei que fosse importante. – cortou-me Josie. – Desculpe. – pediu novamente.

- Sendo assim fizeste bem. Obrigada, Josie. Até amanhã! – disse, reconhecendo de seguida que tinha sido talvez um pouco dura e Josie não merecia.

Coloquei o envelope na minha carteira e segui em direcção ao escritório de Draco. Precisava mesmo de estar com ele. Ao virar a esquina surpreendi-me com a voz exaltada de Draco. Mas antes de virar por completo a esquina, espreitei para ver o que se desenrolava.

- Já te disse para saíres daqui. Estás me a desconcentrar e eu tenho ainda muito trabalho a fazer. Além disso, não temos nenhum assunto a tratar. – vi Draco apontar para fora da sala com o braço estendido e então percebi que era com Nathan O'Conner que ele estava a falar ou mais propriamente a discutir.

- Tudo bem, Malfoy. Eu gostava de saber o que te fiz, mas tudo bem. Já estou a sair. – disse Nathan, virando costas a Draco que lhe fechou a porta com força.

Por momentos quase que jurava que tinha visto um sorriso formar-se no rosto de Nathan. Por isso, para concluir, apressei o passo até à porta e antes de pensar em ir falar com o Draco, toquei no braço de Nathan que já estava de costas e não me tinha visto.

- Hermione. Tudo bem? – Nathan pareceu-me um pouco surpreso.

- Nathan… o que estavas a fazer aqui exactamente? – perguntei entre o curiosa e o duvidosa.

- Nada, só queria… perceber o que o Malfoy tem contra mim. – confessou um pouco atrapalhado, o que me desagradou. - Ele detesta-me, Hermione! – disse, falando baixo.

- Não exageres, Nathan. Só implicou um pouco contigo… por minha causa. – disse-lhe no mesmo tom baixo do que ele. – Vou falar com ele.

- Ele disse que estava com muito trabalho, por isso não... – Nathan foi interrompido por um olhar meu de 'não-te-metas'. Já se estava a meter um pouco e eu não estava a gostar nada.

Virei-lhe costas e bati à porta do escritório do meu namorado. Como ele não disse nada, pois talvez pensasse que se tratasse de Nathan, rodei a maçaneta e entrei, deparando-me com um Draco Malfoy muito irrequieto de um lado para o outro no escritório.

- O que estás a fazer, Draco? – perguntei, seguindo com os olhos os movimentos dele.

Da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. Durante minutos continuou de um lado para o outro sem me responder ou ao menos encarar.

- Draco! – chamei-o. – Estás me a deixar tonta! – disse, colocando as minhas mãos nos ombros dele, impedindo que ele continuasse naquele ritmo hipnotizante.

- Hermione, desculpa. Esta não é a melhor altura para conversarmos. – disse entre dentes, ainda sem me encarar.

- O que se passa? Eu exijo saber! – disse, tentando manter-me paciente.

Draco fitou-me então e eu vi que naquele olhar cinza estava raiva abundante. Aquilo era tudo por causa de Nathan? O que ele afinal tinha estado ali a fazer? E porquê que Draco estava naquele estado de fúria absoluta? Agarrei a mão de Draco e fiz um sorriso doce. Eu não queria que ele se sentisse inseguro em relação a nada. Amava-o tanto que me chegava a doer só de pensar nele assim, magoado e perturbado. Era o meu Draco. E era completamente doentio vê-lo assim.

- Desculpa, mas fico preocupada por te ver assim. Eu vi o Nathan a sair daqui… - comecei a justificar-me sem me desfazer do sorriso.

- É tudo o Nathan. Tudo! Já notaste que todas as nossas discussões são por causa dele ultimamente? – barafustou, largando a minha mão de forma severa.

- Nós não estamos a discutir. – disse quase a gritar com ele também.

– Eu juro que eu o mato… se as minhas suspeitas se confirmarem… eu juro que o mato! – disse Draco num tom de voz assustador e eu senti um arrepio percorrer-me a espinha. Fechei os olhos, pensando em como lhe dizer que ele estava a exagerar e que precisava de parar imediatamente com isso, chegava a ser doentio!

- O que é que ele veio aqui fazer? – perguntei, colocando-me a trás de Draco que olhava pela janela.

- Pedir-me satisfações, dá para acreditar? Porquê que eu o odeio tanto? Eu sei que ele… - Draco virou-se novamente de frente para mim, falando naquele tom assustador quando foi interrompido por mim:

- Chega, Draco. Já percebi e não vale a pena falarmos mais sobre este assunto. – disse, sendo praticamente engolida por um olhar severo dele. – Vamos para casa. – sugeri, interrompendo um silêncio aterrador que estava prestes a se formar.

- Eu hoje vou mais tarde. Estou com muito trabalho, Hermione. E não o posso deixar para amanhã. – disse, passando a mão nos cabelos loiros.

- A sério? – disse com os braços em redor do pescoço dele. – Mas eu tinha tantas ideias para logo. – simulei desilusão na voz, seguida de um sorriso misterioso.

Draco sorriu e colocou as mãos na minha cintura. Beijou-me docemente os lábios e depois voltou a fitar-me nos olhos já com um olhar bastante mais profundo. Esse já se parecia mais com o meu Draco.

- A sério. Desculpa-me. Prometo compensar-te. – disse com o meu meio sorriso a surgir. – Vai para casa descansar.

Soltei-me do abraço dele de forma carinhosa e continuei a sorrir. O meu namorado estava empenhado no trabalho e eu não podia criticá-lo por isso, porque também não gostaria que ele fizesse o mesmo comigo.

- Até logo, então. – disse, dando-lhe um beijo na bochecha. Draco agarrou-me pela cintura e beijou-me com intensidade. Eu bem sabia que se ele não tivesse muito trabalho a fazer, não hesitaria em vir logo juntamente comigo.

- Até logo. – disse, acompanhando-me com o olhar enquanto eu caminhava até à porta.

- Eu vou esperar por ti. – disse, fazendo-lhe olhinhos e deixando escapar uma gargalhada. Draco juntou-se a mim na risada e abanou com a cabeça negativamente.

Fechei a porta quase em silêncio e um meio sorriso formou-se nos meus lábios. Para meu espanto, quando saí encontrei Nathan com o ombro encostado à parede, exactamente no mesmo local em que estivera anteriormente a falar comigo. Encarei-o, pronta para exigir uma explicação, com o meu sorriso a desvanecer-se.

- Estava mesmo à tua espera, Hermione. – justificou-se, abandonando a posição descontraída. – Não queria que as coisas ficassem mal interpretadas. Eu não quis perturbar o Malfoy, só queria perceber aquela implicância.

- Pois. Eu não sei o que vocês estiveram a falar, mas o Draco ficou perturbado mesmo que essas não fossem as tuas intenções. – disse, séria. – Se eu fosse a ti não lhe aparecia tão cedo à frente. – avisei-o, finalmente deixando escapar um sorriso.

- Vejo que é melhor que não apareça mesmo. – disse, erguendo uma das sobrancelhas.

Nathan caminhou ao meu lado até à porta de saída do ministério. Durante a curta distância que percorremos fomos em silêncio e eu achei que tinha sido um pouco dura com ele, tal como já tinha sido com Josie nesse dia. Talvez estivesse a exagerar e não podia estar a culpar só Nathan pelo estado em que Draco se encontrava. As dores de cabeça ainda não tinham passado e eu culpei-as por estar a tratar mal toda a gente.

- Bem, vemo-nos por aí, Nathan. – disse numa tentativa de despedida.

- Então, até uma próxima. – disse sorridente e eu virei-lhe costas, pronta para ir para casa. – Hermione? – chamou, fazendo com que eu me virasse novamente de frente para ele. – Vais estar com o Malfoy?

- Desculpa? – perguntei, sem perceber a questão que ele me colocara.

- Se vais estar com o Malfoy… - repetiu.

- Ainda não sei, ele estava com muito trabalho. – disse, embora estivesse um pouco desconfiada. – Porquê?

- Pede-lhe desculpa por qualquer incómodo. – disse com um sorriso nos lábios.

- Eu peço, não te preocupes. – garanti, virando-lhe costas e seguindo o meu caminho até casa.

Como senti frio quando saí pela porta principal do ministério, achei melhor aparecer directamente em casa. Além disso, pouparia tempo e no estado em que estava não me apetecia ver ninguém. Não me queria cruzar com as pessoas apressadas no metro, os rapazes com os fones altos nos ouvidos, as raparigas a trocarem mensagens pelo telemóvel… Não estava com a paciência do costume e sorri para mim mesma ao pensar que ser bruxa tinha mil e uma vantagens. Poderíamos evitar o mundo se assim o quiséssemos.

Abri a porta e pousei as chaves em cima da mesinha que tinha no hall de entrada. De seguida pendurei o meu casaco azul-marinho no bengaleiro que se encontrava ao lado do sofá. Subi as escadas, embora estivesse exausta, para ir até ao meu quarto trocar para uma roupa mais confortável. Como a minha casa era quente, optei por uma camisa de seda salmão que adornava um laço preto acetinado no decote. Calcei uns chinelos também confortáveis para andar por casa. Fui até à casa de banho calmamente e abri uma caixinha de veludo, onde guardava os meus acessórios de cabelo. Peguei num arco e puxei alguns cabelos para trás, só para que não me incomodassem enquanto eu estivesse a cozinhar.

Desci até ao andar de baixo e dirige-me à cozinha. Abri o frigorífico e durante segundos fiquei a pensar no que iria cozinhar. Acabei por fazer ovos mexidos com um pouco de arroz. Minutos depois de começar a jantar, senti passos no andar de cima. Peguei na minha varinha, apesar de me sentir estúpida por estar a fazê-lo. Com certeza que seria Draco a fazer-me uma surpresa. Ou talvez Ginny estivesse chateada com Harry e precisasse de desabafar comigo. Levantei-me e dirige-me até perto das escadas.

- Draco, eu sei que és tu. Podes descer! – gritei, ainda com a varinha na mão.

Os passos tornaram-se mais firmes e cada vez mais próximos. Um riso sarcástico ecoou por toda a minha casa. Aquele riso fez-me desconfiar e agarrar firmemente na minha varinha pronta para quem quer que fosse que estivesse a descer as escadas da minha casa.

- Com que então é verdade… - uma voz arrogante disse – o meu filho Draco anda mesmo com uma sangue de lama! – completou num fio de ironia. Lucius não precisou de sair do escuro para eu saber exactamente que era ele.

O meu corpo ficou rígido com os nós dos dedos brancos por segurar a varinha com tanta força. A voz de Lucius ecoou na minha mente "Eu descobrirei onde moras, sangue de lama.", foram as últimas palavras que ouvira antes de aparecer em casa naquele dia no beco Diagon-Al. E afinal Lucius Malfoy tinha cumprido a sua promessa. Um Malfoy nunca falha as suas promessas!