Capítulo 25 — You can't fix me... — ("Você não pode me consertar...")
Então Sam se permitiu recordar.
Se permitiu lembrar de tudo.
Em como era bom, quando era pequeno, e Dean o abraçava com força durante a noite. Das vezes em que se sentia solitário, e o mais velho fazia questão de mostrar que estaria sempre ao seu lado. Em como era estranho, sempre que perguntava a respeito do pai, e o irmão desconversava e encontrava uma maneira de distraí-lo com jogos e promessas que, ambos sabiam, nunca seriam cumpridas. Mas, ainda assim, era bom pronunciá-las. Eram agradáveis, como cantigas de ninar pronunciadas no quarto silencioso de uma criança adormecida.
Ao moreno, eram como prenúncios de seu futuro. Ao loiro, eram os pequenos fiapos de felicidade que aos poucos os uniam ainda mais, e lhe traziam esperança. Esperança de dias melhores, de manhãs ensolaradas, sorrisos a qualquer momento, e brincadeiras enquanto ainda jovens. Esperança de não ter a vida do caçula em suas mãos, de não precisar temer a escuridão, porque os monstros sob ela não seriam capazes de atingi-los, porque eles seriam inatingíveis. Lutando lado a lado com o pai, John, voltariam a ser uma família unida. Voltariam a ser os Winchesters, e acabariam com todas as criaturas malditas que ousassem cruzar seus caminhos.
Mas eles cresceram. E, como todo sonho bom que se inicia com o pôr-do-sol, aquilo acabou.
Sam seguiu seu caminho, estudou, começou a faculdade de Direito. Em dois anos, já não havia mais nada que pudesse denunciá-lo como um ex-caçador. Não havia absolutamente nada que demonstrasse o tipo de coisa que ele já havia chegado a enfrentar, e todos os medos e pesadelos que precisou superar. Mas Dean já estava amaldiçoado, já estava preso. O mais velho já estava perdido antes mesmo de sequer poder cogitar a possibilidade de fugir daquela vida. Enquanto o moreno conseguia reconstruir sua vida pouco a pouco, ao lado da amável Jessica, o outro estava cada vez mais profundamente enterrado em toda aquela porcaria, estava fazendo a própria cova.
E foi aí que Dean voltou; atormentado, machucado e acuado. Parecia um animal ferido e enlouquecido. Quase matou sua "namorada". Sam precisou de alguns dias para sequer cogitar a possibilidade de ajudá-lo a procurar o pai, depois do acidente, e de outros tantos para criar coragem e ir falar com o irmão. E lembrava-se do sorriso debochado que recebeu, quando disse que Jessica iria com eles, porque não se arriscaria a deixá-la para trás e perdê-la. Lembrava-se do loiro lhe dizendo que não se importava que gostasse da "vadia loira", mas que Moore não chegaria perto de John.
A primeira vez em que brigaram, depois de tantos anos. Sam disse coisas que gostaria de poder retirar, e Dean argumentou que precisava dele. O moreno ainda não entendia como pudera simplesmente dar-lhe as costas e sair daquele quarto. Ainda não entendia como pudera simplesmente fugir, mesmo com Moore implorando por explicações. Sam surtou, e acabou fodendo com tudo.
Mais uma vez.
Ele foi para longe do irmão, foi para longe de Jessica. Da noite para o dia, ele já não era mais o gênio da faculdade, já não era mais um estudante. Ele era Sam Winchester, e tinha uma maldita sina, tinha uma maldita missão a cumprir. E contrariando a tudo e a todos, não estava indo de encontro a ela. Por algum tempo, isso parecia ser o suficiente. Até receber um telefonema, de um demônio que alegava que seu irmão e sua namorada estavam em perigo.
Sua salvação, naquela ocasião, havia sido esse mesmo ser amaldiçoado. Dean, ou Jessica, nunca chegaram a saber, e, internamente, ele desejava que nunca descobrissem; o irmão em vida, e Moore em morte. Quando Sam aceitou sua ajuda, tinha plena consciência de que Ruby era o tal demônio, mas, após ter sua vida tantas vezes salva pela loira de olhos invernais, de alguma forma, sentia-se em dívida com a moça. E prometeu que a ajudaria quando ela precisasse; porque seu instinto de caçador podia ser forte, mas sua teimosia era maior.
Quando soube que sua namorada — ou ex-namorada, talvez — havia entrado naquela vida por vontade própria, após seu desaparecimento, sentiu-se furioso. Furioso com ela, por estar se arriscando numa aventura idiota que poderia matá-la. Furioso consigo mesmo, por não ter sido forte o bastante para lutar contra todo o desespero, por não ter tido coragem o suficiente para deixar de lado todo o receio e encarar a situação de frente. Furioso com Dean. Porque, independentemente de todo o restante, o moreno sabia que Jess não chegaria muito longe se não existisse ninguém para ajudá-la, apoiá-la. Se o irmão não estivesse ali para incentivar aquela insanidade, a loira jamais teria sequer imaginado que os Winchesters estavam na linha de fogo, e nunca se uniria ao mais velho à procura dele.
Mas, se Sam não fosse tão impulsivo, tão egoísta, eles não estariam lidando com Mephistopheles desde aquela época. Jessica não estaria morta.
Como ele pôde culpar o irmão por tudo ter dado errado? Não queria nem imaginar o que havia se passado pela cabeça de Dean quando jogou sobre seus ombros a responsabilidade por tudo de ruim que havia acontecido consigo até aquele momento. Não queria nem imaginar a imensidão da dor que o mais velho certamente havia imposto a si mesmo, ao descobrir que a consideração que seu irmãozinho sentia por si estava cada vez menor. Não queria nem mesmo se recordar do quão perturbado estava, ao ponto de invocar um espírito e prendê-lo num amuleto, apenas por desejar ter plena consciência de que sempre haveria alguém que o amava por perto.
Se o moreno pensasse um pouquinho mais no loiro, teria tomado a decisão certa, e eles nunca, nunca mesmo, precisariam fazer o que estavam fazendo naquele exato momento.
Pelo menos, era nisso que Sam preferia acreditar.
Quando se afastou, cobriu a boca de Dean com a mão, vendo os olhos escuros, carregados de raiva, cravados em si ao finalmente notarem o Selo de Salomão que havia desenhado em sua palma. Apesar disso, o que mais deve ter enfurecido o demônio, foi o fato de, durante o beijo, ter puxado e arrebentado o amuleto que há tanto lhe dera como presente, certificando-se de que o estava mantendo a uma distância segura, mas, ao mesmo tempo, no campo de visão de Mephistopheles.
— Sinto muito. — Sam murmurou, quase que para si mesmo, tentando encontrar o irmão dentro daquela escuridão toda, desejando desesperadamente que o loiro soubesse pelo quê, exatamente, estava se desculpando. — Exorcizo te, immunde spiritus infernalis adversarii. Quaero facultates a me e corporis. Contremísce, et fugere. Invocabo. Humilia et quietus. Exáudi me, immundm. Singulis legionibus singulos secta diabolica, nunc flectatur. Hostis humanae salutis, manere absint; stultus creaturam, quæ audet violare sanctam carnem. Locus originis non revertuntur nec salutem. Exit. Humilia et quietus. Iubeo.*
Durante longos segundos, ele acreditou que nada aconteceria.
Então, o mais velho se contorceu, arqueando o corpo, os olhos arregalados. Numa atitude quase automática, o moreno soltou o amuleto, afastou a mão com o selo, e envolveu-o com os braços, certificando-se de que o tecido da manga de sua blusa cobriria por completo o símbolo antes de finalmente poder tocar o irmão e puxá-lo para si. Dean lançou a cabeça para trás, num grito silencioso, emitindo um único e rouco ruído, semelhante ao de alguém que engasga com algo. Tossiu uma, duas vezes, o sangue manchando os lábios e escorrendo, respingando no piso branco do aposento graças aos movimentos bruscos de seu corpo.
— Tudo bem. — o mais novo entoava baixinho, sem efetivamente abraçá-lo, mantendo-o apenas próximo de si. — Tudo bem, irmão.
Então, Dean puxou o ar com força, as mãos agarrando com força os ombros do moreno, e Sam se permitiu relaxar antes de afundar o rosto na curva de seu pescoço. Nunca antes se sentira tão bem, ao ouvi-lo respirar, mesmo que com alguma dificuldade. Nunca antes ele lhe pareceu tão leve, ao puxá-lo e ajudá-lo a se erguer, mesmo que sustentasse todo o peso do loiro sobre seus ombros, meio que o obrigando a apoiar-se em seu corpo.
— Nós precisamos ir.
O anjo lhe dissera que eles não tinham muito tempo.
xxx
Mais ou menos três horas depois, o Impala deslizava imponente e suavemente pela MN-41 N/Chestnut Blvd, em Minnesota, e a calmaria que rodeava os irmãos Winchester quase fez com que Sam sentisse esperança. Quando fora ao hospital, já havia juntado todas as roupas e armas, e jogado no porta-malas do carro; já havia se preparado para a fuga. Apesar disso, enquanto relanceava os olhos entre a estrada e o irmão, sentia-se impotente, por não tê-lo feito antes que tudo chegasse àquele extremo.
Dean não havia dito praticamente nada, mesmo quando consciente o suficiente para balbuciar que sentia frio. Ele simplesmente estava lá, emudecido, a cabeça contra o vidro, usando seu inseparável casaco de couro como coberta, e com ataduras provisórias nos braços e no abdômen. O moreno estava esperando encontrar algum lugar para ficarem, para cuidar daqueles ferimentos, porém começava a cogitar a possibilidade de não ficarem num hotel qualquer à beira de estrada. Dean precisava de um lugar mais limpo, precisava de uma cama mais confortável. E, com esse pensamento carinhoso, o mais novo logo se pôs à procurar pelo local no qual passariam as próximas três noites, até que seu irmão estivesse bem o suficiente para pelo menos dirigir seu baby.
Best Western Plus Chaska River Inn & Suites. Não era lá um nome muito agradável aos olhos de Sam, mas essa preocupação morreu no exato momento em que, com o canto dos olhos, notou que o loiro se movia, meio encolhido contra o banco. Ele bocejou, esfregou os olhos com o nó dos dedos, e lhe dirigiu um olhar sonolento.
— Você está horrível. — constatou, no que deveria ser um tom de deboche, mas soou mais como uma falha tentativa de dizer que o moreno deveria parar de encará-lo como se fosse uma boneca de porcelana prestes a se quebrar.
O mais alto tinha uma resposta nada saudável e definitivamente ácida bem na ponta da língua, porém, apenas respirou fundo, apertou o volante até que os nós dos dedos ficassem brancos, e voltou a atenção para o estacionamento no qual acabara de entrar. Não queria correr o risco de afastar o outro, porque, afinal, ainda tinha que cuidar daqueles cortes, para impedir que infeccionassem. E, se fosse estúpido naquele momento, Dean iria se retrair, e fugir. Ele iria escapar de seus cuidados, de uma forma ou de outra; e isso não seria bom para nenhum dos dois.
Sam estava física e emocionalmente esgotado, e talvez o mais velho já tivesse entregado as pontas.
Alguém tinha que tomar o controle da situação ali.
— Como se sente? — evitou virar-se para encará-lo ao estacionar o Impala, evitou repreendê-lo por ver a forma como se esticava e estalava os ombros para manter-se desperto.
Talvez, de certa maneira, a única coisa que os mantinha unidos e impedia que se esfacelassem, fosse aquela cumplicidade silenciosa que se esgueirava por entre os irmãos nos momentos mais constrangedores, e que fazia com que algum deles imediatamente tentasse amenizar a tensão.
— Pronto para morrer outra vez. — dessa vez, o loiro foi um pouco mais irônico, quase conseguindo o efeito desejado.
Sam sorriu e sacudiu a cabeça.
— Então levante logo daí, Bela Adormecida, porque eu não vou te carregar feito uma noiva pela porta da frente do hotel.
Dean revirou os olhos, imediatamente saindo de dentro do Impala e xingando baixo. Os movimentos foram um pouco mais lentos, mais cautelosos que o normal, e o sorriso do moreno murchou, por saber que o irmão certamente sentia fortes dores, e que parte daquelas reclamações se devia a isso. Tratá-lo daquela forma podia até fazer com que o mais velho sentisse como se tudo estivesse bem, mas fazia com que o mais alto ficasse desnorteado e assustado com a realidade com a qual tinha de lidar:
Algumas pessoas só podem ser consertadas quando querem, e Sam sabia que Dean não queria. Sabia também, que era o único que poderia fazê-lo mudar de ideia.
Suspirou pesadamente.
Aquilo estava longe de acabar.
26º — Let me breath; let me love you — "Deixe-me respirar; deixe-me te amar"
Adentrar no aposento e dar de cara com uma cama king size repleta de lençóis brancos e travesseiros fofos foi o suficiente para que Dean arregalasse os olhos e sentisse que alguém havia acabado de acertar sua cabeça com um atiçador de lareira. Por um único segundo, era como se seu cérebro tivesse parado de funcionar, como se tivesse entrado em crise. Então, lentamente, se aproximou, e roçou as pontas dos dedos no tecido macio, sentindo o coração bater descontrolado no peito.
Sam havia enlouquecido completamente! Era a única resposta plausível para aquele total absurdo. Enquanto jogava a bolsa ao lado do móvel, Winchester respirava fundo, tentando compreender, tentando saber o que se passava pela mente do irmão. Nada minimamente aceitável lhe ocorreu. Quando o mais novo chegou, encontrou-o ali, parado, branco feito um cadáver e com uma expressão esquisita; o cenho franzido, as mãos cerradas em punhos ao lado do corpo, os lábios ainda levemente arroxeados. De imediato, precipitou-se em direção ao loiro.
— Dean? — chamou, esticando a mão para tocá-lo. — O que foi? Está sentindo alguma dor?
Mas o mais velho recuou como se tivesse acabado de receber um chute, os olhos vidrados cravados na expressão aflita do moreno. Os minutos se arrastaram de maneira vagarosa, até Sam virar o rosto e observar a cama. Arqueou uma sobrancelha, os ombros caindo, involuntariamente relaxando. Voltou-se para o loiro enquanto continha a muito custo o sorriso que insistia em fazer o canto de seus lábios tremer, ignorando a acusação muda presente naquele olhar.
— Não havia nenhum quarto com duas camas de solteiro. Na época de temporada ou algo assim, a atendente disse que é um pouco complicado. Sem reservas adiantadas, nada feito.
Por um momento, o caçula poderia jurar que Dean murmuraria qualquer coisa sobre não deitar na mesma cama que ele nem fodendo. Então, o mais velho piscou, atordoado, logo em seguida sacudindo a cabeça e xingando baixo sabe-se lá Deus quantas gerações de homens, pegando uma muda de roupas numa das mochilas, juntamente com um pequeno kit de primeiros-socorros, se dirigindo ao banheiro enquanto murmurava algo sobre tomar banho. Nem se quisesse, Sam conseguiria resistir ao impulso de provocá-lo, mesmo que um pouco constrangido pelo pequeno contratempo da cama.
— Quer que te ajude? — sorriu largamente para a carranca do irmão.
Como resposta, Dean bateu a porta com força.
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Ainda que sob os protestos do mais velho, o moreno fez questão de tratar os ferimentos mais uma vez. Não havia nenhuma necessidade, é claro, porque o loiro já se machucara o bastante durante a vida, para saber como dar um ponto decente, mas Sam insistiu, e, cansado das discussões sem propósito e fisicamente exausto, o primogênito Winchester acabou cedendo. O clima entre eles ficou um pouco tenso quando Dean começou a puxar a barra da blusa, e as primeiras cicatrizes surgiram.
Sam fechou os olhos por alguns segundos, após prender a respiração, jurando debilmente a si mesmo que não iria fazer com que o irmão se sentisse ainda pior com aquela situação. O mais velho notou o gesto, quando o maior mordeu o lábio inferior e voltou a encará-lo, ajudando-o a tirar aquela peça de roupa, tomando cuidado com as finas linhas rosadas que se desenhavam na pele branca de maneira tétrica, e também com aquelas praticamente impossíveis de se encontrar. Algumas delas já meio salientes, fechadas. Outras, ainda avermelhadas, num claro sinal de que haviam sido feitas há não muito tempo. As mais recentes, daquela noite, estavam com curativos já manchados pelo sangue que insistia em sair, pois não eram profundos o suficiente para receberem pontos, porém também não eram superficiais o bastante para o sangramento parar tão rapidamente. Os cortes nos braços, no entanto, eram um pouco mais preocupantes, ainda que Dean os tivesse fechado habilidosamente, por sua experiência no assunto.
O moreno ficou preocupado com a tonalidade arroxeada ao redor de alguns desses cortes, fazendo perguntas e mais perguntas, querendo ter a certeza de que as veias estavam intactas, temendo algum tipo de hemorragia. O mais velho quase achou graça da situação, não fosse o fato de sentir as bochechas queimando pelo constrangimento, por sentir o irmão o tocando com tanto carinho, com tanta cautela, como se esperasse que a qualquer momento tivesse uma síncope. Quando Sam o fitava daquela forma, pensativo, cuidando dos ferimentos com algo que poderia se assemelhar à idolatria, o loiro não sabia dizer ao certo qual era o sentimento que o dominava.
Talvez uma mistura de muitos. Arrependimento, por fazê-lo se preocupar tanto. Vergonha, pela maneira meio raivosa que o moreno encarava as cicatrizes. Pesar, por se recordar da época em que os papéis não estavam invertidos, e que era ele quem fazia os curativos. E amor, por saber que, apesar de todas as burradas que cometera e ainda cometia, seu irmãozinho era cabeça-dura o suficiente para se negar a abandoná-lo, para querer tratá-lo. Por saber que ele estava disposto a tudo para ajudá-lo, mesmo que não merecesse.
— Nós vamos cuidar disso. — Sam sussurrou baixo, meio que para si mesmo, enquanto tocava suavemente um ponto não muito específico, num dos cortes ao redor de seu umbigo, com o antiinflamatório na ponta dos dedos, erguendo os olhos para encará-lo.
Dean demorou alguns minutos para compreender o duplo sentido da frase.
Era uma promessa silenciosa.
Ele acordou naquela madrugada sentindo-se estranhamente seguro, absurdamente confortável. Manteve os olhos fechados durante os primeiros cinco segundos, respirando lenta e profundamente, até por fim dar-se conta da estranheza que era, estar envolvido pelos braços do irmão.
