Ele nunca esteve preparado para ouvir aquilo. Ele estava parado na frente da porta do quarto da Aria. Ele conseguia ouvi-la a chorar. Isso despertou nele um instinto ainda mais protector, mas seria boa ideia entrar? Ela podia literalmente chutá-lo para fora por estar tão chateada? Ele abriu a porta devagar sem fazer barulho. Os soluços dela foram mais altos depois de quebrar a barreira. Ele entrou e fechou a porta, ela não notou, estava de costas para ele.
Ele queria abraçá-la, dizer que tudo ficaria bem e dar-lhe esperança, que algum dia podia encontrar o verdadeiro pai… mas… ele sabia que isso não podia acontecer. Ele tinha de ser realista, não há mal nisso, ele seria o suporte dela. Ele estaria sempre lá para ela.
"Aria." Ele chamou baixinho.
Ela sobressaltou-se e olhou para ele com os olhos vermelhos e lágrimas grossas. "Vai embora Ezra."
Ele avançou. "Eu sei que não queres isso." Ele disse suavemente.
"Não quero que me vejas assim." Ela cobriu o rosto com as mãos.
"O que tem?" Ele foi sentar-se junto dela.
"Estou horrível e sou patética." Ela lamenta.
"Aria." Ele chamou a sua atenção e ela olhou para ele. "Tu não és horrível." Ele colocou uma mão de cada lado do seu rosto. "Tu és linda." Ele beijou a testa dela. Os olhos dela brilharam para ele. "E não és patética… é perfeitamente justificável."
"É tão estranho olhar para ele e pensar que podia ser o meu pai se nunca se tivesse descoberto a traição da minha mãe." Ela balbucia.
Ele colocou-lhe o cabelo para trás da orelha. "Eu não pensei que fosse tão difícil para ti… se eu soubesse nunca te teria trazido."
"Eu quero. Eu quero conhecê-lo e estar contigo." Ela disse suavemente. "Mas eu sempre pensei conhecê-lo e chamá-lo por pai." Ela limpa o nariz com as costas da mão.
"Eu percebo." Ele abraçou-a, ela parecia mais calma. "Nós temo-nos um ao outro Aria. No que depender de mim apenas vais chorar de felicidade."
Ela sorri. Olhou para ele grata pela compreensão dele, mas sobretudo pelo amor que ele lhe transmitiu. Para a sua própria surpresa ele moveu-se para ela beijando-a nos lábios e intensificando o beijo. Ela podia provar o salgado das próprias lágrimas e provavelmente ele também. Não foi um beijo demorado, ele afastou-se. "Não nos podemos distrair. O meu pai..." Ele sussurrou a última parte.
Ela concordou compreendendo o que ele queria dizer. Limpou o que restou das lágrimas com a manga da camisola e deu-lhe um pequeno sorriso. "Mesmo assim foi o suficiente para me animar."
Dia seguinte
"A tua avó vai passar por cá."
"A avó Clara vem cá?"
"Sim."
A Aria olhou curiosa, ela não sabia desses membros da família. Estava meio animada, meio ansiosa. Será que a trataria bem? Sabia quem ela era?
"Ela vai gostar de te conhecer." O Ezra diz olhando para ela.
Ela sorriu entrando na onda entusiástica dele. "Quando ela chega?" Ela pergunta ao Eric.
"Ela vem passar o dia de Natal connosco."
"Isso é perfeito!" O Ezra diz terminando de lavar a loiça do pequeno almoço.
"Bem, eu tenho de ir trabalhar." O Eric veste o casaco. "Vocês divirtam-se, têm comida no frigorífico, neve no jardim, uma série de livros no quarto do Ezra e DVDs na sala da cave." Diz ele. Para a Aria havia ainda um homem com quem se entreter que não devia ser mais do que um irmão, mas pronto...
"Não te preocupes pai."
"Até logo!" Ela diz vendo-o dirigir-se para a porta.
"Até logo meninos."
A porta da frente bateu, um motor trabalhou e depois de breves segundos o mesmo silêncio que indicou a ausência definitiva do pai do Ezra.
"Estamos por nossa conta." O Ezra diz limpando as mãos no pano seco.
Ela sorriu. "O que vamos fazer?"
"Podemos ir dar um passeio para te mostrar a cidade, não é muito grande de qualquer maneira… acho que em 30 minutos estaríamos de volta."
"Por mim tudo bem." A Aria veste o seu casaco grosso, gorro, luvas e cachecol. Lá fora estava um frio de rachar, a neve estava espessa apesar do sol espreitar ocasionalmente. O Ezra seguiu-a e tal como tinha dito passaram pela praça principal e voltaram em 30 minutos.
"Devíamos fazer um boneco de neve." A Aria diz, olhando para os bonecos dos vizinhos. O Ezra concordou e ambos colocaram mãos à obra. "Quem será que inventou os bonecos de neve?" A Aria pergunta.
"Não faço ideia."
"Não deviam mentir às crianças… aquela forma redonda e perfeita é mentira." Ela diz olhando para o boneco que eles estavam a fazer de estrutura fina e baixa. "Eu acho que a cabeça vai cair a qualquer momento."
O Ezra ri. "Para o teu primeiro boneco de neve não está mau."
"O que isso quer dizer?" Ela começa a pegar neve para fazer uma bola.
"Quer dizer que tinhas expectativas demasiado altas." No mesmo momento ela atirou uma bola de neve ao ombro dele. "HEY!" Ele começa a pegar neve também para lhe atirar, ela foge e pega mais. Uma luta de neve começou, ela não conseguia parar de rir e o Ezra ainda não lhe tinha acertado nenhuma vez. Ele estava visivelmente cansado e ela também, correr na neve era particularmente difícil, mas mesmo assim bolas de neve não pararam de ser atiradas. Ela atingiu-o novamente.
"É melhor desistires."
"Só desta vez." Ele diz. "Vamos entrar." Ele dirigiu-se para a porta e abriu.
Ela seguiu-o. Tiraram os casacos e as botas, tudo o que os aquecia demais pois a casa estava quente. Ele não precisou de falar, apenas lhe estivou os braços para um abraço. A Aria foi ao seu encontro, os braços do irmão eram o seu lugar favorito. Ela não esperou a armadilha… as mãos geladas dele subiram pelas suas costas nuas por baixo da camisola.
"EZRA!" Ela tentou afastá-lo, mas era inútil, era forte para ela.
"Quem ganhou?"
"Eu!" Ela diz.
Ele tocou outras áreas. "Quem?" Ele brincou.
"Tu, tu… apenas pára! Pára!"
Ele soltou-a percebendo o desespero nela. Ele não a queria magoar… "Sabes que eu estava a brincar amor?"
Ela parou e olhou repentinamente para ele. Ele tratou-a por "amor"? Ela estava ligeiramente apreensiva. Era mesmo esse o sentimento dele? Amor? Amor a sério?
"Desculpa." Ele diz. Ela não sabia se ele ainda se referia à brincadeira ou pelo nome que ele a chamou.
Ela não podia deixar a oportunidade passar. "Ezra… tu amas-me mesmo ou apenas o dizes da boca para fora?"
Muito obrigada pela leitura! Espero que estejam a gostar.
Beijos e até ao próximo capítulo!
