Capítulo 24

O ferimento a faca, quando Bella olhou para ele, mais tarde deíxou-a estarrecida. Havia um corte profundo, do lado, embaixo do braço. Edward disse-lhe calmamente, enquanto o lavava que tinha sobrevivido a ferimentos mais sérios do que aquele.

- Felizmente, minha costela reteve a lâmina, senão você ia ter de se ver sozinha aqui neste deserto - disse, caçoando dela.

- Você não está zangado? - perguntou, surpresa, enquanto amarrava tiras de pano em seu peito, por cima do ferimento.

Ele encolheu os ombros, fechando os olhos devido à dor.

- Acho que foi bem feito para mim. Isso me ensinará a ter mais cuidado com a faca no futuro. - Deu-lhe um longo e estranho olhar, medindo-a cuidadosamente. - E com você, também. Confesso que subestimei você, Bella e essa veia selvagem que você tem.

Ela afastou-se dele, de cara amarrada, e deu-lhe as costas. Sentia-se ridícula, vestindo apenas uma camisa dele e uma saia improvisada de um pedaço de cobertor.

- Confesso que também subestimei você - disse, irritada. - Você fala francês, e por todos estes meses me deixou pensar... - mordeu os lábios de raiva, ao se lembrar de algumas das coisas que o tenente francês lhe dissera. Por que Edward fingia? E como falava um francês tão perfeito?

- Que tal, então, não nos subestimarmos mais?

Ele se aproximara e estava por trás dela. Ela lhe sentia a presença, ao lado de seu ombro, mas recusava-se a se voltar para olhá-lo.

- Bella... - Sua voz era quase um suspiro, surpreendendo-a. - Olhe, se você tiver um pouco de paciência, talvez as coisas se ajeitem. Eu ia lhe dizer, quando você disparou ainda agora uma louca, que amanhã à noite você estará num lugar seguro. - disse rapidamente quando ela se voltou para enfrentá-lo - não é um quarto de taberna ou um lugar como a casa de tolerância. É uma casa. Pertence a um amigo meu, mas você estará lá só, com uma mulher que tomará conta de você.

- E você? Pretende me deixar sozinha lá, enquanto...

- Pensei que você ficaria contente de se ver livre de mim por algum tempo! - A voz dele tinha se tornado inexpressiva outra vez, e ela não podia saber o que ele estava pensando. Ficou calada, esperando que ele continuasse.

- Tenho que ir à Cidade do México, Bella. Há algumas coisas que tenho que fazer lá e não posso levá-Ia comigo, por motivos óbvios. Quando eu voltar...

- Se você voltar! - gritou. - Se! Você é um homem que está sendo caçado, Edward, e sei bem disso. Pensa realmente que vai poder simplesmente cavalgar para a Cidade do México e sair de lá vivo?

- Eu voltarei. Mas, mesmo que não volte, meu primo Jasper tomará providências para que você seja enviada, com segurança, de volta a seu pai.

Recusou-se a dizer-lhe mais, embora ela alternasse as súplicas com os impropérios. Nada lhe disse do que ela queria saber. Pelo menos, garantira-lhe que, quando voltasse, a mandaria de volta para seu pai. Não era isso o que ela queria? E, caso ele não voltasse, Jasper o faria.

Jasper não era bem seu primo, confessou. Era mais uma espécie de tio, embora fossem quase da mesma idade.

- No México há o costume de chamar todos os parentes de tio e primo - disse-lhe displicentemente.

Bem, pelo menos havia prometido libertá-Ia, pensou Bella, recostando-se a ele da forma habitual. Endireitou-se, porém, rapidamente quando percebeu sua contração de dor, embora esta fosse quase imperceptível. Junto com o pensamento da liberdade, porém, veio-lhe uma espécie de temor, uma certa relutância, que não conseguia ainda analisar bem. Quando ela voltasse, então... o que aconteceria? Como eles reagiriam - seu pai, Rosalie e todos aqueles que sabiam o que havia lhe acontecido? Voltarei para a França, decidiu por fim, forçando-se a não pensar no assunto.

As montanhas atrás deles estavam se tornando cor de violeta, com o cair da noite, quando Bella viu o gado. Era um rebanho grande que pastava serenamente nas longas sombras do crepúsculo. E onde havia gado...

Encolheu-se contra Edward quando ouviu o som de cascos. Os dois vaqueiros, com lenços berrantes e coloridos amarrados no pescoço sob enormes sombreros, pararam os animais a seu lado. Ambos usavam armas, e um deles tinha o rifle apontado para eles, o que significava que eram perigosos. Antes, porém, que pudesse soltar a respiração, tinham arrancado os chapéus de abas largas e os estavam agitando no ar como loucos, tendo no rosto um enorme riso de reconhecimento.

Don Eduardo! - gritou um deles. - Não sabíamos que vinha!

- Si, mas eu disse a Diego, ninguém monta dessa maneira; além disso, Don Eduardo não iria perder a festa de aniversário do patrón. Já faz muito tempo, não?

Olharam para Bella e desviaram o olhar, delicadamente. Por uma vez na vida, ele não parou para conversar muito, para alívio de Bella. Sorriu para os homens, fez um comentário jocoso sobre a festa e sobre sua sede de aguardiente.

- Não posso me encontrar com meu avô e meus amigos assim, parecendo um bandoleiro. Procurarei vocês amanhã, meus amigos, para tomarmos pulque juntos. Até amanhã.

- Hasta manana.

As palavras eram bem o retrato do México - pensou Bella.

Tudo esperava por amanhã. E como seria o dela?

Paraa esconder o embaraço que sentira quando os vaqueiros se aproximaram, perguntou a Edward rapidamente:

- Quem eram? Você os conhece há muito tempo?

- Há muito tempo. Costumava cavalgar e me embriagar com eles, às vezes. São meus amigos.

- Mas eles o chamaram de Don Eduardo - insistiu.

- Oh! - disse, encolhendo os ombros. - "Don" é um tratamento de cortesia. É como chamar alguém de Mister nos Estados Unidos. Você esperava que eu fosse alguma coisa mais do que um pobre vaquero? Está desapontada?

- Já que me acostumei a esperar o pior de você, dificilmente você poderia me desapontar - respondeu; mas a curiosidade e vontade de não pensar no lugar para onde ele a levava fizeram que continuasse a interrogá-Io.

- De qualquer maneira - continuou pensativamente -, não posso conceber um simples vaqueiro que tenha a instrução que você tem e que, ainda por cima, fale francês fluentemente.

- Oh! Bella! - Havia um riso dissimulado em sua voz. ¬Sinto ser uma decepção para você. Nunca tive nenhum estudo formal. O que sei aprendi por aí, falando com as pessoas e lendo livros... Quanto ao francês, aprendi-o com uma prostituta francesa de Nova Orleans. Isso a satisfaz?

Ela não acreditava nele. Ansiava por fazer-lhe perguntas sobre o seu pai americano, mas a última frase dele a silenciou. Um homem como ele! Freqüentando prostitutas... Era óbvio que nunca lidara com moças de família, no passado. Suas costas se enrijeceram involuntariamente, e ela sentiu o braço dele se apertar em torno de sua cintura.

- Não precisa ficar com ciúmes, querida; isso foi muito antes de eu a conhecer. E talvez você possa me ensinar alguma coisa também.

Compreendeu o sentido de suas palavras, mas recusou-se a morder a isca e ficou em silêncio até ver o bosque.

As árvores eram altas e pareciam muito velhas no azul-escuro do entardecer. Em algum lugar, ela ouviu um cachorro latindo e - se acenderem entre as árvores, à medida que se aproximavam.

Uma estranha sensação de desconsolo invadiu Bella, uma espécie déja vu, e ela se ouviu suspirar. Um bosque de luzes que davam boas vindas, e, adiante, uma casa. Talvez tivesse sido um lar para ele no passado; mas ela era uma estranha. Apesar da indefinível sensação de familiaridade, esse lugar não lhe dizia nada. E esse

primo, que espécie de pessoa seria ele? Como reagiria à sua presença?

Não havia mais tempo para considerações. Tinham saído do bosque e seguiam por uma estrada curva que levava à casa. Bella teve uma vaga impressão de haver arbustos altos ladeando a estrada; o perfume ativo de alguma planta que floresce à noite entrava pelas suas natinas.

Alguns lances de escada, iluminados por duas lanternas, davam para uma varanda estreita que circundava todo o prédio de dois andares. Tendo esperado uma coisa menor, Bella se espantou, primeiro com o tamanho da casa e, depois, com a presença inesperada de dois vaqueros armados que surgiram como que materializados na sombra. Dois cachorros, latindo desesperadamente, os precediam.

- Pelo visto, mudei de cheiro - disse Edward secamente. Elevando a voz um pouco, ordenou:

- Sentem-se, cães de uma figa! - Os latidos foram diminuindoe os cães se calaram, sacudindo o rabo.

- É Don Eduardo! - falou um dos homens. - Estávamos esperando o senhor, mas já é tão tarde e a fiesta começou ontem...

- Onde está o diabo de meu primo? Jasper? Ele não está?

Edward desmontou, jogando a rédea para um dos homens que sorriam, e Bella se viu em seus braços, quando ele a tirou do cavalo.

- Oh, pelo amor de Deus! Você não vai me levar, assim, para conhecer seu primo!

A porta se abriu e a luz escoou por ela, iluminando a silhueta de um homem alto e um tanto curvado, que ficou parado um instante e depois veio na direção deles com os braços abertos para comprimentá-Ios.

- Edward! Recebi um recado truncado um ou dois dias atrás, e não consegui entendê-Io. Receava que você já estivesse na Cidade do México, mas, de qualquer maneira, é um prazer revê-Io.

- Não posso retribuir seu abrazo, Jasper. Como vê, tenho uma hospede para a casa pequena. Está desocupada?

O homem já estava próximo deles, mas nem sua atitude nem seu tom de voz demonstravam surpresa ou desapontamento.

- Está desocupada, é claro. Esperava que viesse, de modo que tomei as providências.

Angela já está lá esperando, e você deverá encontrar tudo em ordem.

- Nesse caso, levarei minha amiga diretamente para lá. Ela está cansada e um tanto encabulada por não estar muito apresentável. Mais tarde ela lhe será apresentada.

O rubor de Bella lhe queimava o rosto e o pescoço. Se não estivesse tão abatida, teria chorado de raiva. Como ousava expô-la dessa maneira? Como podia referir-se a ela simplesmente como "amiga"? Um francês, ao referir-se à sua amante, diria "petite amie". Sem dúvida, deveria haver um equivalente em espanhol. Quer dizer que esse seria o seu papel!

- Então, nos vemos mais tarde para um drinque? Vou esperá-lo.

Ela não pôde deixar de notar o olhar embaraçado que Jasper lhe dirigiu. Sem dúvida, o pobre homem estava indeciso se devia se dirigir a ela ou não. Edward, porém, não lhe deu tempo para isso pois já seguia com seus passos largos para o lado da casa, carregando-a no colo como se não estivesse ferido.

La Caseta, a casa pequena. Depois, com a luz do dia, Bella iria pensar em como o nome lhe ficava bem.

Ficava a uma pequena distância da casa maior, a estância, situada numa clareira entre as árvores, onde ninguém esperaria encontrar uma casa. Havia um caminho, com um calçamento remendado ligando as duas casas; Edward, apesar da escuridão, pisava firme e conhecia o caminho como um gato.

A porta estava aberta, havia uma luz de lamparina iluminando o ambiente; uma mestiça, de cabelos negros, afastou-se um pouco, sorrindo timidamente, enquanto Edward entrava carregando Bella, atravessava a minúscula sala de estar e se curvava um pouco, para passar pela porta baixa e penetrar no quarto.

A cama era enorme - provavelmente a maior e mais com confortável cama que ela já vira em toda a sua vida. Uma colcha colorida tecida à mão, estava dobrada de modo a deixar ver lençóis de linho branco. Nas janelas, que tomavam quase toda a parede, viam-se cortinas combinando com a colcha.

Aquele quarto, é claro, era o ponto mais importante da casa. Era muito maior que a sala, o chão era todo atapetado e, ao invés de portas, havia um cortinado pesado.

Edward se abaixou para colocá-Ia na cama e, de repente, para surpresa sua, Bella se sentiu nervosa. Não queria que Edward a deixasse ainda!

- Espere - disse-lhe, quando ele se virou para ir embora, notando, ao mesmo tempo, o olhar intrigado e espantado ao se voltar para atendê-Ia.

- Não está ansiosa por se livrar de mim? - Começou a rir encerrando os olhos ligeiramente. - Bella, será que...

- Deixe de fazer piadas! - respondeu, irritada. Depois, num tom neutro disse: - Você está sangrando de novo; é melhor deixar-me cuidar desse ferimento.

Displicentemente ele levantou o braço, dando um gemido ao tocar 0 local que sangrava e molhava as ataduras.

- É, acho que estou. Bem, Jasper cuidará disso. Há alguma coisa de que você precise, querida?

- Estou com fome, gostaria de tomar banho, e preciso de alguma roupa. - Disse isso tudo com voz inexpressiva, apesar de estar zangada consigo mesma e com ele também.

- Angela lhe dará tudo de que precisar. Há um banheiro ali - disse, indicando um arco de porta com cortina, que ela pensara tratar-se apenas de uma alcova.

- Amanhã você poderá ver o pátio e o resto da casa, se estiver interessada.

Ele parou, hesitante, e depois curvou-se diante dela num movimento cerimonioso e ridículo.

- Durma bem, Bella.

Ao chegar, afobada, Angela começou a cuidar dela como se sua mãe, apesar de aparentar se tão nova quanto Bella, sorrindo timidamente para esconder sua curiosidade. Apesar de sua aparência despretensiosa e de não saber uma um palavra que não fosse espanhol, ela provou ser uma excelente camareira e pela primeira vez em meses, Bella se sentiu mimada.

O banheiro tinha uma banheira romana embutida que fez Bella regalar os olhos de surpresa.

- É tão grande que dá para dois - disse Angela, fazendo Bella corar novamente.

Ela havia pensado a mesma coisa, e o pensamento inesperado a fez enrubescer. Angela ajudou-a a tomar banho, esfregando-lhe as costas com sabonete perfumado, lavando-lhe os cabelos e extasiando-se com sua cor e beleza. Mais tarde, no quarto, Angela lhe massageou o corpo todo com água-de-colônia, e Bella sentiu diminuir o cansaço e a rigidez que tanto a incomodavam.

O janntar leve, que comeu envolta num cobertor macio, à moda polinésia estava excelente, assim como o vinho branco suave, que achou delicioso. Como sobremesa, havia frutas frescas, servidas com gelo picado, e Angela ficou todo o tempo a seu lado, insistindo em que comesse mais, pois achava-a muito magra .

Mais tarde, no quarto, Angelaa lhe escovou os cabelos úmidos, diante do espelho imenso que estava pendurado na parede, não se cansando de admirá-Ios e de fazer comentários sobre sua beleza.

- A señorita é muito bonita. Que cabelos! Que pele linda! Amanhã vou lhe trazer umas bonitas roupas, o señor vai fica: muito satisfeito.

A referência a Edward fez Bella se recordar vivamente de que afinal de contas, não era mais do que sua prisioneira e um brinquedo em suas mãos. Não podia deixar de imaginar onde ele poderia estar e o que estaria fazendo. Será que tinha ido ver o misterioso avô a quem os vaqueros tinham se referido? E por que fazia também, mistério sobre seus parentes? Pensou com amargura que provavelmente eram todos juaristas - era impressionante como os franceses estavam cegos com relação aos fazendeiros. Talvez Angela lhe dissesse mais alguma coisa. Na verdade, tudo o que queria saber. Mas era preciso ter cuidado. Não podia deixar que suspeitasse de nada. Agora, porém, estava cansada demais. Talvez no dia seguinte de manhã. Nem percebeu quando foi que adormeceu. Só tinha a vaga idéia da voz de Angela, vindo de longe, perguntando se queria mais alguma coisa.