O Bardo e o Pardal

Capítulo 25

Acordou sobressaltado. Tão assustado que, ainda meio adormecido, levantou-se da cama com pressa, tropeçando em várias coisas pelo caminho. Saiu do quarto tenso, sentindo as pálpebras ainda pesadas. Nem sabia se já era dia. Foi até a cozinha de seu elegante apartamento e acionou os botões que controlavam a claridade do apartamento. Apertou o botão que abria as janelas da sala de estar, jantar e da cozinha. A luz adentrou o local de uma vez, e as pálpebras voltaram a se fechar, para proteger os olhos.

– Merda. Eu não costumo acordar tão cedo. – resmungou.

Abriu a porta da geladeira e retirou de lá uma garrafa com água. Sentia muita sede. Bebeu do gargalo mesmo e tomou quase toda a água da garrafa. Depois, sentindo-se verdadeiramente desperto, pegou uma maçã da fruteira que ficava sobre a bancada de granito e ligou suas televisões.

Possuía seis televisões na sala. Gostava de assistir a mais de um programa ao mesmo tempo. Na verdade, não assistia a nada, mas gostava do barulho. O barulho era, para ele, inspirador.

Em um dos programas, começou-se a falar sobre um famoso bailarino russo que começaria uma inusitada carreira de cantor lírico. A chamada chegou a atrair a atenção do belo moreno, que dava uma generosa mordida em sua maçã, mas antes que a reportagem tivesse início, seu celular tocou, distraindo sua atenção.

– Alô? Oi, Esmeralda. Não, eu já acordei. É, eu sei. Mas não vá se acostumando. Isso não deverá acontecer novamente tão cedo. Ah, é mesmo? Ótimo. Escuta, avisa ao pessoal do estúdio que vou querer acrescentar uma canção no álbum. Eu não quero saber se eles vão achar bom ou não. Estou falando para você avisar que isso vai acontecer. E eu lá me preocupo com isso? Eu estou me lixando para o que eles pensam, Esmeralda. Olha, se for ajudar, diz que estou com a música pronta na cabeça. Sim, tudo pronto. Letra, melodia. E eu não vou querer que ninguém mexa na música, então não vai dar trabalho acrescentar essa faixa, porque não será preciso revisar nem nada. Esmeralda, eu já disse que a música está pronta. Ninguém vai mexer com ela. E agora eu vou desligar, ok? – sem esperar resposta do outro lado da linha, apenas desligou o aparelho.

Ficou pensativo por alguns minutos, enquanto terminava de comer sua maçã. Em seguida, foi para o seu estúdio particular, que montara em seu próprio apartamento, para poder trabalhar ali quando necessitasse e, muito rápido, colocou a letra da canção no papel. Sequer precisou de tempo para processar a letra, como normalmente ocorria. Essa música não era fruto de uma inspiração sua. Tinha sonhado com ela. Tinha acabado de sonhar com ela. Viera pronta, como nunca tinha ocorrido antes.

Depois, pegou a sua guitarra e começou a dedilhar sua melodia. Tão rápida quanto a letra, já tinha terminado de esboçar toda a canção e, ansioso por vê-la ganhar corpo, resolveu ir logo para o estúdio. Esmeralda já devia ter passado seu recado a todos e não estava querendo perder tempo.

Foi tomar uma ducha e, debaixo do chuveiro, não conseguia parar de pensar naquele sonho.

Saiu de seu banho, apressado, vestiu-se com presteza e logo estava a caminho do estúdio. Lá chegando, encontrou todo mundo em polvorosa por causa de seu ataque de estrelismo, que era como todos se referiam a essa mania de mudar as coisas de última hora.

Não se importava com o que dissessem, contanto que fizessem o que ele mandava. Era temperamental, sim. E gostava das coisas a seu modo. Não se arrependia nem tinha o costume de pedir desculpas. Oras, era graças a esse seu jeito de ser que havia se transformado na maior estrela da música atualmente.

Estava passando as instruções sobre a nova canção ao seu pessoal, quando Esmeralda apareceu:

– Ikki, você gosta de me criar problemas, não é? Só pode! – a garota loira entrou estressada e parou na frente do rapaz, colocando as mãos na cintura, em uma pose ameaçadora.

– Se está tentando me assustar com essa cara brava, pode esquecer. Você sabe que eu a conheço há tempo demais para ter medo de qualquer coisa que você faça. – olhou para trás da moça e sorriu de canto – Não sou como o coitado do seu assistente, que você trata como se fosse seu escravo.

– Ah, Ikki! Você fala cada coisa... – respondeu Esmeralda, mas depois olhou para o assistente que estava parado atrás dela, carregando uma pasta cheia de papéis, e disse: - Lasho, a minha agenda. - pediu de forma séria, estendendo a mão aberta para o rapaz que estava atrás de si - Minha agenda não está aí? – a moça ergueu uma sobrancelha, nervosa, praticamente fuzilando o jovem assistente com seu olhar – Você a esqueceu em algum lugar?

O assistente começou a revirar os papéis apressadamente, mas não encontrava nada.

– Não acredito! Lasho, quantas vezes eu preciso repetir que a agenda é o mais importante?

– Você disse que essa pasta era o mais importante. E...

– Lasho, não discuta comigo. Vá buscar minha agenda agora! Dê um jeito de encontrá-la; não quero nem saber como! Preciso dela aqui para ontem! – a moça usou de seu tom mais zangado e Lasho deixou o local às pressas.

Assim que se viram a sós, Ikki riu divertido:

– Você é muito má. Eu tenho pena dessa cara...

– Não sou má. Apenas sei ser eficiente e arranco de todas as pessoas o que elas têm de melhor.

– Não é à toa que você é a minha agente.

– Exato. – sorriu a jovem, satisfeita com a observação.

– Mas sabe... Acho que você deveria pegar mais leve com o coitado. Afinal, para um cara aguentar tantas patadas suas, deve ser porque ele tem algum interesse em você. Já pensou em dar uma chance ao Lasho nesse sentido? – riu o moreno, em tom de brincadeira.

Esmeralda enrubesceu e, depois de um bom tempo em silêncio, soltou:

– Quem te falou sobre isso?

– Sobre o quê? – perguntou Ikki, agora mais concentrado em arrumar sua guitarra.

– Que eu... e o Lasho... que nós... – a garota falava em um tom mais baixo.

– Está me dizendo que acertei? – Ikki arregalou os olhos, surpreso – Há algo entre vocês?

– Não! Quero dizer... – um sorriso bobo surgiu no rosto da agente de Ikki – Não sei... acho que sim. O Lasho me chamou para jantar outro dia... Foi bem legal...

– Você gosta dele?

– Gosto. Quero dizer... ele é de uma forma no trabalho... me obedece, faz tudo do meu jeito... Mas quando nos encontramos fora desse ambiente... Ele vira outra pessoa!

– Certo. – Ikki sorriu – Bom; eu não quero saber dos detalhes. Podemos gravar?

– Ensaiar, você quer dizer.

– Não tem muito o que ensaiar... Eu já sei exatamente o que quero dessa música.

– Ikki, não seja tão teimoso.

– Não estou sendo teimoso. Estou fazendo o que minha intuição manda. Já viu minha intuição falhar? Pois é.


Durante a gravação, Ikki trouxe muitos problemas. Dizia, a todo momento, que não estava bom, que não era daquele jeito que deveria ficar.

Foi então que Ikki teve uma ideia. A música precisava ser gravada ao vivo, em algum teatro ou casa de show.

Todos acharam a ideia absurda. Como iriam marcar um show de última hora? Mas Ikki não se importava:

– Mesmo que não haja ninguém... eu quero tocar essa música em um palco. Aluguem um lugar, paguem o preço que for necessário. Mas arranjem esse lugar para gravarmos ainda hoje!

E saiu, sem dar espaço para discussões.

Ao sair, viu em seu relógio de pulso que estava atrasado. Entrou em seu carro e rumou a toda velocidade para o restaurante.

Lá chegando, dirigiu-se à mesa de sempre e encontrou um Shun visivelmente nervoso, provavelmente por estar lá esperando há mais de meia hora.

– Oi, Shun. Desculpe-me, eu tive uns contratempos e acabei me atrasando. – já foi falando enquanto se sentava de frente para o irmão.

– Claro. Como sempre. – olhou para o relógio pendurado na parede do local – Quarenta e cinco minutos. Isso está virando um hábito, Ikki.

– Eu já disse, Shun... Tive contratempos... – fez um gesto para o garçom trazer uma bebida.

– Você está dirigindo. Nada de álcool.

– Mas Shun...

– Nada de mas, irmão. Ah, como é difícil cuidar de você, viu? Às vezes, nem parece que eu sou o mais novo aqui... – Shun percebeu que o irmão entrou naquele estado emburrado de sempre, recostando-se mais à cadeira, enquanto começava a brincar de picotar os guardanapos da mesa – Céus, dá para você aquietar um pouco? Se continuar a agir como criança, vai ficar difícil lhe pedir para ser padrinho da minha filha...

– Me desculpe, eu estou meio tenso por causa de uma... – Ikki interrompeu o que dizia, para arregalar os olhos, surpreso – Eu? Padrinho? Espera um pouco... Você e o Racom... Conseguiram?

– Sim. Conseguimos adotar uma menininha. O nome dela é June e ela vai chegar nessa sexta-feira. – Shun abriu um sorriso enorme, cheio de satisfação.

– Parabéns, Shun! Nossa, que maravilha! O Racom deve estar muito feliz!

– Ele está, sim. Disse que vamos começar a decorar o quarto dela hoje! – Shun falava demonstrando toda a sua empolgação – Sabe como é, irmão... Nós não quisemos decorar nada até termos a certeza de que conseguiríamos adotar dessa vez.

– Eu sei. – Ikki respondeu com sinceridade. Fazia dois anos que via o irmão e Racom tentando adotar uma criança, mas encontraram algumas dificuldades no meio do percurso. Para não se frustrarem mais, evitaram criar expectativas demais, até terem um resultado concreto.

– Vamos fazer um almoço em família, nesse sábado, para comemorar a chegada dela. Você vem?

– Quem vai estar lá? – perguntou Ikki, enquanto recebia seu suco de laranja.

– Quem mais? Eu, o Racom, o papai, a mamãe, o vovô, a vovó... e a June, claro. Queremos que ela conheça a família. Ela já tem cinco anos.

– Ah, Shun... acho que não vou.

– Por que não?

– Você sabe muito bem por quê. O grande Markash Amamiya vai jogar na minha cara, uma vez mais, a frustração que sou para a nossa família. Que os negócios da empresa deveriam ter sido dirigidos por mim. Que sou uma decepção, porque larguei tudo para viver da minha música. Aí eu vou brigar com o papai, a mamãe vai ficar chateada, e quando a dona Licahla resolve fazer uma chantagem emocional, já viu... Ela vai dizer que só nos quer ver feliz, que deveríamos brigar menos e todas aquelas coisas de sempre...

– Ikki, esse tipo de discussão não precisa mais acontecer, sabe.

– Você fala como se eu quisesse que essas brigas ocorressem, Shun.

– Não é isso que estou dizendo. Mas, quando um não quer, dois não brigam. O papai é teimoso e sempre depositou muitas expectativas em você, porque são muito parecidos... Mas você sabe tanto quanto eu que o papai e a mamãe te amam. E eles pegam no seu pé na exata medida desse amor. A mamãe realmente se chateia quando vocês discutem, porque ela só quer o bem de todos nós. E entenda o lado do nosso pai; ele sempre achou que você herdaria os negócios da família, justamente porque sempre se orgulhou muito de você... Só que isso já tem muito tempo, Ikki. Eu assumi os negócios e, me desculpe dizer, acho que hoje todos percebem que eu sou muito melhor para as empresas Amamiya que você. Aliás, o Racom vive dizendo que, se você tivesse assumido tudo, já teria levado as empresas à falência. – riu o mais novo.

– O Racom anda muito engraçadinho. Não faz pouco tempo que eu dava uns cascudos nele...

– Faz muito tempo sim, Ikki. Hoje o Racom é do seu tamanho.

– Nada impede que eu dê uns cascudos nele novamente. Para eu não perder o hábito e ele não perder o respeito.

– Ikki, às vezes, eu falo com você e acho que não amadureceu nada. O Ikki com quem eu falo parece o mesmo de dez anos atrás. Você continua encrencando com o nosso pai, ainda enxerga a mim e ao Racom como se fôssemos crianças...

– Vocês são crianças e isso nunca vai mudar para mim, Shun. Aliás, até hoje eu não acredito que o garoto que me enchia a paciência na rua, me pregando trotes e coisas do tipo, acabou virando seu namorado e casando com você. Ainda acho que ele se aproveitou da sua ingenuidade...

– Tá bom, Ikki... Tá bom. Então você não vai mesmo para o almoço de sábado?

– Não.

– O vovô e a vovó vão estar lá...

Ikki cruzou os braços e ficou em silêncio. Era muito apegado aos avós. Quando criança, seus pais ainda estavam fazendo o negócio da família crescer e ficavam muito tempo fora de casa. Por isso, Ikki passou boa parte da infância na casa dos avós. Shun, sendo oito anos mais novo, já pegou a boa fase da família, em que os negócios haviam deslanchado, permitindo assim que Markash e Licahla pudessem ficar mais tempo na companhia dos filhos, de forma que Shun foi realmente criado pelos pais, enquanto Ikki tinha sido criado quase que inteiramente pelos avós.

– O vovô Noir me pediu para dizer que ficará muito chateado se você não for, Ikki... e a vovó Arina falou que ia fazer aquele bolo de laranja de que você tanto gosta, para levar de sobremesa...

O moreno bufou.

– Deixa de ser teimoso, Ikki! – impacientou-se Shun – Não é sempre que o vovô e a vovó estão na cidade! Larga de ser ranzinza. Você vai a esse almoço e pronto. Eu quero que a June conheça toda a família! – declarou o mais novo, com firmeza.

– O Racom está te influenciando mal. Você anda muito mandão para o meu gosto, Shun.

– Ótimo. – respondeu o caçula, sorridente.

– Engraçado que deveria ser o contrário. O Racom não é o seu secretário? Ele deveria te obedecer, em vez de te dar ordens, como ele gosta de fazer...

– O Racom é meu assistente, Ikki. E ele não me dá ordens; ele se preocupa comigo. Ele gosta de me proteger e, por isso, às vezes, me cerca demais...

– Não sei como você aguenta isso...

– Quando a gente ama, a gente encontra um equilíbrio. Você saberia disso, se parasse de pular de cama em cama, e engatasse uma relação séria, pela primeira vez na vida.

– Se eu ficar sério e chato como você, qual vai ser o seu papel na família, Shun? – brincou Ikki.

– Para com isso, irmão. Você já não me engana mais, com essas brincadeiras que só escondem o quanto você é solitário. Por favor, procure alguém. Sério mesmo, Ikki. Você não sabe como é bom encontrar alguém que dá sentido para a sua vida...

Essas últimas palavras mexeram com o moreno. Porém, Ikki fingiu não ser atingido por elas e, depois de aceitar comparecer ao tal almoço, deixou o restaurante e voltou para o estúdio.

Lá, descobriu que tinham conseguido um horário de encaixe em um dos teatros que ficava no centro da cidade. Ikki correu para lá, sabendo que a equipe já tinha se dirigido ao local.

O teatro era grande e possuía uma excelente acústica. Muito satisfeito, Ikki deu algumas últimas instruções à banda e, quando estava pegando sua guitarra, um homem de terno e gravata e de meia-idade veio falar com ele.

– Senhor Ikki Amamiya, eu presumo.

– Sim. E você, quem é?

– O responsável pelos agendamentos do teatro e que teve de arrumar um encaixe para que pudesse estar aqui agora. O artista que havia marcado, com a devida antecipação, esse horário a fim de ensaiar para o espetáculo de hoje à noite, aceitou ceder esse espaço para o senhor.

– Ah, sim. E...?

– Como vejo, sua fama o precede, senhor Amamiya. Já tinha ouvido falar de seu rude temperamento, mas não imaginava que fosse tão grave. Enfim, eu vim apenas pedir para que não danifique o palco. Ele já foi devidamente arrumado para a apresentação do balé de hoje à noite.

– Danificar o palco? O que diabos você acha que eu faço?

– Não sei. Roqueiros têm essa fama de destruírem tudo por onde passam...

– Olha, meu amigo, é melhor o senhor ir embora, porque, pelo visto, não entende nada de música e eu estou sem paciência para ficar explicando. Então, some daqui, tá legal?

– O senhor deveria ser um pouco mais agradecido. Acha que encontraria muitos artistas por aí, dispostos a ceder parte de seu tempo para um intransigente como você?

– Olha aqui, cara... – Ikki já começava a partir para cima do homenzinho, quando Esmeralda apareceu e o segurou pelo braço.

– Esta bem, Ikki. Está bem. Já deu seu show. Agora, chega. - a moça sorriu simpática para o homem engravatado – Todos nós já entendemos o recado, senhor. Muito obrigada pelo seu tempo. Nós agradecemos muito.

– Eu não estou agradecendo a ninguém...

– Cala a boca, Ikki. – cochichou Esmeralda – Eu consegui esse lugar para você com muito custo, ouviu? Não coloque tudo a perder! Tive que conversar com céus e mares para arranjar um encaixe para você! A sorte é que a agente desse bailarino é muito gentil. O nome dela é Natássia e, se por acaso, cruzarmos com ela ou com seu filho, seja educado com ambos. E sim, ela é agente do próprio filho. Guarde suas piadinhas quanto a isso para você mesmo, porque não tenho tempo para perder agora, Ikki. Vamos logo com isso; nos cederam apenas uma hora e meia. Com o seu atraso, temos só uma hora, então precisamos correr.

– Uma hora é o bastante. Essa música vai ser gravada de primeira, eu estou sentindo.

Esmeralda sorriu e balançou negativamente a cabeça, como se soubesse que o amigo não mudaria nunca. Então pediu a Lasho que checasse se todo o equipamento estava em ordem.

Quando as luzes se apagaram e Esmeralda sentou para ouvir a tal canção, a jovem logo sentiu um misto de raiva e alegria.

Ikki havia acertado em cheio, mais uma vez.

E ficaria extremamente vaidoso e insuportável depois disso...


I could stay awake just to hear you breathing
Watch you smile while you are sleeping
While you're far away and dreaming
I could spend my life in this sweet surrender
I could stay lost in this moment forever
Every moment spent with you
Is a moment I treasure

I don't wanna close my eyes
I don't wanna fall asleep
'Coz i'd miss you baby
And I don't wanna miss a thing
'Coz even when I dream of you
The sweetest dream would never do
I'd still miss you baby
And I don't wanna miss a thing

Laying close to you
Feeling your heart beating
And I'm wondering what you're dreaming
Wondering if it's me you're seeing
Then I kiss your eyes and thank God we're together
I just want to stay with you
In this moment forever, forever and ever

I don't wanna close my eyes
I don't wanna fall asleep
'Coz I'd miss you, baby
And I don't wanna miss a thing
'Coz even when I dream of you
The sweetest dream will never do
I'd still miss you, baby
And I don't wanna miss a thing

I don't wanna miss one smile
I don't wanna miss one kiss
I just wanna be with you
Right here with you, just like this
I just wanna hold you close
Feel your heart so close to mine
And just stay here in this moment
For all the rest of time
Yeah, Yeah, Yeah, Yeah...

I don't wanna close my eyes
I don't wanna fall asleep
'Coz I'd miss you, baby
And I don't wanna miss a thing
'Coz even when I dream of you
The sweetest dream will never do
I'd still miss you, baby
And I don't wanna miss a thing

I don't wanna close my eyes
I don't wanna fall asleep
'Coz I'd miss you, baby
And I don't wanna miss a thing
'Coz even when I dream of you
The sweetest dream will never do
I'd still miss you, baby
And I don't wanna miss a thing

Don't wanna close my eyes
I don't wanna fall asleep, yeah
And I don't wanna miss a thing

Eu poderia ficar acordado só para ouvir você respirar

Ver o seu sorriso enquanto dorme

Enquanto você está longe e sonhando

Eu poderia passar minha vida inteira nessa doce rendição

Eu poderia me perder neste momento para sempre

Todo momento que eu passo com você é um momento que eu valorizo

Não quero fechar meus olhos

Não quero pegar no sono

Porque eu sentiria a sua falta, baby

E eu não quero perder nada

Porque mesmo quando eu sonho com você

O sonho mais doce nunca vai ser suficiente

E eu ainda sentiria a sua falta, baby

E eu não quero perder nada

Deitado perto de você, sentindo o seu coração bater

E imaginando o que você está sonhando

Imaginando se sou eu quem você está vendo

Então eu beijo seus olhos e agradeço a Deus por estarmos juntos

Eu só quero ficar com você

Neste momento para sempre, para todo o sempre

Não quero perder um sorriso

Não quero perder um beijo

Bom, eu só quero ficar com você

Aqui com você, apenas assim

Eu só quero te abraçar forte

Sentir seu coração perto do meu

E ficar aqui neste momento

Por todo o resto dos tempos


Ao término da canção que, tal qual Ikki havia dito, fora gravada de primeira, muitas pessoas vieram cumprimentá-lo, mas o moreno estava mal-humorado. Não quis aceitar cumprimentos ou elogios. Não parecia ter gostado do resultado. Porém, quando perguntado se desejava tentar gravar de novo, ele alegou que não. Disse que tinha feito o melhor que podia, mas que algo ainda faltava, embora não soubesse o que era.

Quando Ikki se encontrava nesse estado, todos tinham medo de se aproximar dele. Por isso, trataram de arrumar seus equipamentos para irem embora o quanto antes. Nessas horas, o melhor era manter distância; até porque o próprio moreno já dissera, várias vezes, que, em momentos assim, queria ficar sozinho.

Ikki, por sua vez, não tinha pressa de ir para lugar algum. Estava ensimesmado, com pensamentos perdidos em algum lugar do seu passado. De um passado que ele conhecia, ao mesmo tempo em que lhe era desconhecido. Ficou sentado ali, em uma cadeira da última fileira, pensativo, até todos já terem ido embora.

Agora, no palco, um piano era posicionado. Depois, uma pessoa apareceu, sem que Ikki desse a ela qualquer atenção. Então essa pessoa foi até o piano e sentou-se para começou a tocar. Era óbvio que se tratava do artista que havia cedido seu tempo de ensaio para que Ikki conseguisse encaixar o horário. Ikki estranhou o fato de haver um piano no palco, pois se recordava de Esmeralda ter-lhe dito que o espaço era reservado a um bailarino. Entretanto, recordou-se de uma chamada que vira rapidamente na TV, mais cedo, falando sobre um bailarino que iniciava a carreira de cantor. Não que o moreno estivesse muito interessado nisso, mas algo lhe fez prestar atenção ao rapaz que agora começava o seu próprio ensaio:


Oh I can't forget this evening
or your face when you were leaving
but I guess that's just the way the story goes
you always smile but in your eyes your sorrow shows
yes it shows

Oh I can't forget tomorrow
when I think of all my sorrow
when I had you there but then I let you go
and now it's only fair that I should let you know
what you should know

I can't live
if living is without you
I can't live
I can't give anymore

Não, eu não consigo me esquecer dessa noite
E do seu rosto enquanto você estava saindo
Mas eu acho que era esse mesmo o rumo que a história tomaria
Você sempre sorrindo, mas em seus olhos suas tristezas apareciam
Sim, apareciam.

Não, eu não posso me esquecer de amanhã
Quando eu pensar em toda a minha tristeza
Quando eu tive você, mas deixei-o ir
E agora é justo apenas que eu deixe você saber
O que você deveria saber.

Eu não posso viver, se viver é sem você
Eu não posso viver, eu não consigo mais.


Quando a canção terminou, Ikki mal conseguiu se mover do seu lugar.

Não acreditava no que acabava de ouvir.

Conhecia aquela letra... Conhecia aquela melodia...

E aquela voz... Sim, ele reconheceria essa voz em qualquer lugar.

Até mesmo... em outra vida.

Levantou-se, sentindo as pernas bambas. Todo um nervosismo tomava conta de si nesse momento e sua garganta seca lhe pedia água, mas nada faria com que saísse de sua trajetória. Caminhava sem se dar conta se o fazia rápido ou devagar, apenas seguia sem tirar os olhos do rapaz loiro que estava sobre o palco, agora examinando alguma coisa sobre o piano em que acabara de tocar.

Ikki parou em frente ao palco, sem saber como se fazer notar. Sem saber como chamar pelo homem que tinha terminado de cantar aquela canção.

Bastante sem-graça, mas impulsionado por uma força maior que si mesmo, o moreno terminou por dizer:

– Hyoga...?

Embora rouca devido à garganta que se via muito seca, a voz foi bastante audível. Tanto que o loiro logo se virou para trás, encontrando os olhos azuis escuros de Ikki, agitados como um mar de ressaca.

Houve um momento de silêncio, em que os dois apenas pareceram analisar um ao outro. Parecia haver um grande nervosismo no ar. Ou era apenas o nervosismo de Ikki, que por ser tão grande, poderia valer pelos dois.

De toda forma, o silêncio perdurou por um tempo muito mais longo do que Ikki se achava capaz de suportar. E, quando estava prestes a dizer algo mais, foi a vez do loiro de falar:

– Ikki.

O coração do moreno falhou uma batida. Ele sabia seu nome.

Mas era claro que ele sabia.

E, olhando em seus olhos, Ikki sabia que Hyoga conhecia seu nome, mas não porque o moreno era famoso ou porque sua família era dona de um verdadeiro império industrial. Não; nada disso.

Hyoga se lembrava.

Acabava de se lembrar.

Assim como ele.

Subitamente, de repente, não mais que de repente... Eles se lembravam.

Recordavam-se.

Uma vida inteira despontava de um distante passado, para se fazer agora mais presente do que nunca.

Eles nunca se esqueceram de fato.

Não poderiam jamais esquecer.

Mas esse passado estivera adormecido.

Entretanto, era hora de despertá-lo por inteiro.

– Você já me perdoou? – o loiro indagou, repentinamente.

– Como? – Ikki respondeu com uma pergunta, porque se sentiu confuso com a súbita indagação e porque seus devaneios lhe haviam desconcentrado.

– Você disse que nunca iria me perdoar. Por ter...

– ... Por ter voltado. – Ikki completou a frase do loiro, tendo essa memória revivida naquele instante. O moreno então, em um salto, subiu ao palco, para ficar mais próximo de Hyoga.

– Eu disse que conseguiria viver com o fato de você não me perdoar. – o russo começou a dizer, em um tom divertido – Até consigo; mas eu queria saber se vou realmente precisar conviver com... – antes que Hyoga pudesse terminar sua frase, Ikki interrompeu-o novamente, mas, dessa vez, com um beijo ávido, faminto, saudoso e apaixonado, no que foi inteiramente retribuído.

– Eu senti sua falta, Ikki... – o loiro sussurrou em meio ao beijo.

– Não mais do que eu, Hyoga... – respondeu o moreno, beijando o maxilar e o pescoço do outro.

Então separaram-se um pouco, para fitarem-se demoradamente.

– Para sempre, Hyoga?

– Para todo o sempre, Ikki.

Haviam se reencontrado.

E, dessa vez... Seria em definitivo.

O final feliz era para eles apenas o começo.


FIM


N/A: Músicas presentes nesse capítulo:
- "I don't wanna miss a thing", versão do David Cook.
- "Without you", versão do Clay Aiken.