Divirtam-se! (penúltimo capítulo)

dai86


Pedacinho do Céu,
por Leanne Ashley

(Tradução por dai86)

Anos mais tarde, finalmente aconteceu. Sasuke finalmente foi capaz de reconhecer as qualidades de Haruno Sakura... Infelizmente, a essa altura, ela simplesmente não ligava mais. A clássica história de amor e ironia, onde um dos envolvidos permanece ignorante do que acontece... e o outro é Sasuke. Oh, como os poderosos caem.


Capítulo 25

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Ele acordou abruptamente, paranóico diante da primeira coisa que surgiu em sua visão desfocada: o movimento silencioso de uma cortina que balançava. Ele franziu a testa ao se dar conta disto uma vez que a clareza começou a se estabelecer em sua mente entorpecida por drogas, e desviou o olhar. Ele praguejou quando o resultado de seu simples gesto foi uma dor profunda em seu ombro, forçando os músculos de seu pescoço.

Esticando um braço trás de si, Sasuke timidamente tocou a área sensível, não se surpreendendo que a base de seu pescoço estivesse envolta em gaze e ataduras grossas. Ele trouxe a mão diante de seu rosto, olhando entorpecido a pequena quantidade de sangue que molhava a ponta dos dedos. A ferida ainda não tinha fechado adequadamente.

Ele se sentou, seu rosto se contorcendo conforme ele suportava a dor de seu ferimento. Olhou pra si mesmo e levantou uma sobrancelha ao ver o estado de seu corpo coberto de ataduras.

Muitos ferimentos, na realidade.

Teimoso, Sasuke começou a retirar as ataduras que restringiam seus movimentos.

"Estou certo que você vai simplesmente sumir num montinho de pó assim que tirar tudo isso, gênio."

Ele lançou Naruto um breve olhar irritado antes de retomar sua tarefa. "Onde ela está?"

A pergunta pegou o loiro de surpresa enquanto ele franzia sua testa enfaixada com ceticismo. Naruto ficou parado na porta do quarto de hospital de Sasuke, sendo que seu próprio ficava do outro lado do corredor, uma vez que sua condição médica inicialmente era muito menos grave do que a do outro garoto. Ele estava quase que completamente recuperado. Sasuke, por outro lado, estava inconsciente desde que voltaram, e tinha continuado assim até agora.

"Ela está... Sakura-chan está por perto," Naruto respondeu lentamente. "Tenho certeza que ela vai aparecer logo."

Sasuke diminuiu seus movimentos por um breve segundo, como se analisasse as palavras procurando por uma indicação positiva. Não era do seu agrado: Naruto havia hesitado. Sasuke puxou a cinta que embalava seu braço com algum exagero, e atirou contra a parede ao lado dele, seus olhos se apertando com aborrecimento amargo.

"Ei!" Naruto protestou.

"O que?"

Ao perceber que não havia nada a ser dito, olhos azuis se desviaram abatidos. "Nada."

Sasuke evitou contato visual da mesma forma, relaxando a tensão irritada em seus músculos pra refletir sobre seu comportamento exaltado. Ele fingiu não notar, mas Naruto estava claramente se recuperando de ferimentos visíveis - ferimentos estes causados impiedosamente por Sasuke durante seu frenesi por poder. Seus olhos negros se baixaram por conta própria. O Uchiha não chamaria aquilo de vergonha, pois o simples conceito o fazia se sentir fraco e vulnerável. Ele não diria que ele estava arrependido, pois culpa e arrependimento coincidiam... e ele se recusava a se arrepender de coisas que havia feito no passado que o ajudaram a alcançar o sucesso; atitudes assim comprometiam sua integridade.

"Você está bem?" Sasuke perguntou finalmente.

Um sorriso apareceu no rosto do loiro conforme ele riu. "Você me conhece, eu me recupero de qualquer coisa. Mas tenho que admitir – você me pegou de jeito aquela hora."

"É," Sasuke sorriu. Ele limpou a garganta sem jeito. "Escuta, dobe..."

"Não se preocupe," Naruto o interrompeu, se inclinando numa postura causal contra o batente da porta. Seus olhos olhavam de modo pensativo pela janela aberta do outro lado do pequeno quarto. "Todo mundo tem as esquisitices que precisam resolver. Pode demorar mais tempo pra alguns, mas pelo menos tudo se resolve no final ... como sempre acontece."

"Hn. Você realmente acredita nisso, não?"

Ele deu de ombros. "Bem, você ainda está aqui, e você ainda está do nosso lado, certo?"

O Uchiha grunhiu baixo.

"Então, nós estamos bem," Naruto disse simplesmente. "Não é pra mim que você precisa explicar as coisas."

Ele assentiu, sabendo que cedo ou tarde, os problemas entre ele e Sakura teriam que ser confrontados. A última coisa de que se lembrava era a estranha sensação do sangue de Orochimaru escorrendo em sua mão. Não era quente como ele esperava. O Uchiha havia enterrado sua katana fundo no sannin, no que foi provavelmente sua primeira e única oportunidade de ferir o homem. Felizmente, o golpe havia sido fatal.

Conforme Orochimaru tombava contra a lâmina, Sasuke começou a se sentir fraco, permitindo que ambos caíssem de joelhos.

"Tanto poder..." o homem chiou, agarrando a mão inflexível de Sasuke sobre o punho da espada. "Eu posso... estar terminado," Orochimaru sorriu, sangue escorrendo através de suas presas, "mas você... Não,... não você. Você não está. Você nunca estará terminado."

O rosto de Sasuke permaneceu impassível, mas as palavras de seu antigo mestre ainda o confundiam. Quando sua visão começou a se apagar, ele pôde sentir a presença de Sakura atrás dele. Ele havia planejado dizer algo... qualquer coisa. Ela descansou uma mão em seu ombro antes que ele pudesse se virar, e escuridão se seguiu.

"Depois que ela selou sua marca," Naruto começou, prevendo a pergunta de Sasuke, "Sakura-chan ficou consciente tempo o suficiente pra curar alguns de nossos ferimentos antes que a equipe médica de apoio chegasse."

"Ela estava bem?"

"Ela parecia bem. Um pouco drenada de chakra por uns dias, mas bem."

Sasuke reclinou-se contra seu travesseiro, mas fez uma pausa como se uma força invisível não permitisse descansar. Ele estava inquieto demais, agitado demais quando se sentou novamente e puxou a agulha intravenosa de seu braço.

"Sasuke...!" Naruto protestou conforme Sasuke plantava os pés no chão.

Ignorando o loiro, ele continuou a arrancar as bandagens de seu corpo e jogá-las no chão do hospital.

"Você não pode vê-la agora!" Naruto praticamente explodiu.

Sasuke ignorou e pegou o que pareciam ser suas roupas limpas de uma cadeira próxima. "Eu não sei do que você está falando," respondeu apático.

"Você sabe muito bem!" seu amigo argumentou, chocado com necessidade irritante de Sasuke em esconder seus rastros emocionais. Maldição! Esse sujeito tinha uma capacidade de recuperação desajustada. "Eu não sou estúpido. Eu sei como você se sente quanto a ela."

O Uchiha o fuzilou com o olhar enquanto ele passava a camisa preta pela cabeça. Ele odiava ter alguém lhe expondo os próprios sentimentos numa bandeja. O fazia se sentir vulnerável, analisado... Seus pensamentos e emoções não eram um mistério a desvendar.

"Fica fora disso, dobe..." era tudo que diria diante da acusação irritante.

Frustrado, Naruto bateu a mão contra o batente da porta, bloqueando a saída de Sasuke com o braço. "Sasuke," ele suspirou "ela não quer vê-lo."

Ele abriu a boca para dar uma resposta atravessada, mas o outro rapaz o interrompeu rápido, segurando o batente pra demonstrar sua sinceridade.

"Só deixe ela sozinha por um tempo."

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Batendo as unhas de modo ritmado contra a mesa, Tsunade observou Kakashi indecisa por um momento enquanto ele se reclinava contra a parede com os braços cruzados. Ele estava sem palavras, se esforçando pra pensar numa defesa para Sasuke, mas nenhuma idéia coesa o suficiente surgiu em sua mente. Como você poderia pensar numa desculpa pra alguém quando você mesmo não tinha fé na idéia de que ele merecia uma segunda chance? Honestamente, Kakashi sentiu que Sasuke não gozava de muitos favores com ele, e que seria necessário um milagre pra convencer a Hokage de que Sasuke não deveria ser banido da vila.

"Não importa o quão sério e focado Sasuke possa parecer," Tsunade começou, "seu julgamento é muito influenciável. Qualquer pessoa com uma alma tão sombria como a dele estará sempre suscetível a perder o controle."

"Se você estava tão certa disso, porque colocá-lo numa situação em que ele seria levado ao limite?" Kakashi protestou.

"Eu não sabia que ele iria distorcer a operação do modo que fez!" ela respondeu. "Eu esperava que ele voltasse para Orochimaru disfarçado, e quando o momento fosse certo, o assassinasse com a ajuda de Naruto."

"Mas de acordo com relatórios de Naruto, o selo amaldiçoado começou a afetar as habilidades de Sasuke por conta da conexão renovada com Orochimaru."

"Ele deixou que assumisse seu julgamento com muita facilidade," Tsunade justificou. "Não importa que ele tivesse conseguido matar seu irmão, a escuridão de seu passado irá segui-lo em qualquer lugar. Ele é um risco, Kakashi, uma bomba relógio."

"Eu acredito que ele vai melhorar com o tempo."

"Eu não."

A postura de Kakashi se tornou tensa diante da mesa de Tsunade. Colocando as mãos sobre a superfície, ele estreitou os olhos. "Você confiou nele o suficiente para lhe dar uma missão de alto risco. Eu confio nele o suficiente pra saber que ele vai mudar."

Tsunade bufou com escárnio, girando sua cadeira pra observar a paisagem por trás do vidro da janela. Ela havia confiado em Sasuke. Ela tinha acreditado honestamente que com seu irmão morto, Sasuke poderia manter uma linha de pensamento clara, e poderia lidar com missões com tanta perspicácia quanto fez quanto era mais jovem. Seu maior medo quanto ao jovem Uchiha havia se tornado realidade; obter vingança não trouxe paz ao seu coração. Sasuke havia derrotado a fonte do mal que havia destruído sua família, mas no fundo isso não era o bastante. Nunca seria o bastante. Agora Sasuke estaria procurando por outros alvos. Sua alma estava ansiosa em destruir, ansiosa em conseguir vingança. Ele agora estava perigosamente suscetível a métodos obscuros de manipulação – uma cruel maldição que Uchiha Itachi havia deixado para seu irmão mais novo.

"A marca amaldiçoada foi selada, não?" Kakashi continuou. "E com Orochimaru morto, a marca não pode mais ser controlada por ninguém."

"Exceto Sasuke," Tsunade apontou. "O selo que Sakura aplicou mantém sua força de acordo com a vontade de Sasuke. É mais forte do que aquele primeiro que você lhe aplicou. Aplicado bem mais profundamente... mas tudo pode desmoronar se Sasuke permitir."

"Não há ameaças potenciais."

"Não hoje," a Hokage deu de ombros. "Mas suponha que a Akatsuki queira substituir o Uchiha que perderam."

"Você está imaginando coisas demais," Kakashi resmungou. "A marca de Sasuke foi selada. Ele não vai sair por aí num delírio lunático. Ele está se recuperando de seus ferimentos e está bem. Entendo suas preocupações, mas não vejo nenhuma razão pra expulsá-lo de Konoha."

"Bem, o Conselho vê," Tsunade respondeu com firmeza. "Sinto muito, mas minhas mãos estão atadas, Kakashi. Eles foram informados de que ele está consciente. Sasuke deve comparecer perante o Conselho pra argumentar seu caso amanhã."

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A chuva era incessante.

Fios negros de cabelos grudavam nos lados de seu rosto enquanto ele mancava lentamente em direção a mansão Uchiha. Embora estivesse tendo dificuldades, não havia a menor possibilidade de desperdiçar mais um minuto sequer naquele maldito quarto de hospital.

Ele subiu os degraus da frente e colocou uma mão trêmula sobre o batente da porta. Água pingava de suas roupas encharcadas e das pontas dos dedos, marcando a madeira seca conforme ele abria a porta. Estava escuro lá dentro, uma deprimente indicação de que a mansão estava vazia. Ainda que o sutil aroma de Sakura permanecesse, a sensação de sua presença não podia ser sentida em lugar algum. Ele não a havia sentido uma única vez desde que abriu os olhos naquela cama de hospital.

Sasuke estreitou os olhos, convencendo a si mesmo que não se importava conforme tirava a camisa encharcada. Ele se retraiu ao fazê-lo – seu pescoço ainda estava dorido pelo estresse sofrido durante o selamento da marca amaldiçoada.

A dor que corria por seu corpo era indescritível. Depois de dar a simples instrução a Sakura, ela assentiu com seriedade, e apertou a mão fria sobre a base de seu pescoço. Orochimaru estava incerto do que esperar, ingenuamente acreditando que Tsunade seria a única a ter poder para selar a marca em seu estado avançado de desenvolvimento.

Ele havia tentado ao máximo suportar a dor em silêncio, mas conforme o chakra de Sakura queimava contra o selo, ele lentamente se viu perdendo a compostura ao agarrar a mão livre de Sakura com força. Ele provavelmente estava perto de quebrá-la, mas ela não disse uma palavra sequer, apenas mantendo sua concentração.

Depois do que pareceu ser uma eternidade, Sakura interrompeu o fluxo chakra, e ele tombou contra seu peito exausto, se esforçando pra regular as rápidas batidas de seu coração. Houve uma súbita leveza em seu corpo, como se um peso enorme tivesse sido tirado de seus ombros. Pela primeira vez em muito tempo seus pensamentos fluíam com clareza através de sua mente, e ele agarrou o punho de sua espada.

Só lembrar isso o fazia se sentir cansado e arrasado de novo.

Sasuke continuou a mancar pelo corredor escuro. Não que isso o incomodasse – a luz não era uma amiga nesta casa. Fez uma pausa, no entanto, quando viu a pequena mesa contra a parede pelo canto do olho. A pequena luminária empoeirada permanecia imóvel sobre a superfície. Ele franziu a testa para o objeto ofensivo, sendo lembrado de uma pessoa que continuamente pedia que ela fosse acesa.

O Uchiha olhou fixamente para a simples luminária antes de dar as costas.

Ele só deu dois passos antes de seus pés girarem contra sua vontade. Suspirando frustrado, com pouca gentileza, Sasuke acendeu a sutil luz no corredor e saiu de lá.

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"... Você entende as acusações lidas pra você, Uchiha Sasuke?"

"Hn," Sasuke grunhiu, incitando um olhar um tanto enigmático de Kakashi do outro lado da sala. Ele revirou os olhos enquanto recordava do sermão irritante que recebeu quanto a certos maneirismos diante do Conselho da aldeia. A conversa não correu muito bem. Foi tarefa de Kakashi, mais uma vez amarrar o gênio rebelde numa árvore a fim de se fazer entender. Infelizmente, a esta altura, Sasuke não podia se importar menos sobre a situação atual, sabendo melhor que ninguém que suas chances eram praticamente nulas. Ele tinha simplesmente dado um sorriso petulante diante do pedido de Kakashi para que ele evitasse profanidades, sarcasmos e gracinhas do tipo.

"... Sim," ele repetiu novamente, incapaz de esconder a tensão na afirmação.

"E você compreende as preocupações do Conselho quanto sua permanência na aldeia?"

"Sim... eu sou uma bomba relógio," Sasuke citou com amargura conforme fuzilava a Hokage com o olhar. Tsunade pareceu inabalada enquanto silenciosamente mantinha as mãos sob o queixo.

"Você preparou uma defesa pra si mesmo?" o membro de Conselho continuou.

"Por que diabos eu faria isso?" o garoto bufou.

Kakashi só pôde olhar alarmado. "Sasuke!"

"Parece que você já estão com suas malditas opiniões formadas. Qual é o sentido nisso tudo?"

"Você está batalhando pra manter seu lar, Uchiha!" outro membro falou. "Sugiro que você tente com um pouco mais de afinco!"

"O que vocês querem de mim?" Sasuke fervilhava com raiva. "Sim, eu lidei mal com a situação. Não, eu não quero ir embora. Alguma coisa que eu diga realmente vai fazer diferença?"

Kakashi balançou a cabeça frustrado.

"Você está sendo extremamente inconseqüente com o seu futuro, Sasuke," Tsunade respondeu severamente. "Você está desperdiçando o tempo do Conselho-"

"E desonrando o nome Uchiha," um membro do Conselho interveio.

Olhos pretos imediatamente se estreitaram na direção do homem mais velho conforme Sasuke cerrou os punhos. Rangendo os dentes, foi preciso toda sua força de vontade pra não pular por cima da larga mesa que os separava. Ele socaria esse velho com os próprios membros que arrancasse dele. Que poder maior dava àquele bastardo decrépito o direito de soltar tal blasfêmia?

"Cala boca..." Sasuke rosnou com ódio no olhar.

"Não vamos fugir do assunto," Kakashi interrompeu, tentando ao máximo clarear o clima repentinamente hostil.

"Não, vamos nos manter sobre ESTE tema," o Uchiha pressionou petulante. Ele bufou de modo ameaçador para o velho que se esforçava em manter sua indiferença. "Você pode dizer a merda que quiser aí de sua cadeira confortável, mas vamos ver o quão bem você lida com perder tudo neste mundo que te faz completo! Vamos ver como você se sente sobre a vida após sua família inteira ser apagada deste mundo!"

Kakashi se adiantou e segurou Sasuke pelo ombro. "Sasuke..."

"Vamos ver você gastar o que sobrou dessa sua vida cansada e miserável, fazendo o que puder pra corrigir isso, e então ter um babaca te dizer que você só piorou a situação!"

"Sas-"

"Eu não preciso disso," Sasuke murmurou enquanto se soltava de Kakashi. Ele se dirigiu de modo solene em direção às portas duplas, furioso consigo mesmo por ter perdido a cabeça, sucumbindo a uma explosão emocional na frente de uma sala inteira de pessoas.

Espectadores observaram boquiabertos as costas do jovem conforme ele saía sem dizer uma palavra. Kakashi, perdido sobre o que fazer, cruzou os braços cansado, e retomou sua posição contra a parede.

Sasuke ignorou o silêncio constrangedor atrás dele. Ele lidaria com toda essa coisa sem sentido mais tarde. Alcançando a maçaneta da porta, ele a abriu com raiva, e parou abruptamente.

Sakura estava lá parada do outro lado, punho erguido como se estivesse se preparando para bater.

Os olhos do Uchiha se arregalaram com surpresa, suas sobrancelhas se contorceram ligeiramente refletindo sua batalha interna entre raiva, alívio e confusão. Parecia que ele não a via há anos. Ele notou distraidamente que o cabelo rosa de Sakura quase parecia mais longo.

O rosto da garota imediatamente corou. Ela parecia tão alarmada em vê-lo quanto ele, mas havia uma hesitação estranha em suas feições, como se confrontá-lo definitivamente não fosse algo para o qual ela estivesse mentalmente preparada.

Não que ele desse a mínima.

"Sakura..." Sasuke disse simplesmente, olhos negros queimando ferozmente contra os dela.

Sua boca se abriu pra responder, mas as palavras não surgiram conforme seus olhos se desviaram para um espaço vazio além do moreno. Ela não teve coragem de fazer contato visual.

"Sakura!" A voz de Tsunade berrou. "Estamos prontos para você. Parece que nossa reunião prévia foi concluída mais cedo."

Olhando por cima do ombro de Sasuke para sua mentora, Sakura assentiu com a cabeça e silenciosamente o contornou pra entrar na sala do Conselho. Ele não se virou, e só pôde olhar fixamente para o nada conforme Sakura passava por ele, uma expressão sombria marcando sua testa conforme permanecia plantado no chão. O som dos passos dela se afastando trouxe Sasuke de volta à realidade conforme ele exalava e, finalmente, saía de cena, permitindo que a porta batesse pesadamente trás de si.

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"Você é tão sortudo..."

Sasuke ignorou o comentário e continuou a observar a vista por cima da mureta de pedra sobre a qual estava apoiado. "Tanto faz."

Uma semana havia se passado desde o surto de Sasuke na sala do Conselho, e após uma breve reunião no escritório de Tsunade, Sasuke calmamente aceitou sua sentença final e saiu sem dizer uma palavra. Chegando ao corredor, ele atingiu facilmente um Naruto sonolento com a porta. "Vou poder ficar," murmurou simplesmente conforme o loiro irritante o acossou por mais detalhes. Ele não estava com disposição pra discutir o assunto, mas permitiu que seu amigo o seguisse até o alto da torre para um posto de observação vazio. A extensa paisagem da aldeia era de certo modo calmante, o lugar perfeito pra organizar seus pensamentos.

Contrariado, Naruto cruzou os braços contra o peito. "Eu não sei por que você está tão azedo. Uma condicional estendida está longe de ser tão ruim quanto ser exilado."

"Quero ficar, porque aqui é um lar," Sasuke murmurou, "mas a cada dia que se passar vai parecer mais e mais com uma prisão."

"É apenas temporário," Naruto assegurou. "Você já ficou em condicional antes, você pode fazê-lo novamente." Ele caminhou até onde o outro garoto estava sentado, curioso para ver o que ele observava tão atentamente.

O loiro olhou por cima da mureta, e então para Sasuke, e depois para baixo novamente. É claro... Suspirando, Naruto batucou as unhas contra a superfície morna da pedra, e tentou pensar numa forma razoável de confrontá-lo que não resultasse nele sendo empurrado do alto da torre para sua morte.

Abrindo a boca pra falar, Naruto foi rapidamente interrompido antes que pudesse dizer qualquer coisa.

"Não quero ouvir," Sasuke interrompeu intencionalmente.

Apesar de estarem a uma distância razoável, o cabelo rosa de Sakura era fácil de se identificar no meio da multidão de compradores ocupados no mercado. Ela estava rindo e sorrindo docemente para seu companheiro de compras – um educado Hyuuga Neji que, obviamente, não tinha nenhuma queixa quanto a carregar as coisas dela.

Torcendo o nariz, Sasuke inconscientemente começou a jogar uma pequena pedra para cima, pegando esta e relançando no ar com uma crescente intenção de atirá-la repentinamente através do crânio de um certo shinobi.

"E-ei...!" Naruto riu nervosamente. "Eles são apenas amigos, teme!"

Ele segurou na rocha desta vez, apertando firmemente em sua mão. Quanto mais aquele sorriso suave agraciava os lábios de Sakura, mais ele podia sentir uma fúria cega e selvagem envolvendo seu corpo.

"O que faz você pensar que eu me importo?"

Naruto deu alguns passos pra trás e observou a nuca de Sasuke. Ele notou como o outro garoto ainda se recusava a desviar o olhar da área do mercado.

"Porque..." Naruto disse lentamente, uma vaga sensação subindo por sua espinha. "Você não quer me mostrar seus olhos, Sasuke. Qual é o problema com isso?"

Cachos negros balançaram de leve conforme o teimoso garoto virava a cabeça uma mera fração. "O que está querendo dizer, idiota?"

"O meu ponto é..." Naruto começou enquanto pegava uma pequena pedra da calçada, "acho que você se importa," ele arremessou a pedra na direção de Sasuke que, sem pestanejar, a agarrou no ar e se virou pra lançar um olhar irritado na direção do tagarela irritante atrás dele.

"-mais do que você pensa," completou, franzindo a testa para os olhos vermelhos de sangue do Sharingan de Sasuke.

"Olhe para você. Você luta tanto pra esconder suas estúpidas emoções. Agora tudo está borbulhando e você não consegue enganar nem a si mesmo."

Um ponto sensível havia sido atingido, forçando os olhos vermelhos de Sasuke a se desviarem brevemente para o chão. Ele se recuperou rapidamente, no entanto, focando eles em Naruto com petulância renovada ao mesmo tempo que descia da mureta de pedra para o chão num salto. Ele tinha uma réplica pronta, mas a idéia de incentivar uma conversa que tinha como objetivo analisá-lo era ácida demais para o seu gosto.

Para a grande surpresa de Naruto, o Uchiha passou direto por ele e começou a descer os degraus de pedra, o Sharingan induzido pela raiva desaparecendo lentamente de seus olhos.

"On-Onde você está indo, Sasuke?" o loiro o chamou. "Você não vai lá embaixo, vai? Sasuke!"

"Você prefere que eu esconda minhas estúpidas emoções?" rebateu sarcasticamente. "Esperei tempo o suficiente."

"O que você vai fazer? Comprar uma briga com Neji? Quando você acabou de ser colocado em liberdade condicional? Você está louco!"

"Se não gosta, não me siga."

Praguejando pra si mesmo, Naruto olhou por cima da mureta mais uma vez antes de perseguir Sasuke escada abaixo. "Olha! Olha! Ela está sozinha agora... Neji deve ter seguido o próprio caminho!"

"Hn."

"Não fica grunhindo pra mim! O que você está planejando fazer? Você não pode-! Isso não é justo com a Sakura-chan!"

Sasuke parou, como se a noção por si só fosse absurda o suficiente para fazer o tempo parar. "O que justo tem a ver com alguma coisa? Por que você está criando essa barreira em volta dela?"

A questão do 'porquê' era um parasita irritante em seu cérebro. Ele havia deixado pra lá por tempo o suficiente pra que aquilo começasse a consumi-lo de dentro pra fora. A contragosto, ele tinha respeitado o pedido de Naruto para deixar Sakura em paz, sem fazer perguntas. Se forçou a não se importar, mas parasitas eram coisas bem irritantes... eles coçavam e cutucavam, lenta e dolorosamente se colocando a frente, onde não poderiam ser ignorados.

"Olha," Naruto suspirou, "Tenho certeza que isso não é algo que você tenha percebido, mas talvez você não entenda o que realmente acontece."

Ele respirou fundo. "Sakura-chan te ama desde que éramos crianças, mas você só chutava ela. Então você foi embora por uns anos e partiu seu coração como um desgraçado. Você retornou, se apaixonou por ela, então você foi embora e partiu o coração dela novamente. Ela foi ajudá-lo porque te ama, mas então você chutou ela... literalmente dessa vez," ele acrescentou com um tom de desgosto, "... como um desgraçado."

Naruto cruzou os braços e encostou-se na parede da torre. "Você vê algum tipo de padrão se formando? Quando ela estiver pronta pra falar com você, ela vai. Não vá fazendo uma cena só porque está chateado."

Ele deu de ombros então, exausto por converter uma explosão emocional em algo frio e sucinto - Sasuke já teria parado de ouvir há muito tempo de outra forma.

"Como eu disse... não é justo," Naruto terminou solenemente.

Alarmado com este doloroso tapa moral, a sobrancelha de Sasuke se contraiu de leve, enquanto encarava o loiro incrédulo. Foi brutal e sincero, e acima de tudo, algo que precisava ouvir...embora nunca fosse admitir.

Em conflito, Sasuke continuou seu caminho sem qualquer pensamento claro sobre o que faria a seguir. Um simples "Tudo bem," foi tudo o que pôde dizer.

Eles desceram em silêncio pelo resto do caminho, parando apenas quando um certo shinobi com olhos de leite pôde ser visto esperando por eles na base da escada.

"Neji?"

O nome por si só provocou uma rápida carranca no Uchiha, que imediatamente voltou sua atenção para onde o loiro havia dirigido sua voz.

Lá se vai a idéia de se acalmar. Era como sacudir um lenço vermelho diante de um touro instável... um que estava à beira de perder a razão. Uchiha Sasuke, por outro lado, pôde apenas apertar seus punhos enquanto metaforicamente grunhia vapor e cavava o pavimento pra trás com o pé.

"Posso ajudá-lo com algo?" Neji perguntou, a pergunta gélida direcionada a Sasuke.

"Mas... é você... quem estava esperando por nós..." um Naruto confuso declarou de trás do amigo.

"Hn." O Uchiha sorriu destemido, não se detendo até que o Hyuuga estivesse diretamente em seu caminho. "Você pode, é só ficar fora do meu caminho."

Ele ignorou o pedido, mantendo sua posição. "Eu não pude deixar de notar você me observando."

"Não seja tão convencido," Sasuke zombou.

"Era Sakura quem estava observando, então?"

"Fora."

Neji olhou de modo desafiador, cruzando os braços sobre o peito. "Você sabe qual é seu problema, Uchiha?"

O que era isso? Havia um aviso afixado em algum lugar que dizia 'chute Sasuke enquanto ele está por baixo'? Ele não apenas havia levado um sermão de Kakashi, da Hokage e de todo o Conselho da aldeia, mas também de seu melhor amigo pra completar. E agora, porque o destino estava se divertindo ao rir e apontar para sua existência, eis que surgia esse bastardo do Neji pra participar da festa.

Fan-porra-tástico.

"Neji, Neji...!" Naruto riu nervosamente. "Tenho certeza que ele sabe qual é o problema dele, assim sendo-"

"Me diz assim mesmo," Sasuke interrompeu. "já estou me acostumando a ouvir."

"Tudo tem que ser sobre você!" Neji retrucou rapidamente, ignorando o convite sarcástico pra expor sua opinião. "Sua vida e sua visão torcida dela. Seu orgulho e arrogância serão o fim de todos nós um dia, e isso inclui Sakura."

"Não fale qualquer merda, Hyuuga. Me diz algo que ainda não tenha ouvido."

Ele baixou a voz então. "Se você quer Sakura, se dê conta que você tem uma responsabilidade com ela - uma que eu estou mais do que disposto a assumir."

"O quê?" A reação enraivecida escapou de sua boca antes que seu cérebro tivesse tempo para processá-la. Desnecessário dizer que a fachada agressiva-passiva de Sasuke foi instantaneamente feita em pedaços.

"Você me ouviu!" Neji respondeu. "Você não é bom o bastante pra ela. Você nunca vai ser bom o bastante pra ela. Não enquanto continuar a nutrir esse ressentimento doentio contra o mundo. Vá em frente e fuja, encontre alguém para matar, ou simplesmente vá e mate a si mesmo. Eu não poderia me importar menos. Mas se você quer Sakura tanto assim, então, pelo menos seja homem quanto a isso."

Sasuke, incrédulo levantou uma sobrancelha, a expressão de desagrado ainda estampada em seu rosto desconfiado.

"Sakura se importa com você," Neji bufou com desgosto. "Quem você acha que convenceu o Conselho da aldeia a pegar leve com você? Ela se preocupa mais do que você pensa, ela simplesmente tem medo de você. Entretanto, não há nada que eu possa fazer quanto a isso, além de consolá-la. Portanto, descubra suas prioridades. Faça algo sobre isso ou deixe o caminho livre pra que eu possa ter uma chance."

Um silêncio frio recaiu sobre eles, enquanto Naruto observava desconfortavelmente.

Sasuke estava fazendo seu melhor pra encarar Neji de cima de sua pequena vantagem em altura, mas ao mesmo tempo, não pôde deixar de se distrair com a notícia inesperada que ele lhe dera: ... Sakura havia falado em seu favor diante do Conselho naquele dia?

"Ela tem estado muito melhor..." Neji finalmente falou. Apesar de manter a expressão de desprezo, sua voz havia se suavizado até um nível tenso. Ele começou a se afastar, lançando Sasuke um olhar momentâneo por cima do ombro.

"Vá vê-la logo."


O que acharam? Bem mais divertido esse capítulo, não?

Apesar da Sakura não aparecer muito aqui, podemos assistir as variações emocionais (!) do Sasuke.

E tudo de bom: Neji dando uma lição moral no Sasuke. Aliás, todos dando uma lição de moral no Sasuke... bem que ele mereceu.

O próximo capítulo é o último postado pela autora (set/2010). Não sei se ela vai continuar, mas já vi algumas autoras retomando fics depois de 1 ou 2 anos paradas... tudo pode acontecer - tenham fé, rs.

Espero que esta melhora no enredo da história inspire as leitoras a deixar reviews.

Beijos!

dai86