Capítulo XXIV
~Especulações~
Aquele café da manhã e aquele almoço não foi um café da manhã como os outros… fomos bombardeadas por perguntas de todos os lados, da Akane, da Naoko… uma aula de sexualidade que eu jamais pensei que a Naoko era capaz…
Despertar
Era domingo. O céu daquele domingo amanheceu cinza, sem sol. O vento começava a ficar forte. Do despertar daquele dia eu não me esqueci tão facilmente. Tem coisas que marcam a gente, um sorriso, um abraço, uma piada. São coisas que a gente não esquece tão fácil, dependendo da situação. Eu nunca me esqueci do som ensurdecedor das panelas que a Meiling trouxe. Uma concha e um panelão, prateados, do mais puro alumínio. A concha indo de encontro ao fundo da panela repetidas vezes. Aquela região plana que aquecia a comida servia agora como instrumento para aquecer a nossa fúria, naquela manhã:
– Naoko-chan, porque você tá tirando essas fotos? – Perguntou a Chiharu.
– Ora bolas Chiharu, se algum dia a Tomoyo quiser me chantagear, eu vou ter aqui comigo as provas do pecado dela com a Sakura; ah se vou ter! – Naoko sorria enquanto tirava fotos da gente.
– Que pecado Naoko? Essas duas dormindo fica tão bonitinho! Parece uma foto mesmo, mas nada de chantagear elas Naoko! Eu te proíbo!
– Eu tenho umas fotos suas Rika dando uns amassos você sabe em quem, não é? – A Naoko arqueia as sobrancelhas e olha maliciosamente para a Rika. Rika solta uma rajada de ar dos pulmões e fecha os olhos, como se estivesse indiferente que elas soubessem do seu rolo com o professor.
– Faça como você quiser Naoko, eu não tenho nada que esconder. – Rika segura na gola da camisa da Naoko e a aproxima para si. – Se espalhar essa história na escola eu te mato tá? Não vou deixar você prejudicar ele, ouviu? – Agora era a vez da Rika olhar maliciosamente para a Naoko, com olhos estreitos de raiva. Naoko fica surpresa.
– Eu só sei gente que essas duas meninas dormindo ao relento com esse vento é muita imprudência! Não acha Akane? – A Umame apoia o queixo com a palma das mãos, fitando a gente.
– Elas estão tão bonitinhas. – Diz a Akane, olhando pra gente, depois olhando em direção da porta da cozinha, vendo a Meiling chegar. – Pena que isso vai acabar agorinha mesmo.
A Meiling avança na nossa direção com as panelas nas mãos. Ela consegui fazer com a gente o que ela não consegui fazer ontem. Quando elas nos acordou eu estava deitada na grama, com a cabeça encostada na raiz da árvore. A Sakura estava sobre mim, segurando as minhas mãos com a mão dela, chupando meu dedo. A Sakura ficou com tanto medo que só faltou ela fazer xixi nas calças. Resolveu chupar meu polegar pensando que era uma chupeta. Era essa cena que a Akane não queria quebrar. Era com isso que a Naoko queria chantagear a gente, mas não era só isso:
– Acordem suas dorminhocas! Já são quase nove da manhã e vocês ficam aí dormindo é?
– Isso não é justo! Hehehe! – A sempre humorada Naoko tirava um "sarro" com o bordão da Meiling e sorria até doer a barriga. Meiling batia na panela com mais força, com os risos da Naoko e com a nossa preguiça.
A gente finalmente acordava. Esfregamos nossos olhos com a palma das mãos, nos espreguiçamos na grama e abrimos os olhos, com a cara mais fechada do mundo. A Sakura fez uma cara de brava linda, eu, uma cara de estranheza com o que estava acontecendo. A Akane puxou a gente pela orelha e foi direta conosco:
– Vocês duas finalmente acordaram! Vão subir, tirar esses pijamas e escovar os dentes! Quando descerem vão tomar café da manhã, um comprimido pra gripe e eu vou ter uma conversinha com as duas! Já!
A Akane puxou a gente pela orelha até a porta da cozinha. A Sakura não gostou nadinha daquilo:
– Tá bom, tá bom! Não precisa fazer assim com a gente não! – A Sakura passava as mãos na orelha que a Akane apertou. – Foi tudo culpa da Naoko, essa feiosa! – A Sakura mostrou a língua pra Naoko e a Naoko retribuiu fazendo uma careta. Todo mundo riu. Tem certas horas que aquele jeito infantil da Sakura lembrava bastante a nossa infância. Eu amava isso dela!
No café da manhã
Nos trocamos, escovamos os dentes e descemos as escadas. Eu vestia um vestido rosa, não muito grosso, com saia de babado (sempre!). A Sakura usava uma camiseta amarela, um shortinho preto e as meias longas delas pretas que lembrava uma meia calça (sempre!). A Akane fez a gente "engolir" uma série de comprimidos pra gripe e resfriado. A gente voltaria inteiras pra minha mãe ou morte! A gente sentou na mesa e os olhares da turma se voltaram pra gente, agora com umas dúvidas mais picantes sobre o que a gente tava fazendo ontem a noite:
– E aí gente? Como foi a noitada de vocês? – Sempre Naoko, passando nutella no pão.
– A gente ficou preocupada com vocês Sakura. – A Rika perguntou, comendo um bolinho de arroz.
– Esse é o clichê dessas duas: sempre arriscando tudo, sempre preocupando todo mundo! – Sempre Meiling, bufando de raiva, engolindo o pão integral que a gente passou pra ela.
A mesa inteira riu, menos eu e a Sakura. A Sakura forçava uma cara de durona tipo Rock Balboa, contorcendo os lábios, querendo falar. Eu ria com ela e ficava na minha, mas eu também queria falar:
– Que noitada é essa que vocês estão falando hein? Eu só tava acompanhada da Tomoyo-chan que me consolava daquela história horrorosa que você me contou! Só isso! Não é Tomoyo-chan? – A Sakura olhou pra mim com a faca do pão na mão. Eu concordei com ela com a cabeça e falei:
– Eu nem vi quando a gente pegou no sono, mas eu gostei muito da noite que eu tive com a Sakura-chan! Pra mim foi uma noitada Sakura! – eu sorria e colocava as mãos na bochecha. A Sakura ficou vermelha com isso:
– É mesmo Tomoyo? Você gostou de dormir ao relento comigo é?
– A gente tava se aquecendo Sakura, a gente não vai ficar resfriada tá? – Eu dei um beliscão na bochecha dela, ela sorriu e a Naoko olhou maliciosamente pra gente:
– Então! É disso que eu tou falado – A Naoko ajeita os óculos dela e inclina o corpo na nossa direção – Vocês duas… vocês duas… são diferentes de nós! – A Naoko apontava o indicador pra gente. Eu me assustei com aquilo. A Sakura também.
– O que você quer dizer com isso Naoko? – A Sakura pergunta.
– Eu estou desconfiada de vocês. Você, Sakura, diz ter namorado, a Tomoyo eu nunca vi namorando… vocês duas parecem duas personagens saídas de um belo mangá Yuri!
– Yuri? – A Sakura fica com cara de dúvida, parecendo que não tava acreditando naquilo. Eu fiquei séria. De vez. A Naoko era consumidora voraz de yaois e shounen-ais, mas ver isso na vida real, não era a praia dela. Ela não se sentia confortável com isso.
– Naoko, você tem ideia do que você tá fazendo? Você tá duvidando na cara dura, em pleno café da manhã da sexualidade das nossas amigas, é isso que eu ouvi? – A Chiharu pergunta, com os lábios retorcidos e os olhos estreitos. Quem não estranhou a ideia? Tinha medo onde ela queria se aprofundar com aquilo.
– Sim Chiharu! Eu já vi muita menina lésbica que tem namorado e nunca se assumiu; eu quero saber o que está acontecendo aqui! Quem são vocês? Como vocês se definem?
– Você é muito besta mesmo Naoko! Que pergunta que se faça viu? – Disse a Rika.
– Besta nada! Você viu elas lá fora? O jeito delas de dormir? – Respondeu a Naoko.
– As duas são praticamente irmãs Naoko! Deixa disso, isso é normal pra elas sua tonta! – Disse a Chiharu, com um pouco de violência nas palavras.
– Você tá encalhada Naoko e quer ter moral ainda? – A Meiling retrucou, aquecendo a discussão. A Naoko ficou caladinha sem falar um pio. Eu e a Sakura rimos e a Akane pediu moderação da nossa parte:
– Acalmem-se meninas; não me importo nenhum pouco com a sexualidade de ninguém daqui, ninguém deixa de ser menos gente porque gosta de uma pessoa do mesmo sexo! Que absurdo isso! – Disse a Akane. As palavras dela colocaram panos frios na discussão que a Naoko levantou. Ela não perguntou mais nada pra gente e ficamos falando de outra coisa. Quando o café terminou, eu e a Sakura tratamos de esclarecer para aquele povo a nossa sexualidade:
– Quer saber de uma coisa Naoko? Eu tou namorando sim e tou esperando ele. Se eu namoro com ele há tanto tempo sem ver ele é porque eu gosto do jeito dele. E eu te digo uma coisa…
– Pois diga de uma vez! Assuma Sakura! – A Naoko ficou encarando ela de frente, com a cara colada com a da Sakura. Dava até pra sentir a respiração da Naoko. A Sakura respondeu:
– Se eu gosto de uma pessoa eu gosto mesmo e não ligo pra esse negócio de sexo não tá bom? – A Sakura respondia com a cara de brava misturada com birra. A Naoko se voltou pra mim e perguntou:
– E quanto a você Tomoyo? Se defenda!
– Eu sou da mesma opinião da Sakura-chan! Não é Sakura?
– É sim Tomoyo. – A Sakura balançou a cabeça afirmativamente.
– Sakura, vamos até o rio nos livrar dessas energias negativas desse povo desconfiado de tudo? – Eu perguntei pra Sakura, sorrindo pra ela.
– No rio? – A Sakura ficou preocupada, mas entendeu minha motivação. Ela se lembrou de ontem, mas deixou ser guiada por mim até la.
A gente subiu as escadas, pegamos nossa roupa de banho e nossa bolsa com as toalhas e os roupões e fomos até o rio. O mesmo maiô marrom de ontem, o mesmo biquíni rosa. Nos vestimos lá e não dentro de casa. A Akane advertiu a gente pra não passar muito tempo lá porque a água estava fria hoje por conta do tempo nublado. Saímos de mãos dadas, sorrindo e a Naoko não deixou de especular pra Rika:
– Tá vendo Rika? Não falei que aquelas duas eram lésbicas não assumidas? Elas devem se amar mas não falam nada uma pra outra… isso é tão… é tão… – A Naoko apoia o queixo na pala da mão, procurando uma palavra certa pra "definir" a gente.
– Romântico da parte delas e idiota da sua parte; deixa elas saberem disso pra você ver só! – A Rika dá um tapa na nunca da Naoko. A Chiharu acompanha a Rika nos tabefes A Naoko reclama de dor e esfrega a mão na parte batida pela Rika e pela Chiharu:
– Isso dói, vocês sabiam? – Disse, por fim, a Naoko.
Voltando ao rio
Era bom poder voltar aquele rio. O que eu queria não era me livrar das cargas negativas das perguntas da Naoko. O que eu queria de verdade era livrar a mim e a Sakura de todo aquele choque que a gente teve ontem, quando ela quase se afoga no rio. Eu me despi e coloquei o maiô. A Sakura fez o mesmo. (não tinha ninguém pra bisbilhotar a gente, e se tivesse a Sakura saberia!) Eu entrei na água e chamei por ela. Ela, receosa, temeu entrar também por causa da correnteza, mas logo eu convenci ela do contrário:
– Vem, Sakura. A água tá morninha… ela não vai te levar não, eu estou aqui Sakura! Eu vou dar uns "tabefes" nela se ela quiser te levar de novo – Eu sorria e abanava os braços dentro da água. Ela ficou na margem com um pouco de medo e com cara de receio.
– Não sei não Tomoyo-chan, tou com muito medo ainda, dessas pedras do fundo que eu não conheço direito.
Eu sorri maliciosamente e fui nadando até ela, com as bochechas encobertas pela água. Cheguei nela e "peguei" ela pelos dois calcanhares, abrindo ligeiramente as pernas dela. Ela ficou vermelha com aquilo e eu apenas sorria de leve pra ela:
– Sakura, se você não vier eu te puxo pelo pé tá? Porque essa cara vermelha hein?
– Na.. nada não Tomoyo-chan! Vamos nadar, afinal você tá aqui pra me proteger não é? – A Sakura relaxa um pouco, sorri e entra na água sem eu precisar arrastar ela. Ela fica perto de mim e a gente volta a nadar, de forma tímida no começo, e depois que a gente pegou confiança na coisa a gente nadava mais livremente. A gente se arriscou até mesmo a nadar até a margem do rio onde eu tinha salvado ela ontem, onde a correnteza era mais forte e as pedras mais escorregadias. O sorriso dela era a minha recompensa. Ter livrado ela do trauma de nadar naquele rio era o meu tesouro. Ver ela feliz era tudo na minha vida:
– Tá vendo Tomoyo-chan, tou nadando sem as rodinhas, viu? – Ela levantou as mãos pra mostrar pra mim que podia nadar sem preocupações. Ela sorria e eu sorria também, automaticamente.
– Para de ser boba, Sakura, você não é mais criança viu? -Eu continuei nadando.
– Sou sim, posso te provar! Toma! – A Sakura bateu a mão na água e jogou ela pra cima de mim. Eu retribui a "gentileza" dela e molhei ela também. A gente tava fazendo uma guerra de água na gente. Voltamos pra margem onde a gente tava, pulando pelas pedras lisas do rio. Definitivamente, quando vemos uma coisa pela primeira vez nos espantamos, é como se os sentimentos agissem sobre nós no lugar da razão. Na segunda vez tudo fica mais fácil e racional de se entender, a gente se acostuma e aquilo que metia tanto medo não nos mete mais. Por fim, se houver uma terceira vez, a coragem se alimenta da nossa razão, nos fazendo alcançar novos horizontes. Era esses novos horizontes que eu desejava alcançar:
– Sabe Tomoyo, o que eu disse pra Naoko de manhã?
– Sim Sakura, eu ouvi. Ela é assim mesma, não liga não, a gente já sabe do jeito dela…
– Sei Tomoyo, mas é tudo verdade tá? – A Sakura enlaça meu pescoço nos braços dela. – Eu não ligo pra essa coisa de corpo não, se é homem ou mulher, o meu irmão tem me dado lições preciosas sobre isso… – A Sakura deixa a mão dela escorrendo sobre o meu ombro até os meus seios, soltando elas na altura dos quadris dela. Aquele movimento dela me excitou um pouco e eu fiquei vermelha. Ela ficou vermelha também. De certa forma, a Sakura se afetava com o que ela fazia comigo. – Você tem um corpo lindo Tomoyo, e "eles" só vão ficar mais grandes com o tempo, tá? – Ela aponta pros meus seios e ficou corada. Eu perguntei:
– O que você quer dizer com isso Sakura? Que não se importa?
– Mais tarde eu te conto! Agora vamos nos trocar e voltar tá? Já tou ficando com frio.
Foi isso que a gente fez. Nos trocamos e voltamos, afinal a gente passou tempo demais naquela água e já era hora do almoço. Quando voltamos as meninas estavam querendo passar um tempinho comigo e com a Sakura também e eu me coçava de curiosidade em saber o que a Sakura queria dizer com suas frases de duplo sentido. Eu soube depois o que ela quis dizer. Da forma mais, da forma mais… espantosa e prazerosa possível!
