Personagens de Stephenie Meyer. História de Tessa Dare.


CAPÍTULO VINTE E CINCO

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"Eu não sei o que você espera conseguir com esta conversa, mas vou lhe adiantar: não irei propor casamento."

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Maldito canhão!

Jasper lutava com as cordas enquanto içava o canhão para dentro da carroça. Para um protótipo em escala, aquela coisa era inacreditavelmente pesada. O cano era da grossura de sua coxa, feito de bronze sólido. Ele se endireitou.

- Vocês! Não toquem nisso. - De seu posto na boleia da carroça, Jasper acenou para os gêmeos Newton afastarem-se de uma pirâmide de caixas cheias de palha. - Deixem isso aí.

- O que tem nessas caixas? - perguntou um dos garotos.

- Fogos de artifício para amanhã à noite. Não toquem neles. Nem mesmo respirem neles. Demorou mais de uma semana para que chegassem da cidade.

- Podemos ajudar você com eles?

- Não. - disse Jasper, cerrando os dentes. Aqueles fogos de artifício eram para ser a surpresa que ele proporcionaria a todos, sua marca nas festividades do dia.

Jasper iria produzir a exibição ele mesmo, e o faria muito bem, provando para Edward que podia ser bom em alguma coisa. Jasper parecia não conseguir fazer muita coisa certa em sua vida, mas ele tinha um dom para a destruição artística. Existiria tela melhor do que um céu noturno?

Mas primeiro, ele tinha que cuidar da obra-prima de Sir Charlie Swan. O maldito canhão.

Ele agarrou a corda com as duas mãos e se apoiou em seus calcanhares, puxando com toda sua força. Ser responsável pela artilharia pareceu-lhe uma tarefa adequada, até Jasper perceber quanto peso teria que carregar. Durante todo o dia, ele havia corrido de um lado para outro, levando pólvora para as mulheres e depois os cartuchos prontos até o paiol, contrabandeando fogos de artifício até Summerfield e agora tinha que transportar o protótipo de Sir Charlie até o castelo.

Carregar aquela coisa na carroça estava demorando mais do que ele havia planejado. Jasper corria contra a noite.

- O que tem aqui? - perguntou um dos gêmeos.

Com o canto do olho, Jasper viu Finn afastar a palha de cima de um rojão. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o garoto puxou o cordão. O dispositivo explodiu com um estalo alto e uma coluna de fumaça.

- Legal! - disse Mike, sorridente. - Tente outro.

- Eu falei para vocês caírem fora! - ralhou Jasper. Ele se levantou a tempo de ver Jantar sair correndo com um balido assustado. O cordeiro apavorado passou por baixo da cerca que delimitava os jardins de Summerfield. - Vejam só o que vocês fizeram. Assustaram a maldita ovelha. Vocês sabem como Cullen gosta dessa coisa.

- Devemos ir pegá-lo?

- Não, eu tenho que fazer isso. Agora ele está com medo de vocês. - Jasper saltou da carroça. Ele bateu as mãos para se livrar dos fiapos de corda e enxugou a transpiração da testa com a manga.

Passando por cima da cerca, ele entrou na horta da casa, onde eram cultivados os vegetais e temperos usados na cozinha. Jasper viu o cordeiro correr por entre duas fileiras de nabos e passar por baixo de outra cerca, entrando em um terreno preparado para cultivo, nos limites do pasto.

- Jantar! - ele gritou, entrando na campina, atrás do cordeiro. - Jantar, volte aqui!

Quando chegou no meio do pasto, Jasper parou para tomar fôlego e examinar a área, em busca de tufos de algodão que pudessem indicar o caminho do animal. Quando não conseguiu encontrar o cordeiro, ele fez um cone com as mãos ao redor da boca e tentou novamente:

- Jantar!

Dessa vez, seu chamado mereceu uma resposta. Diversas respostas. Na verdade, o solo começou a tremer com uma resposta animal coletiva. Ele viu diversas formas grandes e escuras correndo na direção dele no lusco-fusco. Ele piscou, tentando entender o que via. Não eram ovelhas. Não, eram...

Vacas! Vacas grandes. Incrivelmente rápidas e ameaçadoras. Um pequeno rebanho delas, todas trotando diretamente em sua direção, no centro do pasto.

Jasper deu alguns passos para trás.

- Esperem... Não estava falando com vocês.

Os animais, aparentemente, não deram ouvidos a seus argumentos. O que era estranho, porque tinham orelhas tão grandes? Ou eram... chifres!? Ele se virou e disparou na direção da cerca.

Maldito idiota, Jasper xingou a si mesmo enquanto sacudia braços e pernas, correndo o mais rápido que podia pelo campo sulcado. Tolo sem cabeça. Que tipo de imbecil entra em um pasto e grita "Jantar" com toda a força? Um que saía de Londres pela primeira vez em uma década.

- Eu odeio o campo. - murmurou ele, enquanto corria. - Odeio. Eu odeio essa droga com todas as minhas forças.

Em sua pressa, ele escolheu uma rota de fuga diferente daquela pela qual havia entrado no terreno. Em vez de chegar à cerca de madeira, Jasper correu na direção de uma cerca-viva. Com espinhos.

- Odeio! - disse ele, enquanto abria caminho em meio aos galhos e espinhos. - Terra repugnante, miserável, fedida. Bah.

Jasper emergiu do outro lado da cerca-viva, nos jardins de Summerfield, a parte bonita, dessa vez. Ele estava arranhado, mas por sorte não havia sido pisoteado. Ele ficou olhando para a cerca-viva por um instante, enquanto tirava espinhos da roupa e amaldiçoava a vida no campo.

Então algo chamou sua atenção. Uma leve pancada na cabeça. Ele se virou, agitando às cegas uma das mãos.

O próximo golpe o atingiu em cheio no rosto. Uma pontada de dor esquentou sua face já machucada. Bom Deus, o que era aquilo? As Sete Pragas de Jasper Hale, comprimidas no espaço de uma hora?

Ele ergueu as mãos para se defender e evitou os golpes incessantes.

- Seu vilão! - acusou uma voz feminina. Blam. - Seu vira-lata traiçoeiro!

Jasper baixou as mãos para ver se conseguia identificar seu agressor. Era a irmã do meio das garotas Brandon. A de cabelo escuro. O nome era Aline?

Anneliese?

Fosse quem fosse, ela estava batendo nele. Repetidamente. Com uma luva.

- O que diabos você está fazendo? - ele evitou outro golpe, entrando nos jardins. Tropeçou em um canteiro de margaridas e evitou, por pouco, uma colisão com a roseira.

A garota foi atrás dele, ainda agitando a luva.

- Eu quero um duelo.

- Um duelo?

- Eu sei tudo sobre você e a Sra. Mallory, seu... seu animal... - Aparentemente, faltando-lhe coragem ou imaginação para completar o insulto, ela continuou. - Nunca gostei de você, quero que saiba disso. Sempre soube que você era um salafrário inútil, mas agora minhas irmãs e minha mãe vão sofrer a dor da descoberta. Você irá decepcioná-las.

Ah. Então era disso de que se tratava. Ele estava sendo obrigado a responder por... por o quê, mesmo? Flertar?

- Tanya não tem pai nem irmãos para defender sua honra. Esse dever cabe a mim. - Ela bateu mais uma vez no rosto dele. - Indique seus padrinhos.

- Bom Deus. Quer parar com a luva? - Ele a arrancou da mão da garota e a jogou nas roseiras espinhosas. - Não vou aceitar seu desafio. Não haverá duelo.

- Por que não? Porque sou mulher?

- Não, porque eu vi como vocês, solteiras, sabem manejar uma arma de fogo. Você me mataria sem que eu tivesse chance. - Jasper apertou a ponta do nariz. - Escute, acalme-se. Eu não toquei em sua irmã. Pelo menos não de alguma forma imprópria.

- Talvez você não a tenha tocado impropriamente, mas a enganou impropriamente.

- Enganei? Talvez eu tenha dançado e flertado com ela um pouco, mas flertei com todas as jovens da vila.

- Não todas as jovens.

Ele parou, atordoado. Enquanto a encarava, Jasper sentiu um sorriso querendo surgir em seu rosto.

- Então você está com inveja.

- Não seja ridículo! - respondeu ela, rápido demais para ser sincera.

- Você está. - Ele abanou um dedo na direção dela, já não mais na defensiva. - Você está com inveja. Eu flertei com todas as jovens da vila menos você, que ficou com inveja.

- Não estou com inveja, é só que... - Ela fez um gesto de frustração. - Eu quero machucá-lo. Da mesma forma que você machucou minha irmã.

Da forma como Jasper a havia machucado? Se Tanya tivesse sofrido um segundo de dor por conta dele, Jasper engoliria um tamanco chinês, mas aquela garota... ela estava magoada.

Bem, como exatamente aquela jovem esperava que Jasper flertasse com ela? Cantadas como "rio de seda" e "diamantes brilhantes" nunca funcionaria com uma mulher daquelas. Ela era inteligente demais para isso. Além do que, tais comparações seriam terrivelmente imprecisas. O cabelo dela em nada se parecia com seda, e seus olhos escuros nem de longe lembravam diamantes. Vidro vulcânico resfriado, talvez.

- Escute... - disse ele em tom conciliador. - Não é nada disso, Ashley. Até que você é uma garota bonitinha.

- Bonitinha?! - Ela revirou os olhos e soltou uma exclamação de pouco caso. - Até que eu sou bonitinha! Que tipo de elogio é esse? E meu nome não é Ashley.

- Não, não 'até que bonitinha'. - disse ele, inclinando a cabeça para observá-la melhor. - Bonita de verdade. Se você...

- Não diga isso. Todo mundo diz.

- O que todo mundo diz?

Ela falou em voz estridente, como se imitasse alguém:

- Se você tirasse os óculos ficaria linda.

- Eu não ia falar isso. - mentiu ele. - Por que eu diria isso? Que coisa totalmente idiota de se dizer.

- Eu sei que você está mentindo. Você mente com a mesma facilidade que respira. Mas meus sentimentos não são o problema aqui. O problema é você usar Tanya de forma cruel.

- Garanto a você que não estou nem perto de usar sua irmã, seja com crueldade ou não. Peço desculpas por toda aquela confusão na casa de chá.

- Ah, sim. Você se desculpou direitinho. Você fez com que todos acreditassem que é decente. Que liga para os outros. E então ficou com uma mulher casada.

Jasper massageou a nuca. Ele realmente não tinha tempo para aquilo. Ele precisava preparar os fogos de artifício, montar o canhão e pegar a ovelha.

- Eu não sei o que você espera conseguir com esta conversa, mas vou lhe adiantar: não irei propor casamento. Não para a sua irmã, nem para ninguém.

- Rá. Eu nunca permitiria que você se casasse com ela.

- Então o que você quer de mim?

- Eu quero justiça, quero descontar em você! Eu quero que você seja responsável por suas ações, em vez de sempre se safar com algumas palavras bonitas.

Está vendo? Jasper queria dizer. É por isso que eu evito você. Era como se aqueles óculos lhe dessem o poder de vê-lo por dentro.

- Você está começando a se parecer com meu primo. Espero que você não esteja planejando fazer comigo o que fez com ele.

Ela ficou encarando Jasper por alguns instantes.

- Que ideia excelente. - Com um movimento rápido e amplo do braço, ela puxou sua bolsinha e a fez voar.

Jasper esquivou-se a tempo de aparar o golpe com o ombro, em vez de com a cabeça. Ainda assim, a bolsa de veludo o atingiu com força surpreendente. A dor explodiu em seu ombro.

- Que porcaria você tem nessa coisa? Pedras?

- E o que mais?

Verdade, tinha algo mais ali dentro. Como ele poderia ter esquecido da ridícula obsessão que aquela garota tinha por geologia? Serpente traiçoeira.

- Escute, Amalia...

- Meu nome é Alice. - Ela ergueu a mão para golpeá-lo novamente com a bolsa cheia de pedras.

Dessa vez Jasper estava pronto. Em um movimento rápido como um raio, ele a pegou pelo punho, a virou de costas e a puxou para si. A coluna de Alice foi pressionada contra seu peito, e Jasper envolveu a cintura dela com seu braço. Os óculos dela caíram de seu rosto na grama.

Alice se debateu.

- Solte-me!

- Ainda não. Você vai pisar nos óculos, se não parar de se debater.

Jasper não tinha certeza de que queria que ela parasse de se debater. De onde ele estava, um ponto de vista superior com visão para dentro do corpete dela, parecia que todo aquele esforço fazia maravilhas pelos seios dela. Nada de alabastro frio e perfeito ali. Apenas pele feminina e quente. E embora ela fosse visualmente atraente, a sensação de tocá-la era ainda melhor. Tão brava e viva.

- Quieta. - Ele pressionou seus lábios perto da orelha dela. O cabelo cheirava a jasmim. O aroma entrou rodopiando em sua cabeça, embotando seus pensamentos. - Fique calma.

Fique calmo, ele disse para si mesmo.

- Não quero ficar calma. Eu quero um duelo. - Ela se contorceu nos braços dele e o desejo começou a pulsar em Jasper, tão violento quanto assustador. - Eu exijo satisfações.

Sim, ele pensou. Aquela era uma mulher que exigiria satisfação. Na vida, no amor... Na cama... Ela exigiria honestidade, comprometimento e fidelidade, e todos os tipos de coisa que ele não estava disposto a dar. E essa foi a desculpa de que ele precisava para soltá-la.

- Não se mexa, ou você irá esmagá-los. - Jasper se inclinou para pegar os óculos com aro de metal em um monte de hera, onde tinham caído. Depois de limpá-los, tirando terra e musgo, ele os segurou contra o luar para procurar arranhões.

- Eles não quebraram, não é?

- Não.

Ela investiu contra Jasper para pegar os óculos, mas ele os puxou para trás. Ela perdeu o equilíbrio e caiu para frente, colidindo contra o peito dele. Quando olhou para cima, piscando forte em uma tentativa de clarear a vista, seus cílios bateram como leques emplumados. Ela esticou a língua para umedecer os lábios.

Bom Deus... Para uma intelectual reprimida, até que Alice tinha lábios bem ardentes. Suculentos, carnudos, de um vermelho profundo nas bordas. Como duas fatias de uma ameixa doce e madura. Jasper ficou com água na boca. Ela se encostou nele, as faces coradas. Como se quisesse ser beijada. Mais do que isso, como se ela o quisesse. Cada parte incorrigível, defeituosa, dissoluta.

Aquilo não estava certo.

- Você sabe, eles têm razão. Você fica diferente sem seus óculos.

- Sério?

- Sério. Você fica vesga. E confusa... - Ele recolocou os óculos na ponta do nariz dela, prendendo o aro atrás de suas orelhas. Então ele pôs o dedo sob seu queixo, inclinando o rosto dela para avaliá-lo. - Pronto, assim está melhor.

Ela piscou para ele através dos discos de vidro, seu olhar assumindo aquele conhecido ar de desconfiança.

- Você é um homem horrível. Eu desprezo você.

- Isso mesmo, menina. - E só porque ele sabia que isso a constrangeria, ele pôs a ponta de seu dedo no nariz dela. - Agora você está enxergando bem.


Um pouquinho da relação Colin/Minerva pra vocês entenderem como começaram as brigas entre eles, antes de acabarem viajando juntos na outra fic haha.

Até a próxima!