Mais um capítulo gigante porque eu não sabia direito onde parar. Espero que gostem. E de novo agradeço as reviews e PMs! beijos!
25.
No reino de Thranduil
Anna experimenta a hospitalidade do rei élfico
Quieta como estava, Anna ouviu claramente a aproximação dos elfos a cavalo. Eles chegaram em silêncio, pois não sabiam se havia algum orc na área. Finalmente, alguém pronunciou que o local estava limpo.
Então ela sentiu dois dedos tocando direto sua veia, verificando seu estado vital. Ela se mexeu, como se acordasse aos poucos.
— [Está viva.]
Anna abriu os olhos, esperando ver Lindir ou Eldrin. Mas era um rosto desconhecido que a saudou. Num impulso, ela tentou se afastar:
— Não!
O desconhecido, um elfo muito louro de olhos claros, garantiu:
— Não precisa ter medo! Está tudo bem. Ninguém vai machucar você.
Anna ainda estava na defensiva, encolhida:
— Quem é você? Onde estão meus amigos?
O elfo disse:
— Você deve ser Anna. Lindir me falou sobre você. Meu nome é Legolas Greenleaf. Venho de Mirkwood.
Anna reconheceu o nome imediatamente: era um dos nove da Sociedade do Anel! O famoso Legolas...!
Mas, por disfarce, perguntou:
— É amigo de Lindir? Ele está bem?
— Lindir está a caminho. Estávamos procurando você. O que aconteceu aqui?
Anna respondeu:
— Não sei! Eu estava desacordada, mas os orcs estavam agitados.
— Eles machucaram você?
— Na verdade, não muito. Acho que só queriam me levar.
— Por quê?
— Fugi deles uma vez. É uma longa história.
Mais cavalos chegaram, e Anna se encolheu, assustada. Eram mais elfos, e esses elfos ela conhecia.
— Lady Anna!
Anna derramou algumas lágrimas de alívio.
— Oh, Lindir! — Anna se jogou nos braços dele, com alívio genuíno. — Você está bem!
Lindir pareceu surpreso com a reação dela, mas nada disse, indo direto ao ponto:
— Milady, está ferida?
Anna estava agarrada a ele, tremendo de pavor:
— Não, estou bem. Oh, Lindir, essa passou perto...!
— Está tudo bem agora, Sra. Anna. — Ele fez Anna olhar para seu rosto e explicou: — O príncipe Legolas estava vindo nos escoltar e ajudou a derrotá-los. Sabe o que os orcs queriam?
— Capturar-me, acho. E os demais?
— Sofremos três feridos. Felizmente, só perdemos um dos nossos.
— Eu sinto muito.
Legolas olhou em volta e recomendou:
— Sugiro irmos embora agora mesmo. Eles podem ter ido buscar reforços.
Lindir ajudou Anna a levantar e disse:
— Vai gostar de saber que seu pônei sobreviveu ao ataque.
— Myrtle está bem? Fico contente. É um animalzinho valente. Sabia que ela sobreviveu a um ataque de trolls?
Lindir a olhou, entre admirado e curioso, comentando:
— Uma montaria digna de sua dona. Mas é melhor montar comigo daqui para frente, senhora.
Lindir a ajudou a montar em seu cavalo, e Anna foi com ele o tempo todo, sentindo o elfo às suas costas na viagem. O grupo, agora reforçado pelos elfos de Mirkwood, andou mais um dia inteiro antes de chegar a território dos elfos silvestres, ou elfos de madeira. Por mais que Anna estivesse curiosa a respeito dos elfos de Mirkwood e quisesse fazer perguntas, a jornada era silenciosa, com todos em alerta.
Anna olhava em volta, admirada. Havia lindas casas nas árvores, e a floresta ali era um pouco mais clara, mais viva. O sol penetrava por pequenas aberturas entre os galhos, e Anna viu elfos em cima das árvores, a maioria delas faias antigas de galhos grossos.
A caravana avançou para dentro de uma parte reservada da floresta, cada vez mais um labirinto para Anna. Eles entraram numa grande caverna iluminada, cheia de nichos que viravam caminhos nas pedras. Elfos vieram de lugares de dentro das pedras.
Logo a caravana parou e eles desmontaram. Um elfo louro, alto e cortês saudou Legolas, segurando seu cavalo enquanto ele desmontava.
— Bem-vindo, Alteza. Sua Majestade espera receber seus convidados com um banquete mais tarde, depois que tiverem chance de repousar.
Legolas respondeu:
— Obrigado, Galion. Alguns cavaleiros de Rivendell estão feridos. Providencie um curandeiro e o que mais que nossos convidados precisarem. Verei meu pai imediatamente. — Ele se virou. — Amigos, bem-vindos. Recuperem-se e descansem. Galion vai ajudá-los no que precisarem. Meu pai vai recebê-los mais tarde.
Os elfos de Rivendell se curvaram, e Legolas desapareceu num dos túneis. Lindir dirigiu-se ao elfo chamado Galion, inclinando a cabeça:
— [Amigo, saudações. Eu sou Lindir e esta é a protegida de Lord Elrond, Anna. Gostaria que um curandeiro examinasse o ferimento que ela tem na cabeça.]
— Meu nome é Galion — disse o elfo, em Westron. — Lindir, Sra. Anna, venham.
Anna foi levada por corredores amplos e iluminados num verdadeiro labirinto subterrâneo. Num salão, Galion apresentou um curandeiro. Ele examinou a ferida na cabeça de Anna.
— [Ela foi agredida!] — constatou o elfo, surpreso e revoltado. — [Quem faria isso com uma coisinha tão delicada?]
— Fomos emboscados por orcs — explicou Lindir. — Tentaram sequestrar a jovem senhora.
O curandeiro comentou:
— Há uma concussão. Mas não é grave. Vou tratar da ferida, mas deve tomar cuidado ao pentear o cabelo.
Anna sorriu e só gemeu quando a pasta de raízes foi posta num local dolorido. Depois agradeceu e Galion levou os dois para o pavimento superior, onde estavam os aposentos.
— Este é o seu quarto, e Lindir está no quarto ao lado. Há banhos preparados aí dentro. Se precisarem, basta me chamar. Voltarei para avisá-los do banquete.
Anna agradeceu e entrou no quarto, suspirando. Era um local amplo, limpo, com uma abertura transparente no teto capaz de fornecer luz vinda da floresta. Mas ela correu a tomar um banho, ansiosa para tirar do corpo o cheiro de sangue de warg e orc e trocar de roupa.
Mais tarde, Galion veio buscá-la para o jantar formal com o rei Thranduil. Ela foi recebida na sala do trono, onde o rei e sua corte a esperavam. Anna ficou feliz de ter posto um vestido mais chique. Ela reconheceu Legolas e Lindir.
O trono de Thranduil era um objeto digno de atenção, pois era esculpido em madeira no formato de chifres de veados e alces. A coroa do rei elfo era de galhos e frutas, bem outonal.
Thranduil, em si, era um elfo intrigante, de grandes olhos prateados, cabelo liso louro e um rosto fino de expressão severa.
Anna foi até o trono e fez uma reverência profunda.
— Majestade, é uma honra.
Thranduil suavizou sua expressão e saudou-a:
— Sra. Anna, bem-vinda ao meu reino. Lord Elrond recomendou-me sua segurança até a chegada do mago Gandalf para que possa retomar sua jornada. Ele é seu protetor. Agora estará sob minha proteção.
Anna usou palavras formais:
— Fico grata, Majestade.
— Permita-me apresentá-la a meu quarto filho, Legolas. No momento, seus demais irmãos estão em outras missões longe de Mirkwood. Ele me falou brevemente de suas dificuldades na floresta.
Anna fez nova reverência e enrubesceu ao dizer:
— Devo apresentar minhas desculpas a Vossa Alteza, Príncipe Legolas, pois eu o tratei com suma desconfiança e descortesia quando nos encontramos. Perdoe meus modos, Alteza, modos esses que só posso justificar no medo e choque após ter sido raptada por orcs.
Legolas inclinou a cabeça:
— Suas desculpas não são necessárias, senhora, pois a justificativa é explicação em si. Fico feliz em vê-la recuperada após incidente tão tenebroso.
Anna sorriu e Thranduil acompanhou a interação com interesse.
— Essa é apenas uma das muitas histórias que espero ouvir durante nosso jantar. Por favor, vamos ao salão.
Anna lembrou-se de ler no livro menção ao fato de que o rei élfico sabia dar uma festa. Mas o que ela lera parecia ser uma injustiça em relação ao que ela via. Comidas, bebidas, decoração e música de boa qualidade davam o tom da festa. Tudo muito discreto e civilizado, como era a marca da raça.
Todos conversavam, sem necessidade de erguer a voz. Assim Anna relatou como Gandalf a salvou e ela se juntou à companhia de Thorin Oakenshield. Como ela imaginava, a narrativa capturou a atenção do rei élfico, que fez muitas perguntas. Pelas perguntas, Anna percebeu que Lindir já tinha feito um relato anterior.
Não demorou até Anna perceber o caráter estratégico de Thranduil. O rei élfico era esperto e desconfiado. Era bom ela também se precaver, e confiar desconfiando. Se esses eram os vizinhos da Montanha Solitária, Anna começava a ver de onde vinha a desconfiança dos anões de Erebor em relação aos elfos. O temperamento aberto dos anões provavelmente encarava o caráter diplomático dos elfos como pura dissimulação de propósitos nefastos.
Anna teria que ter muito cuidado. Ela não queria mentir para Thranduil, mas também não queria trair a confiança de Thorin.
— Mais uma vez, príncipe Legolas — disse Anna —, agradeço por ter salvado minha vida.
— Pode me chamar de Legolas, por favor — disse o simpático príncipe. — Foi meu prazer. Mas ainda estou intrigado em saber o que atacou os orcs. Tem certeza de que não viu nada?
— Bom, estive tentando me lembrar, e não tenho muita certeza, mas acho que vislumbrei uma sombra grande antes de perder os sentidos. É bem verdade que, com meu tamanho, tudo parece grande demais. Eu me sinto muito frágil no seu mundo.
Thranduil interveio:
— Lindir nos causou outra impressão ao relatar que você enfrentou uma aranha para salvar o jovem Eldrin. E antes disso houve um incidente com um warg, é verdade?
Anna enrubesceu, respondendo:
— Verdade nos dois casos, majestade. Mas receio que meu bom amigo Lindir possa ter visto os incidentes com seus olhos bondosos. Não sei lutar, não sei usar uma espada ou qualquer outra arma, e não sou nada corajosa.
O rei dos elfos de Mirkwood sorriu.
— Enfrentar um inimigo três vezes maior pode ser considerado, por si só, uma definição de coragem, minha querida. Não menospreze seus feitos.
— Muita bondade sua, milord.
— E sua terra? Conte-me sobre ela.
Anna disse:
— Receio que o lugar de onde venho seja bem mais feio e sem cor do que suas florestas. Meu povo se entregou ao poder das máquinas e dela dependem para praticamente tudo. Não é preciso muito esforço para obter as necessidades básicas da vida. Vocês podem achar que é uma vida de conforto, e terão toda razão. As pessoas de minha terra são impacientes e imediatistas. Gostam de excessos sem sentido e a isso chamam de diversão. Francamente, sua Terra Média é muito mais bonita.
Legolas indagou:
— Então pensa em ficar aqui?
Anna o encarou, assustada. Aquilo jamais lhe passara pela cabeça.
— Eu? Alteza, não há lugar para mim. Sem ninguém aqui, sem habilidades úteis, pequena demais para ser humana, até mesmo para ser hobbit — o que eu poderia fazer?
— Então como vai voltar?
— Ainda não sei — confessou. — Espero que Gandalf tenha algum truque ou mágica para isso.
— Tenho certeza que tudo se resolverá, no fim.
O rei Thranduil mudou o rumo da conversa.
— De nada adianta a melancolia agora. Vamos comemorar. Ergam os cálices para nossos amigos que vieram de Rivendell e chegaram a Mirkwood com mais histórias para contar! — Todos ergueram os copos. — Um brinde! Brindemos à nossa corajosa convidada de terras distantes e à aliança e união de Rivendell e Mirkwood!
O grito ecoou:
— Um brinde!
Anna tomou um gole, mas engasgou. Lindir indagou:
— A senhora está bem?
Ainda tossindo, ela garantiu:
— Sim, sim. É que nunca me dei bem com álcool.
Legolas sugeriu:
— Talvez um pouco de hidromel, então.
— Apenas água para mim, por favor.
Embora encarado com estranheza, o pedido foi concedido sem demora. A conversa continuou, agradável, e a festa se estendeu até o rei decretar seu fim.
A primeira noite de Anna em Mirkwood terminou em muita tristeza. É que a saudade de Thorin, Bilbo e os demais atingiu-a com força ao se ver sozinha num quarto confortável como convidada do rei. Anna percebeu que trocaria o conforto pela companhia de seus amigos.
Após o dia muito momentoso, ela chorou sentidamente, e aí o sono a venceu com mais rapidez.
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Lindir deixou Mirkwood em poucos dias, assim que seus homens ficaram bons o suficiente para montar. Anna já previa um longo tempo de solidão. Para sua surpresa, porém, o elfo chamado Eldrin insistiu em ficar e fazer a guarda pessoal de Anna.
— Muito gentil, mas não será necessário — respondeu Anna ao elfo de olhos azuis profundos e cabelos escuros. Depois ela se virou para o outro. — Fico lisonjeada por sua preocupação, Lindir, mas-
Ele interrompeu Anna:
— Sra. Anna, acho que chegou a uma conclusão falsa: eu não pedi a Eldrin que ficasse. Ele se ofereceu para protegê-la. Foi um pedido dele e eu concedi.
— Foi? — Anna se espantou e dirigiu-se diretamente. — Sr. Eldrin, isso é verdade?
— Sim — respondeu, curvando-se. — Milady arriscou sua vida por mim. Tenho obrigação de protegê-la.
— E isso é algum costume de vocês? Não é um tipo de dívida mortal, é? Eu não sabia, não tive intenção de violar nenhum costume! Não se sinta obrigado, por favor. Não quero ofender.
Eldrin pareceu confuso e Lindir esclareceu:
— Não violou nenhum costume nosso, nem ofendeu. É uma maneira de agradecer.
— É por gratidão, então? Só isso? — Ele assentiu com a cabeça. Anna quis ter certeza: — Não tem isso de dívida de sangue ou dar sua vida por mim como código de honra?
Eldrin curvou-se.
— Ficaria honrado em dar minha vida por milady.
— Mas se eu recusar, não vai precisar se matar nem nada assim?
— Não. — Lindir riu-se da ingenuidade dela. — Mas recusaria?
Anna confessou:
— Tenho receio de ofender o rei Thandruil. Não tenho dúvidas que ele é perfeitamente capaz de me proteger. Deixar um guarda de Rivendell me acompanhar seria dizer que há dúvidas sobre essa capacidade.
Pela primeira vez, Lindir pareceu desconfortável.
— Não se trata disso — garantiu ele. — Meu senhor Elrond jamais a teria trazido até aqui se não achasse Sua Majestade capaz de providenciar proteção adequada. Mas talvez o rei Thranduil não seja a melhor pessoa para defender seus interesses.
— Que quer dizer?
— Você não é uma de nós, então não espero que compreenda. Saiba apenas isso: elfos silvestres não são como os de Rivendell. Temo que o rei possa tentar obter vantagens de você para benefício próprio.
Anna já tinha percebido, mas demonstrou genuína emoção.
— Lindir, estou mesmo lisonjeada. Está preocupado em me proteger até de seu próprio povo.
— Protegeu-nos como se fôssemos sua gente. Nós é que estamos honrados. Creio que tenha sido por isso que Eldrin se ofereceu para ficar.
Anna encarou os dois, mas falou com Eldrin:
— Isso é verdade? Protegeria meus interesses acima dos do rei Thranduil?
— Sem hesitar, milady.
Lindir arrematou:
— Eu gostaria de ficar, mas Lord Elrond me deu instruções específicas para voltar a Rivendell na primeira oportunidade.
Anna ainda estava desconfortável de ter um elfo como guarda-costas. Então ela teve uma ideia.
— Lindir, Eldrin: lamento, mas não posso aceitar um guarda pessoal. — Os dois iam protestar, e Anna acrescentou — Mas, Eldrin, se quiser ficar, eu ficaria muito feliz de ter a companhia de um amigo de Rivendell.
O elfo sorriu para Anna.
— Como um amigo, senhora, ficarei feliz em lhe fazer companhia.
— Então pode me chamar de Anna, Eldrin. É como meus amigos me chamam. Combinado?
— Combinado... Anna.
Lindir também sorria. — Avisarei Lord Elrond. Ele ficará satisfeito, e agora viajo mais tranquilo.
Anna comentou, com sinceridade:
— Sentirei sua falta, Lindir. A princípio achei que você não gostasse de mim por causa de meus amigos anões, mas você terminou sendo um bom amigo.
— Você também, Anna.
— Espero encontrá-lo de novo um dia. Mas se isso não acontecer, saiba que jamais o esquecerei. Rivendell sempre terá um lugar especial no meu coração, e você estará nele, amigo.
Ele fez o cumprimento tradicional elfo.
— [Que a mágica do meu povo a proteja em toda sua vida, amiga.]
Anna não hesitou em responder, também em Sindarin.
— [Que Ilúvatar guarde seu caminho.] — Os dois ficaram boquiabertos e Anna deu de ombros. — Esse é um segredo que compartilho com Lady Galadriel e espero que fique entre nós. Ou vocês acham que só conversamos sobre coisas de mulher?
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Nas semanas seguintes, Anna teve a companhia constante de Eldrin na sua estada em Mirkwood. Era uma vida frugal, com poucas diversões. O rei Thranduil realmente gostava de uma festinha regada a vinho. Uma dessas deixou Anna passando mal quase duas semanas. Então ela abandonou o álcool por completo.
Anna imaginava o quanto ela podia confiar em Eldrin. Porque Anna estava prevendo que ela iria fugir das cavernas de Thranduil com Thorin e a companhia. Gandalf os encontraria adiante, além de Esgaroth.
Até lá, porém, ela estava limitada às cavernas, que eram a fortaleza do rei Thranduil. Sair sozinha na floresta era arriscado. Legolas trazia relatórios de um mal na floresta. Mas não havia mais orcs nas proximidades.
Anna passeava pelas cavernas e o povoamento logo em volta, onde elfos moravam. Várias vezes ela se fez de perdida nas cavernas de Thranduil para tentar explorá-las. Se a história do livro fosse seguida, em breve 13 anões e um hobbit invisível (graças ao Anel) estariam presos em algum lugar naquelas cavernas. Ela tinha que saber onde poderiam ser as celas.
Eventualmente, Anna era convidada a acompanhar a comitiva real a uma caçada. Embora ela não apreciasse o esporte sangrento, pelo menos ela fazia papel de hóspede graciosa, gentil com seus anfitriões.
Aproveitou o tempo para se dedicar a exercícios com espada. Mesmo que sua especialidade fosse o arco, Eldrin a orientava. Mas a companhia mais constante nessas horas era Legolas, que ficara intrigado quando a viu treinar.
— Não pensei que existissem espadas tão pequenas — comentou o príncipe.
— Foi feita para mim.
— Posso ver? — Anna passou-lhe a arma e ele a segurou, observando. — Leve, jeitosa. É aço élfico, mas forja de anão. E esse é o selo de Thorin Oakenshield.
— Sim, Gandalf e eu estávamos com sua companhia. Conhece Thorin?
— Eu o conheci quando Thrór era rei sob a montanha. É um artesão da forja. Ele fez para você?
Anna respondeu:
— Lord Elrond generosamente permitiu o uso de sua forja, por isso o aço é élfico. Mas não sabia que tinha feito a marca dele. É como uma assinatura, não?
— Precisamente. — Legolas devolveu a arma. — É uma espada magnífica. Poderá lhe ser útil por muito tempo.
— Isso se eu souber manejá-la. Sinceramente, não me sinto digna desta arma.
— Parece-me que está indo muito bem. Mas eu lido mais com o arco e flecha.
— Eu vi na caçada. Seu povo é mesmo muito bom nisso.
Legolas comentou:
— Fiquei com a impressão que não gostou muito da caçada.
— Lamento ter dado essa impressão, mas a verdade é que não me acostumo com sangue. Eu deveria ser vegetariana, como meu amigo Eldrin. E fiquei até surpresa em ver elfos comendo carne.
Com uma expressão neutra, o príncipe comentou:
— Elfos de Rivendell não são iguais aos de Mirkwood.
Anna armou um sorriso diplomático. — É o que notei. Mas, como dizem na minha terra, é de variedade que é feita a vida.
— Interessante — comentou Legolas. — Permite-me algumas sugestões sobre o uso da espada?
— Por favor, sugira — pediu Anna. — E pode me dizer, sem medo de ofender, se meu caso for sem esperança.
Muito cortês, Legolas deu-lhe dicas de combate. Era um rapaz agradável e quieto, de falar pouco, que guardava suas opiniões para si.
Com o tempo, apesar das tentativas de provar o contrário, Anna notou que o príncipe nem sempre concordava com o rei. Era interessante saber que Legolas tinha pensamento independente do pai, ainda que jamais houvesse confronto entre os dois.
Ela guardou a informação para futura referência.
A situação ficou mais clara durante um número de dias em que Anna só via Thranduil à noite. Anna ficou atenta. Se a história do livro fosse seguida, era possível que os anões já tivessem sido capturados. Ou talvez só Thorin, que tinha sido preso antes.
Eldrin e Anna faziam sparring no treino de espada, a moça sentindo-se mais confiante. O elfo a elogiava, incentivando-a:
— Sua postura melhorou muito. Agora tente imprimir mais força nos seus golpes.
Ela se esforçava, sentindo que chegava o dia em que teria que usar a espada numa situação real.
— Eldrin, você sabe que espero em breve receber um chamado, não sabe? Digo, Gandalf vai mandar me buscar quando chegar à Cidade do Lago.
— Sim. O rei Thranduil garantiu uma escolta para nós até lá.
— Nós? Então pretende vir conosco?
— Certamente. — Eldrin a encarou, cenho franzido. — Anna, você desaprova? Prefere que eu não vá?
— Não mesmo, meu amigo. — Ela sorriu. — Pelo contrário. Eu só tinha esperança de que essa fosse sua resposta. Não podia me impor, mas creio que precisarei de sua ajuda. Será necessário tomar decisões difíceis, meu amigo. Muito em breve, pelo que vejo.
Eldrin garantiu:
— Sabe que pode contar comigo.
Anna sorriu, um pouco mais aliviada. Mas ela não conseguia deixar de pensar o quanto Eldrin seria fiel a suas promessas.
