Correção: Jessica Yoko
25. A difícil decisão.
Deitado em sua cama, não parava de rememorar cada detalhe da briga que teve com o irmão e o que mais o deixava irritado era saber que Heero estava certo. Havia cometido erros não só ridículos, como graves.
Teria que responder por cada um deles, ainda mais agora que o disfarce da perda de memória tinha sido descartado da forma mais absurda de todas: Ele mesmo se entregou.
Passou a mão pelos longos fios vermelhos, soltos, espalhados no travesseiro e se amaldiçoou pela decima vez na noite. Não conseguia dormir, estava dolorido e sua mente não lhe dava trégua, ainda possuía machucados que não haviam sido atendidos, porque ele não quis que ninguém entrasse ali.
Suspirou cansado.
Impulsionou o corpo para frente, tentando se sentar, em busca de uma posição mais confortável, e fez um careta com a dor que sentiu.
Uma batida forte na porta chamou sua atenção, mas antes que pensasse em responder, a porta se abriu e pôde visualizar a princesa entrar acompanhada de uma de suas servas pessoais, da qual ele nem sequer se lembrava do nome, alias, não se lembra nem de um dia ter tido a curiosidade de perguntar.
Relena olhou nos olhos dele e entrou. Sua expressão séria e serena não deixava transparecer seu estado de ânimo. Deu ordens para a menina colocar a bandeja que continha, uma vasilha com água limpa, uma toalha seca, pomadas e tudo que fosse necessário para os primeiros socorros, sobre uma pequena mesa ao lado da cama do príncipe e a jovem obedeceu.
Logo a loira agradeceu a ajuda, com sua habitual amabilidade e dispensou os serviços.
A porta se fechou, deixando marido e mulher sozinhos no recinto.
Uma ultima olhada e ela se dirigiu até a jarra com água ao lado da vasilha que pertencia ao príncipe - a mesma que era trocada diariamente para que sua alteza pudesse lavar as mãos e escovar os dentes - e lavou suas mãos.
Após senti-las devidamente limpas, se voltou para o ruivo e ao chegar de frente para ele ordenou.
— Tire a parte de cima da roupa.
— Como? - estranhou.
— Não é obvio? - provocou. - Disseram que você não deixou que cuidassem dos ferimentos, então deixe-me ver quão ruins estão.
O de olhos verdes sentiu por primeira vez na vida que sua amada não estava para joguinhos e estava presenciando uma faceta tão distinta dela que gelou sua alma. A forma fria com que as palavras eram ditas pela voz suave e o olhar sereno inquebrável o estava deixando receoso.
Obedeceu, retirando as peças de roupa com dificuldade.
E apesar da dor estampada no rosto dele, ela não o ajudou.
As vestes foram juntadas em um montinho ao chão e ele a encarou. Se sentindo estranho pela situação, estavam em um momento intimo e ela não se mostrava nem um pouco abalada, como se tivesse passado a vida toda fazendo isso, tendo essa proximidade entre eles e pelo que ele se lembrava, a única vez em que se encontraram em um momento tão particular, foi em seu intento frustrado de uma noite de mel.
Se ajoelhou perante ele e os dedos finos da delicada mão alva da jovem percorreu os hematomas, em busca de algum corte.
Nada de sangue e muito roxo.
Suspirou com desânimo e pegou o potinho que continha uma pasta esverdeada, feito de ervas para curar casos como esse.
Os dedos dela passaram da pasta de ervas para cada um dos golpes, e vice-versa, em um trabalho constante, minucioso e ministrado de forma amena e cuidadosa. Ele sentia o corpo se arrepiar com os toques dela, mesmo que não houvesse nenhum outro motivo para eles, do que o de sanar.
— Por quê… - engoliu em seco, deixando a pergunta morrer.
— Eu soube da briga… E soube que você não quis ser atendido por ninguém.
— Por que não foi cuidar dele?
Ergueu os olhos azuis e encarou os verdes.
— Realmente quer essa resposta?
Sentiu um nó se formar na garganta. Não queria a resposta. Havia três possibilidades a seu ver: Primeira, Heero não estava machucado para receber cuidados; Segunda, ela já tinha ido e agora, cuidava dele por piedade; Terceira, ela precisava cumprir o protocolo por estarem casados. Nenhuma lhe era favorável.
Negou com a cabeça e ela voltou a olhar para o que estava fazendo, continuando.
Soltou um rangido de dor ao sentir os dedos dela sobre um dos locais mais sensíveis e ela contraiu a mão, preocupada, franziu o cenho e sentiu-se impotente, magoada.
Decidida, começou.
— Por que fez isso?
— Por minha honra…
Começou a falar, exasperado, irritado, mas foi bruscamente cortado por ela.
— Não! - expôs com firmeza. - Quero saber o porquê de ter feito isso comigo.
Boquiaberto, a encarou confuso.
— Do que…
— Do casamento forçado… - a voz fraquejou, sentida. - Por que me enganou, me obrigou a casar com você?
— Eu…
— Você sabia, não é verdade?
Não precisava de explicações, ele sabia que ela se referia ao compromisso acordado entre as famílias.
— Eu soube por acaso…
Baixou a cabeça feito uma criança.
— E foi aí que armou tudo?
Assentiu desiludido.
— Por quê?
— Porque eu amo você!
Ergueu o rosto decidido, convicto.
O encarou com o olhar triste, segura de si.
— Mas eu não. - arregalou os olhos verdes. - Ao menos não da forma que você deseja e você sempre soube disso. - terminou a frase de forma ponderada.
— Mas… - pensou. - Você nem o conhecia, como poderia saber que seria melhor que eu?
— Se tivesse pensado em mim e tivesse sido justo, teria esperado eu conhecê-lo para que pessoalmente pudesse tomar uma decisão. Você não parou para pensar nas consequências?
A fitou confuso.
— Eu poderia ter sido severamente punida, podíamos ter sido condenados a morte, isso está na constituição do reino de Sank. Fomos salvos pela misericórdia do rei.
O ruivo riu, incomodo, uma risada pesada, incrédula.
— Acha graça?
Se levantou e foi cuidar dos machucados do rosto dele.
— Ouvir que meu pai é misericordioso me faz graça.
— Você está tão cegado por sua inconsequência que não nota, que apesar de todos os defeitos, tem um pai muito justo.
A olhou com ressentimento e chiou ao sentir o pano úmido sobre o lábio cortado. Silêncio.
— Já acabei.
Declarou após colocar uma pomada especial sobre o diminuto corte. Lavou as mãos novamente e voltou a guardar tudo em seu devido lugar, sob o olhar atento dele, que já sentia falta das mãos quentes dela sobre si.
— Relena…
— Você está tão cego, que não notou até agora que como amigos somos perfeitos e inseparáveis, mas como um casal, somos um fracasso total.
— Você nem tentou, nem me deu uma oportunidade.
Os verdes brilharam com o rancor antigo e os azuis com lágrimas contidas.
— Eu quis… Mas, cada vez que você me tocava como um homem, eu me sentia horrível.
— Tem nojo de mim?
Perguntou incrédulo e ela prontamente negou.
— Não tenho nojo de você. Nunca tive e não terei. Mas, sentia um sentimento angustiante e desesperador tomar conta de mim, algo gritava com tantas forçar que isso era errado, que eu não conseguia me obrigar a tentar.
— Eu não entendo.
— Eu não sei explicar melhor. Desculpe.
Baixou a cabeça rendida. Segurou a bandeja com ambas as mãos e caminhou até a saída, sob o olhar dele. Antes de sair, parou e sem voltar-se para o ruivo, decretou.
— Eu quero a anulação do casamento! - a encarou, descrente. - Quero que assine e me deixe viver minha vida, livremente. Você me deve isso.
Abriu a porta e saiu sem olhar para trás, altiva.
Lúcius ficou ali parado, observando a porta, ainda assimilando tudo o que tinha acabado de acontecer.
-/-/-
O pajem acabava de abrir a porta para se retirar, após ter ajudado o jovem rei a terminar de se vestir, e quase tropeça com os dois soldados que estavam prestes a golpear a porta. Com uma rápida mirada, Heero os viu e fez sinal para que entrassem.
O menino partiu, fechando a porta, deixando os soldados a sós com o rei.
— Então? O que me trouxeram?
Perguntou tranquilamente, mas sem desviar os olhos dos homens.
— Passamos horas de vigia, meu senhor, mas trazemos boas noticias. O rapaz…
O soldado ia falar o nome, mas foi calado por um gesto do governante.
— Sem nomes. - ordenou.
— Sim, senhor, desculpe. - Heero apenas assentiu indicando que continuassem. - O alvo voltou essa noite para casa, tarde da noite.
Falou o primeiro e o segundo completou.
— Acompanhado de uma menina, que não deve ter mais que uns dez anos.
Heero assentiu e deu as costas para os homens, caminhando até um baú, de dentro retirou dois pequenos saquitéis e jogou para que os soldados os pegassem.
— Como combinado, ai está. Não quero que ninguém saiba de nada disso, entendido?
— Sim, senhor! – falaram em uníssono.
— Pode confiar em nós. - o primeiro voltou a falar.
O príncipe herdeiro voltou a afirmar com a cabeça e os despediu.
Os homens tocaram a maçaneta ao mesmo tempo em que a porta se abriu e por ela entrava a rainha. Amanda foi reverenciada pelos soldados e após devolver o cumprimento, os viu partir, antes de se dirigir ao filho mais velho.
A de cabelo castanho, que apesar da idade, continuava tão jovem e linda como sempre, olhou atentamente para o filho. Os olhos azuis percorrendo o rosto masculino, observando o leve hematoma e o pequeno corte que ele tinha na lateral esquerda da boca.
Suspirou e ele continuou estático a espera que sua mãe se manifestasse.
— Encontrei por um acaso seu irmão… - ele continuou em silêncio. - Ele teve a mesma reação que você. Silêncio absoluto… Então tive que pedir a informação a seus amigos.
Heero soltou o ar pesadamente e desanimado. Sabia que os rapazes já deviam ter contado tudo. Meneou a cabeça em negação e ela o olhava de forma sóbria, paciente.
— Seu pai ainda não foi informado. Como acha que irá reagir?
— Mal… O rei odeia que seus filhos se comportem feito crianças.
Sorriu ao escutar a resposta a sua pergunta. O moreno sempre a surpreendendo. Com um olhar terno, perguntou.
— Qual foi à razão?
— Relena.
Franziu o cenho com a informação obtida, deslocada.
— Heero…
— Mãe… Eu entendo sua decepção e compreendo que esteja magoada por nós não nos darmos bem, mas eu tentei. Todos sabem que tentei passar por cima de cada agressão da parte de Lúcius. Mas, é impossível aguentar mais.
Abriu a boca, mas as palavras não saíram, perplexa.
— Ele a forçou a se casar.
— Que? – aturdida, os olhos arregalados. - Do que está falando.
— Ela nunca foi tocada por ele, o casamento é falso.
— Mas, e se pedirem uma prova e ela não for mais donzela.
— Fui eu.
A rainha abriu ainda mais os olhos, mal assimilando a informação.
— Ela me ama e eu a ela. E essa farsa acaba agora. Não aceito mais tratá-la como minha cunhada, sendo que é minha mulher.
— Heero… O que está me dizendo?
— Ela não quis me contar detalhes, acho que nem conseguiu compreender até hoje como tudo ocorreu. Mas, ele a chantageou emocionalmente e ela cedeu, preocupada com ele e com tudo. Porém, nunca consumaram e ela não o quer. Então, pedirei ao meu pai que anule o matrimonio e quero me casar com ela até o fim da semana.
Amanda ainda em choque percorria o local com os olhos sem saber como assimilar aquilo, quando sentiu os braços do filho a rodear, com carinho.
— Por favor, mãe… Me deixe ter quem já é minha…
Devolveu o abraço, de forma apertada, mas sentindo o coração doer. Seus filhos brigando pela mesma mulher, brigando agressivamente… Se perguntou em que momento sua família começou a desmoronar.
— Por favor, vocês dois e seu pai são o mais importante para mim, não se odeiem…
Ele a beijou na testa e ainda sem soltar as mãos de sua progenitora, declarou.
— Farei de tudo para resolvermos da melhor maneira, esta bem?
Ela assentiu, o olhar triste e a face confusa, assimilando.
— Desculpe minha rainha… Mas tenho que atender uma ordem urgente.
Afirmando com a cabeça, apenas sentiu o filho partir, fechando a porta ao sair, deixando-a no quarto sozinha, com o coração apertado com um mau pressentimento.
-/-/-
O rei de Sank se encontrava concentrado, analisando alguns documentos sobre as consequências dos últimos ataques ao reino, sentado em seu trono no salão real, quando levantou os olhos do documento para ver o conde Peacecraft se aproximando apressadamente.
O semblante fechado do que entrava, alarmou a Dante, que se levantou entregando ao rapaz ao seu lado, o pergaminho e com sua expressão séria, esperou que o amigo chegasse a explicar qual seria a má nova.
— Meu senhor… - ao chegar ao pé do trono, o conde se curvou em reverencia.
— Vá direto ao ponto… Todas as vezes que vejo essa expressão em seu rosto, o reino está em chamas. O que aconteceu agora?
— É sobre seus filhos, meu senhor.
O conde informou, sem demora, logo de se endireitar e Dante suspirou profundamente. As coisas estavam saindo de seu controle, rapidamente e aquilo não lhe agradava nem um pouco.
— O que aconteceu? - perguntou friamente, mas como se uma idéia nova invadisse sua mente, se alarmou. - Eles estão bem, foram feridos?
Arregalou os olhos, demonstrando preocupação genuína.
— Não meu rei. Eles estão bem… Ou quase.
Duvidoso, se perdeu, ainda buscando as palavras para dizer.
— Fale de um vez!
Ordenou nervoso, com uma entonação forte e alta, mas não um grito. O conde nem se surpreendeu, já a espera da explosão. Com um olhar neutro, ergueu a cabeça e encarou o velho amigo e senhor.
— Eles tiveram uma briga feia, e seu filho Lúcius se machucou muito.
Com uma mescla de sentimentos o inundando, o soberano não sabia se sentia alivio ou irritação pela infantilidade de seus filhos. Sentindo a mudança de sentimento dentro de si, gritou para que buscassem aos filhos, bem na hora em que Amanda entrava no salão que com uma firmeza na voz, digna de uma rainha, ordenou que não fizessem nada.
Encarou questionador a esposa.
— Heero acaba de sair para cumprir um encardo seu e Lúcius dormiu por conta de um remédio que o obriguei a tomar.
Assentiu, exasperado. Teria que esperar até mais tarde para receber as explicações que tanto desejava. Mas, ao olhar para sua esposa, soube que talvez recebesse ao menos parte delas.
Amanda encarava o marido com um semblante triste, porém decidido e conformado.
— Minha senhora? - arriscou gentilmente.
— Tenho algo para lhe informar, Dante.
E não teve duvidas de que o assunto era sério e relevante. Com um movimento de mão, deu ordens para que todos se retirassem do recinto e quando o conde dava a volta para seguir a todos, a mulher colocou a mão sobre o braço do mesmo e o parou.
— Você também deve ouvir.
E a tensão inundou o ambiente, causando expectativa.
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O mustang de pelagem preta brilhante parou quando seu dono puxou as rédeas e com um relinchar reclamou, obrigando seu amigo passar a mão para acalmá-lo. Heero desviou os olhos de Zero e os pousou sobre Wufei, que de igual modo cuidava de seu brumby marrom de nome Nataku.
— É aqui?
Perguntou ao amigo e parceiro de batalhas, quem por sua vez assentiu e apontou com a cabeça a humilde cabana, em precárias condições. Sem demora, Heero desmontou, seguido do moreno de rabo de cavalo e de Trowa que os acompanhava. Os demais soldados que os escoltavam, ficaram um pouco mais atrás, ainda sobre seus animais.
Antes mesmo que se aproximassem da porta para golpeá-la, a mesma se abriu e por ela saiu um camponês de cabelo castanho escuro até os ombros, olhos igualmente escuros, decaídos, não deveria ser muito velho, porém se via que a vida não havia sido gentil com ele. Olhou confuso para os três homens frente a sua casa e após reconhecer o brasão os reverenciou, ainda desnorteado.
— Meus, senhores… A que devo essa visita?
— Apresente-se senhor. - Trowa foi quem deu a ordem, simples.
— Sou Maximilliam Franz… Vivo aqui em companhia de minha única filha.
O de cabelo castanho assentiu e apontou para Heero com sua mão esquerda.
— O príncipe herdeiro ao trono de Sank, rei de Wing, Heero St-Pier Yui deseja ver a senhorita Heiren Franz, suponho se tratar de sua filha…
O nomeado rei observava ao homem detenidamente, procurando cada detalhe fora do lugar e sua atenção se pousou sobre as mãos do camponês. As marcas nela lhe eram bem familiares. Vendo o receio nos olhos de um pai sobre a situação desconhecida de sua filha, resolveu falar.
— Podemos conversar em sua casa, senhor?
Se o simples homem estava confuso, nesse momento então, ele se sentiu completamente perplexo. Primeiro o rei estava em sua casa, digirindo-lhe a palavra amavelmente e ainda lhe pedindo a permissão para entrar em sua casa. Sem palavras, contestou afirmativamente com a cabeça e mantendo-a baixa em forma de submissão deu passagem para o moreno passar.
Com um sinal, indicou para seus amigos flanquearem a porta e vigiarem a parte de fora, entrando sozinho e pedindo ao campesino que fechasse a porta. Os olhos azuis percorreram o local, analisando os detalhes e procurando referencias de quem eram exatamente aquelas pessoas.
— Meu senhor, por favor, sente-se… Devo preparar-lhe algo para comer e beber?
Perguntou e antes de obter uma resposta se dirigiu em busca de encontrar algum alimento na casa, desejando em seu interior que tivessem algo, mas antes de chegar até um dos barris, foi parado pela voz firme do convidado.
— Não se preocupe, não beberei nem tão pouco comerei. Por favor, senhor Franz, sente-se e me faça companhia…
Mais uma vez surpreso, concordou e se dirigiu com a intensão de se ajoelhar perante o príncipe, entretanto, uma vez mais foi repreendido.
— Sente-se a mesa, ao meu lado. - indicou com a mão e boquiaberto o individuo o obedeceu.
— Meu senhor, não sou… - foi calado com um gesto manual.
— Vou direto ao ponto… - declarou. - Sabe a razão de eu estar aqui?
— Não meu senhor. - respondeu acuado.
— Não existe nenhuma razão para me temer, nesse momento.
Maximillian engoliu em seco, com o acréscimo de "nesse momento".
— Tão pouco tenho algo em contra de sua filha. Ao contrário. Ela foi ótima em ajudar um amigo pessoal que havia sido intoxicado com algum tipo de veneno.
Abriu os olhos surpreso com a informação e Heero pode distinguir orgulho nos escuros olhos. Ato que lhe trouxe uma boa sensação.
— Então… - se calou bruscamente, ao notar que estava falando sem permissão.
— Continue… - ordenou. - Tem liberdade de conversar comigo livremente.
Quase sentiu a emoção de gratidão invadir o corpo do camponês, que pelo que ele pode notar, a muito não era bem tratado.
— Ia… - engoliu, recompondo-se. - Ia perguntar se procurava minha filha para que ajudasse com alguma erva, meu senhor.
— Não. - parou e pensou. - A busco para esclarecer um assunto que esta incomodando ao rei Dante.
Max ergueu a cabeça, alerta com a novidade.
— O que minha filha inconsequente fez, meu senhor?
Medo transbordava nos olhos escuros e os azuis não perdiam nenhuma reação, interessados em quão transparente o senhor poderia ser. Imutável, o rei continuou.
— Ela fez um infeliz comentário, onde expressava uma raiva inexplicada em contra o rei de Sank. Saberia me dizer a razão disso?
Suspirou pesadamente, sentindo a frustração se apossar dele.
— Senhor… Minha filha é uma boa moça e seria incapaz de fazer algo em contra seu pai.
— Não foi minha pergunta.
Baixou os olhos escuros, triste. Enquanto os azuis não abandonavam a figura a sua frente.
— Eu fui um grande pintor, meu senhor… Na época em que conseguia segurar um pincel. - olhou para as próprias mãos, com pesar. Heero olhou para as mãos dele e depois se voltou para o rosto do homem, mantendo o silêncio para que ele continuasse. - Em uma de minhas viagens, a Sank, sendo que meu lugar de origem é o reino de Oz, - a informação despertou ainda mais o interesse do visitante. - conheci a mulher mais linda de todas. Minha falecida esposa.
— Morreu como?
— Peste cinzenta…
Um nó se formou em sua garganta ao se lembrar.
— Sinto muito.
Balançou a cabeça afirmativamente agradecendo em silêncio as palavras de condolência.
— Ela era uma jovem humilde, mas não me importei e a levei comigo para Oz. Ela engravidou em pouco tempo de estarmos casados e nasceu Heiren. Era linda, a luz de nossos olhos, tão cheia de vida… E minhas pinturas estavam vendendo muito bem. Comecei a frequentar cada vez mais a festas privadas…
Se calou, tomando fôlego e sentindo a vergonha se apossar dele.
— Continue…
Assentiu e tomou folego, erguendo a cabeça, decidido.
— Nessas festas aprendi a jogar, mas apesar de não ser bom nisso, acabei me viciando. Ao mesmo tempo, minha esposa adoeceu.
Heero franziu o cenho com o relato, mas não se manifestou, deixando-o continuar.
— Comecei a gastar tudo o que tinha com a saúde de minha esposa e o que sobrava, perdia nas apostas. Contrai dividas que não pude pagar e para impedir que levassem minha menina como pagamento, uma noite, sorrateiramente abandonei a Oz. Enfrentamos uma cruel viagem até chegar aqui. - olhou ao redor. - Essa era a cabana que pertencia aos meus sogros, que foi a única herança de minha mulher.
— E o que aconteceu?
— Foi chegarmos aqui e minha esposa não suportou.
Não conseguiu evitar a lágrima que escorreu, enquanto olhava em direção ao quarto, onde Heero imaginou que ela devia ter dado seu último suspiro. Esperou um pouco, para que Franz se recuperasse. Com um puxar de ar, o de cabelo castanho, limpou a lágrima e continuou.
— Eu tentei pintar e vender as minhas obras e algumas eu consegui… Mas, logo os cobradores de Oz me encontraram.
— E então? - curioseou.
— Queriam levar minha filha com eles. E ela é meu tudo. - o moreno assentiu. - Entrei em desespero e tomei dinheiro emprestado com um nobre, que tinha comprado um de meus quadros uma vez e prometi pagá-lo…
Pausa.
— Até mesmo consegui vencer meu vicio por minha filha e ensinei tudo que sei para ela. Ela ama ler e pinta muito bem. Até melhor que eu.
E ali estava mais uma vez o brilho de orgulho nos olhos do pai.
— Então? - o animou a continuar.
— Ele me arrumou a quantia e quitei minha divida… Mas, eu não consegui pagar de volta no prazo…
Estreitou os olhos azuis, incomodado precocemente pelo seguinte.
— Ele me perguntou o que eu escolhia, minha filha ou eu. Não preciso responde, certo?
— E ele te torturou ao ponto de acabar com suas mãos?
Surpreso, abriu a boca, se perguntando como ele sabia que a situação de sua mãos atrofiadas era por culpa das torturas. Como se tivesse lido a duvida dele, respondeu.
— Tenho meu próprio torturador particular - sorriu com sua própria mórbida ao lembrar do moreno de rabo de cavalo do lado de fora da porta. - Sei bem identificar sinais de tortura quando os vejo.
Sem acompanhar o primeiro comentário, ao menos entendeu o final. Assentiu ao rei e continuou.
— Quando estive preso e desaparecido, minha filha buscou ajuda ao rei.
— Meu pai?
Saindo por primeira vez, de sua posição cômoda, Heero se moveu interessado, debruçando levemente sobre a mesa. Max assentiu e prosseguiu.
— Mas, não conseguiu falar com ele, quem a atendeu, não a deixou passar, dizendo que o rei estava muito ocupado, porém que lhe passariam o recado.
— Com quem ela falou?
Queria saber, precisava saber.
— Não sei… Ela apenas disse que era um nobre, que nunca se esqueceria do rosto, mas que desconhecia o nome.
— E o que aconteceu?
— Bem… O rei nunca se manifestou, ela não recebeu nenhuma resposta ao apelo desesperado para me salvarem, e recebeu isso como um descaso por parte do rei. Sendo assim, cresceu alimentando um ódio imensurável...
— E o que você acha sobre isso?
— Sinceramente?
Perguntou, se sentindo por fim, mais relaxado perante sua alteza.
— Sim.
— Eu acho que o ocorrido jamais chegou aos ouvidos de seu pai. Pelo que conheço do rei, é um homem justo e acredito que teria feito algo, nem que ao menos fosse dar uma atenção a minha filha.
— Sabe o que eu acho? - chamou a atenção, com um leve tom irritado em sua voz. - Que com certeza, enganaram sua filha. Meu pai jamais soube desse episódio, ou quem quer que tenha feito isso, teria respondido perante a coroa.
Max acreditou completamente nessas palavras, após ver a convicção nos olhos do príncipe, que se colocava em pé. Assombrado, engoliu em seco e assentiu.
— A senhorita Heiren é requerida no castelo, o rei deseja falar com ela pessoalmente. Agora, me responda… Quem é o nobre que lhe fez isso?
— Senhor eu…
— Não tenha medo, apenas me dê um nome…
Receoso, olhou atentamente para o herdeiro ao trono e soube que era um homem em que se pode confiar. Abriu a boca para responder…
A porta de madeira se abriu e Heero a atravessou, chamando a atenção de todos que o esperavam. Mas, antes de partir, entregou duas moedas para Maximilliam, dizendo que era para ele comprar os alimentos necessários.
Deixando o camponês perdido, se perguntando como ele sabia que não tinham nada para comer, Heero montou em seu cavalo, sendo imitado por seus amigos, partiram. Nenhuma palavra foi pronunciada no caminho de volta, mas ele voltava com uma sensação boa, sabendo que aquela informação o ajudaria a resolver outro problema.
-/-/-
Logo ao chegarem de volta ao castelo, Heero pode avistar, logo a entrada, Lucrezia conversando com um rapaz de sua mesma idade, jovem e bem parecido, que ele conhecia pelo nome de Jonathan. Desceu do cavalo e se aproximou da dupla, com um semblante ameno.
— Isso é novidade.
Sua afirmação chamou atenção de ambos e o rapaz sorriu alegremente e se curvou perante ele.
— É um prazer revê-lo meu senhor.
Informou feliz. O rapaz de olhos escuros e cabelo loiro levemente ondulado se ergueu e foi cumprimentado pelo rei com a mão direita dele sobre seu ombro direito.
— É um prazer revê-lo meu amigo… A que devo a honra?
— Trago uma carta do senhor Treize.
Informou e Heero assentiu. Os demais rapazes vieram cumprimentar o mensageiro mais novo de Wing e após a troca de amabilidade entre os conhecidos, Heero o guiou até seu escritório.
— Então… Como estão as coisas em Wing?
O moreno perguntou, dando a volta em sua mesa e sentando, ao mesmo tempo em que indicava ao rapaz que fizesse o mesmo a sua frente.
— As pessoas estão temerosas devido ao último ataque, meu senhor.
Franziu o cenho alertado pela nova informação.
— Que ataque?
— Uns bandidos atacaram em meio à noite e levaram algumas jovens, também deixaram um caos de fogo e um camponês foi brutalmente assassinado…
Contou com pesar, relembrando o ocorrido. Heero sentiu o sangue ferver e seu olhar se tornou totalmente frio.
— E foram pegos?
Negou com a cabeça em resposta.
— Porém o senhor Treize reforçou todas as entradas e saídas do reino. Creio que terá maiores informações em sua carta.
Concordou em silêncio e abriu a carta, rompendo o selo de Wing.
Durante todo o tempo de leitura a face do rei foi um enigma para o mensageiro, não que ele realmente estivesse tentando desvendar algo, mas a expressão fria e neutra de seu rei prendia sua curiosidade. Era um mistério total. Depois de algum tempo, dos quais o rapaz não soube se foram minutos ou segundos, Heero suspirou e relaxou o corpo, deixando o peso cair sobre o encosto da poltrona e subindo os olhos da carta para a pessoa a sua frente.
— Quem mais sabe que você me trouxe isso?
— Ninguém em realidade, senhor. Nem mesmo lady Lucrezia, já que a ela eu entreguei uma carta de parte de Lady Une, então, graças a isso, não houve mais perguntas.
— Ótimo.
Levantou da poltrona e após dar mais uma rápida lida em pontos cruciais da escrita, memorizando as informações relevantes, pôs fogo no papel através da chama acesa de uma vela que se encontrava ao lado, na ponta da mesa. Depois de ver a mensagem se tornar apenas carvão, ele jogou os restos junto com as cinzas da lareira.
— Escreverei uma resposta, que deve ser entregue apenas a Treize com o mesmo sigilo desta. Entendeu?
Perguntou ao mesmo tempo em que voltava a ocupar seu lugar e molhava a ponta da pena no liquido preto. A letra firme e precisa foi desenhada rapidamente, tanto quanto era de poucas palavras ao falar, assim era ao escrever. Logo o papel foi devidamente dobrado e selado com o emblema de Sank.
Esticou o encargo para as mãos do rapaz.
— Conto com sua descrição.
— Assim será meu rei.
Foi o tempo do rapaz esconder a carta em meio de seu casaco, a porta se abriu bruscamente. E por ela entrou Duo.
— Ah, ai está você…
— Me procurando?
Perguntou impassível. E Duo entrou se aproximando a passos ligeiros.
— Sim estou. Seu…
De repente parou e notou o outro integrante do recinto. Uma pausa para finalmente ele entender.
— Jonathan…
Abriu os braços animadamente e abraçou fortemente o antigo amigo, que de boa vontade retribuiu o gesto de carinho. Heero apenas observou a festa, divertindo-se através do semblante afável, porém em seu interior a mente repassava uma e outra vez o conteúdo da carta queimada.
— E vai ficar para o jantar?
A pergunta de Duo o trouxe de volta a realidade e antes que o tímido rapaz respondesse, replicou.
— Sim. Por favor, peça para que lhe preparem um quarto. Hoje você passará a noite, pela manhã poderá ir.
Sabendo de que não adiantava nada reclamar, o loiro assentiu e Heero voltou a falar.
— Para que me buscava?
O sorriso divertido do amigo de trança morreu, o que causou estranheza no rei.
— Seu pai o busca. Está na sala do trono, rodeado de gente… Seu irmão e Relena também se encontram, assim como os rapazes e as damas.
E o sentimento de incomodo inundou o de olhos azuis que deu a volta à mesa, deixando para trás ou outros dois. O enviado de Wing olhou para o cavaleiro com uma incógnita no rosto e recebeu como resposta uma expressão de desentendido.
-/-/-
Parou na entrada e os azuis frios percorreram o local, a frieza comandava sua face, o corpo rígido de tensão, mas por dentro, um redemoinho de sentimentos causava estrago por mente e entranhas. Dissimuladamente suspirou e se obrigou a andar.
Alí estavam presentes os mais importantes, aqueles que Heero podia classificar como significativos para a família real, de forma pessoal. A sua frente estavam seus pais em seus devidos tronos, ao lado direito de Dante, em pé, um degrau a baixo estava o conde Peacecraft e logo a trás, mais um degrau a baixo, Milliardo e Relena lado a lado.
Ao outro extremo estava Lúcius, sozinho em frente ao trono de Amanda, quem mantinha-se sóbria, porém seus olhos tinham uma aparência opaca de conformismo. Ao lado dela, na mesma linha que o conde, estava Cássius, seu irmão mais velho. Surpreendentemente sério, sem aquele irritante sorriso farsante na face, que tanto Heero odiava.
Ao lado esquerdo de quem entrasse se aglomerava as damas, os amigos pessoais de Heero, alguns nobres de importância para a corte. Ao lado direito na mesma linha dos demais da plateia, estava Emera, quem se encontrava próxima a Lúcius, aparentemente conversando algo do qual o ruivo ignorava e mantinha o olhar sobre o irmão entrando.
Heero encarou o mais novo de volta e seus olhares continuaram presos um no do outro até que se emparelharam e sem uma troca de palavras, ambos souberam que nenhuma sabia a razão da reunião. Antes de falar algo, Heero desviou os olhos do mais novo, que voltou a olhar sua mãe, inquieto, e viu a princesa do reino Du Bois reverenciá-lo e se retirar para perto dos demais presentes e por fim Duo fechar a grande porta de madeira e se juntar a seus amigos.
A reunião começava.
Dante se levantou e os irmãos se ajoelharam em sincronia em forma de reverencia.
— Levantem-se!
A voz autoritária causou eco no amplo salão silencioso. Obedeceram, erguendo a cabeça e mantendo suas faces neutras. Cada segundo de espera o estava matando por dentro.
— Fui informado de uma certa briga que ocorreu na noite de ontem…
— Meu senhor se me permite…
— Fique quieto!
Heero começou, mas foi rispidamente interrompido por Dante, quem com um tom de voz irritadiço, impôs sua ordem. O mais velho se surpreendeu, mas não demonstrou e o mais novo engoliu em seco. Se seu irmão estava sendo tratado daquela forma, era melhor que ele nem se atrevesse.
— Você pode ser um rei em Wing, mas aqui ainda é meu filho e apenas o herdeiro ao meu trono.
O moreno assentiu e baixou levemente a cabeça, obediente.
— Meus filhos... Brigando feito crianças…
O silêncio tomava conta do ambiente, com a única quebra vinda do meio dos espectadores, onde Duo cochichava para os amigos: — Nunca conheci uma criança com uma técnica tão impecável na hora de bater no irmão mais novo. E ria baixinho. Mesmo assim, ganhou um olhar mortal do rei, que apesar de não ter escutado o conteúdo, não gostou do barulho. O de trança engoliu em seco e voltou à posição adequada de um soldado, enquanto os outros três seguravam para não rir da cara de temor dele.
— E se não bastasse essa afronta a coroa, descubro a razão de tal recontro.
Os irmãos arregalaram os olhos com o final da frase e ambos olharam para Relena, que aflita lhes devolveu o olhar, com uma mão sobre o coração, fechada e a outra apertando fortemente a mão do irmão mais velho, que a segurava com carinho, protegendo-a, sem perder a aparência de imponência, com os olhos fixos no cenário à frente.
Heero olhou para sua mãe e entendeu tudo.
— Eu não sou e nunca fui um homem de dar voltas a um assunto e exijo respeito daqueles que me cercam e para isso ensinei a respeitar. Mas, nunca esperei que o primeiro a quebrar uma lei tão primitiva e essencial para se viver fosse justamente o meu filho mais novo.
Lúcius sentiu o coração apertar e a frustração inundar seu ser, enquanto as lágrimas umedeciam seus olhos sem caírem.
— É verdade que você obrigou à senhorita Relena Peacecraft a se casar com você através de chantagem emocional?
— Pai…
— Responda a verdade!
Gritou, alarmando a todos.
— Sim. É verdade… Mas eu a amo, sempre amei. E o Heero nem a conhecia. Eu sempre a amei, desde jovem. Desde que ela se mudou para o castelo eu estive ao seu lado, participei de todos os momentos dela…
Disparou a falar, sem se importar com nada, as palavras saiam fluidamente. Ao mesmo tempo em que o terror começou a se apossar da face dos presentes. A convicção dele em expressar seus sentimentos não era o que estava causando aquele pesar nas faces alheias, mas, sim o que aquilo significava.
Heero baixou a cabeça, impotente. Relena levou a mão a boca, desesperada por Lúcius. Amanda deixou escapar um pequeno soluço devido ao choro que começa. E Dante encarou o filho com uma expressão de confusão, incrédulo ao que estava vendo. Todos os demais estavam surpresos.
O rei desceu as escadas e se aproximou cauteloso do filho mais novo, que só parou de falar ao ter o pai em frente.
— E como… Como sabe disso? - Lúcius arregalou os olhos. - Acaso não estava sem memória?
Deixou os ombros e a cabeça cair, vencido. Mais uma vez, sua impulsividade acabou levando-o para uma situação catastrófica. Não adiantava negar, não adiantava mais fingir. Com a cabeça baixa a única coisa que alcançou a ver furtivamente foi ao tio, quem o encarava firmemente, indescritível.
— Quantas vezes mais, você irá me desapontar?
Foi um sussurro cheio de dor que Dante soltou para o ruivo.
— Eu te decepciono só pelo fato de existir…
O som agudo de tapa calou o príncipe. Em um arranque de raiva, o rei de Sank fez o que nunca havia feito em toda sua vida, bater em um filho.
— Quando você nasceu, a primeira coisa que fiz foi decretar festa. Eu ri tanto aquele dia, que eu não sabia mais como expressar a alegria que senti.
O tom baixo na hora do falar não escondia as emoções por trás das palavras. A raiva, o choro de mágoa e a traição que sentia naquele momento, estavam sufocando a Dante, mas nenhuma lágrima foi derramada. Continuou.
— Eu dei ordens para que seu berço fosse colocado em nosso quarto. Fiquei tão feliz de ver meus traços em você… E perdoei inúmeras de suas traquinagens, porque achava que você tinha o direito de fazê-las. Mas, não podia deixar a rédea correr solta… E agora, isso…
Sentindo a dor do erro, do medo, da perda ao ver a decepção nos olhos do pai, abriu a boca para falar, a dor do tapa não foi sentida, sendo apagada pela dor em seu peito, a dor do arrependimento.
— Sinto muito…
Foi tudo o que conseguiu dizer antes de olhar o chão. Heero assistia a cena em um local privilegiado, podendo escutar cada palavra dita, emocionado, sua face antes neutra, agora demonstrava pena.
— Devido ao fato do casamento não ter sido consensual e consumado. - recobrou a compostura e voltou para frente de seu trono, expondo uma fortaleza trincada por dentro. - E lembrando que existe um acordo entre ambas as famílias, - falava para todos ouvirem, como um rei e não um pai. - onde a jovem deve esposar meu filho mais velho… Declaro que esse falso casamento seja anulado imediatamente, perante todos e tenho total apoio do pai da jovem, que casou sem sua permissão.
Declarada a ordem, um escrivão apareceu trazendo em mãos um pergaminho, onde continha todos os detalhes para desfazer a união. A primeira a assinar foi Relena, quem não demorou em tomar a pluma para escrever seu nome, aceitando tudo o que ali estava. Ao terminar sentiu parte de um peso abandonar seu corpo, mas ainda não era livre.
O homem então foi até o príncipe, que ainda não se recuperava do último embate contra o pai e esperou pacientemente por uma atitude do mesmo, que continuava olhando o chão.
— Príncipe Lúcius?
Arriscou e o nomeado deu um respingo de surpresa com o chamado. Olhou para o escrivão, depois para o pergaminho que deixava explicito seu conteúdo com o título: Acordo de anulação de matrimônio. E olhou para o fim da página, vendo alí a assinatura de sua amada.
Com olhos tristes olhou para ela, que lhe suplicava com o olhar, e a última conversa que tiveram lhe atacou a mente. Ergueu lentamente a mão e segurando com firmeza a pluma, a molhou e assinou.
— Acabou. O matrimônio foi anulado.
Foram as palavras do escrivam e o soberano assentiu. O rapaz voltou a seu lugar a espera do fim da reunião.
— Dentro de três dias será realizada a cerimônia de casamento de Heero e Relena. Que os preparativos comecem!
A ordem desnorteou a todos, não esperavam uma decisão como essa tão rápida, ainda mais em um momento como aquele, mas ninguém decidiu se opor, devido ao fato do rei não estar de bom humor. Mas, apesar de toda situação catastrófica, o casal que finalmente poderia assumir seus sentimentos, não conseguiam diminuir a alegria que os inundava. Mas, seus devaneios duraram pouco.
— Sobre a punição por esse casamento forçado...
— Senhor.
A voz doce da noiva real, aturdiu a todos os presentes, pela ousadia em se manifestar. Mas, por uma incrível razão desconhecida, não foi repreendida, animando-a a continuar.
— Peço encarecidamente que perdoe ao príncipe.
— Como?
— Sei que sua atitude foi muito errada, mas não posso culpá-lo sem me culpar também. Fui inocente e tola. E por não saber do arranjo matrimonial, me deixei levar pela situação… E apesar de ter dito sim, sem querer, não o odeio e o perdoo. Também preciso ressaltar que foi um cavalheiro em me respeitar quando me opus a consumar o casamento e graças a isso, foi possível anulá-lo sem problemas. Então, eu imploro clemência.
O burburinho começou em meio à plateia com as palavras da princesa, ao mesmo tempo em que causou diferentes reações a todos, mas em Amanda foi visível o sentimento de gratidão. Heero sorriu pequeno, tranquilo e aliviado. E Lúcius ficou comovido.
— O que tem a dizer? - perguntou ao filho mais velho.
— Se é essa a vontade de minha noiva, não vejo nenhuma razão em me opor, afinal, ela foi a que mais sofreu e se ela o perdoa, eu também o faço. Até porque não a tocou indevidamente.
Dante assentiu.
— Então, a pedido das duas pessoas mais afetadas com essa situação, eu perdoo sua falta e dou por encerrado esse assunto.
Todos suspiraram aliviados, felizes de como tudo terminou.
— Porém, esse não foi o único erro do príncipe. E agora o teor do assunto é ainda mais sério.
Silêncio.
— Já que a história de perda de memória era uma mentira… Esse é o momento de você revelar-nos o nome dos culpados por seu sequestro… E se eles têm algo a ver com os ataques, melhor ainda.
Os olhos verdes do mais novo começaram a inundar. Seu corpo tremia por completo. A respiração começou a se tornar difícil. Engoliu em seco, os olhos injetados, mas não caiu nem uma gota. As narinas se dilataram e o cenho franziu, percorreu os olhos por cada lugar e pessoa que estavam a sua frente, se focando em seguida no chão.
Impaciente, o pai insistiu.
— Responda ou será considerado traição a coroa.
O tom normal e firme, quase demonstrando um leve desespero, para que não fosse obrigado a castigar o filho mais novo.
— Vamos Lúcius… - o irmão sussurrou, com o corpo virado em direção a ele. - Pode falar na confiança… Quem quer que seja, eu garanto que não deixarei nada acontecer a você. Apenas fale. - suplicou baixinho.
O rosto de Heero demonstrava uma preocupação genuína, estava tão aflito quanto o pai, por uma resposta. Amanda já não suportava a agonia, sentindo dor até no respirar. Relena segurava o ar, inconscientemente. E no rosto dos amigos verdadeiros a família real podia-se distinguir a inquietude por uma resolução. Cássius por sua vez, se mostrava o mais sereno de todos, apenas quieto e segurando a mão de sua tão estimada irmã.
O impasse estava acabando com a sanidade de alguns.
— Perguntarei pela últim…
— Não.
O silêncio nunca foi tão pesado quanto naquele momento. Dante foi cortado pela resposta seca do filho, alarmando a todos e fazendo o coração de alguns disparar de forma dolorida. O ruivo prosseguiu.
— Eu… - puxou o ar, temeroso, porém decidido. - Eu não sei de nada… Não sei o nome de ninguém.
Mentiu visivelmente, sem encarar o pai ou o irmão, com os ombros caídos e a postura desfeita, quase se encolhendo. Heero deixou os ombros descerem relaxadamente, descrente, os azuis percorreram o rosto envergonhado do irmão e sentiu lástima. Um sentimento que ele sempre evitou, por achar uma das coisas mais horríveis do mundo.
Dante sentiu o corpo inundar de ira e Amanda ficou em estado de choque, assim como Relena, Miliardo, o conde e os amigos de Heero. Cássius piscou e focou apenas em sua irmã, acariciando docemente o cabelo dela. Ignorando tudo e todos. Emera por sua vez, disfarçou um sorrisinho.
O rei puxou o ar com força e ergueu a cabeça, imponente.
— Como você decidiu - começou fluido e tranquilo. - ocultar o nome de seus sequestradores…
Pausou. Espera, na esperança de que o jovem fosse se defender de alguma forma, mas nada ocorreu, continuou ali, derrotado e ele prosseguiu firmemente.
— Como pai, apenas lamento e não posso fazer nada. - ganhou a atenção de todos. - Mas, como rei, não posso ignorar essa traição e você não me deixa mais escolha.
— Meu rei.
O herdeiro tentou intervir, mas foi bruscamente calado pelo rei de Sank, com um movimento de mão.
A expectativa e o temor tomou conta do salão.
Lúcius ergueu a cabeça em espera, olhando fixamente o pai.
— Por tanto… - engoliu, sentindo a dor de sua decisão. - Eu declaro que Lúcius St-Pier Yui seja imediatamente expulso do castelo.
O silêncio foi quebrado pelo pranto de Amanda, que já não conseguiu mais conter as lágrimas. Relena a acompanhava, escondendo o rosto no braço do irmão, que assistia a cena boquiaberto, assim como o pai. Lucrezia derramou uma lágrima, sentindo a dor da rainha, os quatro cavaleiros estavam estáticos. Heero baixou a cabeça, inconformado e o rei continuou.
— Você já não carrega mais o título de príncipe e tem exatos vinte minutos para tomar tudo aquilo que puder carregar e deixar o castelo, definitivamente.
Paralisado pela sentença, o ruivo já não conseguiu segurar as lágrimas e elas escorreram por seu rosto, silentes, enquanto a palavras "expulso" retumbava uma e outra vez em sua mente.
Continua...
Espera! u.u
Antes de me lincharem... Deixa eu falar tudo.
Não tenho nada a dizer. u.u
Mentiraaaa... kkkkkkkkkkkkk
Obrigada a Jessi por corrigir pra mim, não reli, ando com pouco tempo, o capitulo ficou curto comparado aos outros, alias, o mais curto de toda a trajetória do The Brothers, mas na minha opinião, não podia ser diferente.
Tinha que parar ai.
Bom... Como viram... As coisas encaminham para o fim certo.
Alguém se arrisca em dar um palpite sobre o futuro?
Se passou algo muito horripilante na correção me avisem, por favor. Nique, espero que não me mate pela cena do Dante, naõ consegui imaginar diferente, me fale se ficou muito ooc, por favor.. :)
E é aqui que me despeço. XD
Quem puder, de uma passadinha por meu perfil e vejam as novidades. :)
Beijinhos mil e obrigada por me abandonarem. A todas, até quem não tem o costume de comentar.
Agora... Eu saio correndo. Fuiii! :3
02/11/2015
