E o sol sumia no Oeste como sempre acontecera. Anoitecia e os bichos se escondiam em suas tocas, outros se preparavam para caçar quando tudo ficava mais silencioso. Taverneiros recebiam animados clientes que beberiam de novo e conversariam sobre banalidades e sobre os rumores de guerra iminente. Mulheres recolhiam as crianças das ruas e rumavam para casa; as cestas de roupas sobre os ombros.
Amas arrumavam tudo para que a "corte" de Galbatorix ficasse satisfeita durante a noite e os cozinheiros do castelo já limpavam tudo o que havia sido usado no jantar daquela noite que caía. Galbatorix, o próprio, murmurava orações para uma divindade desconhecida, quem sabe não teria a idéia de converter seu povo à sua religião também ou talvez pressentisse mudança de ares. E seu dragão negro e brilhante o aguadava inexpressivo, quase entediado, ainda que seu tédio pudesse amedrontar meia Alagaësia.
Um guarda bocejou e murmurou para que o outro fizesse uma última ronda antes da troca de turno. E ele o fez; o mais rápido que pôde deu a volta no grande salão com a grande abóboda de vidro, cheia de recortes, fazendo com que o tingido de um lilás fraco do céu refletisse de modo engraçado no chão de mármore polido. A grande benção vem dos céus, alguém uma vez disse.
O homem olhou para cima um tanto sonolento, pois já se havia acostumado com aquela cena bonita. Só queria voltar para casa e, talvez fosse a vontade imensa de ir embora de uma vez, não viu nada de diferente.
Seria o fim de mais um dia comum em Uru'baen. Não fosse pela figura que, do alto, mergulhava em alta velocidade em direção ao âmago do castelo.
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Havia ido deitar-se mais cedo do que o usual. Estava cansado e sabia que a enorme criatura carmim ao seu lado estava igualmente exausta. Exausta dos treinos, por aqui com juramentos e exaurida daquela situação em que se encontravam.
Estava deitado de lado e observava o nada. Thor deixava-o ver que pensava em Saphira e em como gostaria de vê-la voando novamente. E aquele era só mais um problema que atormentava o cavaleiro. Aquela não era vida. Não era a vida que queria ter traçado para ambos. E embora tivesse dito para si mesmo e para seu dragão, e repetido e repetido, afirmar que era o que tinha de fazer estava deixando-o mais do que cansado. Seguir os passos de seu pai não podia ser uma opção.
Mas ali, enquanto deitado na cama pequena, as escamas de Thor rutilando sob a luz de três velas do velho castiçal, era sua única opção.
Murtagh então ouviu um estrondo incomum e levantou-se da cama rapidamente. Quase achou que havia imaginado algo para tirá-lo da melancolia, mas Thor já rosnava e farejava o ar. Apanhou a espada e desembainhou-a no caminho para o saguão.
A cena era quase que engraçada; caótica e inimaginável. Georhgio tostanto tudo e todos em seu caminho e o alarme do castelo soando irritante e incessantemente.
Da sela do dragão imenso, desceu uma figura envolta numa capa preta e escondida sob um grande capuz, brandiu a espada contra uma cozinheira corajosa que corria para um último ato heróico.
Thor rugiu alto, silenciando todos os outros, exceto o crepitar do fogo que se espalhava pela ala oeste do castelo. Era difícil dizer, mas ao mesmo tempo que Murtagh sentia arder em si a raiva que Thor nutria então enquanto encarava o dragão esmeralda, podia jurar que George sorria de sua maneira.
E para quebrar o silêncio, George rugiu também, seguido de outro rosnado de Thor e os dois deram impulso para se embolarem numa batalha no ar.
Pessoas corriam e berravam em desespero; não era possível que a garota Violet houvesse invadido sozinha o castelo de Uru'baen e que ninguém tivesse previsto, que Galbatorix não havia podido impedir que algo impensável como aquilo acontecesse! Aliás, era esperado que Shiruikan e o tirano irrompessem ali a qualquer minuto.
Murtagh encarou a figura da capa com toda sua atenção, embora estivesse preocupado com Thor. Ele sabia que, naquele momento, embora fosse difícil que a cavaleira saísse dali são e salva, Murtagh sabia que estava do lado errado daquela batalha. E continuaria nele, até que seu juramento pudesse ser quebrado.
Avançou a passos calmos, em contraste com o que ocorria a sua volta. Girou a espada uma, duas vezes. Estreitou os olhos. Não era como se conhecesse Violet, mas aquela figura lhe parecia extremamente familiar. Quando a alguns metros da criatura, esta baixou o capuz; Murtagh arregalou os olhos ao que soube do que se tratava, sentiu um nó na garganta e não conteve um passo para trás. Aquele ataque surpresa à abóbada, ao centro do palácio era uma armadilha. Era a isca.
Nasuada sorriu nervosa ao encará-lo. Seria uma longa noite.
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Aquele caminho abaixo das masmorras era conhecido de Arya, mas Eragon sentiu-se no fundo de um poço; coisa que aqueles corredores realmente podiam ser. A velha informante da elfa havia sido encarregada por Galbatorix para reforçar a segurança máxima daquela passagem desde que Arya invadira seu palácio descaradamente e lhe roubara o bem mais precioso de Alagaesia. O que queria dizer que as paredes de pedra estavam sem segurança alguma naquela noite.
Ele estava prestes a desvendar os segredos escondidos sob as mentiras ali mesmo, sob os olhos de Galbatorix que, segundo seus cálculos, estariam voltados para seu exército se apinhando nas muralhas do castelo para contra-atacar as tropas desfalcadas de Nasuada e a horda de elfos que vinha atrás delas, sem contar a balbúrdia que haviam planejado fazer no interior dele.
Cerca de cem elfos seguiram Arya por outro caminho, para lutar com Nasuada nas alas internas. Eragon riu e tomou um caminho estreito pela esquerda e dava para uma escada em espiral, para as masmorras. Eragon Primeiro o estaria olhando e sentiu arrepiar-se, mas era diferente. Era algum tipo de adrenalina que corria suas veias e ardia. Quase podia fazer contato mental com Saphira e isso o deixava ainda mais inquieto.
Subiu os degraus o mais rápido que pode; a cada passo um mumúrio, uma frase de uma canção de bardos.
Já era hora de libertar Saphira daqueles filhos da mãe.
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Era incrível o número de soldados que se amontoava; sargentos berravam para manter alguma disciplina. Os já enfileirados dentro das muralhas se remexiam inquietos. Afinal, daquela posição sabiam que havia vultos de elfos marchando em direção ao castelo; elfos que juntavam o flanco esquerdo de suas tropas ao que restara do exército de Nasuada e dos Urgals.
Era noite, noite sem lua e sem luz alguma. As tochas que ardiam nas amuradas da grande muralha iluminavam muito bem os homens que ali estavam, mas não podiam aclarar as tropas, as massas que se aproximavam rapidamente para um confronto direto. Não podiam ver, mas podiam ser vistos. Aquilo podia ser assustador.
Como fosse grande a tropa de Galbatorix, não só a muralha estava quase que não comportando mais arqueiros e homens, mas estes antes dariam cobertura ao centenas de outros que estavam logo abaixo para proteger o castelo e deixar longe todas as criaturas do que quer que estivesse acontecendo dentro daquelas imensas paredes de pedra.
Ninguém falava. Era comum que soldados murmurassem preces ou cantigas, que blasfemassem e tomassem hidromel, comentassem algo com o companheiro ao lado. Mas o exército de Galbatorix parecia tomado de uma quietude ainda mais aterrorizante do que uma batalha iminente. O medo tomava-os de maneira que os únicos ruídos eram o vento, as pequenas chamas das tochas crepitando e os muitos passos de seus inimigos.
Em breve haveria também o som de aço no aço, gritos e agonia, mas enquanto isso, Violet murmurava xingamentos no telhado da parte central do castelo e amaldiçoava a si mesma por estar fazendo barulho demais.
Antes que Nasuada aterrizasse com estrondo e glamour pela grande clarabóia do palácio, a cavaleira havia escorregado pelo rabo de seu dragão agilmente e, respirando fundo, equilibrou-se sobre as grandes telhas ali. Não passara desapercebida, mas não fora difícil derrubar dois sentinelas.
Tinha tido uma idéia, uma idéia relamente boa e Eragon sorrira satisfeito e lhe beijara por isso. Violet corou com a breve lembrança e tentou concentrar-se no trabalho todo que ela mesma havia sugerido algumas noites atrás.
Espalhadas sobre a grande extensão que era aquela parte do telhado, incontáveis flechas miravam pontos abaixo. Violet havia interligado todas com magia simples e o plano era igualmente simples: soltar as flechas no momento certo, para que os varden e os elfos pudessem atacar os homens no chão sem que fossem surpeendidos por flechas de arqueiros nas muralhas. Ela gostava daquilo; era como se as flechas deles dessem a volta os atingissem pelo lado esquerdo.
Ela quase riu com o pensamento bobo, mas tentava se concentrar em muitas coisas ao mesmo tempo. Cada ferimento que George levava por parte de Thor era como se sentisse a própria pele arder num corte que nunca fora rasgado. O elo entre os dois era, Violet sentia, a parte mais importante, mais nobre que tinha em si. E pretendia honrá-la sempre.
Era preciso que fosse rápida, não havia muito tempo. Eragon já devia estar nas masmorras para salvar Saphira, Nasuada devia estar enfrentendo seus problemas dentro do castelo e George... Ela já podia sentir a presença esmagadora e mórbida de Shruikan e ele não aguentaria muito tempo contra dois dragões. Pôs-se então a acender as flechas com fogo ao passar quase que correndo, com os dedos estendidos tocando cada uma.
Deslizou sobre uma telha que se desprendeu e arrastou com ela outras duas, espatifando no chão e levando uma tocha e uma bandeira astiada junto com ela. Uma boa parte dos soldados virou-se para onde agora havia pedaços de telha embolados ao pano da bandeira e imediatamente tornaram o olhar para cima: Violet.
Ela mostrou-lhes involuntariamente uma de suas caretas. Homens foram alertados sobre o perigo ali numa rapidez incrível e em poucos segundos havia três ou quatro deles no telhado, prontos para capturar a cavaleira. Eles se aproximavam como podiam, equilibrando-se no telhado enquanto ela se apressou pra longe deles e berrou:
- Brisingr! – Acendendo todas as flechas de uma vez. Ouviu o barulho característico de metal em metal. Cerrou os dentes e olhou para trás no meio de uma corrida desajeitada no alto do castelo. Não podia mais esperar e então gritou magia novamente e as flechas todas voaram para atingir cada uma seus alvos com precisão.
Mais soldados empurravam os da frente para capturarem a cavaleira e outros começavam a escalar o outro lado, para deixá-la sem saída. Violet não pensou duas vezes antes de mergulhar deslizando para o outro lado, o lado de dentro no palácio.
Caiu sem muito em outra parte do telhado, mas os homens a seguiam enraivecidos então ela optou por mergulhar novamente, mas ali a queda seria muito maior e perigosa. Ninguém a seguiu.
Desceu deslizando, as bainhas de suas espadas atadas às costas fazendo ruído contra as telhas escuras. Deixou que um grito escapasse quando o telhado acabou e ela caiu por alguns segundos.
Demorou um pouco para levantar-se, esfregando o braço dolorido e sentindo o joelho fraquejar. Bastou abrir direito os olhos para saber que se encontrava no âmago do caos. Tudo flamejava e um rugido quase familiar, mas um rugido mais longo, quase que forçado e olhou para o lado para deparar-se com Shruikan em sua mais impiedosa pose e ao seu lado estava o ser mais temido de Alagaësia.
- Enfim nos encontramos, minha cara.
Violet arregalou os olhos e terror tomou-lhe como nunca havia acontecido antes. Galbatorix falava, mas não havia movido os lábios, de modo que sua voz rouca e penetrante parecesse vir do além.
O dragão negro representava tudo o que mais era tenebroso; algo cruel emanava dele ao mesmo tempo que o tédio parecia abatê-lo. Shruikan não mostrava nenhum tipo de emoção ou reação e, no entanto, causava aquela sensação de horror e agonia que a cavaleira sentia naquele momento.
Era certo que o tirano forjara seu segundo dragão, que havia usado magia das trevas mesmo, seja lá o que fossem. Mas Shruikan era de onde todo o poder e a destruição vinham, ele era a fonte, pois ele mesmo havia sido corrompido para tornar-se criatura de Galbatorix.
Violet sentiu-se diminuta, fraca e impotente por um momento, mas o pensamento de que algo maior que seu medo e insegurança era mais importante a fez arrepiar-se e levantar o queixo; lutando contra as lágrima que insistiam em embaçar seus olhos. Havia por quê e por quem lutar.
Então desembainhou as espadas com a graça que o treino havia lhe dado e a honra de sua causa estava ali. Era por isso que estava ali.
- Enfim – Ela respondeu e sorriu, um sorriso sem mostrar os dentes, mas que mostrava toda a força e coragem que havia reunido naquele instante.
