CAPÍTULO XXV

A noite se intensificara ao redor do Storm, deixando que apenas uma estrela brilhasse no céu, solitária. Silver estreitou seus olhos naquela direção, e tornando os lábios uma linha fina de sorriso, retirou a luneta do cinturão levando-a aos olhos e descobrindo, satisfeito, um grupo de rochedos gigantes bem abaixo dela, no ponto exato em que parecia tocar o oceano. Com gesto rápido, fechou a luneta, devolvendo-a ao cinturão, e gritou para o proa:

- Vela a todo pano!

Minutos depois, o Storm singrava o oceano com velocidade redobrada, tomando a direção dos imponentes rochedos. Nuvens se formaram no céu, encobrindo a estrela e emprestando um ar soturno as duas fileiras de rochedos, que pareciam uma boca pronta a engolir aqueles que ousassem enfrentá-los. Os cabelos loiros de Silver ricocheteavam sobre seu rosto devido à força dos ventos que o empurravam mais e mais para aquela boca faminta, e com uma habilidade incrível, ele detinha a ansiedade do navio para se misturar as espumas provocadas pelas águas escuras que batiam incessantes contra eles.

- Capitão – uma voz conhecida chamou-o próximo.

- Diga, Mestre Trevis – exigiu, enquanto os respingos de chuva e água salgada salpicavam-lhe o rosto.

- Já esteve nos domínios de Éris antes, senhor? - perguntou o imediato, se colocando ao seu lado.

- Nunca – sorriu-lhe Silver, impedindo que o timão corresse livremente entre seus dedos.

- Foi o que pensei – respondeu de pronto o imediato se agarrando ao cabo da amurada.

- E você? - retrucou Silver ainda sorrindo-lhe mordaz. – Alguma vez esteve nos domínios da deusa?

- Não... - Trevis soltou uma risadinha fraca. – Na época em que navegava esses mares impunemente tinha mais com que me ocupar.

- Entendo – gracejou Silver, fazendo o Storm desviar de um rochedo, e completou: - Dizem que ela é linda como só!

- E qual não é, capitão? - rebateu Trevis. – Encantos infantis para adoçar a boca dos marujos, nada mais do que ilusão!

- Ainda está amargurado com o que aconteceu, não é? - disse Fitz, olhando-o de esguelha. – Não o culpo. Calypso era impossível.

- Você não a conheceu doce e tentadora - os olhos do imediato brilharam com o relâmpago. – Uma mulher de muitos amantes, uma sereia, mas ainda assim, encantadora.

- Eu diria que Amira herdou a parte boa dela – contrapôs Silver. – A primeira vez que a vi, tive a certeza de que não me apaixonaria por mais ninguém daquela forma.

Os olhos de Silver se fixaram nas nuvens e Trevis o fitou atentamente antes de perguntar:

- Ainda a ama, capitão?

- Não – disse Fitz, e voltando ao seu estado normal, tornou a manejar o navio com destreza. – Bella é uma mulher maravilhosa, não poderia não me apaixonar por ela.

- Então, minha filha não é tão feiticeira como alegou – gracejou Trevis.

- Eu não diria isso no lugar de Jack – interveio Fitz. – Se ela não fosse a mulher que é, não o teria dobrado, Mestre Trevis.

- Tem razão – ponderou o imediato. – Jack jamais aceitaria se prender a uma só mulher se não fosse por uma boa razão...

- E sem feitiços – acrescentou o capitão – digamos que a reputação de Sparrow sofreu um arranhão.

- Será mesmo? - desdenhou Trevis. – Me custa acreditar que tenha virado um celibatário. Seria pedir muito a um homem como ele.

- Mas não pode negar que ele a ama – retrucou Fitz.

- Incontestavelmente, tenho que admitir. Caso contrário, nós não estaríamos aqui! – afirmou Trevis, e estreitando seus olhos sobre o oceano, acrescentou: - Segure-se, senhor!

Fitz só teve tempo de arregalar os olhos, atando seu braço à corda como lhe advertira o imediato, e tudo escureceu. O Storm fora tragado pelo redemoinho.

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Éris estava sentada em seu trono, brincando com uma bolha entre os dedos, fazendo-a rolar de um lado para o outro de sua mão, e seu interior se tornar turvo como a água remexida de um rio. Um sorriso mordaz aflorou em seus lábios e a bolha desapareceu. Com uma leve expressão aborrecida no rosto, e ainda mantendo o sorriso, murmurou para si mesma:

- Será que nunca aprendem? - suspirou se colocando de pé e flutuando até chão. Onde, com pequenos gestos de dedos, fazia a areia a sua volta adquirir formas das mais variadas, enquanto cruzava o caminho até a fileira de colunas de arenito que indicavam a entrada de sua casa. - Um imponente grupo de rochedos não assusta mais esses marujos? - debochou irritada. – Se não estivesse tão entediada esperando uma solução de um passado longínquo, até me atreveria a recebê-los como deveria - ponderou chegando ao final do caminho. – Mas preciso de distração. Melhor deixar que venham, pelo menos aqueles que restarem da tripulação. – Sorriu mordaz, os olhos brilhantes. – Serão valorosos. Gosto de homens assim.

Fez um gesto com o dedo na direção da areia e uma estátua de um homem de belas feições e cabelos amarrados num rabo-de-cavalo surgiu diante de seus olhos. Éris se aproximou da estátua, e circundando-a com um novo sorriso jubiloso nos lábios, pousou suavemente a mão em seu ombro e sussurrou-lhe os ouvido:

- Ah, Simbad... - fechou os olhos, adquirindo uma expressão saudosa. - Por que escolheu defender Siracusa e aquele protótipo de rei medíocre? – Encarou em azuis cintilantes. – Devia ter ficado ao meu lado - passou os dedos pelo rosto da estátua. – Seríamos imbatíveis juntos!

Éris se afastou, contemplando-o tristemente, e completou baixo: - Você foi fraco!

E dizendo isso, estalou os dedos fazendo a estátua voltar a ser areia. Desviou o olhar para as colunas e gargalhou alto, dizendo em seguida:

- Que sejam recebidos com honras de grandes marinheiros!

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Silver e Trevis estavam de joelhos sobre a areia fofa, sorvendo o ar rapidamente, e apesar de encharcados, não havia sinal de água por perto. O primeiro a se erguer foi Silver, passando as mãos sobre os cabelos loiros e colocando-os para trás, a fim de ter uma visão melhor do lugar onde estavam. Trevis o imitou, e lançando um olhar a sua volta, descobriram que nada mais havia além de areia por um bom pedaço do horizonte. Silver apoiou as mãos sobre os joelhos, respirando fundo, e perguntou ao imediato:

- Alguma sugestão, sr. Trevis?

- Sim, tomar um rumo se quiser encontrar a deusa – dizendo isso, passou a frente do capitão, e murmurou-lhe: - No entanto, eu diria que não passamos despercebidos por ela.

- Concordo – assentiu Fitz se juntando a ele. – Caso contrário, a tripulação e o navio estariam flutuando em algum lugar. Não houve tantos danos assim.

- É certo que não. - Eles continuaram caminhando, a brisa quente batendo em seus rostos como um açoite; Trevis completou: - Por isso, devemos ter muito mais cuidado. Você a trouxe em segurança, não é?

Fitou-o atentamente em azuis cintilantes.

- Totalmente – respondeu curto, Silver.

- Então, nos apressemos – contrapôs Trevis. – Nosso tempo é curto.

Silver concordou com um leve assentimento de cabeça e eles seguiram adiante, sob o calor intenso e a brisa sufocante. Depois de andarem quase uma hora, os lábios ressequidos, as roupas empapadas de suor e o cansaço quase os vencendo, chegaram a um grande portal formado por colunas gregas de arenito, uma ao lado da outra. Logo atrás do portal, erguia-se uma construção não tão ostensiva como os templos gregos, mas ainda assim, imponente.

- Acho que conseguimos... - ponderou Trevis.

- Acho que ainda estamos no inicio de nossa jornada – rebateu de pronto Silver e tomando a frente do imediato, tomou a direção das colunas. – Vamos ver como seremos recebidos...

- Não espere rolinho primavera e suprimento de saquê – gracejou baixo, Trevis, seguindo-o. A mão fechada sobre o punho da espada.

Trevis e Silver atravessaram a fileira de colunas entrando num ambiente muito parecido com o que estavam, a não ser alguns objetos, feitos também de areia, aqui e ali. Silver nunca vira nada parecido em suas viagens, mas Trevis, ao contrário, olhava tudo desconfiado. O amplo corredor era vazado por todos os lados, sustentado apenas por grandes colunas trabalhadas em arenito, aliás, o lugar inteiro possuía areia, e a brisa que soprava ali dentro era tão quente quanto a externa.

Cuidadosamente, eles seguiram o corredor que acabava num trono da mesma pedra, e preocupados com o desenrolar daquilo, fitaram-no curiosos. Um segundo depois, a areia a sua volta subiu num turbilhão e depois evaporou, revelando uma bela mulher com seus longos cabelos ruivos. Os olhos de ambos fitaram a figura da deusa, absortos em sua beleza, e nem repararam que ela os encarava com olhos azuis intensos e um sorriso cínico nos lábios rosados. Chamar tanta atenção assim não era uma coisa com a qual Éris não estivesse acostumada, e com um gesto medido e proposital, andou até eles, retirando-os do transe inicial, e dizendo-lhes suavemente:

- Ora - os cabelos ondularam sobre seu rosto escondendo por segundo os olhos azuis –, a que devo a honrada visita de tão nobre pirata, Long Silver?! – As últimas palavras foram grifadas com um sibilo bem próximo ao rosto do capitão, que não demonstrou nenhuma inquietação ao ouvi-la. E limitou-se a encará-la, esperando que completasse sua frase. – Sabe, sua fama não é das melhores – ponderou finalmente, medindo-o com olhar.

- É uma pena saber que falam tão mal de minha humilde pessoa – ironizou Silver. – Entretanto, ainda assim, deixou que eu viesse até aqui. Por quê?

Éris o fitou em silêncio durante alguns minutos, desviou seu olhar para o imediato, analisando-o, e voltando a encarar Fitz, prosseguiu com um sorriso malicioso:

- Gosto de homens maus - gargalhou alto. – Além do mais, não é toda hora que recebo visitas tão bem indicadas.

- Então, eu fiz bem em vir – rebateu Silver no mesmo tom, fazendo-a se aproximar dele e circundá-lo calmamente antes de dizer:

- Sua visita aqui é, no mínimo, curiosa – murmurou ao seu ouvido. – Por outro lado – afastou-se dele bruscamente e completou cínica -, talvez seja providencial. Diga a que veio – ordenou, encarando-o em azuis escuros.

- Eu vim lhe pedir ajuda – disse Fitz diplomático.

- Que tipo de ajuda? - fitou-o desconfiada.

- Do tipo... divina – contrapôs mordaz. – Tenho que me livrar de um inconveniente e soube que temos um desafeto em comum – Sorriu-lhe cínico. – E assim sendo, pode ser que esteja interessada no que eu lhe ofereço.

- E o que poderia um simples mortal me oferecer que fosse tão importante? - retrucou desdenhosa, dando-lhe as costas e voltando para o trono.

- A Corte da Irmandade – respondeu Silver, enquanto Trevis apenas o fitava atentamente, e Éris gargalhava, sentando-se languidamente no trono.

- E qual seria meu interesse sobre essa tal Irmandade? - inquiriu-o mordaz, deixando azuis sobre ele.

- Digamos que eles sabem de certas atividades escusas suas - devolveu-lhe o tom de bravata - e que isso atraiu em muito a atenção deles sobre você.

- E eu deveria temer isso? - gracejou. – São meros mortais, não podem nada comigo.

- Discordo – afirmou Silver se adiantando ao trono e fixando seu olhar sobre ela. – Talvez, em outras condições, não devesse se importar com esses piratas, mas eles não estão sos nessa empreitada.

- Ah, não? - disse-lhe entediada. – Há algo mais que eu deva temer?

- Os deuses do Olympo. – Fez o nome ressoar no vazio com toda sua austeridade.

- Não podem se meter em meus negócios. - Fitou-o com falso desinteresse.

- Vai descobrir que podem! – disse sonso, e dando a volta no trono, sussurrou-lhe: – E vai precisar do que eu lhe ofereço.

Éris se colocou de pé, esquivando-se dele, e retrucou levemente alterada:

- Qual sua oferta?

- Já lhe disse, eu lhe darei o controle sob a Irmandade – Silver se aproximou uma vez mais dela, o rosto próximo ao da deusa, e fazendo-a encará-lo, completou cínico: - Precisamos apenas acertar o pagamento que você me fará por isso.

- Você disse que só queria minha ajuda - ponderou a deusa.

- E só quero sua ajuda. - Ele lhe deu seu melhor sorriso malicioso. – Quero me traga Jack Sparrow.

Éris o fitou longamente, antes de responder firme:

- O que o leva crer que estou com ele?

- O motivo que me trouxe aqui – retrucou ríspido Fitz, e passando a mão pelo rosto da deusa, segurou-o firme entre os dedos. – Escute, ma chéri, esqueça os jogos, estamos em um embate. Jack Sparrow é o único que pode se contrapor a minha ascendência como Rei da Corte da Irmandade...

- Então, deveria querer matá-lo – interveio Éris.

- Deveria – ampliou seu sorriso, apertando o polegar contra a pele dela. – No tempo certo. Primeiro aplaquemos a fúria dos deuses contra você. - E dizendo isso soltou-a, tomando a direção de Trevis.

O olhar do imediato brilhava na direção do capitão, enquanto Silver lhe sorria sem ser visto pela deusa e a ouvia murmurar:

- Por que quer me ajudar?

- Quem disse que quero? - ele riu alto. – É tudo um bom negócio, chéri. Você estará livre do ataque deles se Jack estiver de volta são e salvo, e eu fico com o controle da Corte e lhe dou minha palavra que, no momento apropriado, ele jazerá em águas profundas.

- Como vou saber que diz a verdade? - Os olhos dela estavam intensos sobre as costas de Silver.

A meio caminho da distância separado do imediato, ele voltou-se para ela sorrindo, os cabelos loiros caindo-lhe sobre o rosto como um véu, e com um novo sorriso afirmou:

- Não vai. – Andou de volta até ela, azuis dentro de azuis e soprou-lhe astutamente: - Só que você não tem escolha.

Silver estava ao seu lado e puxando-a contra si, sussurrou-lhe ao ouvido:

- Que tal devolver o pobre homem ao meu navio e discutirmos o restante dos detalhes a sós?

Ela ia protestar, mas o dedo de Silver foi mais rápido, pousando em seus lábios, e ele ordenou baixinho: - Apenas faça.

Éris obedientemente encarou Trevis, que quase aplaudia o feito de Silver, e disse-lhe mordaz:

- Parece-me, meu caro, que ganhou uma passagem de volta para o navio e sua tripulação. – Trevis pensava quanto Silver parecia com ele quando mais novo, mas felizmente sabia que o capitão do Storm estava blefando por propósitos mais nobres do que ele jamais tivera em sua vida. E com o olhar mais incrédulo que podia adotar, ouviu-a finalizar sua sentença: - Mantenha o navio longe dos olhos da tal Corte e espere-o lá.

Trevis apenas meneou a cabeça em assentimento e segundos depois sumia envolto pela areia ao seu redor.

Éris voltou a fitar Silver em azuis brilhantes, viu-o envolver-lhe a cintura e puxá-la para mais perto. Agora podia sentir-lhe a respiração sobre seu rosto e os dedos dele contornarem seus lábios. Desejou intensamente que ele acabasse com aquela insensatez, mas esses não eram os planos de Silver...

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N/A:

Vcs vão me matar porque depois daquela noite maravilhosa não houve Jack... hehehe. Eles mereciam um dia de folga, meninas! Meses sem se ver, tenham dó do casal!

Enfim, quero agradecer à todas pelas palavras especialmente fofas que recebi de cada uma, e o carinho com que deixaram reviews. Obrigaduuu!

Bjos bem grandes para Taty, Aline, Dora, Maninha, Ieda, Carlinha, Larainha e Lady Morgan. Muito, mas muito obrigada!!

Amo vcs!! Yo-ho!