CAPITULO 24. O NASCIMENTO DE UMA TRAIÇÃO PT.1

Fazia noites que Setsuna não conseguia dormir direito. Vigiar as Portas do Tempo em uma época em que há um alerta vermelho pela guerra não era fácil. Não parava de dar voltas na cama, com os olhos apertados, por hora cobrindo-se, outra levantando-se. Finalmente caiu em um estado de torpor. Notou uma sensação fresca sobre seu rosto e abriu os olhos. Havia uma sombra em cima de si, o rosto de uma mulher de grande beleza. O primeiro que viu dela foi seus longos cabelos vermelhos, da cor do fogo e olhos cheios de audácia e segurança.

"Desculpe-me por acorda-la, Sailor Plutão", sussurrou a dama, estirando o braço para que Setsuna pudesse se sentar na cama. Sorriu de forma agradável.

Os olhos escarlates da jovem princesa de Plutão examinou o rosto de sua interlocutora. Era jovem, demasiado, para o que transmitia seu olhar. Conhecia sua identidade. Era Beryl, a soberana do Reino Obscuro. A havia visto em suas incontáveis visitas às portas do passado e do presente. Todavia não havia se atrevido a averiguar o que o futuro lhes reservava, ainda que sabia de forma intuitiva que logo teria de averiguá-lo.

"Sabe quem sou, não?", lhe perguntou com voz macia e um sorriso encantador.

Setsuna assentiu, com expressão séria. Como Beryl havia conseguido atravessar as Portas do Tempo?

Sem duvida, seu poder devia ser enorme para poder ter acesso àquele lugar proibido para qualquer habitante do Milênio de Prata.

"Porém não sabe o que estou fazendo aqui", murmurou, sentando-se à borda da cama, sem deixar de olhá-la. "Vim lhe oferecer um pacto".

Que atrevimento! Um pacto? Acaso vinha pedir que traísse o Milênio de Prata?!

Beryl começou a rir levemente diante o olhar de incrédula de Setsuna, jogando seus ruivos cabelos para trás.

"E por que supõe que eu aceitaria um pacto com você?", perguntou a Guardiã do Tempo com voz rouca.

"Porque sua amiguinha Hotaru já o fez e porque suas outras amigas, Haruka e Michiru, logo o farão, se já não o fizeram", não deixou de sorrir confiante do que dizia. "Ademais, posso oferecer algo que estou certa de que não irá rechaçar".

Setsuna se colocou de pé, afastando-se daquela mulher de cabelos flamejantes.

"NÃO! Nunca trairei a Rainha Serenity, me ouviu?", exclamou, fazendo aparecer mentalmente o Bastão do Tempo, com forma de chave, em sua mão.

Beryl também se pôs de pé e aproximou-se suavemente à ela. Levava um vestido justo, comprido, amplamente decotado. Segurou a mão que sustentava o Bastão do Tempo e a acariciou levemente. Levantou a outra mão e em um elegante gesto fez aparecer uma bola de cristal.

"Estou certa de que isto irá faze-la mudar de opinião", sussurrou, levantando a bola à Setsuna.

A princesa de Plutão pode ver que, da bola, emanava uma energia maligna que o envolvia por inteiro, fazendo aparecer em seu interior uma imagem. Se tratava da figura de um homem, jovem, alto, moreno, de olhos azuis, ombros largos... Endimion. Setsuna conteve a respiração. Se aquela mulher tivesse feito algo contra o príncipe da Terra...

"Endimion pode ser teu se quiser. Não adianta negar, sei que está apaixonada por ele...", lhe acariciou o braço, subindo a mão até seu ombro. "Sei que sonha com ele, que deseja seu abraço...", acercou o rosto ao de Setsuna e lhe sussurrou ao ouvido. "O amas, querida... Mas a princesa da Lua impede que esteja com ele. Se ela não estivesse entre vocês, você poderia ficar com Endimion."

Setsuna conteve a respiração, o coração parecia que ia sair pelo peito a qualquer momento. O Bastão do Tempo desapareceu de sua mão.

"Eu não...", balbuciou, com o olhar fixo nas penetrantes pupilas de Beryl, que agora estavam a centímetros da sua.

"Usagi é a única que te impede de estar com a pessoa que ama. É uma criança mimada, egoísta... sempre consegue o que deseja. Diferente de você... O que você tem em troca depois de tantos anos de serviço leal ao Milênio de Prata? Um posto no lugar mais longiq uo do Reino, sozinha. Pense nisso, Setsuna. Propus a Hotaru que se juntasse a mim e ela aceitou. Una-se por uma vez na vida do lado vencedor, querida. E seja você que fique com o protagonista da história, não ela."

Beryl se separou lentamente dela, com o olhar fixo, atravessando-a, chegando em seus pensamentos mais íntimos que guardava em seu coração. Setsuna se sentiu vulnerável, desnuda, debaixo daquele olhar de ave de rapina. A soberana do Reino Obscuro esboçou uma reverencia perante ela.

"Promete ao menos pensar na minha proposta", sussurrou, afastando-se imperceptivelmente dela.

Setsuna assentiu, notando que as pernas lhe falhavam. Ordenou mentalmente que aparecesse um sofá detrás de si e se deixou cair, sentindo que as forças a abandonavam. Beryl se despediu e desapareceu da mesma forma em que havia aparecido. A Princesa de Plutão escondeu o rosto entre as mãos, acariciando suas têmporas de forma cansada. Não podia negar que a oferta de Beryl era tentadora.


Fazia semanas que não se aproximava do Cristal de Prata. As pequenas guerras nos planetas exteriores não eram motivo suficiente para temer. Mas... Fazia poucos minutos que havia descoberto que Hotaru, a princesa de Saturno, uma de suas Guerreiras, havia matado a Titan desobedecendo uma ordem direta sua. Aquele ato de rebeldia supunha uma mudança inesperada que fez com que temesse por seu Reino.

Se aproximou a urna de cristal em que mantinha a jóia mais preciosa do Milênio de Prata.

Pôs as mãos sobre a urna e olhou aquela pedra que continua todas as cores. O Cristal de Prata brilhava com força, com uma luz arco íris de inigualável beleza. Era uma pedra magica, capaz de realizar milagres, mas que era apenas utilizada em ocasiões especiais. A ultima vez que o usou foi para recompensar Lady Vênus pelo restabelecimento da paz no Milênio de Prata. Vênus havia pedido beleza e o Cristal o havia concedido. Lastima que tenha se casado com aquele pobre infeliz Volcano. Vênus seguia sendo a mesma narcisista de sempre e Volcano cada dia se sentia mais e mais humilhado.

Logo percebeu um detalhe que havia lhe passado por alto. A Luz do Cristal de Prata não tinha a mesma intensidade de sempre, aquela força cegante que fazia com que evitasse olhar de forma involuntária. Sua luz era intermitente, de grande força, porém inferior do que o normal. Uma pinçada de terror se apossou de seu coração. Apareceu em sua mente a morte de Titan, a morte das Sailors, o sangue e as ruinas do Palácio... O cadáver de sua própria filha. O Cristal de Prata estava dando um aviso! Por acaso era Hotaru a mão que iria destruir o Milênio de Prata² As lágrimas surgiram em seus olhos ao pensar em um confronto contra aquela pequena jovem de aspecto inocente e olhar cândido.


Michiru estava no balcão da habitação que dividia com Haruka no Palácio de Urano. A felicidade que exalava de cada poro de sua pele contrastava com o ambiente enraivecido do planeta.

O silencio dominava tudo, como se aquela situação fosse o preludio de uma mudança importante. Mas pra ela não importava se naquela mesma manhã fosse o fim do mundo. Morreria satisfeita, com um sorriso nos lábios, abraçada com a pessoa que a impulsionava a viver. Suspirou contendo a alegria que a transbordava, sentindo-se completa. Escutou um leve ruído detrás de si e viu como Haruka entrava na habitação.

"Me despedi de minha mãe", murmurou a guerreira dos ventos com voz rouca.

Michiru assentiu com rosto sério, caminhando à loira princesa de Urano. Levantou a mão e acariciou seu rosto.

"Explicou tudo?", perguntou brincando com as loiras mechas de cabelos bagunçados de sua amada.

"Não. Não é necessário que saiba", constestou Haruka deixando-se levar. "Está certa de que esta é a melhor opção?"

Michiru levantou a vista e segurou suas mãos.

"Ainda está em tempo de permanecer aqui, Haruka", respondeu forçadamente. Se Haruka ficasse ali, ela também ficaria... Mas também sabia que quando Haruka se decidia não voltava atrás.

"Disso nada, amor. 'Anata ga ireba'", enfatizou a loira princesa, abraçando à jovem a sua frente.

Michiru riu a seu pesar. 'Anata ga ireba' era o ultimo verso de uma canção que compôs pensando em Haruka Gostava de toca-la no violino e recordar os versos, que não eram nada além de uma velada declaração de amor. Com aquele ultimo verso, Michiru dizia a Haruka que passaria por qualquer coisa se estivessem juntas. A jovem guerreira se emocionou quando escutou a doce voz de Michiru recitando aqueles versos, cantando de forma sobrenatural o que sentia por ela.

A princesa de Netuno se colocou nas pontas dos pés e depositou um cálido beijo em seus lábios. Haruka sorriu abraçando-a com força, convencida de que valia a pena arriscar-se se isso fosse o necessário pra estar com a pessoa que amava.

Sairam da habitação de mãos dadas. Se dirigiram a estação espacial onde uma nave de porte menor as esperava. Haruka se colocou diante do painel de controle da nave e deu a partida, marcando o rumo e o ponto de destino no mapa: Saturno.