Capítulo 25 – Família.
Rin estava aninhada aos meus braços. Na realidade estava jogada em cima de mim como uma criança, completamente esparramada. E essa era definitivamente a palavra certa: esparramada. Ela literalmente havia se esparramado em minha vida. Jogando-se em desordem, atirando-se sem cautela nenhuma. E eu, tão apaixonado pelo caos que ela representava joguei-me em igualdade sem pensar em quão profundo era o poço que me atirava. Sem qualquer receio.
Havia viajado um dia inteiro só para estar ali, deitado ao seu lado, naquela cama que não me pertencia, inserido em condições que nunca imaginara ser conivente. Tudo porque não era capaz de tirá-la da minha mente, coração e alma.
Rin era aquela chuva de raios no meio do verão. Caótica, porém necessária. E eu não cansava de admirar, mesmo que tudo ruísse, mesmo que tudo viesse abaixo. Estava hipnotizado por aquela dança perigosa. Por aquela mulher tão volátil.
Vendo-a tão serena, agarrada ao meu peito com a boca semi-aberta, os olhos cerrados em sono profundo e a perna direita jogada por sobre a minha, não podia desejar mais nada além daquilo para o resto de meus dias.
...
Rin abriu os olhos vagarosamente. Afagou-se melhor em mim antes de me encarar com aqueles enormes olhos castanhos. Subiu um pouco com o corpo a fim de ficar com o rosto próximo ao meu. Ela tinha um sorriso sincero no canto dos lábios.
-Por que não me contou que estava vindo? –ela disse baixinho passando a mão carinhosamente pelos meus cabelos brancos.
-Porque não fazia parte do plano você saber.
-Foi a melhor surpresa que tive nos últimos tempos. –ela sorriu novamente, com um brilho nos olhos que eu tanto amava ver. –Estava com tantas saudades suas...
-Eu também estava. –disse mal reconhecendo minhas palavras que saíram de forma natural. –Espero não tê-la machucado.
-Não. –ela balançou a cabeça em negativa. –Já faz um tempo que me sinto melhor. Apesar do meu parto ter sido difícil, reagi bem a recuperação. Não me feriu, muito pelo contrário, estava ansiosa por esse momento, apesar... –ela hesitou de repente e aquilo me fez cerrar o cenho em curiosidade.
-Do quê? –insisti.
-De não parecer à mesma que conheceu. –ela disse de maneira entristecida. Não imaginava que aquilo a incomodava daquela maneira. Mesmo que reclamasse vez ou outra daquela condição, a mim nunca havia parecido tão demasiadamente sério. –Ainda estou tentando voltar ao meu corpo de antes.
-Não está tão diferente assim do quanto pensa. Fora o seu cabelo...
-Você não está gostando que eu o mantenha mais curto, não é? –ela riu brevemente arqueando uma sobrancelha. –Mas acredite cortá-lo foi libertador e é muito mais prático para cuidar de Katsuo. Com o meu cabelo estando nos ombros, às vezes, ele agarra uma mecha com tanta força que parece que vai me deixar careca! Imagina se eu mantivesse meu cabelo na cintura como antes, ele iria realmente me escalpelar.
-Não disse que estava ruim, disse que é o que a diferencia de antes. –lhe disse categórico.
-Mas se fosse escolher...?
-Escolheria o que seria melhor para você.
-Acho que você escolheria longo. –ela me encarou irônica como costumava a fazer sempre que não acreditava em minhas proposições.
Eu queria ter lhe dito para parar com aquela bobagem de cabelo e corpo, de se assemelhar a um passado que não nos pertencia mais. Pois estava deslumbrante como sempre esteve e que parecia impossível o tempo ser capaz de apagar aquela beleza tão arrebatadora. Dizer ainda que ela era perfeita e inteiramente completa para mim. Que atendia aos meus anseios como nenhuma outra mulher.
Mas não pude rebater aquela insinuação, pois logo a babá eletrônica nos avisou que Katsuo chorava em seu quarto. E depois de tantos meses de fotos e vídeos, eu finalmente poderia contemplá-lo.
...
Rin o trouxe até mim em seu colo.
Katsuo estava tão grande que mesmo o acompanhando virtualmente não poderia imaginar o quanto tinha crescido. Com os olhos abertos, completamente desperto, veio vindo nos braços da mãe analisando todo o ambiente. Usava uma roupa dentre tantas compradas por mim. Eu reconheci assim que vi, e fiquei satisfeito em saber que Rin o vestia com meus presentes.
-Olha o papai, filho. Papai chegou. –Rin disse a Katsuo com delicada emoção que estranhamente havia fixado os olhos em mim com decisão.
Aqueles olhos âmbar eram tão penetrantes. Katsuo parecia me conhecer de várias eras. Era como se sempre tivesse pertencido a mim, ou quem sabe fosse uma parte do meu corpo que precisava escapar e transmutar-se em outro ser. E mesmo que fosse uma combinação entre mim e Rin, pouco se via de Rin nele. E o pouco que ele tinha dela desejava em segredo que não fosse tão altruísta como ela sempre foi.
Não hesitei em pegá-lo no colo. Seu corpo bem mais rígido do que antes também me pegou de surpresa. Seus olhos úmidos, de um choro manhoso, de repente pousaram nos meus, e involuntariamente deixei um sorriso escapar no canto dos lábios.
O abracei e acariciei suas pequeninas costas delicadas. E surpreendentemente ele se aninhou a mim em perfeita sintonia. O calor do seu corpo, o toque, o cheiro, tudo aquilo preencheu o meu coração com ardor. Um torpor que fazia tempo que não sentia.
-Ainda não consigo acreditar que faz todo esse tempo que me afastou de você e do meu filho. –falei de maneira incisiva. Aquela história já estava me cansando, e sabia, olhando bem no fundo dos olhos de Rin, que ela também jazia aborrecida.
-Não comece com isso, por favor... –ela deu um suspiro longo demonstrando seu cansaço iminente.
-Você acha mesmo que isso foi justo comigo?
-Não, não acho. –ela disse com a voz segura, e segura até demais para o meu gosto. – Mas as coisas aconteceram. E eu lamento por ter sido da forma que foram, mas elas simplesmente aconteceram assim e eu não posso voltar atrás. Não posso fingir que tudo mudou porque não mudou. Não foram só os meus erros, foram os nossos erros. As nossas escolhas. Mas agora estamos aqui e podemos aproveitar isso da melhor forma possível ou transformar isso num mártir. Eu prefiro a primeira opção e espero que você também.
Eu engoli a seco aquelas palavras. Ainda que contrariado e não concordando preferi cerrar o cenho e me manter calado por alguns segundos. Eu entendia o que Rin dizia, os seus sentimentos, o motivo de ter tomado aquela decisão. Mas não conseguia aceitar. Engolir o fato de que estava há quilômetros de distância, perdendo o crescimento do meu filho, os meus dias com ela por causa de Kohaku... Aquilo embrulhava o estômago.
-Só está sendo egoísta, desde o início, desde sempre. Só está pensando nos seus interesses, nas suas coisas. Em ser leal a Kohaku. Porque se sente culpada por ele.
-Por que é então que não larga seus negócios? Por que não deixa nas mãos de alguém confiável e se muda por um tempo para cá? Tipo férias! As férias que nunca teve na vida! –ela rebateu incisiva cruzando os braços com indignação. –Por que eu é que tenho que fazer o que você quer? Por que tem que ser mais confortável para você? Você poderia simplesmente transferir a sede dos seus negócios para cá, pelo menos por um tempo. Mas não! Você também tem as suas coisas, também quer fazer do seu jeito. E eu não o impeço disso, eu não o cobro por isso. –sua voz estava quase suplicante, cheia de emoção. –Eu o deixo ser e fazer o que quer porque é exatamente esse o motivo de eu estar com você. Porque a nossa liberdade é a única, absolutamente a única coisa que nos prende.
Katsuo se agitou um pouco incomodado em meus braços, provavelmente aquela conversa tão acalorada não o estava fascinando. Eu não o culpava, pois os rumos que as coisas tomaram realmente estavam longe do meu agrado. Ter um relacionamento com Rin não era mesmo para amadores. Era como entrar num elevador, mas um especial, que ia do vigésimo andar ao térreo em milésimos de segundos. Baques atrás de baques.
Por que eu insistentemente a escolhia?
Karma.
Era isso...
Mas Rin tinha razão. E muita razão sobre o nosso egocentrismo tão explícito. Não havia nada de nobre naquilo, e nós dois sabíamos mais do que ninguém. Eu estava longe de Katsuo e dela, por culpa exclusivamente do meu orgulho. O meu norte, o meu sentimento mais intenso e arrebatador.
-Isso já estava fazendo parte dos meus planos. –disse ajeitando melhor Katsuo nos meus braços que tentava se alocar, achar a melhor posição possível.
-O quê exatamente? –ela apertou os olhos ainda sem entender.
-De vir para São Francisco. Em ficar na cidade pelo tempo que for necessário.
-O quê? –os olhos dela de repente pareceram se iluminar, ainda que incrédulos, um fio de esperança parecia nascer no canto da íris amendoada. –Diz morar aqui?
-Logicamente não nesse apartamento. Mas, perto. –a fitei seriamente. –Tenho algumas coisas a resolver com Joshua, iria contar a você a respeito amanhã, provavelmente no jantar, mas como acabamos por tocar no assunto, achei que poderia ser apropriado que soubesse de uma vez das minhas pretensões.
-Você realmente está falando sério? –ela balbuciou completamente surpresa.
-Acho que eu não sou inclinado a piadas.
Rin ficou parada por um tempo, completamente inerte, tentando quem sabe digerir aquela informação dita por mim com tamanha naturalidade. Mas logo cortou o silêncio do cômodo tentando não parecer tão animada. O que indiscutivelmente estava.
-Seria maravilhoso. –ela sorriu entre dentes, um sorriso bobo emocionado. E toda a tensão do momento parecia ter se esvaído como fumaça. O elevador estava atuando.
-Não teve um dia em que eu não pensasse em voltar. –disse com firmeza a encarando seguramente. –Mas antes eu precisava me organizar.
-Por que não me contou sobre isso? –ela indagou com a voz um pouco esmorecida, talvez se sentindo culpada por ter sido tão impetuosa comigo instantes atrás.
-Ainda tinha esperanças de que reconsiderasse.
-Não. –ela sorriu voltando a ironia de antes, e toda a condescendência esvaiu como se nunca tivesse existido. –Tinha esperanças de que eu cedesse primeiro... Seu orgulho é realmente impressionante.
-Eu nunca o escondi.
-Ainda acha que isso tudo é um jogo? –ela arqueou uma sobrancelha um pouco frustrada. –Não sou como Kagura, Sesshoumaru.
-Não, não é.
-Mas... –ela sorriu brevemente caminhando em minha direção, pegou Katsuo dos meus braços que se agitou para ela assim que a viu se aproximar. Jamais teria conseguido o conter de se jogar a ela em devoção. –Estou feliz que tenha decidido me apoiar verdadeiramente, mesmo que de maneira tardia, a minha decisão de ficar em São Francisco... Eu realmente estou muito feliz que tenha tomado essa atitude.
-Você não me deu escolhas. –cerrei o cenho aborrecido. –Sinto-me derrotado.
-Não está perdendo, Sesshoumaru. –ela balançou a cabeça em negativa enquanto acalentava Katsuo.
E eu soube que ela tinha razão.
...
Logo que amanheceu comecei a me preparar. Precisava sair e encontrar Joshua o quanto antes. Havia coisas pendentes das quais necessitava urgentemente resolver. E mais ainda, não queria demorar com ele, pois estava ansioso para mostrar o novo apartamento para Rin e Katsuo. Mesmo que não fosse o nosso verdadeiro lar, seria um começo. Um início que já deveria ter se dado há tempos.
Tive o devido trabalho de escolher um local próximo a Kohaku. Por mais que tivesse minhas objeções quanto a ele, sabia que Rin iria protestar caso o local não fosse perto ao do filho do senhor Fujitaka. Ela ficaria grata quando conhecesse, eu imaginava.
Ajeitava a gola da camisa de linho enquanto procurava na mala uma gravata apropriada para ocasião. Puxei com cuidado a gravata azul marinho que surpreendentemente veio trazendo outra consigo no tom carmim.
Fitei aquela gravata por alguns instantes. Quando havia a jogado dentro da mala, numa arrumação frenética antes de embarcar no avião rumo a São Francisco, não havia me dado conta do seu significado.
Kagura havia me dado essa gravata de presente há poucos meses atrás. Tinha escolhido a dedo numa de suas lojas masculinas favoritas. Entregou-me no meu quarto, enquanto usava uma lingerie sensual. Lembrei-me daquela noite com precisão, e embora quisesse afastar aqueles pensamentos, a existência dela, parecia impossível, ainda mais nos últimos tempos e diante de todas as circunstâncias que tinham ocorrido.
Quem sabe não fora naquela noite que nosso filho havia sido concebido? Outro filho tomado de meus braços e mandado para longe de mim. Por que é que aquelas mulheres insistiam em fazer aquilo comigo? Qual era a parte engraçada da piada ou da vingança que não conseguia enxergar? Tive tanta raiva dela por fazer aquilo, e eu sabia que era exatamente isso que ela queria. Kagura queria me ensandecer, deixar meus pensamentos em volta dela. Ela sabia bem como eu funcionava. Depois de anos a fio caminhando ao meu lado não podia esperar menos dela.
-Já vai sair? –a voz de Rin soou as minhas costas. Ela estava deitada na cama, mas acabou erguendo o corpo em monotonia apática, sentando-se calmamente enquanto bocejava e esfregava os olhos sonolentos.
-Preciso encontrar Joshua. –disse sem voltar meus olhos para ela.
-Acabou de chegar de viagem, por que não toma primeiro o café conosco antes de partir? Esse tal de Joshua vai entender...
-Quanto mais rápido eu for, mais cedo voltarei. Podemos sair à tarde. –disse em decisão enquanto voltava a me arrumar deixando a gravata carmim de lado e pegando a azul marinho de antes.
-Prefiro mesmo a azul. –ela disse antes de deitar-se novamente e cerrar os olhos de maneira despreocupada.
E eu podia jurar que ela sabia sobre a gravata carmim...
...
Encontrei Joshua em seu escritório sofisticado no coração de São Francisco.
Ele não demorou a me atender assim que descobriu que eu pisara no ambiente. Pulou todas as outras pessoas que esperavam por sua atenção e mandou-me entrar sem mais delongas em sua sala particular. Buscou-me pessoalmente com um sorriso no canto dos lábios na saleta de espera dominada por um tom particular cinza.
-Sesshoumaru! Venha, venha! –ele me chamou de maneira animada.
Quando adiantei os passos pude sentir em minhas costas os olhares de revolta que sem disfarces demonstraram uma insatisfação iminente por eu ter sido atendido com tamanho zelo e cuidado por aquele homem.
Fechei a porta atrás de mim assim que entrei no recinto. Um lugar altamente bem cuidado, não há palavra melhor do que impecável para descrever aquele ambiente. Decorado por tons pastéis, cinza e marrom a sala representava um misto futurístico com retoques em vintage desenhados em objetos nada característicos, como por exemplo, uma vitrola no canto leste que era iluminada por um lustre moderno.
A pós-modernidade e suas extravagâncias... Aquela decoração certamente ganharia o coração de Rin e Kagura ao mesmo tempo de maneira estranhamente peculiar. Foi impossível não as ter em mente diante de um antagonismo tão gritante.
Joshua apontou a cadeira de couro à frente de sua mesa para que eu sentasse. Atendi ao seu comando enquanto o próprio ligava para sua secretaria a fim de que ela pudesse nos proporcionar iguarias locais da qual não possuía qualquer interesse.
-Não o esperava aqui tão cedo. –Joshua falou de maneira despretensiosa enquanto sentava-se a cadeira atrás da mesa. –Achei que quisesse descansar depois da longa viagem.
-Há coisas mais importantes para resolver. –disse seriamente o fitando nos olhos.
-Sempre incisivo! –Joshua deixou uma risadinha escapar enquanto ajeitava os papéis a sua frente. –Por sorte eu me adiantei e separei os papéis para que pudesse analisar com calma a proposta.
Peguei a papelada seguramente e segundos depois a secretária nos interrompeu entrando na sala trazendo consigo uma pequena mesa de rodinhas contendo travessas com bolo, pães, e garrafas térmicas que eu imaginava ser café, chá e leite.
Era uma mulher franzina de alta estatura. Cabelos loiros naturais presos num rabo de cavalo no topo da cabeça, a franja singela decorava os olhos castanhos claros. Montada em perfeição no uniforme que acentuava o seu corpo de poucas curvas ela se movimentou com rapidez se colocando na frente da porta.
-Mais alguma coisa, senhor Carter? –ela indagou docemente com um sorriso no canto dos lábios.
-Não, minha querida, pode nos deixar. Obrigado.
A secretária assentiu prontamente antes de abandonar o local com leveza e suavidade. Joshua se reergueu novamente e me chamou com a mão para que eu me aproximasse da mesa recheada de comida.
-Venha, tome um café, Sesshoumaru. Tenho certeza que ainda não fez nenhuma refeição hoje. É um homem duro na queda, mas não conseguirá se manter assim sem colocar nada no estômago!
-Eu aceito a sua gentileza, apesar de não ter o costume de fazer refeições durante a manhã. –disse a ele de forma educada. Peguei a garrafa térmica que continha café e me servi calmamente.
-Eu normalmente não consigo participar desse momento com a minha família, em geral, tomo o meu café da manhã aqui no escritório na companhia de alguma alma que queira fechar algum negócio comigo. –ele deu uma risadinha cansada enquanto misturava o leite ao café forte. Mas logo voltou a postura animada e amistosa de antes. –Mas devo admitir que dessa vez Claire, minha secretária, caprichou na arrumação dessa mesa. Ela deve ter gostado de você.
-Se há algo da qual não quero mais é uma mulher gostando de mim.
-Eu o compreendo. –Joshua riu brevemente dando uma golada no seu café com leite fumegante. Teve que assoprar duas vezes antes de fazer o mesmo movimento anterior. –Ainda com problemas?
-Difícil é lembrar quando não me trouxeram problemas. –disse de maneira sisuda, relembrando involuntariamente todas as artimanhas de minhas companheiras.
-Quem mandou se relacionar com fogo e água? –ele disse zombeteiro. –Parece serem mulheres de personalidades muito intensas. Mas é difícil imaginá-lo com alguma outra que não fosse tão audaz ou ambiciosa quanto você, meu caro.
-Que seja... –esbravejei antes de finalmente experimentar o café amargo que desceu maravilhosamente bem apesar do assunto nada agradável.
-Estou feliz que tenha decidido vir para cá, montar um escritório comigo. –Joshua mudou o rumo da conversa quando percebeu meu desconforto em falar sobre aquele assunto tão particular. Lembrar que Kagura estava pelo mundo me fazendo de idiota fazia meu sangue ferver.
-Sabe que não é para sempre. –eu o interceptei de maneira segura antes
-Sim, você já deixou isso claro. –ele assentiu serenamente. –Mas ainda assim estou contente em poder contar com a sua pessoa, em poder falar pessoalmente com você. Acho que será mais promissor. Confesso que estava um pouco receoso quando quis colocar outra pessoa para tocar o escritório daqui...
-Hiroshi é de extrema confiança. –o interrompi mais uma vez com a voz firme. –Sabe que ele assumirá posteriormente. Isso só foi postergado.
-E eu não tenho nenhuma objeção quanto a isso! –Joshua assentiu passando uma geléia roxa em um pedaço de pão rústico. –Mas para iniciar esse trabalho não consigo imaginar pessoa melhor do que você! Ora, o garoto é uma jóia rara mesmo. Já lhe disse isso, Sesshoumaru. Mas ele não tem o que você tem: a experiência!
-Só está me bajulando. –eu sorri irônico balançando a cabeça em negativa prepotente.
-Deus sabe que não! –Joshua apontou para o teto como quem tenta expressar que indica o divino. –E Deus sabe mais ainda o quanto fiquei aliviado em descobrir que planejava ficar pela cidade.
-Sabe que não foi por isso que resolvi ficar.
-Sei que foi pelo seu filho. –ele abocanhou o pedaço de pão e mesmo com a boca cheia não se conteve em prosseguir. –Santificado seja ele!
-Hum! Você é um homem peculiar, Joshua...
-Não é só você que pode ser sincero e esbravejar, Sesshoumaru. –ele riu novamente antes de me dar alguns tapinhas no ombro de forma cordial. –Gosto de você, você sabe. Estou feliz que esteja aqui, de verdade.
-E eu, estranhamente, sinto o mesmo.
...
Passei a manhã com Joshua lendo a papelada, analisando clinicamente toda e qualquer possível artimanha ou pegadinha que poderia ter nas entrelinhas do contrato de parceria que fecharíamos. Eu não costumava confiar nas pessoas, e ele não se ofendeu nas inúmeras vezes que o questionei. Na realidade, Joshua parecia se divertir com aquelas minhas perguntas, às vezes até incisivas de mais.
-Gosto do seu estilo, Sesshoumaru! Definitivamente, eu gosto. –disse ele entre sorrisos em meio a um argumento e outro.
Joshua era sem sombra de dúvidas uma das inúmeras raposas do mundo dos negócios. Mesmo vestido em pele de cordeiro não conseguia me ludibriar. Acostumado do jeito que era dificilmente alguém seria capaz de me passar para trás. De meus olhos clínicos nenhuma vírgula passava despercebida.
Acabou sendo um dia mais cheio do que eu havia previsto. Participamos de algumas reuniões ao longo da manhã. Almoçamos com os outros sócios em um dos restaurantes mais requintados da cidade e, finalmente, quando o sol da Califórnia começava a ficar mais ameno estava livre enfim daquele mundo que eu tanto amava.
Poderia voltar para Rin.
E aquela ideia era quase tão entorpecente quanto o álcool. Finalmente estávamos próximos e acessíveis. Aquilo era o que chamavam de felicidade?
-Sesshoumaru! –Joshua me chamou enquanto apoiava sua mão em meu ombro esquerdo. Eu já estava prestes a partir, mas com aquele toque fui interceptado de imediato.
-Sim?
-Jante conosco no Sábado. Será uma honra receber a sua família em minha casa.
Família...
Aquela palavra me pegou de surpresa. Mal pude responder de imediato, o que de certo não é uma norma comum na etiqueta. E eu, o homem das respostas rápidas, sempre sem titubear, daquela vez fiquei inerte diante da magnitude daquela palavra.
Família... Quando tinha sido a última vez?
Já havia passado tantos anos mergulhado na minha própria escuridão que soou quase inacreditável que uma pessoa como eu construíra, mesmo que sem qualquer pretensão, uma família. Ainda que não fosse nos moldes convencionais e tradicionais da palavra, era exatamente aquilo que eu tinha.
Eu tinha para quem voltar e por quem voltar.
Uma epifania elétrica dominou o meu cérebro que obviamente só não derreteu porque era uma constatação ridiculamente deliciosa e que beirava a mais das mais obviedades.
Eu tinha mesmo uma família...
-E então? –Joshua indagou novamente com um semblante engraçado de quem não está entendendo o porquê do silêncio.
-Claro. –eu assenti saindo do transe. –Iremos.
...
Adentrei o apartamento de Kohaku quase no final da tarde. O céu tingido de tons alaranjados anunciava a noite próxima que estava longe de ser fria. O vento quente da Califórnia parecia querer aquecer de qualquer jeito o meu coração que estava longe de ser o mesmo de antes.
A sala estava vazia e tampouco ouvia ruídos por todo o apartamento. Aquele silêncio me deixou intrigado, dei alguns passos para averiguar o que estava ocorrendo quando fui interceptado por uma pequena foto dentro de um porta-retrato de madeira rústica exposto para quem quisesse ver no criado mudo ao lado do sofá.
Franzi o cenho ao ver aquela cena.
Rin estava sentada no colo de Kohaku, com os braços envoltos ao seu pescoço dando-lhe um beijo no rosto com doçura explícita. E ele, claro, com um sorriso largo nos lábios, apoiando a mão direita na cintura dela e a esquerda na alça da cadeira de rodas motorizada. Ela estava com os cabelos longos na foto e com a barriga ainda imperceptível o que me fez deduzir que foi logo no princípio, quando se mudaram para São Francisco. Ela estava deslumbrante e com uma expressão tão carinhosa que fez brotar um descontentamento em meu âmago.
-Humpf... –resmunguei em desaprovação. Meu estômago embrulhou.
-Sesshoumaru. –a voz masculina que invocava meu nome irrompeu o cômodo nas minhas costas.
Não precisava me virar para saber de quem era a voz, mas eu o fiz mesmo assim por força do hábito. Movi-me quase que de imediato e pude contemplar a presença material daquele que me causava tantos sentimentos confusos.
Kohaku estava há alguns passos de mim, há uma distância ridícula que fez com que eu me perguntasse como não havia notado a sua presença anteriormente. Possivelmente porque não fora capaz de tirar os olhos de cima daquele retrato tão infeliz que me causou severas cãibras em meu ego e acima de tudo que aguçou meu ciúme exasperado por aquela mulher tão indomável.
Ele viu meu desconforto, clarividente sabia que era por conta da fotografia repousada despretensiosamente, mas não tocou no assunto. Seus olhos foram da foto para mim em milésimos de segundo, qualquer um poderia não ter percebido, contudo meus olhos eram clínicos de mais para deixar passar despercebida tal atitude.
-Que bom que conseguiu vir antes do que Rin havia previsto. –ele disse seriamente movendo a cadeira de rodas um pouco mais em minha direção.
Até parece... Pensei. Se havia algo que certamente não era bom para Kohaku era a minha presença.
Difícil dizer o que sentia por aquele homem. O olhando tão miserável naquela cadeira de rodas podia até dizer que me sensibilizava com sua condição. Mas não seria verdade. Por maior que fosse o infortúnio dele, não era capaz de sentir qualquer sentimento de piedade. Tinha tanto rancor dele, da maneira que conseguia ganhar Rin, mesmo quando não queria. Meu sangue fervia toda vez que nos encontrávamos porque quando nossos olhos se entrecruzavam, eu sabia, vendo bem fundo, que ele achava que um dia iria me vencer. E eu via tanta verdade, tanta confiança... Curiosamente aquela sensação me assombrava. Pois, e se ele tivesse razão?
Reparei com mais detalhes na decoração da sala. E vários outros porta retratos surgiram em meu campo de visão. Espalhados por todo o ambiente havia fotos de Rin e Kohaku nas diversas fases da vida. De crianças à maturidade. Quantos anos aquilo não se estendia? Por mais quantos se estenderiam?
A minha cara não podia estar mais assustadora naquele momento, presumia.
-Onde está Rin? –indaguei colocando a mão direita no bolso de forma impaciente.
-Está no quarto de Katsuo, ela foi colocá-lo para dormir, mas acabou cochilando na cadeira ao lado do berço. Tem sido cansativo para ela.
-Realmente não deve ser fácil cuidar de duas crianças. –eu lhe disse incisivo dando uma alfinetada como de praxe. Quem eu queria enganar? Estava morto de ciúmes.
-Quem está agindo feito criança é você. –Kohaku rebateu calmamente balançando a cabeça em negativa. –Eu também não gosto de você, Sesshoumaru, se quer saber.
Franzi o cenho sem me deixar intimidar.
-Se isso tudo é pelas fotos eu as tiro, sem problemas. –ele prosseguiu ao notar meu silêncio persistente. –A princípio nem fui eu quem as colocou, foi Rin. Não se trata mais de uma disputa, Sesshoumaru. Se for o que você quer ouvir, eu digo: você ganhou. Nunca conheci uma pessoa com tanta fragilidade no ego como você. Rin vai ter dor nas costas de tanto massagear esse seu egocentrismo.
-Está querendo mesmo me passar um sermão? –arquei a sobrancelha em deboche. –Quer dizer então que desistiu de Rin? É nisso que você quer que eu acredite?
Ele se calou de imediato e ajeitou-se na cadeira de rodas como se estivesse muito incomodado com a minha presença. Dei as costas novamente para ele e segui em direção ao quarto de Katsuo calmamente. Senti os olhos descontentes de Kohaku me agourando, sua respiração saiu alta como quem diz estar de saco cheio. Ele fez de propósito para que eu ouvisse.
-Você é um homem muito arrogante, Sesshoumaru.
O ignorei. Não perderia mais um minuto em sua presença desagradável.
...
Chegando a porta entreaberta do quarto do meu filho, vi Rin pela pequena fresta que jazia sentada de maneira relaxada na cadeira de balanço. Seus olhos estavam cerrados, a respiração calma de quem se deliciava com um sono profundo. As mãos unidas em cima do peito em devoção.
Tão serena... Tão tranquila... Olhando-a assim quem poderia dizer que era um furacão em corpo de mulher? Eu gostava tanto de vê-la daquele jeito. Só de fitá-la acabei por esmorecer, e toda aquela raiva e ciúmes que sentira segundos atrás parecia ter morrido e ser devidamente enterrado em algum canto obscuro do meu ser.
Sabia que era infantilidade da minha parte. Que Kohaku estava certo. Mas, eu não conseguia evitar. Tudo que envolvia Rin acabava me motivando a fazer e dizer as mais infundadas coisas.
Entrei o mais suave que podia, dei uma olhada rápida em Katsuo antes de balançá-la suavemente a despertando do seu sono pesado.
-Sesshoumaru... –ela sussurrou esfregando os olhos ajeitando-se na cadeira. –Você demorou. Que horas tem?
-Venha comigo. Há algo que quero que veja.
-Agora? –ela pareceu surpresa, mas prosseguiu ainda com a voz baixa. –Mas e quanto a Katsuo? Eu o coloquei para dormir. Achei que já não sairíamos mais.
-Katsuo poderá vir outra hora. Peça para a babá dar uma olhada nele. Não iremos demorar.
-Para onde vai me levar? –ela sorriu um tanto curiosa. –O que está acontecendo?
-Vai descobrir.
...
Guiei Rin até o lado de fora do apartamento. Ela estava em tremenda expectativa, analisando todo o ambiente pela qual passava em excitação. Segurou a minha mão com delicadeza, e eu não me contive a entrelaçar os meus dedos com o dela. Era tão estranho fazê-lo. Não tinha esse costume de dar as mãos, de ser tão zeloso com alguém a esse ponto. E principalmente porque odiava que me vissem daquela maneira.
Mas naqueles instantes eu não me importei com os olhares das outras pessoas, ainda que nossa diferença de idade fosse perceptível, tentei não pensar naquilo, no abismo que eu imaginava existir entre nós. Ao invés disso, de achar o quanto eu devia estar parecendo ridículo, apreciei o momento. Sentir sua pele roçar contra a minha soou mais importante.
Parei num súbito, de forma que ela acabou esbarrando suavemente em mim.
-O que houve? –ela indagou confusa.
-É aqui. –eu lhe disse seriamente apontando para o apartamento mais alto. –Venha.
-É o que eu estou pensando? –ela mal podia aguentar de tamanha felicidade. Não se deu ao trabalho nem mesmo de esconder o sentimento, talvez porque soubesse que seria impossível.
...
Quando abri a porta do recinto, Rin mal pode esperar por mim, entrou em solavanco, correndo pelo apartamento. Mesmo que o lugar estivesse com aquele cheiro de "guardado" aquilo não pareceu ser capaz de tirar todo o entusiasmo da minha companheira que desvendava por entre uma porta e outra um cômodo. Não havia sequer um móvel na casa. O apartamento estava devidamente vazio.
-Esse apartamento é enorme, ele é simplesmente perfeito. –Rin disse voltando correndo em minha direção, seus olhos brilhavam em alegria persistente. –Parece até mesmo que fui eu quem o projetei.
-Agora é nosso. –disse seguramente a fitando com decisão. –Será ótimo se puder decorá-lo, pois penso em estar de mudança no mês que vem. Não será para sempre que ficaremos aqui, sei que não se compara a outra, mas ao menos servirá por um tempo.
-Está brincando? –ela riu em euforia. Seus olhos estavam marejados de emoção, e aquilo me tocou. Vê-la tão sentimental fazia algo dentro de mim se acender. – Será maravilhoso fazer isso. Eu mal posso esperar para começar.
-Compre o que precisar. –dei de ombros me direcionando a janela a fim de abri-la.
-Vai cuidar pessoalmente dos negócios com Joshua? –ela indagou com indiscreta curiosidade.
-Sim. –disse calmamente enquanto recostava as costas na janela recém aberta. A brisa que entrou foi forte o suficiente para balançar com graciosidade o vestido curto que Rin usava. –As circunstâncias me obrigaram a isso.
-Será ótimo ter esse apartamento em São Francisco. Penso que quando regressarmos a sua... –ela arregalou os olhos e se corrigiu de imediato de maneira engraçada antes de eu a repreendê-la. –digo, a nossa casa, terá que vir algumas vezes aqui para acompanhar sua empreitada.
-Sim. –assenti positivamente. –Possivelmente quando Hiroshi assumir o meu papel haverá situações que eu terei que resolver pessoalmente. Não precisarei mais ficar em um hotel.
-Farei o possível para deixá-lo o mais agradável possível.
-Então trate de começar pelo nosso quarto. –sorri maliciosamente para ela.
-Sabe que eu nem estava pensando nisso? –ela sorriu irônica.
O mesmo sorriso de tempos atrás, o que me fazia sair de órbita. Aproximou-se de mim, colando seu corpo ao meu, alocando-se de forma sensual, de maneira que eu sentisse com perfeição o seu calor, o arfar de sua respiração pesada cheia de desejo. Fitei seus olhos novamente enquanto a puxava mais para mim, com uma naturalidade ardente que a fazia sempre entreabrir os lábios deliciosamente.
Não demorei a penetrar em sua boca macia e percorrer todos os cantos possíveis. Entrelacei meus dedos em seus cabelos enquanto que com a outra mão subia com ardor a sua coxa. Rin dava suspiros de delírio, o que me deixava cada vez mais excitado. Senti suas mãos desabotoando a minha camisa de linho, e quando finalmente tocou a minha pele notei o quanto já estava enlouquecido por ela.
Fui desencostando da janela, a levando comigo, ainda com nossos lábios colados em um beijo profundo.
-O que quer fazer comigo? –ela disse em sussurro envolvendo seus braços em meu pescoço. Olhando-me com aqueles olhos enormes prontos para devorar a minha alma.
-Tudo. –minha voz saiu mais urgente do que eu imaginava. E me assustei por um minuto ao perceber o quanto a desejava. O quão avassalador era aquele sentimento.
Ela riu baixinho enquanto emaranhava-se na minha gravata, me puxando mais para ela. Estava se divertindo comigo como sempre.
-Então o que está esperando? –ela disse passando a língua pelos lábios, os umedecendo para mim.
Suas costas se encontraram fatalmente contra a parede fria, e aquilo era tudo o que eu mais queria que acontecesse. Fui levantando suavemente o seu vestido, e à medida que o fazia alisava com minhas mãos o seu corpo tão perfeito. Subia e descia aumentando cada vez mais a sua expectativa e sua respiração. Percorri com os dedos da mão direita um caminho da sua barriga até a virilha que era resguardada por uma peça íntima que com certeza não tinha interesse nenhum naquele momento de ver qual era. O seu tremeluzir, o retesar de seus músculos não me fizeram hesitar. Continuei com o meu objetivo até alcançar o ponto mais íntimo do ser feminino, a toquei com delicadeza, da maneira que eu sabia o quanto ela gostava.
Rin jogou um pouco a cabeça para trás com o meu toque, e eu aproveitei para beijar-lhe o pescoço com toda a volúpia que poderia existir. Seu corpo amolecia gradativamente, sentia seus joelhos cederem a cada toque mais interno. A umidade do seu corpo despertava o que havia de mais animal em mim. Eu precisava juntar-me a ela em completa sintonia. Já não era mais capaz de me segurar, olhando o seu estado, totalmente entregue a mim, com os seios rígidos pressionados contra o meu peito completamente nu. O semblante delirante dela fez meu corpo pulsar. Mas ainda assim tive forças para o último movimento. Contornei meus lábios por sobre seu pescoço enquanto movimentava meus dedos por entre suas pernas. Parei de súbito na ponta da sua orelha e em sussurro lhe disse:
-Estava esperando você enlouquecer.
-Já conseguiu... –ela disse arfando desatando o cinto da minha calça.
E mesmo não tendo sequer um tapete em baixo de nós, escorregamos até o piso lustroso. Emergidos no breu daquela sala, a luz do poste da rua iluminou um pedaço do recinto.
...
CONTINUA...
