Ana decidiu tirar férias essa semana... Disse que Tico e Teco não estão funcionando... Assim, essa semana foi minha vez de vim postar e comentar o capítulo.
Me encontro particularmente contente com isso. Desde que começamos a dividir a batuta de SS, esse é o primeiro capítulo que escrevo todo sozinha. E eu me diverti um bocado com ele... Afinal, ele faz parte de uma... hã... surpresa que estou planejando para vocês em 2008.
Como poderão ver nesse capítulo, Harry está começando a chegar a uma conclusão... não deve demorar muito mais para que ele tome uma atitude. Ou, pelo menos, eu assim espero...
Ok, não vou me alongar muito. Divirtam-se!
Beijos,
Silver.
Capítulo
22: Erros e Conseqüências
Órion estreitou ligeiramente os olhos ao ouvir batidas na porta. Já passara há muito da hora de dormir. E ele esperara pacientemente até que todas as luzes se apagassem antes de pular da cama e postar-se diante de seu novo objeto de estudo – as sementes de flores da namorada.
Só podia ser sua mãe. Ela certamente percebera o facho da lanterna por debaixo da porta. Estava bem encrencado agora... Suspirando, ele apagou a luz e se levantou, caminhando até a porta, girando a chave na fechadura.
Para sua surpresa, contudo, quem estava do lado de fora do seu quarto era a irmã, acompanhada de perto pela amiga, Mina MacFusty.
- O que vocês estão fazendo aqui? – ele perguntou no tom mais baixo possível.
Lyncis deu um meio sorriso um tanto maligno, antes de agarrar o irmão pelo colarinho, prendendo-o pelo pescoço com uma chave de braço e começar a puxá-lo. Sem poder altear a voz ou os denunciaria, ele tentou ainda se debater, mas Lyn tinha uma maneira toda especial de conseguir o que queria...
Atrás dela, Mina seguia de braços cruzados e uma expressão preocupada no rosto.
- Você não está machucando ele?
- Não é nada a que ele não sobreviva. – a morena respondeu simplesmente.
Quando chegaram ao salão das armas, o garoto já estava começando a ficar roxo. Finalmente, Lyncis soltou-o, empurrando-o para uma das cadeiras junto às armaduras medievais que faziam parte da coleção do pai, cruzando os braços enquanto o encarava.
- Muito bem, senhor Caçador. Precisamos ter uma conversa.
- E você precisava ter quase me matado para isso? – ele perguntou, massageando o pescoço – Se queria conversar, deveria ter pedido mais cedo. Ou esperado por amanhã.
- Mais cedo a casa estava cheia demais para tratarmos corretamente do assunto que queremos discutir com você. E amanhã é tempo demais para esperar.
- Eu estou vendo a hora de você apontar uma arma para a cabeça do menino. – Mina suspirou, empurrando de leve a amiga, de modo a ficar de frente do jovem Black – Escute, Órion, o que ela quer dizer é que o assunto que temos a tratar é importante demais para outras pessoas ouvirem.
- E o que vocês querem afinal? – ele perguntou, ressabiado.
Mina e Lyncis trocaram um olhar e a escocesa tirou um pequeno objeto do bolso do roupão – uma lanterna mágica, como a que ele dera de presente a Ariadne no baile. Órion sentiu um ligeiro calafrio na espinha, como se adivinhasse o que veria a seguir.
E lá estava ela. A imagem pálida e fantasmagórica, exceto pelo fino fio de sangue que escorria do peito, onde um cravo vermelho estava cravado.
- Eu tive um certo trabalho para encontrar essa imagem. É de um pintor grego praticamente desconhecido. – Mina observou – Tive de passar em vista todos os livros de arte da sua biblioteca. Mas acabei encontrando, como pode ver.
Ele se voltou para ela, os olhos azuis brilhando, temerosos.
- Eu não quis machucar ninguém. – ele murmurou, num tom triste – Eu só queria...
- Você só queria... – Lyncis afinal se pronunciou, cruzando os braços – Esse é exatamente o ponto a que queremos chegar. O que você queria afinal com isso, Órion?
- Era a única maneira de ter acesso aos laboratórios. – ele respondeu, abaixando a cabeça – Eu precisava ter acesso a eles para fazer alguns dos meus experimentos e... Da primeira vez em que eu tentei, quase fui pego pelo inspetor. Eu precisava de alguma coisa que desviasse a atenção das pessoas para poder entrar lá... Foi por isso...
Mina deu um meio sorriso, colocando a uma mão sobre o ombro do garoto.
- Eu acho que entendo como você se sente, Órion. E creio que sua irmã também. – ela se voltou para a amiga, que também sorriu – Mas o que você fez podia ter machucado alguém.
- E no que você estava trabalhando afinal? – a morena perguntou – Você sempre conseguiu mexer com esse tipo de coisa no seu quarto, porque não...
- Eu tenho colegas de dormitório, Lyn. – ele respondeu – E acha mesmo que eles iriam se interessar em pesquisa de substâncias para exames de balística ou residual de sangue?
Mina arqueou uma sobrancelha.
- Você tem um interesse bem peculiar, Órion.
- Eu queria ajudar o tio Remus. – ele respondeu, sério – Mas agora, como é que vocês me descobriram?
Lyn deu alguns tapinhas nas costas de Mina.
- Essa mocinha aqui pretende ser detetive da Scotland Yard um dia, Órion. E decidiu fazer do seu caso o projeto pessoal de iniciação dela.
- Sério? – ele se voltou para a escocesa com os olhos brilhantes, agora, de curiosidade – Mina, você vai ser detetive? Eu pensei que você ia se casar com o Winchester. Lyn tinha dito...
- Eu não vejo porque ela não pode casar e ser detetive ao mesmo tempo, rapazinho. – Lyn apressou-se em dizer ao ver uma ligeira sombra perpassar pelo rosto da amiga – Mas agora, temos outros tópicos a discutir.
- O que mais você quer? – ele perguntou.
Lyn sorriu.
- Quando voltarmos para a Academia, você vai procurar a direção e confessar. – Lyn respondeu, aprumando-se.
Os olhos dele arregalaram-se.
- Mas... mas se eu fizer isso, vou ser expulso!
- Não, não vai. – Mina meneou a cabeça – Existe uma gradação para as faltas dos alunos. Em primeiro lugar, admoestações orais. Em seguida, advertências escritas. Suspensão e chamado dos pais. E, só em último caso, expulsão. Aliás, de acordo com os registros da escola, nenhum aluno foi expulso nos mais de cento e trinta anos da RAI.
- E eu que achava Hermione assustadora... – Lyn suspirou, antes de voltar a atenção para o irmão mais uma vez – Escute, Órion. Nós temos que assumir nossos erros. E as conseqüências deles. E você é um Black. Nós nunca nos omitimos. Nunca nos escondemos. Lembra?
Ele assentiu minimamente.
- Eu vou fazer isso quando chegarmos lá. Eu prometo.
- E nós estaremos do seu lado, Pequeno Caçador. – a morena sorriu, ajoelhando-se defronte ao irmão, abraçando-o pelos ombros – Nós estaremos do seu lado.
Harry depositou o corpo adormecido da irmã sobre a cama, cobrindo-a em seguida. Depois de todo um dia de corridas e risos, finalmente, Claire se cansara o suficiente para dar uma trégua à família.
O moreno sorriu de leve, ouvindo a voz da mãe no fim do corredor, pedindo ao marido que apagasse as luzes da sala. O dia de Natal estava terminando.
Estava exausto. Mas completamente sem sono. Sabia que se fosse se deitar agora, não conseguiria pregar o olho. Havia muita coisa em sua cabeça, muita coisa acontecendo ao seu redor, muita coisa mudando.
E ele não tinha certeza se aquilo era bom ou ruim.
Deixando o quarto da irmã, ele seguiu para o escritório do pai. James terminara de apagar as luzes e seguira para lá, a fim de arrumar os papéis que trouxera da viagem e nos quais não pudera mexer por conta das festas.
- Pai?
O homem levantou o rosto, sorrindo de leve ao ver refletida no rosto do filho a própria expressão, quando mais jovem. Exceto pelos olhos... os olhos de Harry eram os mesmos olhos de esmeralda da mãe.
- Entre, Harry. E aproveite para preparar um drinque para o seu velho pai.
Sorrindo, o rapaz assentiu. Pouco depois, cada um tinha um copo de líquido dourado diante de si. Nenhum dos dois, entretanto, tocou em sua bebida.
- Pai... – Harry começou, um tanto incerto – O senhor acha que existe alguma volta para os erros que cometemos?
Por trás dos óculos, os olhos escuros de James se estreitaram.
- Sempre existe volta para os erros que cometemos, Harry. Não podemos desfazê-los, é verdade... Mas podemos tentar consertá-los.
- Mesmo que não haja conserto? Mesmo que tenhamos sido cruéis, inconseqüentes? Que tenhamos ferido as pessoas que amamos?
O homem suspirou, tirando os óculos, começando a limpá-los com um lenço, recolocando-os no rosto, para só então responder.
- Às vezes, Harry, nós temos de fazer coisas cruéis para sobreviver. – ele deu uma pausa, os pensamentos perdendo-se momentaneamente numa noite, anos atrás, um tiro soando em meio à neve - O importante é pedir perdão e pagar de alguma maneira por nossos erros.
Por alguns instantes, Harry apenas refletiu sobre as palavras do pai, antes de voltar novamente a atenção para ele.
- E quando você faz coisas cruéis, quem perdoa você?
James deu um ligeiro sorriso.
- Sua mãe. E eu paguei criando você.
Foi a vez de Harry rir.
- Falando assim, eu sinto como se tivesse sido um grande peso para o senhor.
- Em alguns aspectos. – James observou – De qualquer maneira, o que eu quero dizer, filho, é que, independendo do que você tenha feito, se você realmente quiser, vai conseguir uma maneira de resolver o problema.
- Eu espero que você tenha razão, pai. – Harry sorriu, levantando-se e tomando seu copo nas mãos – Saúde. E às conseqüências dos nossos erros.
James apenas levantou seu copo.
- Às conseqüências.
- Eu espero que esteja se divertindo. – ele murmurou, quando afinal pararam diante do portão que levava a casa dos Black.
Mina sorriu, pensando nos últimos dias, sobre as descobertas que tinha feito, sobre Órion, Lyncis e tudo o mais. Se pudesse, gostaria de contar sobre aquilo para Isaac. Mas aquele não era um segredo dela.
- Muito. – ela finalmente respondeu, parando diante dele – Eu posso seguir daqui. Obrigada pela companhia, Vossa Graça.
Ela fez uma ligeira curvatura, segurando a saia do sobretudo. Isaac apenas sorriu, tomando a mão dela, depositando um beijo que ela quase não sentiu contra o tecido grosso da luva.
Um criado abriu o portão e Mina afastou-se, começando a percorrer a pequena alameda que levava até a mansão, pensando não apenas naquela tarde, mas nas palavras que tinha trocado anteriormente com Lyncis e na decisão a que chegara na véspera de natal.
Se realmente queria esclarecer as coisas entre eles, aquele era o momento.
- ISAAC!
Ela o observou se virar, surpreso, enquanto corria desabaladamente, até jogar-se nos braços dele e, sem nenhum planejamento ou preparação, selar os lábios do jovem com os seus.
Em seguida, ela deu um passo para trás, soltando-se desajeitadamente, sem deixar de encará-lo, esperando uma reação.
- Você não deveria ter feito isso. – ele murmurou, enquanto observava o criado dos Black e os passantes da rua, que passavam por eles, curiosos.
Mina piscou ligeiramente os olhos. Bem, ela tinha a resposta que queria afinal. A resposta dele fora pela conveniência. Ao menos agora não poderia mais se enganar. Assim, ela apenas suspirou, assentindo com a cabeça.
- Eu sinto muito. Não pensei no que estava fazendo. – ela meneou a cabeça, afastando a possibilidade de colocar em palavras o que realmente sentia, antes de levantar novamente o rosto para ele, sorrindo mais uma vez – Adeus, Isaac.
- Até. – foi tudo o que ele respondeu, sem olhar diretamente para ela.
Mais uma vez, Mina voltou os passos para o palacete dos Black. E, em nenhum momento, ela olhou para trás.
Lyncis estreitou ligeiramente os olhos, enquanto ouvia as batidas e os sons de passos vindos do quarto da amiga.
Aquilo era estranho... Desde que chegara do passeio pelo parque com o duque, que viera pela tarde, Mina mantivera-se distante; nem mesmo quando Órion as convidara para uma visita ao "laboratório" dele – e o irmão estava particularmente empolgado em mostrar algumas de suas invenções para a escocesa depois de ela provar seus dotes de detetive – ela parecera se empolgar.
Depois disso, tinha se retirado, alegando uma enxaqueca. A mesma desculpa que usara na noite do baile.
Todos esses eram indícios mais que suficientes para que Lyn soubesse que a dor de cabeça da amiga tinha nome e sobrenome. E não eram científicos.
A morena não bateu à porta. Em vez disso, entrou sem se anunciar, surpreendendo Mina no meio do quarto, segurando um bolo de roupas – e a maior parte destas já estava enfiada de qualquer maneira na sacola de viagem que ela trouxera da Academia.
- O que você está fazendo? – Lyn perguntou, surpresa, cruzando os braços.
Mina não titubeou em responder.
- Eu vou embora da Inglaterra hoje à noite.
- Como assim, "embora?" – Lyncis encostou-se à porta, girando a chave na fechadura – O que diabos aquele duque te deu para beber hoje?
- Alguma coisa bem amarga. – Mina respondeu, voltando para sua mala, dando as costas para a amiga – Eu sei que falando dessa maneira, parece bem idiota, egoísta até... Mas eu tenho um plano mais ou menos formado... E eu realmente não posso ficar, Lyn. – ela se sentou na beirada da cama, de cabeça baixa, segurando um vestido dobrado – Se eu ficasse, eu estaria morrendo um pouquinho a cada dia. Eu deixaria de ser eu mesma, eu...
- Acho que já entendi seu ponto, Mina. – Lyn sorriu, sentando-se ao lado da amiga – E eu não precisa se preocupar comigo, porque, seja lá o que você está querendo aprontar, eu estou do seu lado.
A escocesa sorriu, assentindo com a cabeça.
- Obrigada, Lyn.
- Ok, mas agora, me conte seus planos. – a morena virou-se na cama, puxando as pernas para cima – Como, exatamente, você pretende fugir?
- Eu ainda não tenho certeza de como. Mas há um bom tempo que eu tenho poupado dinheiro... E tenho um legado no banco deixado pela minha avó. Há um navio partindo para o Brasil na próxima semana, eu vi no jornal. Se eu viajasse na segunda ou terceira classe, não correria o risco de ser reconhecida.
- Mas e os seus documentos? – Lyn perguntou.
- Eu ouvi histórias suficientes dos tempos do meu avô na Scotland Yard para ter uma idéia ou duas de onde posso ir para falsificar um passaporte. – Mina respondeu, corando de leve.
Lyn sorriu de lado.
- Bela agente da lei você está me saindo, Lady MacFusty... Mas não se preocupe com essa parte; eu sujo minhas mãos por você. Fico com a parte de arranjar os documentos então.
- Eu não vou nem perguntar como você vai fazer isso... – Mina deu um meio sorriso.
- Não pergunte. – a morena piscou um olho – Agora, continue da parte em que o navio chega ao Brasil. Você vai ir se esconder numa taba e fazer a dança da chuva?
Mina revirou os olhos.
- Não tem só índios no Brasil, Lyncis. Mas, de uma maneira ou de outra, lá é apenas uma escala, para poder encobrir meu rastro. Não, Lyn... Do Brasil eu vou subir para os Estados Unidos. Eu tenho uma amiga morando lá e conheço alguma coisa para poder me virar. Ao menos, até conseguir entrar em alguma Universidade. Aí eu me mudo para o dormitório, arranjo um emprego de meio período na biblioteca e posso viver do meu jeito.
- Essa sua amiga vai lembrar você de comer? – Lyncis perguntou, cruzando os braços – Bem, a idéia de perder seu rastro no Brasil é uma boa, já que eu duvido muito que "vossa graça" vá deixar você desaparecer no mundo sem fuçar um bocado...
Mina riu, meneando a cabeça.
- Isso me fez lembrar um cão farejador, sabia? Em todo caso, o plano ainda não é exatamente perfeito. O marido dessa minha amiga é amigo do Isaac. Eu só preciso ficar com ela por algumas semanas, enquanto me organizo, mas seria o suficiente para Herman cometer alguma indiscrição... Afinal, eu não posso dizer a eles que estou fugindo de um casamento arranjado e se alguém perguntar...
- Então isso também resolvo eu. – Lyn decidiu, levantando-se – Você vai para a casa da tia Andie. Pode deixar que vou dar um jeito nisso e, para todos os efeitos, você estará fazendo um intercâmbio e...
- Com um telefonema, seu pai descobriria onde eu estou, Lyn.
- Mas ninguém iria esperar que você fosse para a casa de tia Andie. Sua amiga seria uma escolha muito mais óbvia. De qualquer maneira, quando eles descobrirem, pode já ser tarde demais. Você pode pedir nacionalidade americana. Seja como for, as leis deles são diferentes das nossas. Em último caso, peça asilo político.
- Asilo político? Por causa de um casamento? – foi a vez de Mina cruzar os braços – Assim, refresque minha memória, Lyncis Black, quem é mesmo a louca da dupla?
Lyn apenas sorriu em resposta, levantando-se.
- Eu vou falar com a Tonks. Tenho certeza que ela vai ficar do nosso lado. Amanhã vamos ao banco e vemos o que você tem. Daqui a uma semana, Mina, você estará embarcando para o Brasil. E vai me despachar uma bananeira quando chegar lá.
- Eu vou te despachar é um livro de geografia... – Mina respondeu, revirando os olhos – Você ficou muito impressionada com aquela tal Carmem Miranda...
A outra não respondeu. Em vez disso, dirigiu-se para a porta, abrindo-a e desligando a luz antes de seguir para o corredor.
- Vá dormir, Mina. Amanhã vamos ter um dia bem cheio. E você só precisa dessas malas prontas daqui a uma semana. E, antes de você partir, ainda teremos nosso pequeno desafio de tiro.
A escocesa sorriu, assentindo.
- Você vai comer poeira, Lyn.
- Veremos, Mina... Veremos...
