Capítulo 25: "O Erro"
Uma névoa grossa e úmida pairava sobre Spinner's End. Tinha chovido o dia inteiro, mas, naquele momento, as gotas deram uma trégua. Na sala de estar, Snape esperava, com um livro em mãos. Apenas uma luz estava acessa, a vela na mesa de centro. Mas fazia alguns minutos que se distraíra de sua leitura. Sua mente estava limpa, tão limpa que podia ouvir os pensamentos lá fora – pensamentos que o perseguiam fazia alguns meses. Pensamentos de alguém que esperava à espreita, andando pelas sombras, seguindo seus passos. Pensamentos às vezes tão altos, gritantes, nervosos, desesperados, cujo dono ele conseguira reconhecer depois de algum tempo, apenas ouvindo.
Sabia da pessoa lá fora. Sabia que ela tinha o seguido até ali e que aguardava qualquer movimentação sua. Sabia que essa pessoa o vigiava. E por isso mesmo, a fez esperar. Esperar na chuva por longas horas, no beco perto de sua casa, da qual ela conseguia ver sua porta de entrada. Esperou até que o cansaço do seu vigia fosse grande, até que seus reflexos ficassem lentos e que seu corpo ficasse fraco. Fazia dias que esperava por esse momento.
Sem apagar a vela, aparatou.
Reapareceu no beco enevoado sem que seu vigia sequer o ouvisse. Ergueu a varinha e com um movimento brusco, ergueu e jogou-o contra o canto mais escuro do local, fazendo-o arfar de susto e dor. Vendo que seu oponente, atirado no chão, ia pegar a varinha, fez com que esta voasse longe com um aceno.
O vulto negro e encapuzado jogou-se desesperadamente em busca de sua arma, mas Snape já avançara em sua direção, dando-lhe um chute na cara que o fez cair para traz, revelando o rosto que ele já esperava ver.
A face pálida e os cabelos platinados de Draco Malfoy apareceram fortemente marcados na escuridão da noite, seu nariz escorrendo sangue e seus olhos brilhando de temor. Mesmo assim, ele tentou alcançar sua varinha mais uma vez inutilmente. Severo acertou-lhe um chute no estomago, e Draco voltou ao chão.
O jovem arfava pesadamente e a chuva voltara, pingos misturaram-se com seu sangue, molhando suas vestes rapidamente. Draco ergueu-se e o velho professor de Poções não fez nada para impedi-lo. A chuva caia cada vez mais intensamente sobre os dois.
Ambos se encararam, expressões sérias e duras. Pode ver tudo na mente do garoto. Tudo que já tinha visto e ouvido antes, fracamente. Todos os motivos que o levaram até ali, que o levaram a espiona-lo. Tinha reencontrado a caçula Weasley, tinha feito um trato com a Ordem da Fénix e contara a eles que fora Snape que matou Dumbledore. O seu aprendiz nem ao menos tinha força pra guardar seus pensamentos. Draco estava caindo aos pedaços – e mesmo assim ele jogou-se contra Snape, na tentativa estúpida de acertá-lo de mãos vazias.
Socou o queixo do garoto com a parte de traz de seu punho. Draco caiu de joelhos e levou um chute nas costelas, que o fez gemer de dor. Snape o fez flutuar com um aceno de varinha e o jogou na parede mais próxima. Segurou ele ali e aproximou-se.
- O que você tinha em mente, Draco? – perguntou lentamente com um tom ácido e frio. – Você acha realmente que poderia me espionar e me seguir e eu não notaria?
Severo colocou a mão no pescoço no jovem, cuja respiração estava rápida e os olhos cada vez mais raivosos. Sangue descia pelo nariz e boca dele, também por um corte em seu supercílio.
- Você é fraco. Está incapacitado para este tipo de trabalho.
O rosto do loiro retorceu-se em uma careta de desprezo.
- Se Voldemort descobrir a verdade sobre quem matou Dumbledore será o fim de nós dois.
Dizendo isso, Snape o jogou de volta para o chão. Draco soltou mais uns gemidos de dor, mal conseguindo mover-se no chão. Sentiu pena do garoto. Entedia suas intenções e não podia culpá-lo por tentar fazer algo em nome de alguém quem amava. Mas o risco que ele representava para Severo e para toda a Guerra era grande demais. Precisava se livrar dele.
Deu alguns passos até a varinha de Malfoy e a recolheu, depois voltou até onde o jovem tentava mover-se no chão sujo, tremendo de dor, completamente encharcado de chuva e sangue.
- Vá embora do país – disse Snape inflexível. – Para outro continente se for possível. Se você voltar, eu a matarei na sua frente.
Não precisou dizer o nome de Weasley pra que Draco soubesse de quem falavam.
- Você tem três dias.
Dizendo isso quebrou a varinha do garoto ao meio e a jogou no chão. Deu as costas para ele e andou para fora do beco.
Era preciso que isso acontecesse – era a única maneira de salvar Draco da morte pelas mãos de Voldemort. Uma hora ou outra o Lorde descobriria. Afastar o garoto de tudo aquilo era a única maneiro de salvá-lo.
Podia sentir lágrimas quentes escorrendo por suas bochechas antes mesmo que as sentisse nos olhos. Respirar doía muito – e o ritmo estava entrecortado. Seu corpo tremia inteiro com o frio da chuva em suas roupas ensopadas. Pode ouvir os passos de Snape se afastando aos poucos, mas não conseguiu virar a cabeça. Com dificuldade, estendeu a mão vacilante para alcançar os pedaços de sua varinha quebrada. Um soluço escapou de sua garganta.
Fracassara, mais uma vez. Fora mais fraco que Snape. Como poderia ter pensando que o ex-professor não iria descobrir que o seguia? Foram noites e dias na cola dele, é claro que uma hora ele notaria.
Deixou-se ficar no chão por mais alguns segundos, enquanto soluçava com dor. Sentia-se completamente derrotado. Nunca em sua vida tinha experimentado tal sentimento. Fora pego inteiramente de surpresa, quando estava cansado e há dias sem dormir direito. Snape estava certo, ele não servia para aquela vida.
Então, aparatou para o primeiro lugar que veio em sua mente, pra onde tinha aparatado tantas outras vezes – A Toca, onde faziam suas reuniões da Ordem.
Lá não chovia, mas sentiu o cheiro de terra molhada contra seu rosto. Remexeu-se inquieto no chão. Tentou estender as mãos para se levantar, mas não conseguiu. Não conseguia mais, não tinha forças. Sua visão começou a ficar escurecida e embaçada.
Alguém virou seu corpo e ele distinguiu o céu cinza e cabelos ruivos. Pessoas falavam alto e nervosas ao seu redor – podia sentir a movimentação, mas não via ou ouvia direito mais. Seus sentidos estavam cedendo e seu corpo adormecendo.
Quando abriu os olhos novamente, estava deitado num sofá confortável, com um cobertor. Sua roupa tinha sido tirada – estava apenas de calça. As luzes estavam apagadas e a lareira estava acessa, iluminando a sala de estar dos Weasley com uma cor amarelada. Seu corpo ainda doía, principalmente o nariz e as costelas do seu lado direito. Levantou-se lentamente e seguiu os murmurinhos que vinham da cozinha.
Ginny e seus pais estavam lá, junto com Lupin. Quando ele apareceu, todos o olharam com uma mistura de choque com preocupação.
- Draco – a ruiva correu até sua direção, abraçando-o. – O que aconteceu? – perguntou com a voz fraca.
Ele engoliu em seco e passou os olhos por cada rosto ali.
- Snape descobriu.
Molly tapou a boca com as mãos, Ginny o encarou perplexa.
- Ele fez isso com você? – o ex-professor perguntou.
O loiro apenas assentiu.
Os três mais velhos trocaram olhares sérios.
- Não consigo acreditar nisso – disse Ginny chocada.
Molly conjurou uma garrafa de hidromel e alguns copos.
- Vou pegar algo pra você vestir, Draco – disse ela. – Tenho certeza que algo de Ron vai servir em você.
- N-não precisa – ele apressou-se em dizer. – Posso colocar as roupas que estava antes.
A Sra. Weasley o olhou com um misto de bondade e pena.
- Não se preocupe – disse ela, saindo pela porta.
Arthur serviu os copos para todos.
- Precisamos lavar suas roupas... – disse Ginny. – Estavam cobertas de sangue.
Draco sentiu-se constrangido e ao mesmo tempo tremendamente grato. A namorada o olhava com preocupação e mesmo assim permanecia calma. Gostava disso nela. Ela era forte – talvez muito mais forte que ele.
Logo, o loiro estava sentado à mesa da cozinha dos Weasley, com uma camisa de Ron, contando sobre Snape e o que acontecera.
- Ele me deu três dias para deixar o país – concluiu.
- Que absurdo! – exclamou Molly.
- O que Snape está pensando? Que não saberíamos disso? – disse Arthur, preocupado.
- Ele sabe que Draco contaria para nós – disse Remo. – E mesmo assim o fez.
- E agora? – Ginny encarou o sonserino.
- Eu vou embora – disse Draco.
- O quê? – a ruiva exclamou.
- Sim. O quanto antes.
- Você vai deixar ele te dobrar assim? – ela ergueu as sobrancelhas. – Temos que pegá-lo, ele passou dos limites...
- Está fora de cogitação mexer com Snape agora – impôs Draco.
- Mas... – Ginny começou.
- Deixe que cuidamos de Snape – disse Lupin. – Você realmente vai embora? Sabe que podemos protege-lo...
- Não – interrompeu o loiro. – Já está decidido. Eu vou.
Ginny o olhava, incrédula, e mal piscava. Todos ficaram calados, olhando para ele, provavelmente pensando que ele era o covarde de sempre, e isso o incomodou profundamente. Draco suspirou.
- Ele disse que vai matar Ginny se eu continua aqui.
- O quê?!
- Oh, meu Deus...
- Snape passou dos limites!
- Ele com certeza mostrou de que lado está agora.
- Temos que avisar o resto da Ordem.
Patronos saíram do local e Ginny foi abraçada pela mãe. A namorada o encarava tristemente, mas seus olhos estavam compreensivos.
- Me desculpe – sussurrou ele e apenas ela ouviu.
Dizendo isso se levantou.
- Eu tenho que preparar minhas coisas – avisou ele. – Vou para casa.
Assim, deixou a Toca e aparatou para a Mansão Malfoy.
Era meia-noite quando terminou de arrumar uma pequena mala, apenas com o essencial. Já tinha decidido para onde iria. Encarou seu quarto e, jogando a mochila em seus ombros, saiu dali.
Caminhou lentamente pelos corredores. Passando pela sala intima, viu sua mãe cochilando em um dos sofás, com um livro em seu colo. Aproximou-se cautelosamente e beijou sua testa. Sussurrou um pedido de desculpas, sentindo o peito apertar. Prosseguiu pela casa, dessa vez passando em frente ao escritório de seu pai. A porta estava entreaberta e pode vê-lo próximo a lareira com um copo de firewhisky na mão. Despediu-se dele silenciosamente.
Desceu as escadas e saiu da Mansão, iniciando seu caminho pelos jardins até o portão de entrada. Sentia-se culpado por deixa-los assim, sem avisar. Mas não tinha escolha. Agora que Snape sabia, provavelmente mais cedo ou mais tarde Voldemort descobriria e iria atrás de seus pais procurando respostas. Se eles realmente não soubessem sobre a traição, ficariam a salvo.
Também não podia se permitir em colocar a vida de Ginny em risco, mais uma vez. Era sua culpa ter voltado, era sua responsabilidade ter traído o Lorde das Trevas. A ruiva não tinha nada a ver com isso e não deveria sofrer as consequências de algo que não participara.
Encarava o céu escuro, parada no lado de fora da casa onde crescera. Girava o anel da rosa em seu dedo, movimento que fazia transparecer sua ansiedade. Tudo que acontecera nas últimas horas tinha virado seu mundo de pernas pro ar. Toda a tranquilidade que supunha ter com Draco, tentando amenizar o quão delicada e perigosa era a situação em que eles se encontravam, fora desmascarada. Respirou fundo, ar gelado da noite fazendo seus pulmões doerem.
Ginny ouviu um clique e a sombra em sua direção logo tomou a forma de Draco. Seu rosto estava sério demais, o que fez suas entranhas se revirarem desconfortavelmente. Ele aproximou-se e beijou sua testa, fazendo carinho em seus cabelos. Ficaram em silêncio durante alguns segundos. Ela segurou a mão do namorado.
- Me desculpe – ele falou com a voz embargada. - Por te colocar nessa situação...
- Pare – ela o interrompeu. - Não é sua culpa.
- Como não?
- Eu escolhi você – disse Ginny, encarando Draco nos olhos. - Escolhi arriscar anos atrás, quando decidi ficar com você.
- Você... - ele fez uma pausa – é louca.
Eles se permitiram soltar algumas risadas e se abraçaram.
- Eu tenho que ir, Kiddo – falou Draco vagarosamente.
- Então eu vou com você.
E foi assim que tudo mudou de um momento para o outro na vida deles. Após um carta pedindo demissão, algumas roupas jogadas dentro de uma mala, Ginny e Draco partiram em um chave de portal para outro país.
