Disclaimer: Twilight e seus personagens pertencem à Stephenie Meyer. Esse Edward problemático é todo meu.


Unfeeling

Capítulo Vinte e Cinco

:: Edward POV ::

"Vamos Edward" ria Alice, correndo pela entrada da casa do orfanato, jogando bolas de neve em mim enquanto corria. "Pare de ser tão molenga."

"Não sou molenga," reclamei emburrado. "e pare de jogar neve em mim."

Alice parou no meio do caminho, fez uma cara de birra e colocou as mãos na cintura, e me encarou em toda sua glória de sete anos de idade.

"É uma brin-ca-dei-ra, Edward." ela alfinetou. "Vamos, se solte um pouco!"

Eu franzi os lábios numa careta, e então me agachei, pegando um punhado de neve com minhas mãos enluvadas e fazendo uma bola.

"Você quer brincar? Vamos brincar." eu disse, jogando a bola em Alice com toda a minha força.

Ela gritou e desviou, e saiu correndo, enquanto agachava e fazia mais bolas de neve pra jogar em mim.

A risada de Alice ecoava em todo a grama cheia de neve do lugar, e pela primeira vez desde que nossos pais morreram há um ano, eu me vi sorrindo.

— Vamos, Edward, acorde!

A voz de Bella tirou minha mente da lembrança de Alice e me acordou de supetão. Eu estava meio tonto e desorientado, e de primeira, não entendi o que ela estava me dizendo, com lágrimas nos olhos. Balancei a cabeça numa tentativa de espantar o sono, então me voltei para ela.

— O quê? — perguntei, grogue.

— O Dr. White acabou de ligar... — ela disse, devagar.

— Aconteceu alguma coisa com Alice? — perguntei, subitamente preocupado. Meu sonho com a lembrança de um pedaço de nossa infância ainda estava muito vívido, e eu estava muito alerta para qualquer coisa envolvendo minha irmã.

— Ela... — Bella soluçou. — Alice acordou, Edward... Alice acordou.

Eu pisquei atônito enquanto Bella ria e chorava na minha frente. As palavras não faziam sentido. Alice tinha acordado? Como?

— O quê? — perguntei novamente, em total descrença.

— O Dr. White acabou de ligar, dizendo que Alice acordou. — ela riu e chorou. — Ele disse que foi por um momento, mas foi o suficiente. Eles fizeram alguns testes e confirmaram que ela saiu do coma. Não é uma notícia ótima?

— Ah... Eu... Isso é... — gaguejei, sem palavras. — Como?

— Não sabem. — ela disse, sorrindo pra mim. — O Dr. White está lá, disse que você pode ir vê-la se quiser.

Ela não precisou falar novamente. Alice acordada? Era possível? Tinha mesmo acontecido? Dei um pulo na cama, que fez Bella rir, e fui em direção ao banheiro.

— Me espere na sala em dez minutos, vou só tomar um banho.

— Ok. — ela riu. — Não demore.

Só quando entrei no banheiro me dei conta que eu estava na casa de Bella. Eu tinha acordado tão atordoado que nem sequer percebi que tinha dormido numa cama que não era minha.

Enquanto tomava um banho rápido, minha mente se voltou aos acontecimentos das últimas horas. A entregadora de comida chinesa, que assim que eu abri a porta, abriu um sorrisinho de lado e adotou uma postura completamente antiprofissional. Ela flertou. E os cabelos loiros e olhos azuis estavam lá, assim como a silhueta magra e reta, inflamando meus olhos, me fazendo ver vermelho.

Eu lutei muito contra o instinto do meu corpo me dizendo 'Mate-a. Agora'. Depois de tanto tempo, eu finalmente tinha entendido que eu não tinha nada contra a entregadora sem nome. A vontade que eu sentia de matá-la não era nada mais do que um reflexo do que Brittany tinha feito, e da vontade concretizada que eu tive de matá-la na época. Eu não precisava fazer nada contra esta garota. Ela não tinha me feito nada.

Por mais que eu tivesse pensado isso, porém, minhas pernas se moveram sozinhas. Depois que paguei a comida e fechei a porta, espiei pelo olho mágico e esperei a garota entrar no elevador. Assim que ela o fez, agarrei as chaves de casa e do carro, larguei a comida na mesinha do hall e corri pelas escadas. Cheguei no térreo antes dela, e a tempo de pegar meu carro e segui-la. Segui-a por dez minutos antes de ver numa esquina a placa com o nome da rua onde Bella morava. Então eu freei com tudo, fazendo o carro atrás de mim quase bater e buzinar com raiva, e virei a rua, deixando a entregadora pra lá.

Quando o porteiro disse que Bella não tinha chegado ainda, eu me desesperei. Eu tinha me esquecido que ela tinha ido almoçar com o tal Jasper. Eu me sentei no banco da frente do prédio e me forcei a esperar. Eu não podia seguir meus instintos primitivos de novo e ir atrás da garota loira. Não podia.

Me surpreendi ao ver que Bella tinha chegado e eu ainda estava ali, de cabeça baixa e respirando fundo pra me acalmar. E fiquei mais do que feliz quando ela me convidou para entrar e eu consegui, finalmente, me acalmar. Só a mera presença dela me enviou a um estado de calma que me deu até sono.

E então, eu tinha sonhado com Alice o tempo todo. Memórias vívidas – e outras nem tanto – passaram pela minha mente enquanto meu corpo descansava, e então Bella me vinha com essa de que Alice tinha acordado!

Não podia ser coincidência, podia? Eu não costumava acreditar em coincidências. Tudo acontecia por um motivo, certo? Eu não tinha mais certeza de nada e eu odiava isso. Eu precisava desesperadamente colocar minha cabeça no lugar. E eu não sabia como fazer isso. E isso me assustava.

Saí do quarto de Bella ainda divagando, vestido numa calça jeans limpa e uma camiseta verde-escura, que estiveram guardados na casa de Bella. E então, quando eu a vi sentada no sofá mexendo no celular, a calma voltou. Eu ainda estava assustado em ter que me redescobrir sozinho, mas eu sabia que ela estaria do meu lado. E, com um pouco de sorte, eu poderia ter minha irmã comigo novamente, me ajudando também.

— Vamos? — perguntei.

Bella levantou os olhos do celular e sorriu.

— Vamos!

Ela levantou e pegou sua bolsa, e descemos no elevador em silêncio, até a entrada. Usamos meu carro para ir até o hospital. O trajeto também foi feito em silêncio. Eu estava certo que nenhum de nós queria interromper o silêncio pelo mesmo motivo: ainda estávamos processando a informação. Eu tinha um motivo a mais: e se Alice tivesse mesmo acordado, como ela reagiria ao me ver? Ela ficaria feliz? Será que ela se lembraria do que acontecera e por quê ela estava ali?

Eu me acalmei sabendo que não podia prever nada, então apenas estacionei o carro e saí. Bella me seguiu, sem segurar minha mão dessa vez. Isso me confundiu, mas eu fiquei quieto. Assim que chegamos ao andar de Alice, eu vi o Dr. White e Nancy, uma enfermeira que eu conhecia, conversando no balcão.

— Dr. White? — chamei.

Ele se virou e abriu um enorme sorriso ao me ver.

— Ora, Sr. Cullen! Devo dizer que não estou surpreso em vê-lo tão cedo. — ele riu, e então olhou para Bella. — Srta Swan, é um prazer revê-la.

Bella corou e sorriu. — Igualmente, Dr. White. Eu não pude esperar pra contar ao Edward.

— Imagino. — ele sorriu.

— Dr. White, posso vê-la? — perguntei, sem rodeios.

— Agora ela já voltou a dormir, Sr. Cullen. Por favor, você pode me acompanhar até minha sala? Vou explicar tudo que aconteceu para você e então posso deixar você vê-la.

— Claro. — olhei para Bella. — Você vem?

— Posso? — perguntou ela, olhando para o Dr. White e para mim.

— Claro, Srta Swan. — ele disse sorrindo. — A senhorita também é médica, no final das contas.

— Sim. — ela sorriu, corando.

— Por favor, sigam-me. — disse o Dr. White.

Ele andou pelo corredor paralelo ao corredor dos quartos, onde eu pude ver pelas plaquinhas que era um corredor destinado a funcionários. Haviam banheiros para funcionários, quartos de descanso para médicos, enfermeiros e técnicos e também outras salas. O Dr. White abriu uma porta quase no final do corredor que tinha uma placa com o nome dele e entrou, segurando a porta aberta para nós.

— Por favor, entrem.

Entramos e sentamos nas cadeiras que ele nos indicou, bem em frente à sua mesa de trabalho. Ele fechou a porta e deu a volta para sentar de frente para nós.

— Eu imagino que querem que eu vá direto ao ponto, certo?

— Imagina certo. — eu dei um sorriso de lado. — O que exatamente aconteceu?

— Bem, eu estava fazendo a ronda normalmente e cheguei ao quarto de Alice. Eu me surpreendi porque o monitor estava marcando uma atividade cerebral maior do que o que vinha acontecendo nos últimos meses. Eu a examinei, e seus batimentos também estavam mais frequentes. Veja, uma pessoa em coma tem batimentos cardíacos e atividade cerebral mais lentas do que uma pessoa acordada, então eu desconfiei. Fiz alguns testes, e todos os resultados mostraram padrões acima dos padrões de coma. E então, enquanto eu analisava os resultados aqui na minha sala, Nancy veio me avisar que Alice estava acordada.

Eu ofeguei, e Bella também. Eu mal podia acreditar no que ouvia.

— Eu fui ao quarto dela imediatamente, ela ainda estava acordada, mas grogue. Eu lhe perguntei seu nome, uma das primeiras coisas que perguntamos quando um paciente acorda de um coma assim, e ela me respondeu corretamente. Depois disso, ela suspirou e dormiu de novo. Os padrões dela permanecem padrões normais para alguém fora de coma, e eu tenho razões para acreditar que vão continuar assim. Por isso liguei. Não teria alarmado vocês à toa.

— Então ela... — minha voz falhou, e eu pigarreei para continuar. — ela realmente acordou? De vez?

— Acredito que sim, Sr. Cullen. — ele sorriu. — Estamos de olho nela para a próxima vez que ela abrir os olhos. É muito importante que possamos conversar com ela quando isso acontecer.

Eu engoli seco e assenti, quieto.

— Podemos vê-la, Dr. White? — perguntou Bella, ecoando meus pensamentos.

— Claro. Não vou segurá-los mais. Só peço que, por favor, mandem me chamar se ela acordar enquanto estiverem lá.

— Pode deixar. — Bella sorriu, então virou-se para mim e pegou minha mão. — Vamos, Edward?

Assenti e levantei, seguindo-a.

— Obrigado pelas informações, Dr. White. — eu disse.

— Disponha, Sr. Cullen. — ele sorriu.

Saímos da sala e seguimos em silêncio até o corredor de quartos, e direto para o quarto de Alice. Quando abri a porta, vimos Nancy verificando os sinais vitais de Alice. Ela sorriu para nós enquanto eu me sentava na cadeira ao lado da cama e Bella ia até o outro lado.

Assim que Nancy saiu, eu peguei a mão de Alice na minha. Os batimentos no monitor aceleraram um pouco.

— Alice? — chamei baixinho. — Você consegue me ouvir?

Não houve resposta por um momento e eu imaginei que permaneceria assim, até que eu senti uma pequena pressão na minha mão. Olhei alarmado.

— O que houve? — Bella perguntou.

— Ela... acabou de apertar minha mão. — eu disse baixinho, olhando para o rosto inexpressivo de Alice. — Alice? Pode me ouvir? Se puder, por favor, aperte minha mão de novo.

Ela apertou.

E de repente eu vi tudo embaçado. Eu ria e soluçava enquanto beijava a mão dela.

— Estou aqui Ali. Estou aqui. — repeti.

Alice continuou apertando minha mão aqui e ali frequentemente, mas não abriu os olhos, por mais que eu pedisse. Dr. White apareceu meia hora depois que estávamos no quarto e disse que era normal. Um coma de quase dois anos era muita coisa, e Alice voltaria aos poucos. O importante era que ela estava ali.

Por volta das seis da tarde, saímos do hospital, e eu levei Bella em casa. Precisava ficar sozinho um pouco, e prometi a ela que ligaria se eu precisasse de alguma coisa. Era o que eu mais amava nela. A preocupação genuína e altruísta que ela tinha comigo.

Quando cheguei em casa, peguei o pacote de comida chinesa do hall e esquentei no microondas. Comi tudo em silêncio, minha mente a mil, pensando em Alice, na minha vida, o que eu faria a seguir.

Assim que terminei minha refeição, o telefone tocou. Corri para atender, na esperança que fosse do hospital com boas notícias.

— Alô?

Edward? — a voz de Angela soou, meio incerta. Eu suspirei.

— Oi Angela.

Oh, oi. Só estou ligando pra saber se está tudo bem. Você não respondeu meu e-mail ou meu telefonema...

— Desculpe, Angela. Esse fim de semana foi mais agitado do que eu pensei. — eu disse, desabando no sofá e esfregando o pescoço. — Eu estou bem, obrigado.

Que bom. Conseguiu conversar com o detetive?

— Sim, ele ligou para cá e ontem eu fui à delegacia prestar depoimento. Irina era uma conhecida.

Oh sim. O que aconteceu com ela?

— Ela foi encontrada morta. — eu disse, minha garganta subitamente fechando um pouco. Espantei pensamentos indesejados e continuei minha mentira. — Eu não fazia ideia.

Que horror. Eles sabem quem fez isso?

— Não. Mas ao que parece, quem quer que o fez, tinha motivos. — eu disse.

Eu hein. Ok, chega disso. Conseguiu olhar os e-mails? Em um deles tem um aviso de uma reunião amanhã...

Bati na testa, porque tinha esquecido completamente.

— Droga. Sim, eu vi o e-mail, Angela. Eu preciso mesmo estar nessa reunião?

Angela riu. — Claro que precisa. Um dos objetivos é discutir o financiamento dos projetos do laboratório. Ninguém além de você pode fazer isso.

Encostei a cabeça no sofá novamente. — Claro. Estarei lá. É só que...

O quê?

Mordi o lábio, então decidi dizer. Angela era meio que minha amiga. Mesmo que eu só estivesse percebendo isso agora.

— Alice acordou hoje, Angela. Não faz muito tempo que eu voltei do hospital.

Oh meu Deus, isso é sério? Que notícia maravilhosa, Edward! E como Alice está?

Eu sorri pela sua empolgação. Ela nem sequer conhecia Alice, mas agia como se conhecesse.

— Ela está bem. Eu não a vi acordada, mas o médico dela disse que ela definitivamente acordou, e os parâmetros dos sinais vitais dela estão bem maiores do que antes, o que ele disse que caracterizava o fato de que ela saiu do coma. Eu tinha planejado passar o dia com ela amanhã, mas vejo que não posso.

Edward, eu odeio dizer isso, mas você está certo, você não pode. Já tirou a semana de folga, e os chefes aqui não vão permitir nem mais um dia. Sinto muito.

— Tudo bem, Ang. Você só está fazendo seu trabalho.

Wow, espera aí. Você acabou de me chamar de 'Ang' ou estou delirando? — ela riu.

Eu pisquei, percebendo que ela tinha razão.

— É, eu acho que chamei sim... — disse, incerto. — Algum problema? Eu posso...

Ora, o que é isso, Edward? — ela interrompeu. — Claro que você pode me chamar assim! Só estou surpresa. Você nunca mostrou ser muito adepto de apelidos...

Eu ri um pouco, sem humor.

— É. As coisas mudaram bastante durante esta semana, Ang. — eu sorri com o uso do apelido. — Bastante mesmo.

Pelo seu tom de voz, imagino que para melhor? — ela insinuou.

— Creio que sim, Ang. Creio que sim.

Que bom. Fico feliz por você Edward. Sabe que é mais do que meu chefe, certo? Pode me considerar uma amiga.

Eu sorri, acalentado diante do fato de que eu não tinha apenas Bella a quem recorrer. Claro que Angela seria diferente, mas ainda assim era bom poder contar com mais uma pessoa.

— Sei disso, Ang. Obrigado. Eu digo o mesmo. — eu disse.

Que bom! — ela riu. — Agora vou deixá-lo em paz. Ben e eu vamos sair pra jantar, aniversário de namoro, sabe como é.

Eu ri com ela.

— Claro. Divirtam-se.

Ah, nós iremos. — ela riu. — Até amanhã, chefinho.

Eu ri. — Até amanhã, Ang.

Ela desligou e eu pus o telefone na base, continuando sentado no sofá, surpreendido comigo mesmo.

Eu tinha estado preocupado com quem eu seria agora que tudo tinha mudado, como eu agiria, o que viria a seguir. Depois da ligação com Angela, eu percebi que eu não precisava me preocupar com isso o tempo todo. As coisas viriam com o tempo. Com o tempo, eu aprenderia a controlar minhas emoções conflitantes, com o tempo eu passaria a ser uma pessoa um pouco mais normal, sem farsas desta vez. Eu não precisava me preocupar com isso agora.

Um pouco mais tranquilo depois de finalmente perceber isso, eu levantei e fui até o meu quarto, tomando um bom banho e relaxando na cama, deixando a TV ligada em algum filme que eu não prestei muita atenção. Ao invés disso, eu folheava os álbuns de fotos que tinha guardado na biblioteca. Fotos minhas e de Alice, de nossos pais... Fotos da nossa época do orfanato e de quando saímos de lá. Várias delas me fizeram sorrir. Apesar do rosto um pouco frio da criança que eu era, eu sabia que aquilo não era mais eu.

Eu estava diferente. E as coisas agora seriam diferentes. E pela primeira vez desde que tudo desmoronou, eu estava ansioso para recomeçar.


Não foi nesse que Alicinha voltou de vez, mas não se preocupem, ela volta no próximo. ;)

Desculpem a demora, mas a internet ainda não voltou. Vim pro trabalho da minha mãe fazer umas pesquisas e aproveitei pra postar, porque a maldita operadora não tem nem um prazo pra quando vai poder reinstalar a internet (longa história).

A fic está na reta final, mas ainda temos alguns capítulos pela frente (não sei quantos, ao certo). Digo desde já que não farei uma segunda temporada. No máximo alguns extras (ainda estou pensando nisso), mas nada confirmado. Então aproveitem estes últimos capítulos.

Okay, acho que era só isso que eu precisava dizer... Agora comentem! :D

Bjos