O senhor Weasley acordou os garotos após algumas horas de sono. Magia foi usada para fechar e dobrar a barraca e o grupo deixou o acampamento o mais depressa que pôde, passando pelo senhor Roberts à porta da casa. O homem tinha um estranho olhar vidrado e acenou se despedindo com um vago "Feliz Natal", apesar de estarem nos últimos dias de agosto.

"Ele vai ficar bom." Disse a senhora Weasley baixinho, quando começaram a atravessar o vale. "As vezes, quando a memória de uma pessoa é alterada, ela fica um pouco desorientada durante algum tempo. Precisaram fazê-lo esquecer muita coisa."

Eles ouviram vozes ansiosas quando se aproximaram do lugar onde estava a chave do portal e, ao chegarem, encontraram numerosos bruxos e bruxas reunidos em torno de Basilio, o guardador das chaves dos portais, todos exigindo, em altos brados, partir do acampamento o mais rápido possível. Eles entraram na fila e conseguiram pegar um pneu velho. Mesmo Narcisa não demonstrou nenhuma reprovação com o objeto escolhido como portal. Todos só queriam ir embora o mais rápido possível.

Remus não compreendia como o sono, apesar de tantos anos em Azkaban, ainda vinha fácil para Sirius. Claro que, muitas vezes, o cão acordava gritando ou chorando, desorientado e assustado. Remus lhe servia chá com uma Poção-para-dormir-sem-sonhos logo em seguida, e ficava com o moreno até que este passasse a voltar a dormir profundamente. O que nunca demorava muito. Frustrado, o lobisomem levantou indo até a cozinha preparar chá para si e foi quando o cômodo foi invadido por uma corça prateada.

"COMO É QUE É?!" Sirius esbravejou, levantando da cama rapidamente.

"Aonde você pensa que vai?" Perguntou o lupino vendo o moreno catar uma calça no armário.

"Ajudar, claro."

"Sirius, você nem sabe onde a Copa está acontecendo. Como pretende chegar lá?"

"Bicuço." Sentou na cama para calçar os sapatos. "Que raios!" E xingou ao perceber não ter meias.

"Quer parar e me ouvir, por favor?"

"Não temos tempo!" E correu quarto fora, sendo seguido pelo lupino.

"Sirius!" Gritou Remus o vendo sair de casa, indo em direção aonde Bicuço dormia. "SIRIUS ORION BLACK, VOLTE PARA CASA IMEDIATAMENTE OU MERLIN ME PERDOE!" Berrou fazendo o moreno parar de andar, fechar os olhos e respirar fundo. "Pare de me comparar com sua mãe!" Disse indignado. Sirius, a contra gosto, voltou para dentro.

"Como pode estar tão calmo, Remus?" Cerrou os olhos.

"Estou tão surpreso e assustado quanto você, mas não é hora de agir. Se as coisas piorarem, Severus ou mesmo Lucius, mandarão um aviso."

"Não gosto de esperar." Disse baixo, sentando no sofá. Remus sorriu de lado, lembrando bem dos momentos de impaciência do outro.

CENAS DE TERROR NA COPA MUNDIAL DE QUADRIBOL, era a manchete do Profeta Diário no dia seguinte ao ataque. Logo abaixo, vinha uma foto em preto e branco da Marca Negra cintilando sobre o acampamento. Severus preferiu não abrir o jornal, já imaginando o que estaria escrito. Além disso, Lucius andando de um lado ao outro bastava para irritá-lo.

"Recomponha-se." Grunhiu o moreno fazendo o outro encará-lo raivoso.

"Minha família foi atacada. Eles podiam ter pego Harry ou Draco." Sibilou.

"Fazer um buraco no chão e piorar minha enxaqueca não vai resolver nada."

"Tome uma poção. Você é Mestre de Poções, afinal." Reclamou sentando na poltrona de lado ao sofá em que Severus estava.

"Você sabe que eles não atacariam à Harry."

"Era um grupo novo. Não sei ainda qual foi o propósito do ataque."

"Não foi algo planejado por ninguém que faz parte do Círculo Maior. Provavelmente, apenas alguém tentando provar que ainda é leal."

"Alguma ideia de quem tenha conjurado a Marca?"

"Não deixou rastro algum, mas acredito que seja a mesma pessoa que tenha comandado o ataque."

"Não recebi qualquer informação. Eles estão me deixando propositalmente no escuro."

"Querem saber seu próximo passo." Olhou rapidamente para o jornal ainda em sua posse, então voltou sua atenção a Lucius. "Estão te testando." O louro ergueu uma sobrancelha.

"Entendo desconfiarem de mim, mas não entendo como ainda não interrogaram você."

"Ora, Lucius, sabemos o quão bom mentiroso eu sou." Sorriu de lado.

A semelhança com Bellatrix era grande em uma primeira olhada, mas diferente da irmã, Andrômeda possuía os cabelos de cor castanho claro e cachos mais definidos, olhos largos e amáveis, e não era tão pálida quanto. Claro que Narcisa sempre seria a mais alva das três.

"Sempre odiei que você e Bella fossem tão parecidas, como irmãs devem ser." Suspirou pondo a xícara sobre a mesinha de centro.

"E eu sempre odiei esse fato." Sorriu de lado. "Como você realmente está Cissa?" Seu tom preocupado era evidente. Narcisa sempre criticou o quanto a outra se mostrava tão aberta quanto as próprias emoções. Na família em que cresceram, isso era perigoso.

"Sinto falta de ter como única preocupação crescer logo para casar com Lucius." Andrômeda riu lembrando das várias maneiras que a irmã caçula tinha de sempre demonstrar o seu melhor quando recebiam visitas dos Malfoy. Tudo para agradar o louro.

"Você tem certeza de que o plano de Lucius é o melhor?"

"Não tenho sua determinação, Andy." Seu olhar carregava o peso das escolhas de sua família.

"Você foi a única a conseguir conciliar as tradições da família com os seus próprios desejos. Nem a loucura de Bella a deu coragem o suficiente para tanto."

Depois do que pareceu ser uma eternidade, Artur disse que voltariam para a Toca, mas deixou que escolhessem entre quem queria ir e quem queria ficar. Bill, Charlie e Percy não hesitaram em acompanhar os pais. Os gêmeos ficaram na dúvida, mas decidiram por ir junto. Gina, Rony e Draco preferiram ficar. Hermione também disse que ficaria.

Não fazia muito tempo desde a última vez que Lucius visitou a casa de seu amigo lobisomem, mas ao aparatar no terreno, já era possível notar a diferença que era entre Lupin morando sozinho e, agora, dividindo a casa com o Black. A começar pelo enorme hipogrifo que estava deitado bem próximo a entrada da casa. O bicho levantou o pescoço e o encarou nos olhos fazendo o louro imediatamente fazer uma reverência. Não tinha nada contra tais criaturas mágicas, mas odiava o fato de ser necessário se mostrar inferior a elas. Seu eu antigo já teria lançado algum feitiço contra o animal.

Esperou alguns segundos até que o hipogrifo, finalmente, o reverenciou de volta.

"Nunca pensei que veria o dia em que Lucius Malfoy se curvaria para alguém que não fosse Voldemort." Claro que Black estava na soleira da porta os observando. Lucius sentiu a mão coçar em desejo de enfeitiçar o outro.

"Olá, Black. Vim levá-lo para passear. Vá buscar sua coleira." Sorriu de lado quando o moreno descruzou os braços e o olhou raivoso.

"Pro inferno! Bicuço!" Chamou fazendo a criatura levantar. Lucius, incerto da ação seguinte do moreno, deu um passo para trás.

"Sirius!" Berrou o lupino de dentro da casa. "Pare de incentivar Bicuço a atacar Lucius e o deixe entrar!"

Sirius ruborizou fazendo Lucius olha-lo divertido.

"Manda quem pode, obedece quem tem juízo." Murmurou o louro passando pelo outro que continuou a mirá-lo irritado.

"Olá, Lucius. Chá?" Perguntou Remus sentado em uma das poltronas da sala segurando um livro.

"Não, obrigado." O lupino gesticulou para que sentasse. "Vim chama-lo de volta à Mansão." Remus ergueu uma sobrancelha, o encarando confuso. "Conversei com Narcisa. Ela está disposta a receber Black, desde que ele não roa nada na casa."

"Hey!" Disse o moreno indignado, pronto para começar uma briga quando recebeu um olhar do lupino que o calou.

"Agradeço por ter falado com Narcisa." Fechou o livro o colocando de lado voltando a mirar Lucius com um brilho diferente no olhar. O louro sentiu Black ficar tenso atrás de si, e forçou-se a permanecer calmo. "Contudo, gostaria que conversasse com ela e Severus sobre cessarem as brincadeiras à Sirius. Não estamos mais no colégio e acredito já ser hora de todos agirmos como adultos."

"Não prometo nada." Disse Lucius após um tempo. Remus sabia que as brincadeiras ainda aconteceriam, mas não com tanta freqüência e, com certeza, não em tom de deboche.

"Ótimo." Sorriu levantando. Não havia mais nenhum sinal de ameaça, Sirius relaxou fazendo com que Lucius relaxasse também. "Ah, o chá está pronto." E seguiu corredor adentro. Logo Sirius ia atrás do marido, mas não sem antes olhar vitorioso para o louro.

Lucius havia esquecido em como os lobisomens são possessivos e que mesmo alguém tão gentil como Remus, uma hora ou outra, iria irritar-se com os constantes ataques verbais contra o marido. Aquilo foi apenas um aviso.

Enquanto Draco e Gina disputavam uma partida de quadribol no imenso campus pertencente aos Malfoy, Harry, Rony e Hermione, que assistiam ao jogo em um canto mais afastado, conversavam sobre os últimos acontecimentos. A conversa fluía normal até que o moreno lembrou de um detalhe.

"Tem uma coisa que não contei pra vocês." Disse Harry hesitante. Na verdade, não queria ter de mencionar isso novamente, mas sabia que precisava dizer aos amigos. "Sonhei com Voldemort e minha cicatriz começou a doer logo depois." Então passou a explicar o sonho.

As reações de Rony e Hermione foram quase exatamente as que Harry imaginara em seu quarto na rua dos Alfeneiros. Hermione prendeu a respiração e começou a dar sugestões na mesma hora, mencionando vários livros de referência e diversas pessoas desde Alvo Dumbledore a Madame Pomfrey. Rony simplesmente fez cara de espanto.

"Mas ele não estava lá, estava? Quero dizer, da última vez que sua cicatriz doeu, ele esteve em Hogwarts, não foi?" Perguntou Rony.

"Tenho certeza de que ele não estava no meu quarto." Harry franziu o cenho.

"Os feitiços que permitem a entrada de um bruxo em uma residência como as do Malfoy, são de diversas gerações passadas. Esse tipo de magia antiga é uma das mais fortes que existe. Nem Voldemort ou mesmo Dumbledore conseguiriam passar pela proteção sem autorização." Explicou Hermione. "Você deveria saber disso visto que sua casa possui os mesmo feitiços." O ruivo a encarou bobamente, corando.

"O que você vai fazer?" Perguntou Rony mudando de assunto.

"Não sei. Draco sugeriu que eu falasse com Sirius. A família Black, aparentemente, é boa em traduzir sonhos."

"Sua mãe não é prima dele?" Perguntou Hermione. "Ela poderia ajudar."

"É." Sorriu de lado. "Não me imagino contado isso para ela e não ser proibido de sair do meu quarto até meus cinquenta anos."

"Então fale com Sirius." Disse Rony.

"Não posso. Faz parte do meu castigo. Meus pais me proibiram de qualquer comunicação com ele e Remus desde..." Olhou para Draco que fazia loops enquanto Gina, sobrevoando com a vassoura, ria do irmão. "Posso tentar enviar uma carta por uma das corujas de Hogwarts quando as aulas começarem."

Nem Lucius ou Narcisa pararam muito em casa na semana seguinte. Os dois saíam toda manhã antes do resto da casa se levantar e só voltavam bem depois do jantar. Harry sabia que Lucius estava participando das investigações sobre o ataque durante a Copa, além de ter que lidar com a desconfiança de toda a Inglaterra por conta do seu passado. Já Narcisa, o moreno não tinha nem ideia de onde ela ia. E nas raras ocasiões em que os dois, ou um deles, encontravam-se em casa, estavam em reuniões junto de Severus.

Era hora do jantar e, mais uma noite, não havia sinal dos senhores Malfoy. Harry estava começando a ficar preocupado com o tanto de horas que seus pais se ausentavam. Especialmente sua mãe, mas sabia que não deveria questionar.

"Acho que podemos começar sem eles." Disse Harry quando um dos elfos os chamou anunciando que a mesa já estava posta.

Contudo, ao entrarem no salão em que a comida estava servida, havia mais cinco presenças já à mesa os esperando.

"Olá, Harry." Cumprimentou Remus cordialmente, sorrindo. Ao seu lado, Sirius mostrava todos os dentes num imenso sorriso.

"Hey, garoto."

Harry apenas os encarava, também sorridente.

"Tire uma foto que dura mais." Resmungou Severus.

"Ciúmes, Seboso?" Retorquiou Sirius.

E a paz acabou. Remus suspirou pesadamente, Luciu rolou os olhos e Narcisa ergueu a sobrancelha.

"Talvez se houvesse motivo." Sirius fez que ia levantar, mas Remus pos a mão sobre seu ombro o parando.

"Comporte-se."

"Ele começou." Disse petulante.

"E eu estou terminando."

"Por Merlin, Black. Aprenda a agir como alguém da sua idade." Disse Lucius.

"Por que raios a culpa sempre é minha?! Snape nunca leva bronca!"

"Ele sabe como ser um adulto." Respondeu Narcisa o reprovando com o olhar.

"Por certo, o jantar de hoje será bem mais animado." Murmurou Gina fazendo Rony, Draco e Hermione concordarem. Harry estava muito ocupado acompanhando as reações na mesa.

"Então... meu castigo acabou?" Perguntou Harry.

"Não." Lucius respondeu de imediato. "Isso é apenas uma mudança necessária e temporária."

"Você disse que éramos bem-vindos. Contanto que não aparecêssemos sem avisar." Sirius falou apontando um garfo para o louro.

"Eu disse que você não aparecesse sem avisar." Disse Lucius cortando sua carne elegantemente.

"Podemos passar a discutir coisas de maior importância ou apenas ficar calados?" Falou Severus enquanto passava o prato com batatas para Remus.

"Morra engasgado." Murmurou Sirius encarando Severus que o encarava de volta com uma sobrancelha erguida.

"Como vocês estão?" Perguntou Remus ignorando a briga passando a encarar Harry, Draco, Rony, Gina e Hermione. "Soubemos do que aconteceu, claro. Estamos fazendo o possível para saber quem mandou o ataque e conjurou a Marca."

"Soube que você salvou alguns trouxas que estavam sendo atacados." Disse Sirius olhando orgulhosamente para Harry. "James, com certeza, estaria orgulhoso." O garoto sorriu. Por algum motivo, quando era Sirius quem o comparava com o pai biológico, não se sentia culpado ou triste nem nada. Era apenas uma sensação boa de saber que James o aprovaria.

"Eu não fiz sozinho. Draco me ajudou."

"É, e preferia não ter. Estragou minha calça." Recebeu uma cotovelada de Hermione. "O quê? Era nova." Gina e Rony rolaram os olhos, já acostumados com as preocupações fúteis do irmão.

Algumas vezes, acontecia algum novo atrito entre Sirius, Severus e Lucius, mas Remus sempre conseguia mudar de assunto. Ou, enquanto se serviam da sobremesa, apenas deixou que os três continuassem uma discussão sobre algum duelo passado enquanto conversava com Narcisa sobre as novas mudas que ela planejava plantar naquele inverno.

Era bem tarde quando Remus puxou um teimoso Sirius para fora da biblioteca, onde estavam junto de Lucius e Severus, este ainda permaneceu na Mansão por mais alguns minutos até que decidiu ser hora de ir embora também. Narcisa havia ido deitar mais cedo enquanto as crianças já haviam ido para o quarto. Pelas risadas e o barulho de pequenas explosões vindo do quarto dos garotos, eles deviam estar jogando. Já no quarto das garotas, o silêncio reinava dando a impressão de que elas já haviam ido dormir.

Lucius decidiu ficar acordado mais um pouco, revisando alguns documentos em seu escritório, quando ouviu a porta ser aberta e a figura de Draco aparecer. O garoto usava pijamas velhos, com alguns remendos. Se não fosse sua aparência impecável, Lucius poderia jurar estar diante de um mendigo.

"O que quer, Draco?" Não se levantou da mesa, encarando o garoto que o olhou surpreso.

"Achava que já havia ido dormir."

"Eu poderia estar morto e, ainda assim, você não teria autorização para entrar aqui." Ergueu uma sobrancelha.

"Harry me falou sobre os feitiços daqui. Se consigo abrir a porta, significa que tenho permissão para tal, não?" Como o mais velho, ergueu uma sobrancelha.

"Aceitando a família que tem?"

"Aceitando o sangue que tenho." Corrigiu. "Vou deixa-lo. Não era intenção minha interrompe-lo." Quando ia fechando a porta, ouviu ser chamado de volta.

"Você sempre terá permissão para ir e vir livremente nesta casa. Contudo, se tentar entrar novamente em meu escritório enquanto a porta estiver fechada, será devidamente punido."

"Certamente." Sorriu de lado, mas não de forma maliciosa como costumava ser.

Gina se ocupava em remendar com fita adesiva seu exemplar de Mil Ervas e Fungos Mágicos, Hermione checava pela quinta vez se havia guardado tudo em seu malão, Rony sentava sobre o seu forçando o fechamento e Draco, com o malão já organizado e fechado, lia a última carta enviada pelos pais. Foi assim que Harry encontrou seus amigos ao entrar em seu quarto segurando um embrulho.

"Tudo pronto?" Perguntou o moreno deixando o embrulho sobre a cama.

"Quase." Disse o ruivo, dando empurrões em suas coisas que pareciam querer explodir.

"Se você organizasse suas coisas ao invés de joga-las dentro do malão de qualquer jeito..." Criticou Hermione.

"Aqui. Deixe-me ajuda-lo." Disse Harry querendo evitar uma nova discussão entre os dois.

Com um simples aceno na varinha, os pertences do ruivo foram organizados fazendo com que fosse possível fechar a mala sem dificuldade.

"Legal." Falou o ruivo agradecido.

"Harry, não é permitido o uso de magia por bruxos menores de idade fora da escola!" Alertou Hermione.

"Os feitiços de detecção não funcionam na Mansão." Deu de ombros.

"Poderia ter dito antes. Passei horas arrumando minhas coisas." Hermione franziu o cenho encarando o próprio malão.

"Eu gostaria de ser boa com esses tipos de feitiços." Disse Gina olhando conformada para seu livro remendado. "Seria mais fácil na hora de colar as páginas de volta."

Harry ia respondendo algo quando risadas chamaram sua atenção. Olhou para Draco e o viu segurando uma longa veste de veludo marrom, com babados de renda de aspecto mofado e punhos de renda iguais.

Era a primeira vez que ouvia o louro dar gargalhadas. Vê-lo tão livre daquele jeito o fez corar e lhe deu vontade de rir junto e de abraça-lo.

"O que é isso?" Perguntou Gina.

"Parece um vestido." Comentou Hermione.

"Traje a rigor." Disse Draco ofegante de tanto rir. "Mamãe mandou pra você, Ronald." E deu novas risadas acompanhado de Hermione, Gina e Harry.

"Quê?!" Perguntou o ruivo com as orelhas vermelhas. "Prefiro andar nu a usar isso aí!"

"Mamãe disse que quer fotos de todos usando traje a rigor." Falou Gina lendo um pequeno cartão que acompanhava as vestes. "Onde está o seu, Draco?"

Na mesma caixa, um papel seda separava ambas as vestes. Dessa vez, era Rony quem dava risadas e Draco quem corava. Seu traje não era tão diferente das do irmão. Exceto que o veludo era verde escuro.

"Tanto faz. Não vou participar de festa alguma." Disse o louro ranzinza devolvendo ambos os trajes à caixa e a fechando. "Coloque na sua mala, Gina, por favor." A caçula Weasley tomou o pacote em mãos ainda sorrindo divertida.

Havia no ar uma inquestionável tristeza de fim de férias. Chovia forte enquanto, um a um, desocupava o banheiro já vestido com o traje da Escola. Quando todos já estavam banhados e vestidos, desceram para tomar o café da manhã. Ao pé da escada, encontraram com Sirius.

"Hey." Disse o moreno sorridente. "De volta às aulas, hein? Quase sinto inveja de vocês."

"Não sinta." Murmurou Rony.

"Manhã difícil?"

"Trajes a rigor. Não pergunte." Explicou Hermione.

"E Remus?" Perguntou Harry.

"Foi deixar Ranho-" Pausou, respirou fundo. "Snape. Na estação. Aparentemente ele faz isso todos os anos, quando possível." Deu de ombros.

Harry o encarou curioso. Achava que Sirius não teria autorização de entrar na Mansão, pelo menos, não sem estar acompanhado por Remus.

"Não sabia que já estavam prontos. Teria mandado um elfo avisar que o café já está servido." Disse Narcisa ao aproximar-se do grupo, indo direto a Harry passando a tirar sujeiras invisíveis de seus ombros e a ajeitar sua gravata. "Sirius."

"Prima." Sorriu de lado. "Nunca pensei em vê-la assim." A matriarca Malfoy o mirou confusa. "Sendo mãe." Deu de ombros. "Combina com você."

"Obrigada." Voltou a atenção as crianças. "Andando, queridos." Os deixou entrar na sala aonde o café era servido primeiro quando virou-se para Sirius o parando no meio do corredor.

"Eu sabia." Disse o moreno de cenho franzido. "Estranhei o convite tão amável seu e de Lucius me chamando para tomar café e me despedir de Harry. O que vocês querem?"

"Nenhum deles sabe sobre o Torneio e prefiro que continuem assim. Pelo menos, até o momento que Dumbledore fizer o anúncio oficial."

"Tudo bem."

"E não comente nada sobre o que pode vir a acontecer durante os jogos." Pediu.

"Remus já teve essa conversa comigo." Rolou os olhos. "Ainda acho que o garoto deve estar preparado, mas se Remus confia em vocês..."

"Convidei Andromeda e Nymphadora."

"Quê?!" Piscou surpreso.

"Não consigo me desprender da família, Sirius. Você está aqui. Deveria ter percebido isso."

"É, eu percebi." Sorriu de lado. "Vamos logo, Cissa." E a empurrou gentilmente.

"Sirius!" Andrômeda levantou da mesa, indo quase correndo abraçar o primo logo que este passou pela porta.

"Andy!"

"Oi, tio Sirius." Disse Nymphadora sorrindo enquanto acenava para o moreno.

"Wow." A encarou surpresa. "Remus me disse que você está treinando para ser Auror, mas não acreditei em como havia crescido. Eu troquei sua fralda várias vezes, sabia?"

"Por Merlin, tio. Isso não é algo a ser lembrado agora que sou adulta." Rolou os olhos, mas sorria divertida.

"Andrômeda, conheça os amigos de Harry." Disse Narcisa sentando em seu lugar usual, à direita a ponta da mesa, lugar reservado a Lucius. "Estes são Rony, Hermione, Gina e Draco."

Se Andrômeda sabia sobre Draco ser seu sobrinho perdido, não demonstrou.

"Olá." Sorriu. "É um prazer conhece-los. Apenas ouvi sobre suas aventuras em Hogwarts. Fico feliz que Harry tenha amigos tão leais."

"James, com certeza, estaria orgulhoso de saber em como o filho é um imã para problemas como ele foi." Sirius piscou marotamente para o afilhado que sorria divertido.

"Na minha época, a coisa mais emocionante que acontecia eram os jogos de Quadribol." Disse Nymphadora servindo-se de alguns pãezinhos.

"Você teria adorado a minha época." Disse Sirius nostálgico. "James e eu pegávamos detenção quase todas as semanas."

"Não fale como se isso fosse algo do qual se orgulhar." Reprovou Narcisa.

"Claro que não é. Remus quem pode se orgulhar, ele nunca era pego." Todos exceto Narcisa, deram risadas.

"Achava que ele fosse monitor." Comentou Hermione.

"E era." A menina pareceu confusa. "Quando éramos flagrados fazendo algo que infringisse as regras, Remus quem aplicava as detenções." Sorriu. "Ou nos acobertava com alguma desculpa. Todos os professores o adoravam, claro. E era fácil enrolar os outros monitores, mesmo os da Sonserina."

"Agora sei como Severus se sente quando Remus decide compartilhar suas memórias com Harry." Disse Lucius entrando no cômodo, aproximar-se de sua esposa e beijar-lhe o topo da cabeça, só então dar atenção as visitas. "Andrômeda, Nymphadora." Acenou com a cabeça. "Black." Seu tom não era tão animado, mas não havia veneno. "Black e eu iremos deixá-los na plataforma." Seu tom era casual, mas Harry sabia ser algo mais do que uma forma de adiar a despedida entre eles.

"Sirius está foragido. Como pretende leva-lo?" Perguntou Andrômeda curiosa.

"Poção Polissuco." Sorriu de lado.

Dois carros foram busca-los na Mansão Malfoy. Gina, Rony, Hermione e Sirius foram na frente, deixando Harry com seu pai e Draco no segundo logo atrás. A viagem foi silenciosa em ambos os carros, cada um distraído com os próprios pensamentos ou com a paisagem. Em minutos, sentiram a velocidade diminuir até pararem totalmente. Cada um pegou um carrinho para si onde colocou suas respectivas bagagens e andou até o muro que escondia a plataforma de embarque.

"Olá, crianças." Disse Remus, parecendo cansado, logo que todos atravessaram a barreira. "Lucius. Sirius."

"Como sabe que é ele?" Perguntou Rony confuso, encarando Remus e Sirius, transfigurado de Andrômeda.

"Você pode mudar seu corpo, mas não seu cheiro." Disse divertido. "Além disso, nossa ligação reconhece um ao outro, não importa as aparências."

A medida que andavam até um dos vagões do trem, um ou outro estudante parava para cumprimenta-los. O estopim foi quando Cho, que conversava de forma animada em um círculo com algumas amigas, ao ver Harry, acenou sorrindo, o que rendeu risadas de Fred e George que obviamente se juntaram ao grupo naquele instante.

"Harry arrasando corações." Disseram o gêmeos.

"Se ele for metade do conquistador que James foi, estamos ferrados." Comentou Sirius-Andrômeda cutucando Remus que sorria divertido.

"Algo que queira nos contar?" Perguntou George marotamente.

"É só uma amiga." Disse baixo. "Talvez nem isso, nos falamos uma ou duas vezes."

"Ela é bonita. E está na Corvinal." Comentou Remus.

"A família Chang não é tão influente quanto a nossa, e tenho certeza de que possuem um ou dois abortos na família, mas já tratei de negócios com Kim e ele sempre foi excepcional em nossas transações." Comentou Lucius o que fez o moreno olha-lo horrorizado.

"Pai, ela é só uma amiga. Por favor, não faça planos que envolvam um casamento arranjado e melhoria nos negócios." Havia uma certa urgência em sua voz.

"Não preocupe o garoto, Lucius." Disse Remus divertido. "Não haverá casamento arranjado para você, Harry. Bem sei que se isso acontecesse, Lílian viria pessoalmente me assombrar."

"Casamentos arranjados podem ser vantajosos." Defendeu Lucius.

"Exceto quando o noivo já é casado." Disse Sirius-Andrômeda erguendo uma sobrancelha em direção ao louro.

Antes que Harry pudesse perguntar o que Sirius queria dizer com aquilo, o apito de embarque final soou fazendo os alunos que ainda estavam na plataforma despediram-se e entraram apressados no trem.

Remus apertou o ombro do moreno de leve, o desejando boas aulas. Sirius o abraçou risonho, murmurando algo sobre se divertir. Lucius quem o surpreendeu ao também abraça-lo.

"Pai?" Perguntou preocupado. Não era comum do louro demonstrações públicas de carinho.

"Boas aulas, Harry. Espero vê-lo em breve."

"Em breve, talvez no Natal?"

"Talvez." E afastou-se. "Vá. Lembre de enviar uma coruja à sua mãe logo que chegar." O moreno acenou e afastou-se juntos dos amigos em direção ao trem.

"Severus cuidará dele, Lucius. Não se preocupe." Disse Remus.

"Hogwarts ainda é segura." Lembrou Sirius-Andrômeda.

"Exatamente. Hogwarts." Murmurou.

A chuva foi ficando mais pesada, à medida que o trem seguia mais para o norte. O céu estava tão escuro e as janelas tão embaçadas que as lanternas foram acesas antes do meio-dia. O carrinho dos lanches surgiu sacudindo pelo corredor, e Harry comprou uma montanha de bolos de caldeirão para dividirem.

Muitos amigos apareceram durante a tarde, inclusive Simas, Dino e Neville. Simas ainda usava a roseta da Irlanda. Parte da mágica parecia estar se esgotando agora; ela ainda gritava esganiçada "Troy! MuiletI Moran!", mas de um jeito muito fraco e cansado. Passada meia hora mais ou menos, Hermione, cansando-se da interminável discussão sobre Quadribol, enterrou-se mais uma vez no livro Padrão de Feitiços, 4ª série e começou a tentar aprender a fazer um Feitiço Convocatório.

"Vovó não quis ir." Disse Neville infeliz. "Não quis comprar as entradas. Mas parecia fantástico."

"Foi." Disse Rony. "Olhe só para isso, Neville..." Ele meteu a mão no malão guardado no bagageiro e puxou a miniatura de Vítor Krum.

"Uau!" Exclamou quando Rony equilibrou Krum na mão.

"E vimos ele de perto, também." Continuou o ruivo. "Ficamos no camarote de honra."

"Pela primeira e última vez na vida, Weasley." Blaise aparecera à porta. Atrás dele vinham Pansy, Crabbe e Goyle. Os dois últimos que pareciam ter crescido no mínimo trinta centímetros durante o verão. Evidentemente tinham ouvido a conversa pela porta da cabine.

"Não me lembro de ter convidado você para a nossa cabine, Zabini." Disse Draco friamente.

"Não lembro de você ser dono do trem, pobretão."

"O que querem?" Perguntou Dino impaciente.

"Saber se vocês pretendem entrar. Talvez algum dos Weasley até consigam sobreviver e juntar dinheiro o bastante para comprar, ao menos, uniformes descentes." Respondeu Pansy, sorrindo de lado.

"Do que é que você está falando?" Retorquiu Harry.

"Vocês vão entrar?" Repetiu Blaise. "Suponho que você vá, Potter? Você nunca perde uma chance de se exibir, não é?"

"Ou você explica a que está se referindo ou vai embora." Disse Hermione, impaciente, por cima da borda do livro.

Um sorriso satisfeito se espalhou pelos rostos de Zabini, Pansy, Crabbe e Goyle.

"Não me diga que vocês não sabem? Você tem um pai e um irmão no Ministério e nem ao menos sabe, Weasley? E você, Potter? Nossa, meu pai me contou há séculos... soube pelo Cornélio Fudge. Mas papai sempre convive com o primeiro escalão do Ministério." Rindo mais uma vez, o moreno fez sinal para Pansy, Crabbe e Goyle e os quatro saíram em caminho a outro vagão.

Rony se levantou e bateu a porta de correr da cabine com tanta força atrás deles que o vidro se espatifou.

"Rony!" "Ronald!" Exclamaram Hermione e Draco em tom de censura ao mesmo tempo, ela puxando a varinha, murmurou a palavra Reparo e os estilhaços do vidro tornaram a formar uma vidraça inteira e a se reencaixar na porta.

"Ora... tirando onda que ele é bem informado e nós não..." Reclamou o ruivo. "Papai sempre convive com o primeiro escalão do Ministério... Papai poderia ter recebido uma promoção a qualquer tempo, mas ele gosta do cargo que ocupa."

"Claro que gosta." Disse Neville baixinho.

"Não deixa Blaise chatear você, Rony." Falou Simas, tentando acalmar o amigo.

O mau humor de Rony continuou pelo resto da viagem. Ele não falou muito mesmo quando alguns dos amigos tentaram incluí-lo nas conversas, e continuou de cara amarrada quando o Expresso de Hogwarts começou finalmente a reduzir a velocidade até parar de todo na escuridão de breu da estação de Hogsmeade.

Quando as portas do trem se abriram, ouviu-se uma trovoada no alto. Hermione agasalhou Bichento na capa e Rony deixou a sua por cima da gaiola de Pichitinho ao desembarcarem, as cabeças abaixadas e os olhos apertados para impedir que o temporal os molhasse. A chuva caía em tal volume e rapidez que até parecia que alguém estava esvaziando baldes e mais baldes de água gelada na cabeça dos garotos.

"Oi, Hagrid!" Berrou Harry, ao ver a silhueta gigantesca na extremidade da plataforma.

"Tudo bem!" Gritou Hagrid em resposta, acenando. "Vejo vocês na festa, se não nos afogarmos no caminho!" Os alunos de primeiro ano tradicionalmente chegavam ao castelo de barco, atravessando o lago com o meio gigante.

"Eu não gostaria de atravessar o lago com esse tempo." Comentou Hermione com veemência, tremendo durante a caminhada lenta pela plataforma escura com os outros colegas.

Cem carruagens sem cavalos os aguardavam à saída da estação. Harry, Rony, Hermione e Draco embarcaram agradecidos em uma delas, a porta se fechou com um estalo e momentos depois, com um grande impeto, a longa procissão de carruagens saiu roncando e espalhando água trilha acima em direção ao castelo de Hogwarts.

Os garotos passaram pelos portões, ladeados por estátuas de javalis alados, e as carruagens subiram o imponente caminho oscilando perigosamente sob uma chuva que parecia estar virando tromba d'água. Curvando-se para a janela, Harry pôde ver Hogwarts se aproximando, suas numerosas janelas borradas e iluminadas por trás da cortina de chuva. Os relâmpagos riscaram o céu no momento em que a carruagem parou diante das enormes portas de entrada de carvalho, a que se chegava por um lance de degraus de pedra. As pessoas que tinham tomado as carruagens anteriores já subiam correndo os degraus para entrar no castelo; Harry, Rony, Hermione e Draco saltaram da carruagem e correram escada acima, também, só erguendo a cabeça quando já estavam seguros, no cavernoso saguão de entrada iluminado por archotes, com sua magnífica escadaria de mármore.

"Carácoles." Exclamou Rony, sacudindo a cabeça e espalhando água para todos os lados. "Se isso continuar assim, o lago vai transbor- ARRE!"

Um grande balão vermelho e cheio de água caíra do teto na cabeça de Rony e estourara. Encharcado e resmungando, Rony cambaleou para o lado e esbarrou em Harry na hora em que uma segunda bomba de água caiu - errando Hermione por um tríz, ele estourou aos pés de Harry e Draco, espirrando água gelada por cima dos tênis e das meias dos garotos. As pessoas em volta soltaram gritinhos e começaram a se empurrar procurando sair da linha de tiro - Harry olhou para o alto e viu, flutuando seis metros acima, Pirraça, com o rosto largo e malicioso contorcendo-se de concentração para tornar a fazer mira.

"PIRRAÇA!" Berrou uma voz zangada. "Pirraça, desça já aqui, AGORA!" A Professora McGonagall saiu quase correndo do Salão Principal indo até onde o fantasma estava.

"Não tô fazendo nada!" Gargalhou Pirraça, disparando uma bomba de água contra várias garotas do quinto ano, que gritaram e mergulharam no Salão Principal. "Já molharam as calças, foi? Que inconvenientes! Ihhhhhhhhhh!" E mirou mais uma bomba em um grupo de alunos do segundo ano que tinha acabado de chegar.

"Vou chamar o diretor!" Ameaçou Minerva. "Estou lhe avisando, Pirraça."

Pirraça estirou a língua, jogou a última de suas bombas de água para o alto e disparou pela escada de mármore acima, gargalhando feito um louco.

"Bom, vamos andando, então." Disse a professora em tom eficiente para os alunos molhados. "Para o Salão Principal, vamos!"

Harry, Draco, Rony e Hermione escorregaram pelo saguão de entrada e pelas portas de folhas duplas. À direita, Rony, furioso, resmungando entre dentes ao afastar os cabelos, que escorriam água, para longe do rosto.

O Salão Principal tinha o aspecto esplêndido de sempre, decorado para a festa de abertura do ano letivo. Pratos e taças de ouro refulgiam à luz de centenas e centenas de velas que flutuavam no ar sobre as mesas. As quatro mesas longas das Casas estavam cheias de alunos que falavam sem parar; no fundo do salão, os professores e outros funcionários sentavam-se a uma quinta mesa, de frente para os estudantes. Estava muito mais quente ali. Harry, Rony, Draco e Hermione passaram pela mesa dos alunos da Sonserina – onde Draco despediu-se dos amigos -, Corvinal e Lufa-Lufa, e se sentaram com os colegas da Grifinória no extremo do salão, ao lado de Nick Quase Sem Cabeça.

A seleção dos novos alunos por Casas era realizada no início de cada ano letivo, mas por uma infeliz combinação de circunstâncias, Harry não estivera presente a nenhuma desde a dele mesmo. Estava ansioso para assisti-la. Nesse instante, uma voz excitada e ofegante chamou-o mais adiante à mesa:

"Oi, Harry!" Era Colin Creevey, um aluno do terceiro ano para quem Harry era uma espécie de herói.

"Oi, Colin." Cumprimentou Harry.

"Harry, adivinha só! Adivinha só, Harry! Meu irmão está começando! Meu irmão

Dênis!"

"Que bom! Espero que ele fique na Grifinória, mas, sabe, tudo bem se não."

"Ele está realmente excitado!" Continuou Colin, praticamente dando pulos na cadeira.

"Cruza os dedos, hein, Harry? Sei que todas as Casas tem suas vantagens, mas seria legal que ele ficasse com a gente."

"Claro." E tornou a se virar para Hermione, Rony e Nick Quase Sem Cabeça. "Irmãos e irmãs geralmente vão para a mesma Casa, não é? Estava pensando nos Weasley, quase todos os oito alunos da Grifinória."

"Ah, não, não obrigatoriamente. Draco está na Sonserina." Disse Hermione. "E a gêmea de Parvati Patil está em Corvinal e elas são idênticas, a gente podia até pensar que fossem ficar juntas, não é mesmo?"

Harry olhou para a mesa dos professores. Parecia haver mais lugares vazios do que habitualmente. Hagrid, é claro, ainda estava lutando para atravessar o lago com os alunos do primeiro ano; McGonagall provavelmente estava supervisionando a secagem do piso do saguão de entrada, mas havia ainda outra cadeira desocupada e ele não conseguia atinar quem mais estava faltando.

"Onde é que está o novo professor de Defesa contra as Artes das Trevas?" Perguntou Rony, que também estava olhando para os professores. Os garotos ainda não tinham tido nenhum professor de Defesa contra as Artes das Trevas que durasse mais de três trimestres. O favorito de Harry fora, de longe, Remus. Seu olhar percorreu a mesa dos professores. Decididamente não havia nenhuma cara nova.

"Quem sabe não conseguiram ninguém." Comentou Hermione, parecendo ansiosa.

Harry examinou os ocupantes da mesa com mais atenção. O minúsculo Professor Flitwick, professor de Feitiços, estava sentado em uma alta pilha de almofadas ao lado da Professora Sprout, a mestra de Herbologia, usando um chapéu enviesado sobre os cabelos grisalhos e esvoaçantes. Conversava com a Professora Sinistra, do Departamento de Astronomia. Do outro lado de Sinistra estava o mestre de Poções, sério como sempre, mas para alguém como Harry, que o conhece, era visível o cansaço e a preocupação. O que nunca era um bom sinal.

Logo as portas do Salão Principal se abriram e fez-se silêncio. Minerva encabeçava uma longa fila de alunos do primeiro ano até o centro do salão. Se Draco, Harry, Rony e Hermione estavam molhados, seu estado nem se comparava ao desses garotos. Eles pareciam ter feito a travessia do lago a nado em lugar de fazê-la de barco. Todos estavam tomados por tremores, em que se misturavam o frio e o nervosismo, ao passarem pela mesa dos professores e pararem em fila diante do resto da escola - todos exceto o menorzinho, um menino com cabelos castanho-baços, que vinha embrulhado em um agasalho que Harry reconheceu ser o casaco de pele de toupeira de Hagrid. O casaco era tão grande que o garoto parecia coberto por um toldo escuro e peludo. Seu rosto miúdo aparecia por cima da gola, quase dolorosamente excitado. Quando ele se alinhou com os colegas aterrorizados, viu que Colin Creevey o olhava, ergueu os polegares e falou:

"Caí no lago!" Parecia decididamente encantado com o ocorrido.

Minerva agora colocava um banquinho de três pernas diante dos novos alunos e, em cima, um chapéu de bruxo, extremamente velho, sujo e remendado. Os garotos arregalaram os olhos. E todo o resto da escola também. Por um instante, fez-se silêncio. Em seguida um rasgo junto à aba se escancarou como uma boca, e o chapéu começou a cantar. Ao fim, os aplausos ecoaram pelo Salão Principal quando o Chapéu Seletor terminou.

"Não foi essa a música que ele cantou quando fomos selecionados." Disse Harry, fazendo coro aos aplausos gerais.

"Cada ano ele canta uma diferente." Explicou Hermione.

"Deve ser uma vida bem chata, não é, a de um chapéu? Vai ver ele passa o ano compondo a nova canção." Disse Rony.

"Quando eu chamar seu nome, ponha o Chapéu e se sente no banquinho." Explicou Minerva aos alunos do primeiro ano. "Quando o chapéu anunciar sua casa, vá se sentar à mesa correspondente." Olhou para o papel em mãos. "Ackerley, Stuart!"

Um menino se adiantou, tremendo visivelmente da cabeça aos pés, apanhou o Chapéu, colocou-o e se sentou no banquinho.

"Corvinal!" Anunciou o chapéu.

"Aaah, agora sim!" Disse Rony, após a longa espera de seleção. "Estou faminto!"

"Vocês têm sorte de que haja uma festa esta noite, sabem." Disse Nick Quase Sem Cabeça. "Hoje cedo tivemos problemas na cozinha."

"Por quê? O que aconteceu?" Perguntou Harry servindo-se.

"Pirraça, é claro." Disse Nick sacudindo a cabeça, que se desequilibrou perigosamente. O fantasma puxou mais para cima um rufo da gola. "A história de sempre, sabem. Ele queria vir à festa, bom, isto está fora de questão, vocês sabem como ele é, absolutamente selvagem, não pode ver um prato de comida sem querer atirá-lo longe. Reunimos um conselho de fantasmas, frei Gorducho foi a favor de dar uma chance a Pirraça, mas muito prudentemente, na minha opinião, o barão Sangrento fez pé firme."

"É, achamos que Pirraça estava invocado com alguma coisa." Comentou Hermione sombriamente. "Então, que foi que ele aprontou na cozinha?"

"Ah, o de sempre." Respondeu Nick, sacudindo os ombros. "Causou prejuízos e confusão. Tachos e panelas por toda parte. Sopa para todo lado. Deixou os elfos domésticos lou-"

Hermione derrubara sua taça de vinho. O suco de abóbora escorreu pela mesa, manchando de laranja mais de um metro de linho branco, mas nem se importou.

"Tem elfos domésticos aqui?" Perguntou, encarando Nick com uma expressão de horror. "Aqui em Hogwarts?"

"Claro que sim." Disse o fantasma, parecendo surpreso com a reação da garota. "O maior número que existe em uma habitação na Grã-Bretanha, acho. Mais de cem."

"Eu nunca vi nenhum!" Exclamou Hermione.

"Bom, eles raramente deixam a cozinha durante o dia, não é? Saem à noite para fazer limpeza... abastecer as lareiras e coisas assim... quero dizer, não é esperado que fiquem à vista. Essa é a marca de um bom elfo doméstico, não é, que não se saiba que ele existe."

Hermione ficou olhando o fantasma.

"Mas eles recebem salário?" Perguntou ela. "Têm férias, não têm? Licença médica, aposentadoria e todo o resto?"

Nick deu gargalhadas tão gostosas que sua gola de tufos escorregou, e a cabeça despencou para o lado e ficou balançando nos poucos centímetros de pele e músculo fantasmais que ainda a ligavam ao pescoço.

"Licença para tratamento médico e aposentadoria?" Repetiu ele, puxando a cabeça de volta aos ombros e prendendo-a mais uma vez com a gola. "Elfos domésticos não querem licenças nem aposentadorias."

Hermione olhou para o prato de comida em que mal tocara, juntou os talheres e afastou-o.

"Ora, vamos, Mione." Disse Rony, com a boca cheia de carne. "Você não vai arranjar licenças para eles deixando de comer!"

"Trabalho escravo." Disse a garota, respirando com força pelo nariz. "Foi isso que preparou este jantar. Trabalho escravo."

E recusou-se a continuar a comer.

A chuva ainda batucava com força nas janelas altas e escuras. Mais uma trovoada sacudiu as vidraças e o céu tempestuoso relampejou, iluminando os pratos de ouro quando os restos do primeiro prato desapareceram e foram substituídos instantaneamente por sobremesas.

"Torta de caramelo, Mione!" Exclamou Rony, abanando intencionalmente o cheiro da sobremesa para os lados da amiga. "Pudim de groselhas, olha! Bolo de chocolate recheado!"

Mas Hermione lhe lançou um olhar tão parecido com o que a Professora de Transfiguração costumava dar que o garoto desistiu. Quando as sobremesas também tinham sido destruidas, e as últimas migalhas desaparecidas dos pratos, deixando-os limpos e brilhantes, Alvo Dumbledore tornou a se levantar. O burburinho das conversas que enchiam o salão cessou quase imediatamente, de modo que somente se ouviam o uivo do vento e o batuque da chuva.

"Agora que já comemos e molhamos também a garganta ("Hum!",fez Hermione), preciso mais uma vez pedir sua atenção, para alguns avisos." Olhou ao redor antes de continuar. "O Senhor Filch, o zelador, me pediu para avisá-los de que a lista dos objetos proibidos no interior do castelo este ano cresceu, passando a incluir Ioiôs-berrantes, Frisbees-dentados e Bumerangues de-repetição. A lista inteira tem uns quatrocentos e trinta e sete itens, creio eu, e pode ser examinada na sala do Sr. Filch, se alguém quiser lê-la."

Os cantos da boca de Dumbledore tremeram ligeiramente, escondendo um sorriso. Então continuou:

"Como sempre, eu gostaria de lembrar a todos que a floresta que faz parte da nossa propriedade é proibida a todos os alunos, e o povoado de Hogsmeade, àqueles que ainda não chegaram à terceira série. Tenho ainda o doloroso dever de informar que este ano não realizaremos a Copa de Quadribol entre as casas."

"Quê?" Exclamou Harry. Ele olhou para seus companheiros no time de quadribol que também tinham feições horrorizadas. Dumbledore continuou:

"Isto se deve a um evento que começará em outubro e ira prosseguir durante todo o ano letivo, mobilizando muita energia e muito tempo dos professores, mas eu tenho certeza de que vocês irão apreciá-lo imensamente. Tenho o grande prazer de anunciar que este ano em Hogwarts"

Mas neste momento, ouviu-se uma trovoada ensurdecedora e as portas do Salão Principal se escancararam. Apareceu um homem parado à porta, apoiado em um longo cajado e coberto por uma capa de viagem preta. Todas as cabeças no Salão Principal se viraram para o estranho, repentinamente iluminado por um relâmpago que cortou o teto. Ele baixou o capuz, sacudiu uma longa juba de cabelos grisalhos ainda escuros e começou a caminhar em direção à mesa dos professores.

Um ruído metálico e abafado ecoava pelo salão a cada passo que ele dava. Quando alcançou a ponta da mesa, virou à direita e mancou pesadamente até Dumbledore.

Mais um relâmpago cruzou o teto. Hermione prendeu a respiração. O relâmpago revelou nitidamente as feições do homem e seu rosto era diferente de qualquer outro que Harry já vira. Parecia ter sido talhado em madeira exposta ao tempo, por alguém que tinha uma vaguíssima idéia do aspecto que um rosto humano deveria ter, e não fora muito habilidoso com o formão. Cada centímetro da pele do estranho parecia ter cicatrizes. A boca lembrava um rasgo diagonal e faltava um bom pedaço do nariz. Mas eram os seus olhos que o tornavam assustador.

Um deles era miúdo, escuro e penetrante. O outro era grande, redondo como uma moeda e azul-elétrico vivo, O olho azul se movia continuamente sem piscar, e revirava para cima, para baixo, e de um lado para o outro, independentemente do olho normal - depois virava de trás para diante, apontando para o interior da cabeça do homem, de modo que só o que as pessoas viam era o branco da córnea.

O estranho chegou-se a Dumbledore. Estendeu a mão direita, que era tão cheia de cicatrizes quanto o rosto, e o diretor a apertou, murmurando palavras que Harry não pôde ouvir. Parecia estar fazendo perguntas ao estranho, que abanava negativamente a cabeça, sem sorrir, e respondia em voz baixa. Dumbledore assentiu com a cabeça e indicou ao homem o lugar vazio à sua direita. O estranho se sentou, sacudiu a juba grisalha para afastá-la do rosto, puxou um prato de salsichas para si, levou-o ao que restara do nariz e cheirou-o. Tirou então uma faquinha do bolso, espetou a salsicha e começou a comer. Seu olho normal fixava as salsichas, mas o olho azul continuava a dar voltas na órbita registrando o salão e os estudantes.

"Gostaria de apresentar o nosso novo professor de Defesa contra as Artes das Trevas." Disse Dumbledore, animado, em meio ao silêncio. "Professor Moody."

Era normal os novos membros do corpo docente serem recebidos com aplausos, mas nem os colegas nem os estudantes bateram palmas. Todos pareciam demasiado hipnotizados pela aparência grotesca de Moody para ter qualquer reação exceto encarar o homem.

"Moody?" Murmurou Fred para George. "Olho-Tonto Moody? O que papai foi ajudar hoje de manhã?"

"Quem é ele?" Perguntou Rony.

"Dizem que já foi um Auror muito poderoso. Que já prendeu dezenas de Comensais." Respondeu Hermione.

"E hoje está meio batido das ideias." Continuou George.

"Além de ter essa aparência grotesca. Mas o toque do olho é legal." Completou Fred.

Moody parecia totalmente indiferente à recepção quase fria que tivera. Ignorando a jarra de suco de abóbora à sua frente, o homem tornou a enfiar a mão no interior da capa, puxou um frasco de bolso e bebeu um longo gole. Quando levantou o braço para beber, sua capa se elevou alguns centímetros do chão e Harry viu, por baixo da mesa, um bom pedaço de uma perna de pau, que terminava em um pé com garras. Dumbledore pigarreou outra vez.

"Como eu ia dizendo" Recomeçou ele, sorrindo para o mar de alunos à sua frente, todos ainda mirando Olho-Tonto Moody, paralisados. "teremos a honra de sediar um evento muito excitante nos próximos meses, um evento que não é realizado há um século. Tenho o enorme prazer de informar que, este ano, realizaremos um Torneio Tribruxo em Hogwarts."

"O SENHOR ESTÁ BRINCANDO!" Exclamou em voz alta Fred e George.

A tensão que invadira o salão desde a chegada de Moody repentinamente se desfez. Quase todos riram e Dumbledore deu risadinhas de prazer.

"Não estou brincando, Senhores Weasley." Disse ele. "Embora, agora que o senhor mencionou, ouvi uma excelente piada durante o verão sobre um trasgo, uma bruxa má e um leprechaun que entram num bar..."

A Professora McGonagall pigarreou alto.

"Mas talvez não seja hora. Onde é mesmo que eu estava? Ah, sim. O Torneio Tribruxo foi criado há uns setecentos anos, como uma competição amistosa entre as três maiores escolas européias de bruxaria - Hogwarts, Beauxbatons e Durmstrang. Um campeão foi eleito para representar cada escola e os três campeões competiram em três tarefas mágicas. As escolas se revezaram para sediar o torneio a cada cinco anos, e todos concordaram que era uma excelente maneira de estabelecer laços entre os jovens bruxos e bruxas de diferentes nacionalidades - até que a taxa de mortalidade se tornou tão alta que o torneio foi interrompido."

"Taxa de mortalidade?" Sussurrou Hermione, parecendo assustada. Mas, aparentemente, sua ansiedade não foi compartida pela maioria dos alunos no salão; muitos murmuravam entre si, excitados, e o próprio Rony estava bem mais interessado em saber mais sobre o torneio do que em se preocupar com o que acontecera centenas de anos atrás.

"Durante séculos houve várias tentativas de reiniciar o torneio" Continuou Dumbledore. "nenhuma das quais foi bem-sucedida. No entanto, os nossos Departamentos de Cooperação Internacional em Magia e de Jogos e Esportes Mágicos decidiram que já era hora de fazer uma nova tentativa. Trabalhamos muito durante o verão para garantir que, desta vez, nenhum campeão seja exposto a um perigo mortal. Os diretores de Beauxbatons e Durmstrang chegarão com a lista final dos competidores de suas escolas em outubro e a seleção dos três campeões será realizada no Dia das Bruxas. Um julgamento imparcial decidirá que alunos terão mérito para disputar a Taça Tribruxo, a glória de sua escola e o prêmio individual de mil galeões."

"Estou nessa!" Sibilaram os gêmeos para os colegas de mesa, o rosto iluminado de entusiasmo ante a perspectiva de tal glória e riqueza. Aparentemente eles não eram os únicos que estavam se vendo como campeão de Hogwarrs. Em cada mesa Harry viu gente olhando arrebatada para Dumbledore ou então cochichando ardentemente com os vizinhos. Mas, então, Dumbledore recomeçou a falar, e o salão se aquietou.

"Ansiosos como eu sei que estarão para ganhar a Taça para Hogwarts, os diretores das escolas participantes, bem como o Ministério da Magia, concordaram em impor este ano uma restrição à idade dos contendores. Somente os alunos que forem maiores, isto é, tiverem mais de dezessete anos, terão permissão de apresentar seus nomes à seleção. Isto é uma medida que julgamos necessária, pois as tarefas do torneio continuarão a ser difíceis e perigosas, por mais precauções que tomemos, e é muito pouco provável que os alunos abaixo da sexta e sétima séries sejam capazes de dar conta delas. Cuidarei pessoalmente para que nenhum aluno menor de idade engane o nosso juiz imparcial e seja escolhido campeão de Hogwarts." Seus olhos azul claros cintilaram ao perpassar os rostos rebelados de Fred e Jorge. "Portanto, peço que não percam tempo apresentando suas candidaturas se ainda não tiverem completado dezessete anos. As delegações de Beauxbatons e de Durmstrang chegarão em outubro e permanecerão conosco a maior parte deste ano letivo. Sei que estenderão as suas boas maneiras aos nossos visitantes estrangeiros enquanto estiverem conosco, e que darão o seu generoso apoio ao campeão de Hogwarrs quando ele for escolhido. E agora já está ficando tarde e sei como é importante estarem acordados e descansados para começar as aulas amanhã de manhã. Hora de dormir! Vamos andando!"

Dumbledore tornou a se sentar e virou-se para falar com Olho Tonto Moody. Ouviu-se um estardalhaço de cadeiras batendo e se arrastando quando os alunos se levantaram para sair como um enxame em direção às portas de entrada do Salão Principal.

"Não podem fazer isso com a gente!" Reclamou George, que não se reunira aos colegas que se dirigiam às portas, mas continuara parado olhando de cara emburrada para Dumbledore. "Vamos fazer dezessete anos em abril, por que não podemos tentar?"

"Não vão nos impedir de nos inscrever." Disse Fred, teimoso, também amarrando a cara para a mesa principal. "Os campeões vão fazer todo o tipo de coisa que normalmente nunca podemos fazer. E mil galeões de prêmio!"

"É." Disse Rony, um olhar distante no rosto. "É, mil galeões."

"Vamos." Disse Hermione. "Vamos ser os únicos a ficar aqui se você não se mexer." Harry, Rony, Hermione, Fred e Jorge saíram para o saguão de entrada, os gêmeos discutindo as maneiras pelas quais Dumbledore poderia impedir os menores de dezessete anos de se inscreverem no torneio.

"Quem é esse juiz imparcial que vai decidir quem são os campeões?" Perguntou Harry.

"Sei lá." Disse Fred. "Mas é ele a quem temos de enganar. Acho que umas gotas de Poção para Envelhecer talvez resolvam, George."

"Mas Dumbledore sabe que vocês são menores." Ponderou Rony.

"É, mas não é ele que decide quem é o campeão, é?" Perguntou George, astutamente. "Estou achando que quando esse juiz souber quem quer entrar, ele vai escolher o melhor de cada escola, sem se importar com a idade do campeão. Dumbledore está tentando impedir a gente de se inscrever."

"Mas teve pessoas que morreram!" Disse Hermione com a voz preocupada, enquanto passavam por uma porta escondida atrás de uma tapeçaria para subir outra escada ainda mais estreita.

"É." Disse Fred levianamente. "Nas isso foi há muitos anos, não é? Em todo o caso onde é que está a graça se não houver um pouco de risco? Ei, Rony, e se descobrirmos como contornar Dumbledore? Já imaginou a gente se inscrevendo?"

"Que é que você acha?" Perguntou Rony a Harry. "Seria legal, não seria? Mas suponha que eles queiram alguém mais velho? Não sei se já aprendemos o suficiente."

"Eu deci'didamente não aprendi." Ouviu-se a voz tristonha de Neville às costas de Fred e George. Mas imagino que a minha avó vai querer que eu experimente. Ela está sempre falando que eu devia lutar pela honra da família. Eu terei que, opa!"

O pé de Neville afundara direto por um degrau no meio da escada. Havia muitos desses degraus bichados em Hogwarts; já era uma segunda natureza na maioria dos alunos antigos saltar esse determinado degrau, mas a memória de Neville era notoriamente fraca. Harry e Rony o agarraram pelas axilas e o puxaram para cima, enquanto uma armadura no alto das escadas rangia e retinia, rindo-se asmaticamente.

"Quieta aí." Disse Rony, baixando o visor da armadura com estrépito, ao passarem.

Os garotos se dirigiram à entrada da Torre da Grifinória, que ficava escondida atrás de uma grande pintura a óleo de uma mulher gorda com um vestido de seda rosa.

"Senha?" Perguntou ela quando os garotos se aproximaram.

"Asnice." Disse Hermione.

O retrato girou para a frente, expondo um buraco na parede, pelo qual todos passaram. Um fogo crepitante aquecia a sala comunal circular, mobiliada com fofas poltronas e mesas. Hermione lançou às chamas dançantes um olhar mal-humorado e Harry a ouviu dizer distintamente "trabalho escravo", antes de dar boa-noite aos amigos e desaparecer pelo portal que dava acesso ao dormitório das meninas.

Harry, Rony e Neville subiram a última escada em espiral para chegar ao próprio dormitório, que ficava situado no alto da Torre. As camas de colunas com cortinados vermelho-escuros estavam encostadas às paredes, cada uma com o malão do dono aos pés. Dino e Simas já estavam se deitando; Simas pregara sua roseta da Irlanda na cabeceira da cama e Dino afixara um pôster de Víror Krum em cima da mesa-decabeceira. Seu velho pôster do time de futebol de West Ham estava pendurado ao lado do novo.

Harry, Rony e Neville vestiram os pijamas e se enfiaram em suas camas. Alguém – um elfo doméstico, com certeza - colocara esquentadores entre os lençóis. Era extremamente confortável, ficar ali deitado na cama escutando a tempestade rugir lá fora.

"Eu tentaria, sabe." Disse Rony, sonolento, no escuro. "Se Fred e George descobrirem como... o torneio... nunca se sabe, não é?"

"Imagino que não." Harry se virou na cama, uma série de imagens novas e fascinantes se formando em sua cabeça. Ele enganara o juiz imparcial fazendo-o acreditar que tinha dezessete anos. Tornara-se campeão de Hogwarrs... estava em pé nos jardins, os braços erguidos em triunfo diante de toda a escola, que o aplaudia e gritava... ele acabara de ganhar o Torneio Tribruxo... Seus pais, Severus, Remus e Sirius olhando-o com orgulho. O rosto de Draco se destacava claramente na multidão difusa, o rosto radioso de admiração... Harry sorriu para o travesseiro, excepcionalmente contente de que Rony não pudesse ver o que ele via.