Capítulo Vinte e Cinco – Vencer e morrer
- Harry? Harry?
Ele ouvia uma voz que parecia muito distante e muito fraca chamando-o com insistência. Uma, duas, três vezes seu nome repetido. Havia água por todos os lados. Estava frio.
Abriu os olhos. Estava tudo embaçado e molhado. Seu cabelo grudava na testa. Tudo o que ele via era o chão, negro e duro, cheio de pedras.
- Que lugar é esse?
Sem perceber fez a pergunta em voz alta.
A mesma voz respondeu.
- Parece um enorme porão, mas está meio escuro para enxergar alguma coisa. – Harry gemeu, finalmente reconhecendo a voz. – Pelo menos não tem mais as baratas.
Katherine deu uma risadinha de deboche, mas logo se calou.
Harry quebrou o silêncio com um palavrão.
- Não to vendo nada.
- Seus óculos estão a dois palmos da sua mão direita. Estou vendo daqui.
- Então por que você não me ajuda a achá-los? – o garoto tateou na direção que ela disse e finalmente encontrou as lentes.
- Olhe para cá e você entenderá o porquê. – Katherine retrucou desanimada.
Harry antes de qualquer coisa fez força para se sentar. Suas pernas pareciam ser feitas de ferro enferrujado, e ele ainda sentia frio. O corpo estava todo molhado. Quando finalmente se sentou, olhou para onde vinha a voz de Katherine e a encontrou. Ela estava de joelhos, em uma pose meio esquisita, encostada em algo que Harry não conseguiu definir se era uma parede ou uma pedra. Estava com o rosto apoiado naquilo meio de lado, como se estivesse exausta, e pressionava a coxa direita com as mãos. O sangue escorria por seus dedos.
- Kate?
Ele fez menção de se levantar e ir até ela, mas a garota gritou amedrontada.
- Não faça isso, é por isso que eu estou desse jeito!
- O quê? Do quê você está falando, Kate?
- É sério, Harry! – a garota gritou com urgência, então pegou algo do chão e jogou na direção dele. Harry por instinto se abaixou, mas a pedra jamais o acertou. Ela bateu em algo invisível e ricocheteou para trás, bateu na parede oposta e se estraçalhou.
- O que é isso?
- Eu não sei... um campo de força ou algo parecido. – Katherine meneou a cabeça. – Quando eu acordei tentei ir aí vê-lo e acabei com isso. – ela olhou para a sua coxa.
- Você está muito ferida?
- Acho que não... sei lá. – ela bufou. – Não tenho coragem de olhar, só sei que está sangrando.
- Merda! – Harry começou a procurar nos bolsos, e depois como não achou o que queria, começou a procurar no chão. – Cadê a porcaria da minha varinha?
Katherine suspirou novamente. Harry a viu erguer sua varinha.
- Merda! – Harry repetiu. – Você não pode me passá-la para que eu possa tentar fazer alguma coisa?
- Claro que não, Harry, você estava prestando atenção quando eu joguei a pedra?
Harry xingou de novo. Estava virando um hábito.
- Como isso foi parar aí?
- E como é que eu vou saber? Você deve ter deixado cair naquela confusão.
- Faça você alguma coisa, então, Kate! Onde está sua varinha? – e como Katherine não respondeu, apenas desviou os olhos para o chão, Harry insistiu. – Use a minha varinha, então!
- Harry... eu não posso.
- Como assim? Você está muito ferida, é isso?
- Não... – ela respondeu, apesar de estar apertando a coxa com mais força. Ainda desviava os olhos de Harry. – Não é isso...
- Então o que é?
A garota esperou longos minutos até falar.
- Harry... Eu fiz uma coisa... Que eu não deveria ter feito. – ela parecia escolher as palavras, e sua voz saía engasgada. – Era errado... foi errado... – Katherine finalmente ergueu os olhos e olhou diretamente para Harry. – Só que eu me apaixonei por você. – os lábios dela tremiam. – E já era tarde demais. Então eu tive... eu tive que dar um jeito nessa bagunça.
- Kate... do que você está falando?
- E isso... – ela continuou, como se ele não a tivesse interrompido. Segurava na mão direita as duas varinhas, a de Harry e a dela. – Isso me custou muito. Mas valeu a pena.
Ela sorriu, apesar da dor que sentia. Harry não sabia o que dizer. Porém, um cenário louco começou a se formar na sua cabeça. Algo que ele se recusava a acreditar, apesar de fazer sentido. Algo que ele não conseguia nem repetir a si mesmo.
- Eu só queria que você soubesse, Harry... que apesar de tudo, de todas as burradas... Eu amo você.
Harry se levantou e, esquecendo a magia que os separava, tentou caminhar até ela. O que sentiu foi uma enorme dor que começava no final da espinha e subia até a nuca, como um choque elétrico. Ele caiu no chão novamente e ouviu Katherine gritar. Só que a dor que sentiu não foi por causa do campo de magia.
A dor veio acompanhada de uma pontada aguda na cicatriz que só poderia significar uma coisa.
Quando Harry ergueu os olhos, estava sob os pés de Voldemort.
O Lorde das Trevas ria.
Harry reconheceria aquele riso vazio, aqueles olhos vermelhos, aquela face branca e sem vida em qualquer lugar.
Levantou-se e recuou um passo, não por medo, mas porque a proximidade com Voldemort era repulsiva, e a cicatriz doía mais e mais. Sentiu-se completamente nu sem a varinha.
- Que coincidência feliz nos encontrarmos, não?
- Onde estão meus amigos? – Harry perguntou.
Voldemort deu de ombros.
- Provavelmente por aí... Ou talvez mortos. Na verdade, eles não me interessam, já cumpriram sua função de trazê-lo até aqui.
Harry sentiu a raiva correndo por seu sangue como veneno. Olhou para Katherine, que permanecia quieta observando a cena, as varinhas ainda na mão trêmula. Voldemort parecia simplesmente ignorá-la. Harry pensava em Rony e Hermione, e se eles estariam realmente mortos. Não conseguia nem pensar naquela possibilidade. Ele tinha que estar mentindo. Desejava sua varinha não para se defender, mas para matar.
Voldemort sorriu.
- Você é um covarde, Tom Riddle. – Harry disparou.
O sorriso dele se desfez na mesma hora. Uma máscara de ódio o sobrepôs. Voldemort ergueu a varinha nos dedos brancos e longos, apontada diretamente para Harry.
- Cale-se! – Voldemort gritou. – Você não sabe o que diz, Harry Potter!
- Você é um covarde. – Harry repetiu. – Você atacou Hogwarts e assassinou pessoas que não tem nada a ver com o nosso problema. Atraiu meus amigos aqui, uma nojeira que só você mesmo poderia ser capaz. E agora isso? – Harry ergueu as mãos, desarmado. – Só um covarde mesmo como você para não duelar comigo. Você tem medo de mim, Tom?
Foi como se Harry tivesse lhe dado um tapa. Voldemort se enrijeceu, seu rosto soltando espasmos de ódio, para logo em seguida relaxar e sorrir.
- Eu não tenho medo de nada, Harry. – ele sorriu, e Harry reparou no uso do seu nome. Ele também sorriu. Era ótimo que fosse daquela maneira. – E jamais perderia o melhor da diversão: vencê-lo e matá-lo, de uma vez por todas.
Ele fez uma pausa antes de erguer a própria varinha e exclamar:
- Accio Varinha.
A varinha de Harry voou das mãos aflitas de Katherine, ultrapassou o campo de força, que apenas vibrou e pousou na mão estendida de Voldemort. Ele olhou para o lado, na direção da vibração do campo de magia, e Harry viu Katherine se encolher. Mas, estranhamente, Voldemort não fez nenhum comentário. Na realidade, nem parecia enxergá-la de fato, mesmo que a garota estivesse a poucos metros dele.
Foi só aí que Harry se deu conta de porque havia aquele campo de magia ali. Ele não o separava de Katherine, como pensava. Ele na verdade estava ali para protegê-la. Mas quem o teria conjurado? Pela expressão surpresa de Katherine, nem ela parecia saber ou entender o que estava acontecendo.
Ao menos ela estava protegida, Harry pensou. Ele se virou para olhar Voldemort, que examinava a varinha de azevinho com pena de fênix de Harry, gêmea à dele. O bruxo girou-a entre seus dedos longos, sorrindo, para depois, sem aviso, atirá-la para Harry, que a apanhou com surpresa no início, mas entendimento logo após. Ele não pensava que Voldemort faria isso, afinal ele tinha a chance de matá-lo ali mesmo, sem dificuldades. Só que ele desejava mais do que isso. Mais do que matar. Por algum estranho motivo, ele desejava derrotar Harry.
E Harry também desejava derrotá-lo.
Os dois homens se encaravam sob a luz pálida dos archotes no teto.
Rodavam em um círculo perfeito, sem nunca deixar de se olharem.
Empunhavam varinhas, porém mantinham as espadas na bainha, bem ao alcance das mãos quando fosse necessário.
E seria.
Nenhum dos dois podia negar aquele fogo que ardia em suas entranhas e chegava até o coração, aquecendo-lhes como uma labareda, aquilo que no início era apenas uma centelha, mas logo crescia e agigantava-se, incontrolável.
Ambos ansiavam pela vitória.
Mas os dois tinham um conceito completamente diferente sobre o que significava vencer.
As varinhas eram uma extensão de seus braços, de sua mente e sua fúria. Elas se encontravam no ar, em feitiços e maldições, em luzes e cores, em suor e sangue. O ar estava contaminado por aquela ansiedade, aquela sombra que sempre os acompanhava, a raiva reprimida, o rancor acumulado, a competição, o desejo de derrubar o outro e observá-lo cair, sorrindo, como um rei em um tabuleiro de xadrez.
E um dos dois cairia dessa vez. Para sempre.
Houve um grito quando os feitiços se encontraram, produzindo uma grande bola de luz verde e vermelha. Harry sentiu o impacto em todo seu corpo, porém sua cicatriz se destacava, explodindo intensamente em dor. Ele via os olhos faiscantes de ódio de Voldemort e segurou a varinha com as duas mãos, lembrando-se da última vez em que os feitiços em suas varinhas se chocaram daquela maneira, quando tinha encontrado o eco de seus pais.
Mas dessa vez o Priori Encantatem não aconteceu. Na verdade, aconteceram várias coisas ao mesmo tempo.
Um terceiro feitiço, violeta, cortou a ligação entre as varinhas, ao mesmo tempo em que Harry erguia a própria varinha tentando cortar aquela ligação. Os feitiços atingiram o teto escuro e longínquo do lugar. Houve um tremor e o som de algo se partindo. Voldemort urrou de raiva. Várias pedras escuras começaram a cair do teto. Poeira se espalhou por todo o lado, dificultando a visão. Harry se esquivou de uma particularmente grande, e ao pular para o lado, viu o motivo pelo qual Voldemort estava enfurecido.
Havia uma mulher parada entre Harry e Voldemort. Ela tinha longos cabelos cacheados e escuros, olhos azuis concentrados e estava vestida de vermelho e negro. Sua voz sibilava quase como uma cobra quando ela disse, apontando a varinha para Voldemort:
- Olá, pai.
- O que você está fazendo, Nagini?
- O meu nome é Samantha. – a mulher sibilou, ainda apontando a varinha com firmeza. O chão tremia e várias pedras caíam ao redor deles, mas ela não parecia se importar.
- Abaixe a varinha. – Voldemort ordenou.
- Eu sinto muito, meu pai. Não posso fazer isso. – ela soltou um risinho. – Parece que chegamos a um pequeno impasse.
Harry sentiu uma mão em seu ombro. Ergueu os olhos e viu Sirius parado ao seu lado; ele tinha um corte feio no rosto e estava sujo e desgrenhado, mas fora isso parecia bem, apesar dos olhos arregalados de preocupação.
- Como você está, Harry? – ele perguntou com a voz rouca.
Mas Harry não respondeu. Foi distraído por um gemido de dor e viu Katherine se arrastando pelo chão, segurando a perna ferida. Ela estava pálida e havia muito sangue ao seu redor. Sirius também olhou para ela.
- Kate! – Harry exclamou, e esquecendo-se do campo mágico que os separava, dirigiu-se até ela, e só percebeu que o campo tinha sumido quando finalmente conseguiu se ajoelhar ao seu lado.
- As minhas mãos... – ela gemia quando Harry a segurou pelos ombros, a cabeça da garota encostando-se a ele. – Estão queimando.
Harry segurou a mão dela e sentiu o calor emanando mesmo através da luva. Ela parecia cada vez mais pálida. Ele tentou arrancar as luvas, mas a garota gemeu e puxou as mãos, balançando a cabeça. Sirius se agachou também ao lado dos dois. Ele observou a garota por algum tempo, e ela também olhava para ele atenta, até que ele finalmente disse:
- Você tem aí um belo ferimento, menina. – ele fez uma careta e sacou a varinha. – Gostaria que Remo estivesse aqui. Ele é melhor para isso do que eu, mas posso tentar dar um jeito, mesmo que seja só temporário.
Enquanto Sirius conjurava um feitiço e pairava a varinha sobre a perna de Katherine, murmurando palavras que Harry não entendia, o garoto ergueu os olhos e encontrou Voldemort e Samantha ainda discutindo. Voldemort finalmente pareceu ter notado haver mais gente ali.
- Quem é essa menina?
Samantha pela primeira vez naquela noite parecia sem palavras, mas manteve a varinha firme quando disse, engasgada:
- Não mude de assunto, meu pai. O seu duelo agora é comigo.
- Do que está falando? Você é minha...
- Oponente. – ela completou, gritando para sobrepor suas palavras ao barulho. – A sua luta é comigo agora, pai.
A face de Voldemort se contorceu.
- Você está me traindo, Samantha?
A mulher sorriu.
- Eu já o trai há muito, muito tempo.
E depois dessas palavras, ela gritou uma maldição, e jatos de fogo voaram da sua varinha, envolvendo Voldemort, que revidou com uma onda de vento, aumentando as chamas e fazendo a poeira voar para todos os lados. Harry cobriu os olhos e se virou para Katherine em seus braços, que ainda gemia.
- Vocês têm que sair daqui! – Sirius gritou. Era difícil ouvir sua voz no meio daquela ventania, ao mesmo tempo em que um duelo ocorria às costas deles. – Eu fiz o melhor que pôde pela perna da sua amiga, Harry, mas você tem que tirá-la daqui!
- Mas Sirius, e você, e... – ele olhou para trás, onde Samantha duelava com Voldemort. A aparição de Sirius e Samantha ali, juntos, e agora ela duelando contra seu mestre não fazia o menor sentido. – Eu não vou deixá-lo aqui!
- Eu tenho que ajudar Sam! – Sirius disse, ajudando Harry a erguer Katherine. Ela oscilou, mas conseguiu se manter de pé, os braços apoiados nos ombros de Harry e Sirius. – Há uma saída ali, mais adiante. Foi por onde nós viemos. Vocês vão sair em um longo corredor, cheio de portas. Não entrem em nenhuma. A porta correta está no final do corredor.
- Mas... Sirius... – Harry observou a batalha ao seu lado. Voldemort e Samantha trocavam feitiços e maldições alucinadamente, clarões espocando no ar. Katherine também observava aterrorizada. – Eu não posso ir embora assim, eu não posso deixá-lo! Eu estava duelando com...
- Você tem que ir, Harry! Você é a nossa última esperança! Ele não pode matá-lo! Vocês não podem duelar aqui, não agora, não assim!
- Do que você está falando, Sirius?
Os três alcançaram a porta que Sirius tinha indicado. O padrinho colocou uma das mãos nos ombros de Harry e apertou com força.
- Dumbledore. Encontre-o na sala de combate de Gryffindor. Essa aqui foi a casa de seus pais, mas antes, muito antes, foi a casa de Godric Gryffindor. Encontre a sala de combate. Dumbledore estará esperando por você lá. VÁ!
Após lançar um último olhar para trás, Harry segurou Katherine com mais firmeza e os dois seguiram em frente. Havia, de fato, como Sirius indicou, uma passagem, entalhada em pedra, como um túnel, onde apenas archotes com um fogo hesitante realizavam uma iluminação precária. No final do túnel, uma porta de ferro que Harry empurrou com o ombro livre.
Os dois chegaram a um corredor enorme e bem iluminado, cheio de portas, como Sirius tinha descrito. Harry ainda achava que ouvia os gritos e urros distantes, ou talvez fosse apenas coisa de sua cabeça. De qualquer maneira, cessaram assim que ele fechou a porta atrás dos dois.
Katherine suspirou, seu rosto contraído e vermelho, mas continuou ao lado de Harry, de pé.
- A minha mãe... – ela murmurou. – Ela...
- Kate?
A garota fechou os olhos e balançou a cabeça de um lado para o outro, como se afastasse o pensamento.
- Vamos em frente, Harry. Temos que ir com isso até o fim.
- Kate?
- Vamos, Harry!
Ele a encarou nos olhos, segurando-a bem firme pelos ombros. A garota não protestou dessa vez.
- Samantha... ela é a sua mãe?
Os olhos de Katherine se tornaram mais frios e mais duros.
- Sim.
De repente, Harry não sabia o que dizer. Milhares de lembranças e pensamentos invadiram sua mente em questão de segundos, e foi como se ele visse a situação – e a pessoa à sua frente – como algo totalmente diferente. Sentiu seu corpo rígido e tenso, e as palavras não conseguiam ultrapassar a enorme barreira que tinha se formado entre os dois.
- Agora você sabe. – Katherine disse. – Mas nós temos que continuar.
Ele assentiu sem dizer mais nada, e os dois caminharam juntos pelo corredor comprido e iluminado. O silêncio pesado os acompanhava, quase físico, como se fosse uma sombra ao seu redor, às suas costas, entre os dois.
Não abriram nenhuma porta até chegarem à última, a maior e mais distante. Durante todo o caminho, sussurros e arrepios os encontravam, mas os dois apenas se apoiavam mais forte um no outro e ignoravam a ilusão.
Harry abriu a porta.
E jamais esperou ver aquele quarto e aquelas pessoas.
- Rony? Hermione?
- Harry!
Depois disso tudo o que ele conseguiu ver foi um mar castanho, seguido por flashes avermelhados. Hermione estava lhe abraçando e Rony também.
- Nós ficamos com medo que você...
- Eu também. – Harry respondeu, sem nem ao menos permitir que a amiga completasse a frase. – Eu também.
Só foi depois de sair do abraço que Harry reparou que Katherine não estava mais ao seu lado; a garota estava encostada a uma parede, observando a cena com mais desalento e tristeza do que dor. Pareceu ser só aí também que os amigos perceberam a presença dela no quarto.
- Então você mostrou a ele o que descobrimos. – Hermione disse simplesmente, observando a garota com bem menos hostilidade do que o habitual.
Katherine assentiu, e o menor gesto lhe parecia causar dor. Ela sorriu mesmo assim e disse:
- Não se preocupe, eu dei todos os créditos a você.
Hermione não retrucou dessa vez.
- Kate... – Harry se adiantou, fazendo a garota novamente se apoiar nele. – Vamos, você precisa se sentar um pouco...
E foi a primeira vez que Harry realmente encarou o quarto. Era diferente de qualquer outro dos quadros da casa. Apesar de toda aquela magia que tornara a casa opressiva e amaldiçoada, aquele quarto era diferente; tinha um aspecto acolhedor, infantil e melancólico.
Um berço quebrado. Brinquedos espalhados pelo chão. Papel de parede infantil velho e amarelado. Uma brisa suave balançando a cortina na janela. Um sofá cheio de poeira.
E uma pessoa sentada ali.
A menina usava um vestido velho e surrado, sujo e manchado por algo que Harry tinha certeza que era sangue. Ela tinha as mãos apoiadas no colo, e encarava-as com uma determinação quase obcessiva. Porém, quando ouviu a voz de Harry, ergueu os olhos que perderam toda a alegria e vivacidade que ele conhecera um dia.
- Agatha...?
Ela não conseguiu falar. Seus lábios tremeram e a menina voltou a baixar os olhos, encarando as próprias pernas.
- Agatha... ela... – Hermione se encaminhou para a menina e a abraçou pelos ombros. Agatha tremia e inesperadamente se agarrou às pernas de Hermione, algo que não fazia o menor sentido. Aliás, a presença da menina ali era algo que Harry não podia compreender. Ele só conseguia imaginar vários cenários possíveis, cada um pior que o outro, que pudessem explicar aquilo.
- Os pais dela. – Rony sussurrou para apenas Harry e Katherine ouvirem, enquanto Hermione alisava as costas da menina, ainda agarrada com força a ela. – Os Comensais vieram e... foi tudo na frente dela. Ela viu acontecer. Eles estão... mortos.
O impacto daquela notícia atingiu Harry como um raio. Ele visualizou nitidamente os pais da menina, a família simples, mas feliz, que eles formavam, e então olhou novamente para Agatha e tudo o que viu foi uma menina devastada e assustada no lugar daquela criança alegre que conheceu.
- Ela demonstrou magia. – Hermione disse inesperadamente, enquanto Harry se aproximava. Ele ajudou Katherine a se sentar no sofá, ao lado de Agatha, e a menina se afastou mais para a ponta dele, agarrando-se com mais força a Hermione. – Ela... foi ela quem nos salvou, Harry. Ela é uma nascida trouxa, como eu.
Rony praguejou atrás deles.
- Isso é tão... injusto! Aqueles canalhas!
Harry procurou a mão da menina, que era pequena, trêmula e fria. Agatha observou o rapaz apenas com um dos olhos, avermelhados pelas lágrimas, mantendo o restante do rosto escondido na roupa de Hermione.
- Você não está sozinha, Agatha. Nós estamos aqui com você. Eu estou aqui.
Então, sem aviso, a menina largou Hermione e abraçou Harry, chorando sem parar, lágrimas doloridas, machucadas, tortuosas. Harry alisou os cabelos sujos de Agatha, sentindo seu corpinho tremer e as lágrimas quentes no pescoço.
- Eu vou fazer com que isso tudo acabe, Agatha. Eu prometo.
Nota da Autora: Mais um capítulo, e mais perto do fim. Dessa vez eu demorei um pouquinho, mas não abandonei. Já estamos fechando algumas coisas, e eu prometo respostas nos próximos capítulos. Obrigada a todos pelo apoio, pelos comentários e principalmente por lerem a fic. Até o próximo capítulo!
