Para Lílian Evans
Por Ayame N. Yukane
Capítulo 25
Paredes não têm Ouvidos
Depois de mais alguns minutos ali encolhida, Lílian conseguiu encontrar algum tipo de força dentro dela que a fez se levantar. Não olhou para as estrelas, agora não tinha nenhum interesse no céu, tudo o que queria era sair daquele lugar.
Pegou o pergaminho com as coordenadas de Júpiter, saiu lentamente da torre e vagou mais um pouco pelos corredores.
Passara por quadros, espelhos, armaduras e estátuas de todo o tipo. Mas, por alguma razão, parou em frente à estátua de Boris, o Pasmo. Podia ser até meio tarde e, mais do que tudo, estranho, mas Lílian não se intimidou à sua vontade de tomar um longo banho.
Contou as portas e abriu a quarta, entrando no ambiente iluminado e claro, o banheiro dos monitores.
Essa era uma das vantagens - uma das poucas, de acordo com Lílian - de ser monitor. Poder usar aquele banheiro de mármore branco era algo que conferia um certo luxo.
Lílian não esperou muito para se despir e dar um mergulho na banheira enorme e aconchegante. Abriu uma torneira, por onde saiu uma espuma colorida que a fez relaxar um pouco.
Ela ficou de olhos fechados, tentando não pensar em nada – ou pelo menos não pensar em Potter – e esvaziar completamente a sua cabeça. Fazia já algum tempo que ela não ia àquele banheiro e ficava um pouco sozinha.
- Tentando relaxar um pouco? – Lílian ouvira alguém dizer.
De um sobressalto, ela abrira os olhos e tentara se esconder na espuma. Mas não havia ninguém lá. Lílian suspirou com alívio ao ver quem falava. Era Tecxy, a sereia loira do quadro.
- É – confirmou Lílian.
- Pelo que eu estou vendo não está nada fácil, hein?
A sereia sorriu e se posicionou numa pedra para falar com a garota, que apenas suspirou voltando seus pensamentos ao acontecido na torre.
Seria possível? Depois de tudo o que Lílian já dissera?
"Não!", ela relutava desesperada contra os pensamentos. "Eu não quero... Eu não posso...".
"Ora, e por quê não?", perguntava uma voz em sua cabeça. "Só porque você sempre odiou o garoto não quer dizer que você não possa...".
"Não! Nunca!", ela relutava.
- Olá-á? – Perguntou a sereia entoando. - Pelo jeito você não ta nos melhores dias...
- Desculpa, mas eu preciso pensar um pouco.
Lílian saiu da pequena piscina e se embrulhou numa toalha branca e fofa.
Pegou um pente no mesmo armário que guardara o xampu e começou a escovar os longos fios ruivos, ainda distraída.
- Pensar em quê?
- Hum... Eu não sei bem... Estou muito confusa. – Ela parou com o pente no meio do cabelo e de repente sua expressão facial de distração mudou para uma de nervosismo misturado com raiva. - Por que essas coisas só acontecem comigo?! Por quê?!
Tecxy ficou intrigada. Perguntava-se sobre o que a ruiva falava, mas Lílian não percebeu.
- Parece que ele faz até curso pra me deixar confusa e com raiva!!
- Ele quem? Por acaso você está falando do Tiago Potter??
- Hã? – Fez Lílian notando a presença do quadro.
- Não se faça de desentendida... – disse a sereia com uma voz que lembrava muito Mel.
- Às vezes meus sentimentos me confundem. Você sabe, eu pensei durante anos que ia ser tudo diferente. Há dois anos eu tinha certeza de que minha vida ia se resumir ao trabalho de professora de Defesa Contra as Artes das Trevas ou, quem sabe, trabalhar no Departamento de Leis... E ao meu casamento com Edgar Bones. Coisas que nunca vão acontecer, pois agora quero ser auror, Edgar não é nem mais meu amigo, e eu estou sentindo algo mais... Mais forte. Que não tenho certeza... – Lílian parou e respirou fundo, seu olhar melancólico deixava Tecxy cada vez mais interessada na história.
Ela pôs o pente na pia e voltou a falar:
- Acho que vou seguir um caminho que nunca esperei. O que será de mim daqui a cinco anos? Talvez esteja em uma casa grande em Godric's Hollow, talvez esteja morando em um apartamentinho no Beco Diagonal... Talvez trabalhando para o Ministério da Magia, ou lutando contra Voldemort – seguiu-se um arrepio na sereia antes de Lílian voltar a falar: - Posso estar solteira ou casada com o...
Lílian parou abruptamente de falar.
- O quem? Fala logo!
- Com o... Ah, sei lá, quem sabe o que pode acontecer? Depois de hoje qualquer coisa que acontecer não vai ser surpresa pra mim!
- Ah, não! – Exclamou a pintura. – Agora que você já começou a contar, termina!
- Tá bom... Eu conto.
Faltavam dois meses para o Natal, uma semana para as férias, ou seja, uns dez dias para o casamento de Alice. Lílian mandava uma coruja seguida da outra para a Trapobelo Moda Mágica, perguntando por que diabos o seu vestido não estava pronto.
- Era só o que me faltava! – Comentava ela com Mel. – Imagina só: justo a madrinha do casamento sem o vestido pronto! Mas que raios!!
- Pior seria se a noiva ficasse sem o vestido, hein? – Brincava a outra, péssima em consolos.
Quando o correio-coruja chegou àquela manhã, Lílian fitou insegura uma corujinha negra que pousou sobre o seu prato, dando bicadas nas frutas da garota.
- Aaah, finalmente aquela loja resolveu dar satisfações...
- Quero só ver que desculpa eles vão dar! – Disse Mel, olhando o pergaminho que a amiga abria e vendo um outro nome nele. – Hehe, realmente você não seria uma profetisa muito boa!
A carta era da senhora Evans. Lílian abriu e começou a ler.
- O QUÊ?? – Gritou Lílian enfurecida, arregalando os olhos para o pergaminho e se levantando com rapidez.
- Que foi, Lilianzinha? – Perguntou Mel, mas não teve coragem de dizer que ela estava pior que um trasgo com aquela cara.
- Ah, não! Não! NÃO MESMO!!
- Pelas barbas de Merlin! Fala logo! - Falou Mel tomando um gole de suco.
Mel arrancou o pergaminho das mãos da amiga e leu. A loira logo cuspiu o suco de abóbora.
- Ooow! Ô, Mel! – Kate acabara de chegar para o café e enxugava o rosto molhado de suco com um guardanapo.
Mel enfiou o pergaminho na cara de Kate, que de início estava desinteressada, mas que logo mudou de expressão.
- Tá brincando!?
- Bem que eu gostaria – disse Lílian deprimida.
- A sua irmã? Petúnia? Só em sonho!!
- Parece que não... – falou Lílian relendo a carta. – Olha só, e dizem até que vão mandar um convite. Pelo menos não vou precisar de outro vestido, porque vai ser um dia antes do casamento de Alice! Onde eles estavam na cabeça em mandar um convite tão rápido? Por acaso Petúnia está grávida?! Pra que tanta pressa!? Agora que meu vestido tem que chegar logo mesmo.
Ela se sentou novamente, estava incrédula demais para continuar em pé.
- Tudo bem, eu sabia que ela estava namorando aquele trouxão do Dursley, mas... casar?
- Pois é... Gosto não se discute – disse Mel.
- É mesmo, Mel, veja só... Quem diria que você e o Sirius fossem se dar tão bem nos últimos dias, não? – Brincou Kate se esquivando para não levar um pãozinho na cara.
- Eu e Sirius?! – Exclamou Mel. – Nem em sonho ficaria com aquele narcisista! Sem contar que ele tem várias garotas em sua cola, tem com o que se preocupar. E eu tenho meus próprios problemas, mais esse e eu morria!
- Ah, é... – zombou Kate. – Você tem seu admirador secreto que ninguém conhece. Por isso fica tanto olhando para a janela.
- É alguém das férias, você não conhece.
- Uiaaaa!! Admitiu finalmente??
- Então... você vai? – Perguntou Mel à Lílian ignorando Kate.
Mas ela estava muito longe.
"É, a minha vida está seguindo um rumo muito diferente do que eu esperava... Até pensei que ia casar antes da Petúnia!".
- Lily? Você vai? – Perguntou Kate tentando chamar a atenção da garota.
- Que... Onde?
- No show dos Duendeiros! – Respondeu Kate ironicamente. – Pensa! Claro que é no casamento da sua irmã, Lily!
- Hum... Acho que eu serei obrigada. Mesmo não sendo a madrinha... minha irmã não vai ficar muito brava se eu aparecer com um vestido que se destaca, não é? Afinal, mandando-me o convite tão em cima da hora, está bem claro que ela não contava com a minha presença.
- Quem sabe você não transfigura os dois em girafa e porco pra valer na hora do beijo, só pra dar umas risadas! – Sugeriu Mel com falsa ingenuidade.
- Mel!! – ralhou Kate, segurando-se para não rir.
- Lílian! Lílian!! Ufa, achei você. - Era Remo.
- O que houve?
Ofegante, ele respirou um pouco, viera correndo atravessando salão.
- Assuntos de monitoria – disse ele olhando para as curiosas Mel e Kate.
Lílian o acompanhou para fora do Salão Principal, deixando as amigas e seguindo o caminho para a aula de Feitiços.
- Bom... Ah... É sobre... Hum... Sobre a nova senha do banheiro de monitores. Agora é "Creme de Macadâmia".
- Ah, tá... Mas você poderia ter me dito isso depois.
- Aham, mas vai saber se você não ia resolver dar uma passada lá, não é?
- Eu quase nunca vou lá.
- Eu também. Não gosto muito daquela sereia, ela fica me espiando enquanto eu tomo banho. – Disse ele meio sem graça.
- Ah, eu gosto da Tecxy. Ela sempre conversa comigo.
- Ah, é? Você andou conversando muito com ela ultimamente? – Perguntou ele com um tom que dava pra desconfiar.
Lílian sentiu uma pedra de gelo dentro do estômago. Ela estava sonhando?
- Hã?
- Andou contando seus segredos pra ela? – Lílian não podia acreditar no que ele dizia, tinha que estar sonhando. Remo parou no meio do corredor e olhou para ela. – Sabe, Lílian, as paredes podem não ter ouvidos, mas os quadros têm boca.
Não era sonho. Mas estava bem parecido com um pesadelo, exceto que Lílian sentiu muito bem quando deu um beliscão em si mesma. Ela abriu a boca, mas sua voz não saiu.
- Calma... – disse ele. – Eu não vou contar pra ninguém, pode deixar.
- Mas...
- Lílian, eu não vou falar. Esqueceu que você também guardou um segredo meu?
Ela se acalmou. Nunca mais se meteria em contar nada para um quadro.
- Ah, é... E tem outra coisa. A senha continua sendo Pingos de Lavanda.
- Como?
- É que eu só inventei essa história pra puxar assunto...
- Ah... Sabe... Eu acho que exagerei um pouco na hora da emoção quando conversei com a Tecxy! Nem é tudo isso, não...
- Aham, tá bom - disse ele, que obviamente não levara a garota a sério.
- Não, mas é verdade. Eu pensei muito sobre o assunto depois disso e agora eu sei que não tem nada a ver...
- Claro - concordou Remo ironicamente.
- Não, olha só, você acha mesmo que eu ia sair falando dessas coisas para uma pintura? Eu não sou tão louca assim!
- Tá! Tá bom! Eu acredito em você! – Terminou ele sinceramente saindo pelo corredor, estava quase entrando na sala quando Lílian o parou.
- Mas você não vai contar pra ninguém mesmo assim, né?
Remo se virou pra ela e se aproximou. Olhou fundo em seus olhos, mexeu na ponta de seus cabelos e disse calmamente:
- Lílian, você sabe o segredo da minha vida e eu confio cegamente em você pra isso. Agora o mínimo que você devia fazer era confiar em mim também.
- Eu... – Lilian suspirou. - Eu sei. É só que eu não contei pra ninguém mesmo, nem pra Mel e pra Kate...
Remo ergueu as sobrancelhas incrédulo.
- Não?
- Elas iriam me zoar se eu contasse...
- Verdade. Mas se você gosta tanto dele, por que é que você não fala em vez de ficar fugindo?
- Olha, Remo... - ela abriu a boca como se fosse gritar, fechou novamente e disse no mesmo tom: - Você não entendeu nada!
Então, a ruiva se virou, entrando na sala de aula.
A porta da sala do zelador estava encostada, mas ouvia se duas pessoas conversando levemente irritadas. O senhor Pringle parecia indignado. Lílian bateu na madeira, no que Minerva McGonnagal abriu a porta.
- Boa noite, Srta. Evans.
- Noite... Ahn... A senhora me pediu para vir aqui, professora?
- Sim. Era melhor a senhorita ficar a par da situação.
- O que aconteceu? – Perguntou a ruiva lenta e cuidadosamente.
- EU FUI ROUBADO!! – Berrou o zelador fora de si.
- Olhe a voz, senhor Pringle – avisou McGonnagal.
- Desculpe, professora McGonnagal. Mas eu não admito que esse ladrão saia impune!
- Pode estar certo de que o responsável vai ser castigado devidamente.
- Confio na senhora. – Disse ele, sentando-se em sua cadeira de encosto alto.
De repente, Lílian percebeu a bagunça na sala. Várias gavetas abertas, caixas de ponta cabeça, papéis espalhados pelo chão.
- Professora?
- Como pode constatar, senhorita Evans, a sala do senhor Pringle foi invadida e revistada meticulosamente. Não ficamos nem um pouco satisfeitos com este atrevimento e temos motivos para acreditar que alguém da Grifinória é responsável por essa balbúrdia. Por isso, mandei que viesse aqui.
- Mas... O Remo não foi chamado?
- Não, não achei que fosse necessário.
- O que foi roubado?
- Não vai acreditar se eu disser – respondeu a professora em um tom perigosamente insatisfeito. – Por acaso se lembra daquele pergaminho que me entregou há alguns dias?
- Sim... – disse a monitora cautelosamente. – A senhora está me dizendo...?
- Estou afirmando que o respectivo pergaminho sumiu desta sala. O único objeto que não foi encontrado.
- Desculpe-me, professora, mas o que a faz acreditar que foi alguém da Grifinória que roubou?
- Ora, senhorita Evans, está me decepcionando! Com quem você diz ter encontrado o pergaminho?
Lílian recuou. Tantas coisas passavam em sua cabeça. Não seria capaz, por mais que odiasse Tiago Potter, de imaginar que ele pudesse roubar algo que era propriedade da escola – ou talvez, por sua incerteza, esperava que ele não fosse capaz.
Porém, ela se deu conta de outro detalhe: como ele poderia saber que ela estava na Torre de Astronomia na noite passada?
- Agora que acompanhou meu raciocínio, poderia me dizer onde estava ontem à noite?
- Eu... Eu...
- Sim?
Respirou fundo e entregou-se:
- Tinha ido à Torre de Astronomia.
- O quê?
- Bem, porque dormi na última aula e precisava recuperar as coordenadas de Júpiter, professora. – Explicou Lílian.
- Nada justifica, senhorita Evans. Menos vinte pontos para Grifinória por seu erro. Espero que possa recuperar o objeto roubado. Fui informada de que Sirius Black não estava presente na Sala Comunal ontem à noite.
- Sirius?
Talvez Tiago não fosse realmente culpado, no fim das contas.
- Sim, Black. Portanto lhe recomendo que reviste o dormitório masculino junto a Lupin ainda hoje.
- Claro, professora McGonnagal...
- Ótimo. – Disse ela, virando as costas.
Lílian esperou. Minerva olhou para trás e disse rispidamente:
- Vá! O que está esperando? Não quero mais eventos como este acontecendo por aqui.
A garota saiu da sala do zelador às pressas, preocupada com uma decisão que talvez fosse forçada a tomar.
C.O.N.T.I.N.U.A.
N/A: Olá!!
Isso foi para quem detestava Tecxy, a sereia do banheiro dos monitores. Para quem está sentindo falta do corte no abdômen do Tiago, desencanem dele por um momento, logo ele reaparece. Obrigada a todos os que acompanharam a fic desde o início, pegaram pela metade ou os que esta é a sua primeira leitura! Aprecio muito as reviews de vocês e todo o apoio que me dão!
Muito obrigada a todos! Espero reviews!
Beijinhos!!
AyaNayru
