Capítulo 25
Na manhã seguinte o quadro repetiu-se. Nas costas dele, ela levantou-se da cama primeiro, mas assim que colocou os pés no chão, procurando os chinelos, as náuseas voltaram. Ainda se colocou em pé. Pareceu que paravam, mas depois piorou. Voltou a sentar-se na cama.
Ele sentiu o peso dela no colchão outra vez e virou-se para ver o que se passava.
- Então, querida? Está mal disposta outra vez? – William perguntou.
- Não me sinto muito bem…
Ele levantou-se, vestiu o roupão e deu a volta pelos pés da cama para ir ter com ela.
Baixou-se aos pés dela para lhe poder ver o rosto. Pegou nas mãos dela com as suas e perguntou:
- Victoria, as suas regras ainda não vieram, pois não?
- Não…
De facto, as regras tinham faltado em Abril, mas Victoria não dissera nada. Não queria saber porque não tinham vindo, não queria ser consultada por Sir James Clark e achou que viriam no mês seguinte. Mas em Maio também não tinham vindo… E agora havia estes enjoos incómodos…
Ele sorriu para ela e avançou:
- Você sabe o que isso pode significar…
- Sei. – Ela respondeu de forma quase inexpressiva.
- Então talvez devêssemos mandar chamar Sir James Clark… - William sugeriu.
- Não!
- Isso não é sensato, meu amor. Você sabe que não. Quanto mais cedo souber o que se passa melhor. Você tem as regras atrasadas, dor nos seios, cansaço e náuseas. São todos sintomas de…
- Eu sei... - Ela disse antes que ele terminasse.
- É isso… Quer que mande chamar outro médico?
- Não. Pode ser Sir James Clark…
- Muito bem, eu vou pedir que o chamem. – William disse enquanto se levantava e lhe beijava a testa.
Ele saiu por instantes e voltou rapidamente.
Ela continuava sentada na lateral da cama na mesma posição.
William sentou-se na cama ao lado dela. Encostou-a contra si, beijou-lhe a cabeça e perguntou:
- Está preocupada?
- Um pouco… Embora não seja uma surpresa completa…
- Isto pode ser inesperado, mas era previsível…Vamos aguardar o que o médico vai dizer.
Passado algum tempo o médico chegou.
William aguardou no exterior do quarto que a consulta decorresse.
O médico saiu sorridente, mas não fez nenhuma observação. Disse-lhe apenas que podia entrar.
Ela estava metida na cama, sentada, encostada à cabeceira.
Quando ele se aproximou para se sentar na beira da cama ao lado dela, Victoria projetou o corpo para a frente e estendeu os braços para que ele a abraçasse.
Ele sentou-se na beira da cama e abraçou-a.
- O médico diz que eu estou à espera de um bebé. – Victoria disse com a boca na orelha direita dele.
William foi inundado por uma sensação de plenitude indescritível, fechou os olhos e exclamou:
- Que bom, meu amor!
Depois ele afastou-se um pouco para olhar para ela e a seguir colocou-lhe ternamente o cabelo para trás das orelhas para lhe poder ver o rosto mais claramente.
Algumas lágrimas caíram dos olhos dela enquanto dizia num sussurro:
- Eu tenho medo…
- Eu sei, meu amor, mas também sei quanta coragem você tem.
Ela reconheceu aquela mesma frase de outro momento da vida de ambos, havia alguns anos antes, quando tivera de visitar Flora Hastings no leito de morte depois da humilhação pela qual ela mesma a tinha feito passar. Aquela frase, no tom de voz dele, sempre tão quente e suave, deu-lhe alento.
- Estar grávida pode ser bom, porque vem um bebé a caminho… mas o parto pode ser muito perigoso. Você sabe…A princesa Charlotte… - Ela voltou a recordar.
Ele apertou-a contra si.
- Shhhh…Isso não vai acontecer. Você é jovem, forte, saudável… e isso foi há mais de 20 anos. Hoje a medicina está mais evoluída.
- Mas eu estou preocupada…
- Pense na sua mãe, ela não teve problemas em trazê-la à luz e você deve ter herdado a sua robustez. Além disso, para você ficar mais descansada – e eu também – vamos requisitar os serviços do melhor obstetra de Londres. E também é bom que fale com outras senhoras sobre este assunto para ficar informada.
Ela lembrou-se que a mãe costumava dizer que o seu trabalho de parto demorara apenas 6h30m e movimentou a cabeça de forma afirmativa.
- Pode falar com a sua mãe, Victoria. A vossa relação nunca foi fácil, mas ela pode ajudá-la e tenho a certeza que vai gostar de colaborar nesse assunto. Você sabe como ela já ajudou noutras circunstâncias… - Ele lembrou-lhe.
Victoria lembrou-se de quando tinha abraçado a mãe porque sofria com a resignação de William como primeiro-ministro, em 1839, e como fizera o mesmo quando estava destroçada porque ele não correspondera à sua declaração de amor em Brocket Hall. Voltou a movimentar a cabeça de forma afirmativa.
Então ele dobrou-se, desceu pelo corpo dela e beijou-lhe a barriga por cima da camisa de noite enquanto lhe dizia:
- É magnífico que você esteja à espera de um bebé, meu amor…
- Você está feliz, agora? – Ela perguntou.
- Claro que eu estou feliz! Ter você e agora essa criança é toda a felicidade que eu podia desejar!
Ela sorriu porque ele estava feliz.
Beijaram-se ternamente.
Ela estava assustada, o que era perfeitamente compreensível. Mas o medo não provinha apenas do exemplo conhecido da princesa Charlotte. Na época, o parto era sempre envolto em dor e estar grávida podia sempre tornar-se uma sentença de morte, para a mãe e/ou para o bebé. Era, de facto, um perigo muito eminente que provocava uma angústia muito real, sobretudo nas mulheres que nunca tinham passado pela experiência. O primeiro parto era, normalmente, mais difícil.
Victoria ficou na cama para descansar.
Lehzen foi chamada para lhe dar algo para o enjoo, mas o assunto foi mantido como segredo doméstico até que Victoria achasse que podia ser divulgado publicamente.
Depois de ter visto que Victoria estava melhor William saiu do palácio e caminhou no jardim.
Ele estava feliz! Tão feliz que ela estava grávida! Tão feliz que ia ter um filho dela! Menino, menina, não importava! Um bebé, um filho! E dela!
Mas, de repente, sentiu um aperto no estômago e ficou apavorado!
E se as coisas corressem, de facto, mal?
Entrou no pavilhão do jardim em estilo clássico.
E se o bebé tivesse alguma deficiência como Augustus? Porque é que Augustus tivera uma deficiência? Tinha sido herdada de Caroline ou dele? Não, ele não poderia passar por isso de novo! E ela não podia passar por isso, transportar esse peso na vida dela! Quando ela ficasse sozinha...
E se ela sofresse um aborto espontâneo? Caroline tinha tido dois abortos espontâneos antes do nascimento de Augustus.
E se o bebé morresse? A filha que ele tinha tido com Caroline falecera em 24h. Como é que Victoria reagiria a isso? Do lado de fora do quarto, ele ouvira os gritos de Caro! Ele vira o sangue nas toalhas que as criadas transportava! Ele assistira como Caro ficara meses de cama sem força física e sem ânimo!
Encostou-se à parede do pavilhão.
As lágrimas afloraram-lhe nos olhos.
E se ela morresse?
As lágrimas brotaram num soluço.
Escorregou pela parede e deixou-se cair até ao chão.
Não, não, não! Que desespero! Não! Isso não podia acontecer! Não agora! Não com ela!
Colocou as mãos no rosto e ficou ali a chorar convulsivamente.
Victoria jamais saberia deste momento.
Agora as coisas tinham mudado.
Era como se ela fosse outra Victoria. Sentia-se diferente, no corpo e nas emoções. Era estranho saber que tinha outro ser dentro de si. E era assustador pensar no que poderia acontecer daí a alguns meses. E era preocupante pensar no que seria a sua vida durante os próximos meses. Ela pedira seis meses! Pelo menos seis meses! Mas tinham-lhe sido dados apenas três sem saber que esperava um bebé e, pelas contas do Dr. Clark, pouco mais do que um sem conceber, pois ele calculava que ela estivesse grávida havia dois meses.
William sabia que tinha de a tranquilizar, só ele podia fazer isso. E não podia deixar que ela sentisse que ele também tinha medo do que poderia acontecer, pelo que também teria de fazer alguma coisa para se serenar a si próprio.
Ela não tinha jantado quase nada, não lhe apetecia comer, o cheiro da comida era insuportável.
Estavam agora os dois na cama, deitados de lado, Victoria de costas para William. Ele colocara o braço esquerdo à volta do corpo dela, passou-lhe a mão na barriga em sentido circular, por cima da camisa de dormir, e perguntou:
- Está tudo bem agora, meu amor?
- Sim, mas a minha mãe diz que os enjoos devem voltar de manhã…
- Durante algum tempo deverá ser assim. Mas depois vão passar.
Ela virou-se para ele, passou-lhe a mão no cabelo e na orelha esquerda e disse:
- Sabe, hoje eu perguntei-me o é que eu devo fazer para ser uma boa mãe…
Ele registou a observação dela.
Ela continuou:
- Eu não tenho uma boa relação com a minha mãe, você sabe…
- É fácil. Basta fazer com o nosso filho o que gostaria que a sua mãe tivesse feito consigo e não fazer com ele o que não gostou que ela tenha feito. - Ele sugeriu.
Ela ficou a pensar no que ele tinha dito e começou a contar:
- Eu tenho medo de ratos… Uma noite em kensington, enquanto eu estava a dormir, um rato passou por cima de mim… Eu acordei assustada e a gritar, mas a minha mãe não acreditou em mim… Disse que tal coisa não podia ter acontecido… Foi horrível! Eu sinto até hoje as patas e a cauda… É arrepiante…
- Shhh…Aqui não há ratos… - Ele tentou tranquilizá-la passando a mão esquerda pelo cabelo dela.
Ela continuou:
- O mais difícil era manter o sangue frio quando estava irritada e eles me atormentavam. Em 1835 eu fiquei de cama, doente, durante cinco semanas. O meu sistema nervoso não aguentou mais o ambiente opressivo em que vivia e eu não tinha forças para me levantar, doía-me a cabeça e o cabelo caía às mãos-cheias. Mas a minha mãe e Conroy achavam que eu estava a fingir!
Apesar das tentativas para encaminhar Victoria para melhorar o relacionamento com a mãe, naquele momento William sentiu vontade de partir aqueles dois seres ao meio!
Entretanto, ela prosseguia:
- O Dr. Clark dava-me ópio para as dores e só Lehzen ficou do meu lado. Eu tinha problemas de circulação e todos os dias ela massajava os meus os pés para aquecê-los.
Instintivamente, ele aproximou os pés dos pés dela.
Victoria crescera rodeada de muitas atenções, mas sem ternura nem consideração! E ele dera-lhe ternura e consideração! Por isso ela se apaixonara por ele!
- Eles ainda aproveitaram o facto de eu estar doente para me tentar obrigar a assinar um documento que garantia que Conroy seria nomeado meu secretário particular no dia em que eu subisse ao trono. Apoiada por Lehzen, resisti! Apesar da rudeza deles e do meu estado de saúde!
Victoria começou a chorar. Da recordação do passado e do nervosismo provocado pela sua condição no momento presente.
Comovido, ele apertou-a com força contra si e beijou-a na testa.
Ela quis continuar a falar e afastou-se ligeiramente dele para dizer entre lágrimas:
- Muito tempo depois eu ainda estava magra, pálida, tinha dificuldade em andar e era incapaz de montar a cavalo… Mas eu saí vitoriosa! A partir daquele momento ninguém mais me vergaria! Por isso estamos aqui hoje! Porque eu jamais deixaria que alguém me impedisse de casar convosco! Fossem quais fossem as consequências!
Ele apertou-a novamente contra si, beijou-lhe o rosto e disse:
- Eu lamento tanto que eles vos tenham feito passar por isso, meu amor! E tenho tanto orgulho na sua força e na sua determinação! Como em tudo mais, você vai aprender depressa a ser mãe e será uma mãe maravilhosa! Eu tenho a certeza!
Ele tinha de fazer alguma coisa para ajudar. Precisava de se sentir útil naquela situação. Por ela e por ele. Normalmente os homens viviam arredados das questões da gravidez e do parto, considerados assuntos de mulheres. Ele próprio não se imiscuíra nas gravidezes de Caro e não assistira aos partos dos seus filhos pois, na época, na maioria dos casos os homens esperavam no exterior do quarto, entrando apenas depois do nascimento. Mas agora era diferente. Num desejo absoluto de que nada corresse mal, pois o que acontecera no passado não se podia repetir, muito menos podia acontecer algo ainda pior, ele, que era um homem inteligente e culto, ia fazer o que fosse possível para ajudar. E o que ele podia fazer era ler sobre o assunto. Era estudar os compêndios, os manuais e os tratados médicos de obstetrícia e ficar a par dos procedimentos, das complicações, das alternativas. Dessa forma poderia estar mais preparado sobre o que podia acontecer no dia do parto e para informar Victoria sobre o funcionamento do próprio corpo.
Pesquisou, leu, anotou.
O que encontrou não era tranquilizador. As complicações podiam ser diversas e os procedimentos eram assustadores. O que fazia com que a mortalidade entre os recém-nascidos e entre as parturientes fosse elevada. Um bebé que não desse a volta era um problema muito grave. A cesariana era uma prática muito antiga, mas muito rara e a taxa de sucesso em mulheres vivas era quase inexistente. O uso de fórceps tinha-se divulgado, precisamente, depois da morte da princesa Charlotte, o que ajudava em alguns casos, mas era prejudicial noutros, quando provocavam lacerações nas mulheres e nos recém-nascidos. Nos casos mais extremos, e para evitar uma cesariana, que quase certamente conduziria à morte da parturiente, a solução era a embriotomia, uma prática horrenda que consistia em seccionar um feto morto dentro do organismo gerador quando era impossível a sua extração de uma só vez.
No entanto, entre tanta informação havia um aspeto interessante. Até ao século XVII as mulheres tinham dado à luz de cócoras, sentadas ou em pé. Só depois passaram a dar à luz deitadas, uma posição mais difícil e dolorosa o que, por sua vez, deu origem à necessidade do uso de fórceps. Manter as costas na vertical era a melhor forma de ter um parto bem-sucedido: ampliava o espaço de passagem, utilizava a força da gravidade, era mais rápido, mais fácil e menos doloroso.
Alguns livros tinham desenhos de muita qualidade do interior de corpos de mulheres grávidas, de fórceps, de cadeiras de parto… Era bom que Victoria visse alguns deles, mas era melhor não ver outros…
A 24 de Maio ela fazia anos, mas a sua condição de saúde não lhe permitia grandes festejos. Ela não podia mover-se demasiado nem era capaz de comer livremente. Foi colocada a circular a informação de que a rainha estava indisposta, mas não foi explicado o motivo da indisposição. Todavia, facilmente as suspeitas de uma gravidez começaram a correr na Corte.
Victoria não anulou a possibilidade de receber o coro infantil que viria cantar para ela, pois a atividade não era exigente, e mantiveram-se as decorações e as iluminações especiais nas ruas que assinalavam a data, para que o povo tivesse presente o aniversário da sua soberana.
Não houve festa, mas houve presentes.
Quando Victoria regressou da receção das crianças havia na sala verde um volume em cima de um pedestal, tapado com um pano vermelho. Ao lado William esperava por ela.
- O que tem aí escondido William? – Ela perguntou curiosa.
- Algo para si!
- Posso ver?
Ele puxou o pano mostrando a peça.
Um busto em mármore foi revelado. William representado como um senador romano!
- Oh! É você, William! – Ela exclamou.
- Acho que agora ficamos equilibrados. Eu tenho-a a si no meu escritório e você pode ter-me aqui na sua sala de trabalho! – Ele explicou.
- Obrigada, meu amor! – Ela exclamou enquanto se esticava para ele para o beijar. E depois acrescentou: - Isto é mesmo um papel que lhe assenta perfeitamente: senador!
William riu.
- John Francis fez uma boa interpretação, você não acha? – Ele perguntou.
- Eu acho, mas também acho que prefiro o verdadeiro Lord Melbourne! É mais bonito e, sobretudo,…mais quente! – Victoria observou enquanto o abraçava.
A duquesa de kent era agora presença frequente no palácio pois achava que tinha de dar inúmeras instruções a Victoria, sobretudo como combater enjoos. William fez-lhe uma advertência educada, mas firme, para que evitasse fazer comentários desnecessários ou impróprios na frente de Victoria que a deixassem ainda mais preocupada com a sua atual condição.
Politicamente a situação também estava complicada. A 27 de Maio de 1841, Robert Peel apresentou na Câmara dos Comuns uma moção de censura contra o governo de John Russell, cujo partido já havia perdido quatro eleições parciais.
O anúncio público da gravidez da soberana foi feito alguns dias depois. O bebé que estava a caminho não herdaria o trono, mas seria filho da rainha e isso era de interesse público.
Após cinco dias de debate a moção contra Russell foi adotada na Câmara por uma votação de 312 contra 311. John Russell perdeu por apenas um voto e pediu, então, que a rainha dissolvesse o Parlamento.
Os enjoos continuavam. Victoria mostrava-se apreensiva e tornara-se mais lenta e silenciosa. Também menos afetuosa e a interação física na cama deixara de existir. Ela estava preocupada e não se conseguia libertar emocionalmente da longa espera que se seguiria pelo resultado daquela gravidez. Para a acompanhar foi contratado o Dr. Charles Locock, o melhor obstetra de Londres.
William observava-a, percebia o que se passava, mas não falava sobre este assunto diretamente com ela. Dava-lhe tempo para que ela se reorganizasse. Sentia-se quase culpado pelo facto de Victoria estar a passar por isto. Para tentar minimizar a apreensão dela dava-lhe ainda mais atenção e era extremamente carinhoso com ela. Ela precisava de se libertar daquela tensão que se tinha instalado desde que o médico confirmara a gravidez.
O lançamento do HMS Trafalgar estava prevista para 21 de Junho. Se os enjoos não estivessem controlados a situação estava complicada! Porque é que ela tinha de passar por aquilo? Ser mulher e ser monarca eram duas realidades que dificilmente combinavam e ela era confrontada com isso todos os dias. Um monarca homem não tinha estes problemas e poderia ir para onde quisesse sempre que fosse necessário. Parecia que um monarca feminino era uma figura frágil e ela tinha de lutar contra essa imagem! E como é que a prima Maria lhe podia escrever de Portugal a falar sobre as bênçãos da maternidade? Ela que tinha partos terríveis! Mas que gostava de ser mãe…
Para a ajudar, William escreveu-lhe o discurso para a cerimónia do dia seguinte enquanto ela passou algumas horas metida na cama acompanhada pelo pequeno Achilles. Não seria um discurso longo, mas ela não conseguiria pensar nem em cinco linhas. Quando ele terminou foi ao quarto com as folhas.
- Tenho aqui o rascunho para você ler e alterar o que achar necessário. – Ele informou enquanto caminhava até ela e se sentava na beira da cama.
- Está ótimo com certeza! Não quero ler nada disso! – Ela respondeu em desalento.
- Tem a certeza? Você só vai ler isto amanhã na cerimónia?
- Oh, meu amor, você sabe melhor do que eu o que deve ser dito! Obrigada!
Ele beijou-lhe a testa.
Os enjoos eram piores de manhã, mas o lançamento do navio aconteceria da parte da tarde no Woolwich Dockyard.
Victoria bebeu chá de gengibre, tido como um bom controlador dos enjoos antes de partir de carruagem para o porto, de capa e chapéu, acompanhada por William.
Por muitos quilómetros, o Tamisa estava coberto de todos os tipos de barcos e centenas de milhares de pessoas estavam presentes no evento.
No porto engalanado, Victoria desceu da carruagem, apoiada na mão de William. Então uma menina dirigiu-a a ela e deu-lhe um ramo de flores. A rainha sorriu-lhe agradada pela gentileza.
Ele reparou naquela criança que devia ter uns 8 ou 9 anos, de canudos louros e olhos azuis e lembrou-se que a filha que tivera com Caroline nunca pudera atingir aquela idade. Contudo, pensou também que em breve outra criança ia nascer e desta vez ele esperava, não só que sobreviesse, mas também que fosse saudável.
Victoria discursou e assistiu ao lançamento de mais este navio de 120 armas para a Marinha Real,a partir da tribuna onde estava acompanhada por William.
A pedido da rainha o navio foi batizado por Lady Bridport, sobrinha de Lord Nelson, o Almirante que comandara a esquadra britânica contra a esquadra franco-espanhola na batalha de Trafalgar, em 1805, onde acabara por morrer, embora conseguindo a vitória para as forças britânicas. O vinho utilizado foi mesmo algum do que tinha sido guardado do HMS Victory – o navio almirante de Nelson – depois de voltar de Trafalgar. No momento do lançamento, encontravam-se quinhentas pessoas a bordo do navio, das quais cem tinham estado na batalha.
Embora tudo tivesse corrido bem durante a cerimónia, e não tivesse havido enjoos embaraçosos, no final Victoria voltou para o palácio com dor de cabeça e cansada. Fez a viagem de regresso encostada no peito de William e tornou a ir para a cama.
Ele achou que a prostração dela derivava mais de apreensão emocional do que do mau estar físico provocado pelos enjoos e pelas dores de cabeça.
Quando William espreitou à porta do quarto, quase ao anoitecer, viu que ela já tinha acordado e estava sentada na cama, depois de ter descansado algumas horas. Apenas de calças e camisa, e calçado, foi sentar-se na cama ao lado dela e pegou-lhe na mão esquerda.
- Está melhor? – Ele perguntou.
- Agora sim!
- Victoria… Há alguma coisa que você me queira dizer? Sobre o seu estado… - William perguntou dando-lhe oportunidade imediata de falar sobre aquilo que a preocupava.
Ela olhou para ele uns segundos e depois perguntou:
- William, você gosta de bebés?
Ele ficou surpreendido com a pergunta, mas não deixou que isso se notasse na sua expressão.
- Eu penso que eles nos inspiram ternura, você não acha?
- Eu não sei… Eu não sinto nada por eles… Não é que eu não goste deles, mas eu também não sinto que goste…
- Você não sente desejo de ser mãe? – Ele perguntou para a ajudar a concretizar o que ela dizia.
Victoria engoliu e com um ar aflito confessou:
- Desculpe William, mas, de facto, eu não sinto desejo de ser mãe. – E depois continuou num tom de voz mais aflito: - Eu quero dar-lhe um filho! Eu pensei que as coisas mudariam, que eu me sentiria diferente depois que eu ficasse à espera de um bebé…Mas não mudou nada…
Ele estava surpreso com esta confissão, mas ele não podia reagir negativamente porque isso só pioraria as coisas. Não era suposto que ela não sentisse empatia por bebés! Todas as mulheres adoravam bebés! Ou não? Bem, se ele pensasse sobre isso, talvez ele já tivesse ouvido algumas histórias…Optou por pegar na parte conhecida:
- Bem, Victoria…Eu sei que você tem medo do parto, e eu compreendo, é natural…Deve ser por isso que você não sente desejo de ter essa criança…
- Não é só isso William… Eu acho que eu não saberei o que fazer com um bebé…
Ele falou rapidamente:
- Mas isso é normal, Victoria! Ninguém nasce ensinado. Você terá que aprender e não estará sozinha, terá pessoas que vão ajudar nessa função: a sua mãe, Lehzen, as suas damas, a ama…Você aprende sempre tudo tão depressa… - Ele suspirou e depois terminou: - E eu já antes lhe disse que também vai aprender depressa a ser mãe…
- Neste momento eu acho que esta criança me embaraça…
William largou a mão dela colocando as duas mãos sobre o colo.
- Um embaraço, Victoria? – Ele perguntou atónito. Agora sentia-se magoado pelo filho que ainda mal se formava.
Ela ajoelhou-se na cama virando-se para ele e exclamou em aflição:
- Desculpe! Eu só queria ser livre! Livre! Você entende?
As lágrimas dela começaram a correr pelo rosto. Ela tinha medo de morrer, ela não desejava aquela criança por variadíssimas razões, ela estava sensível e agora percebera que o tinha magoado! E ela não queria que isso acontecesse! E ele era a única pessoa com quem ela podia desabafar e só ele a podia ajudar a ver as coisas de outra forma… Bem, ela esperava que, como sempre, ele pudesse fazer isso… Mas agora… talvez ela tivesse ido longe demais…
A chorar ela explicou angustiada:
- Eu era uma prisioneira em Kensington! Você sabe William! E eu desejei durante anos ser livre! Sonhei que quando eu fosse rainha eu poderia fazer tudo o que eu quisesse, podia autodeterminar-me, podia usufruir da vida. E foi isso que aconteceu nos primeiros anos! Com você! Só com você! Você sabe…E depois eu quis casar consigo, para ser ainda mais livre! Livre de casar com o homem que eu amava! Livre e feliz! Só você sabe como eu sou feliz ao seu lado! Então eu queria que a minha liberdade e a nossa felicidade juntos continuasse! Um bebé vem mudar tudo! Eu já não sei se eu vou continuar a ser feliz, eu sinto-me ameaçada de morte…
Ele achou que ela estava confusa e assustada e que, como sempre, precisava dele. E ele já tinha a idade e a experiência suficiente que teriam de lhe permitir lidar com aquela situação. Aplacar o próprio choque e, como sempre, tranquilizá-la. E ele entendia o que ela estava a dizer sobre o passado... E ela era tão jovem…
- Victoria, isso não vai acontecer! Você é forte e saudável!
- E o meu corpo vai mudar…Você vai gostar de me ver com uma barriga enorme?
Ele sentiu-se tocado por esta preocupação tão ingénua e tão natural ao mesmo tempo. Ajoelhou-se na cama virando-se para ela. Pegou-lhe nas mãos e disse:
- Oh, Victoria! Quando se ama alguém não deixamos de amar porque o corpo dessa pessoa mudou! E eu tenho a certeza que quando a sua barriga crescer você ficará linda! Uma mulher grávida pode ser algo muito bonito!
Ela sorriu. Se ele dizia…
- Mas agora eu não vou poder fazer imensas coisas, eu sinto-me prisioneira deste bebé, condicionada na minha existência por ele, e depois que esta criança nascer haverá alguém por quem eu serei responsável…É estranho…
William pensou que com o tempo, com paciência e com ternura, como sempre tinha feito, o entendimento que ela tinha da maternidade iria melhorar. Disse:
- Victoria! Você poderá continuar a fazer algumas coisas mesmo estando grávida, sobretudo nos próximos meses, mas outras não poderá fazer, mas só mais para o final da gravidez… Mas é pela sua saúde e do bebé que vai nascer e será apenas temporário. Depois voltará a fazer tudo como antes. E quanto a tomar conta dessa criança você não está sozinha, eu também estou aqui! E você sabe como eu tenho experiência em tomar conta de crianças… E o palácio está cheio de gente também para ajudar. Um bebé pode não ser fácil de lidar, mas também não é uma coisa assustadora!
Dito assim, ela achou que talvez não fosse tão difícil. Ele ter dito: "Eu também estou aqui", tinha soado encorajador.
Ela sentia-se culpada por não sentir nada de especial por aquele pequeno ser que se formava dentro dela! Ela devia adorá-lo, com certeza! Era isso que todas as mulheres diziam sentir pelos filhos! E ela tinha confessado essa sua falta ao pai daquela criança, ao homem que ela amava…
Victoria abraçou William com força e pediu:
- Perdoe-me William, por não desejar o nosso filho da mesma forma que você!
Ele sentiu-se comovido pelo pedido dela. Denotava que se sentia culpada. Mas ele percebia que ela não tinha culpa, que aquilo era algo que a suplantava. Sentia nas mãos as costas dela através do tecido da camisa de dormir. E o calor e a forma do corpo dela eram agora tão familiares! E faziam-no sentir-se tão bem! Respondeu:
- Você irá amá-lo! Você irá…E até lá eu irei amá-lo pelos dois!
Victoria pensou que não podia existir um homem assim! Com tão grande capacidade de amar!
