Epílogo

Ansioso, Edward aguardava as orações da tarde, quando ouviria as leituras conhecidas sobre homens que haviam ouvido anjos durante Aquela Noite, e de outros que haviam seguido uma estrela. Fazia muito tempo — talvez sua vida toda — que não experimentava aquela sensação doce e melancólica de contentamento. Para ele, era um presente muito mais precioso do que qualquer quantia de ouro ou incenso.

Seu único pesar era muitos terem pago um preço tão alto por isso.

— Feliz Natal, Edward .

A suavidade das palavras às suas costas mesclou-se com o ar frio, e Edward achou que sua imaginação lhe pregava mais uma peça. Hesitou, antes de se virar. Mas não pretendia desperdiçar a mínima oportunidade de ver se Bella estava ali, mesmo se fosse à custa de um desapontamento.

E não se desapontou.

Bella aproximou-se e empurrou para trás o capuz do manto guarnecido de peles. Não se tratava de uma fantasia. Sua beleza morena tornou a atingi-lo com vigor ainda maior que de costume.

O autodomínio de Edward, que ele pouco vinha exercitando, abandonou-o completamente. Na certa seu rosto demonstrava a ansiedade que ardia em seu coração. E Bella parecia ter adquirido a tranqüilidade que ele perdera. Pela primeira vez, Edward não conseguiu decifrar-lhe os sentimentos por intermédio do olhar.

— Fe... feliz Natal. Ninguém me disse que a senhorita viria passar as festas aqui.

— Eu não pensava fazê-lo até há poucos dias. Como tem passado, milorde? Pelo que me disseram, milorde esteve muito ocupado nos últimos tempos. Os nossos amigos não se cansam de elogiá-lo. Se continuar nesse ritmo, receio que jamais poderá ressuscitar Lorde Lúcifer.

— Bons ventos o levem! — Edward deu de ombros. Um canário cantou, empoleirado em um teixo velho e esquálido.

— Por que milorde assumiu os meus "abandonados"? — Bella perguntou, com um traço de severidade. — Trata-se de algum tipo de penitência?

— No início, sim — Edward admitiu —, mas a tarefa tornou-se prazerosa em muito pouco tempo e perdeu o sentido de expiação de falta.

— Verdade? — Bella ergueu uma sobrancelha. Edward anuiu.

— Eu não estava inteiramente convencido de que caridade e compaixão pudessem ser gratificantes. Todavia nas últimas semanas aprendi a conhecer seus amigos e descobri que essas virtudes têm mais a ver com...

— Amor? Pode dizer a palavra, Edward. Prometo-lhe que a sua língua não ficará petrificada.

— Então está bem... Amor. Espere, diga-me uma coisa. Quer falar comigo — ele apontou na direção da sepultura do avô — ou veio apenas visitá-lo?

— As duas coisas. — Bella aproximou-se. — Preciso fazer-lhe uma pergunta e tive o pressentimento de que poderia encontrá-lo aqui. E este pode ser um bom lugar, como qualquer outro, para resolvermos o que não ficou decidido.

— Pensei que tudo entre nós estivesse terminado. — A custo, Edward conseguiu conter um suspiro.

— Ainda não encerramos o assunto. Tenho uma dúvida e, depois de tudo o que o senhor me fez passar, creio que me deve uma resposta honesta.

Embora as palavras dela soassem ameaçadoras, Edward anuiu.

— Está bem.

Os flocos de neve deslizavam delicadamente ao redor deles. Belos e suaves. Os cabelos de Bella pareciam cobertos por uma mantilha da mais delicada renda.

— Agora que não tenho mais o poder de obrigá-lo a casar-se comigo, milorde pode admitir que já me amou?

— Bella fitou-lhe os olhos e, apesar da tarde que caía, viu algo que a fez completar a pergunta. — E ainda ama?

Apesar de o orgulho recomendar-lhe a negativa, Edward não suportaria mais um peso na consciência de uma nova mentira para Bella.

— Eu a amei muito mais do que me permitia acreditar.

— Edward sentiu a tormenta de expressar-se em voz alta e tão próximo de Bella, depois de abdicar do direito de tomá-la nos braços. —:Ea amo agora, como também tenho certeza de que sempre a amarei.

A confissão pareceu a Edward a melhor alternativa. Poderia não ter outra oportunidade para fazer isso.

— As cartas que escrevi foram um relato verdadeiro dos sentimentos que eu jamais tive coragem de verbalizar.

Envergonhado, Edward teve vontade de desviar o rosto, mas não o fez. Aquilo seria o mesmo que enganar Bella.

— Eu errei em profanar as expressões oriundas dos meus sentimentos mais íntimos, usando-as para ludibriá-la. Enganei a mim mesmo, acreditando que tivesse razões nobres para fazer o que fiz. Agora entendo que uma grande parte disso foi devida à covardia e à soberba, mascaradas como preocupação com a sua felicidade.

Ele não duvidava que Bella houvesse reconhecido a verdade sórdida por si mesma.

— Eu não pedirei seu perdão. — Ele se virou de costas.

— Ambos sabemos que não o mereço, assim como não mereci o amor que um dia a senhorita me ofereceu.

Um aperto leve na manga o deteve.

— Espere um momento, milorde.

O que mais Bella poderia fazer ou dizer para feri-lo? Edward receou o que viria, dado o poder que ela exercia sobre seu coração. Ainda assim, ele se voltou para aceitar o castigo.

— Creio que a sua arrogância ainda não está curada, como milorde parece acreditar.

Em uma contradição atordoante, Edward sentiu a mão de Bella descer da manga e agasalhar-lhe os dedos.

— Seu avô já dizia que, mesmo sendo um conde, não tinha poder para intervir em muitas coisas. Pois bem, o perdão é uma delas. Milorde não poderá exigir meu perdão, se eu resolver não o utilizar. Como também não poderá negá-lo, se eu decidir perdoar.

Durante toda sua vida, Edward empenhara-se para ter o controle das circunstâncias, até mesmo de suas próprias emoções. A partir do momento em que Bella Swan tropeçara e caíra em seus braços, ela iniciara uma rebelião silenciosa contra a autoridade dele. Edward também jamais poderia supor que Bella chegasse a ter o objetivo de libertá-lo da tirania por ele mesmo produzida.

— Eu já o perdoei — ela anunciou, em um desafio gentil. — De outra forma, não estaria aqui. E também não teria vindo se não o amasse. Eu decidi permanecer solteira. Não posso casar-me com alguém a quem não possa entregar meu coração. Isto é... a menos... que milorde queira que eu me torne sua esposa.

Bella tirou das dobras da capa um par de óculos e entregou-os a Edward.

— Mandei fazê-los em um oculista de Bath. As lentes escuras protegerão seus olhos da luz do dia. Por mais que eu me alegre com as observações noturnas e ocasionais das estrelas, também preciso de um marido que possa estar a meu lado no mundo diurno.

Edward virou e revirou as lentes na mão. Admitiu que elas poderiam defender seus olhos da luminosidade, mas não esconderiam suas cicatrizes.

Aquele era o preço que Bella cobrava dele para ser sua esposa.

— Será que milorde tomou tanto gosto pela escuridão que já não sente vontade de enfrentar o calor do sol?

Não mesmo?

Os demônios negros atraíam Edward como o canto das sereias. Eles nunca o abandonariam e nem o desapontariam. Jamais o elevariam a grandes alturas para depois atirá-lo em um poço ainda mais profundo. Eles o esconderiam do desprezo e da piedade do mundo.

A tristeza nas feições de Bella deu a Edward a impressão de que ela adivinhava a luta que se travava em seu peito. Aquilo o lembrou de um comandante cujas tropas haviam lutado com valentia, mas que fora obrigado a aceitar a derrota. Devagar, Bella iniciou a retirada.

Edward observou-a, incapaz de romper o encanto inflexível que o mantinha atado.

Nisso, uma força — como se fosse a de uma mão frágil e amorosa — empurrou-o para a frente.

Edward caiu de joelhos na neve.

— Bella, espere! Ela se deteve.

Edward arrancou a máscara do rosto e sentiu um solitário floco de neve beijar-lhe a face desfigurada.

— Aceita ser minha esposa? Por favor.

Quando Bella se virou, Edward preparou-se para a aversão que esperava ver em seus olhos expressivos.

Em vez disso, ele só encontrou amor. O de Bella e o reflexo de seu próprio.

Bella estendeu os braços.

— Só se me prometer que não terei de suportar um noivado longo.

Edward levantou-se e pôs os óculos na base do nariz, de maneira desajeitada. E, quando tomou Bella nos braços, foi envolvido por uma sensação estimulante da antiga segurança.

— Eu posso conseguir uma licença especial. — Edward saboreou cada sensação daquele abraço. — Minha querida, prometo-lhe que se tornará a condessa de Mansen antes do Ano-Novo.

— Mais uma coisa... — Bella tirou a luva para acariciar-lhe o rosto.

Edward não estremeceu ao ser tocado, nem pelo pedido... qualquer um que pudesse ser.

— Milorde pode estar certo de que esperarei uma carta poética de amor a cada aniversário de casamento.

— Aceito. Eu providenciarei um estoque de papel e tinta — Edward assegurou-lhe.

O beijo deles teve toda a beleza do crepúsculo e todas as promessas de um amanhecer radioso.

Espero que tenham gostado tanto como eu, eu vou sentir muita saudade de A Bella e o Barão, mas se vocês também sentir, vai ser fácil matar a saudade é só visitar a história desses dois turrões novamente,

Beijos da sua autora Du Mal,

Paloma Gomes.