Rachel e Finn estavam se divertindo ainda mais no quarto secreto nas últimas três semanas, revezando nos papéis de dominador e submisso. Com ele morando junto no apartamento dela, não havia dia e hora certos para dividirem experiências quentes, envolvendo lingeries exóticas, vibradores, géis cheios de sabor, cordas coloridas, coleiras e chicotes. Naquela sexta-feira à noite, depois de terem decidido ficar em casa vendo o filme Constantine, enquanto uma chuva forte caía do lado de fora, ela não esperava que a noite deles iria terminar no cômodo mais escondido da casa. Já estava de camisola e deitada preguiçosamente, quando ele a pegou no colo e a levou consigo até lá.

"Pelo jeito, é a sua vez hoje, né?" Ela questionou, quando ele a colocou sobre a cama redonda.

"É, sim. Fica quietinha aí, que eu já volto." Respondeu, se encaminhando para o som.

Colocou uma música dos anos oitenta da qual ambos gostavam muito e que já tinham escutado juntos várias vezes, mas que ela sabia nunca ter colocado no iPod que ficava conectado ao aparelho usado naquela parte da casa. A música não era sensual, para fazer parte do repertório do lugar, e sim romântica, como a maioria das que eles ouviam na sala de estar, quando estavam em clima de namoro.

Ooh... yes... yes (Oh... sim... sim)

Nothing never felt to me (Eu nunca senti algo assim)

Like you do right now (Como sinto com você agora)

Aah... Yes... yes (Ah... sim... sim)

That's the only word (Esta é a única palavra)

I want to hear from your mouth (Que eu quero ouvir da sua boca)

Oh, let's not waste our time (Oh, vamos deixar de perder tempo)

Hiding what we feel inside (Escondendo o que sentimos aqui dentro)

If your tongue is tied, just whisper yes (Se a sua língua estiver presa,apenas sussurre sim)

Darling, yes... darling, yes (Querido, sim... querido, sim)

A voz de Tim Moore enchia o quarto, enquanto Finn andava até uma confusa Rachel, que estudava seus movimentos. Os lábios dele acompanhavam as palavras do cantor, sem emitir qualquer som, enquanto ele se ajoelhava na frente dela, segurava seu rosto entre as mãos e acariciava seu lábio inferior com o polegar. Ele roubou alguns selinhos dela, mas foi apenas isso, antes que assumisse uma atitude séria, encarando-a e dando início a um pequeno discurso.

"Eu não preparei nada pra hoje, não vou vestir nenhuma fantasia, e nem vou usar algemas ou amarras, Rach. Eu te trouxe aqui porque foi onde tudo começou, onde você me amarrou tantas vezes, me prendeu, no sentido literal, e também, sem saber, e nem querer, acabou me amarrando num sentido bem mais amplo, sabe? Figurado?" Perguntou, sorridente e ela assentiu, olhando o namorado com curiosidade. "Então, eu acho que é aqui que eu devo te amarrar também... te prender de todas as maneiras. Aqui e agora, se você deixar, eu quero colocar em você a única algema que é realmente relevante pra mim." Respirando fundo, ele tirou do bolso uma caixinha de veludo vermelho que ela conhecia bem, que ela mesma tinha idealizado para carregar e proteger os preciosos anéis e alianças de sua Red Rave. "Eu sei que talvez pareça que não faz diferença, já que eu já estou morando aqui, mas eu já tinha encomendado e, além disso, eu também..."

Finn foi interrompido em seu discurso nervoso, visto que era impossível continuar falando com os lábios de Rachel grudados nos seus, a língua da mulher invadindo sua boca com ansiedade, enquanto as mãos dela agarravam sua nuca. Ele fechou uma das mãos em volta da caixa, apertando o objeto, sem saber se, com o beijo, ela queria ganhar tempo e pensar em uma maneira de dizer "não" ao pedido que estava sendo feito, ou se ela estava feliz e ainda mais cheia de paixão por ele, como as carícias sugeriam.

"É claro que eu aceito, meu amor! E faz diferença, sim! Óbvio que o mais importante eu já tenho, que é você aqui, perto de mim, mas é bom confirmar que você me ama tanto, a ponto de querer que eu seja sua mulher de todas as formas, e eu sei que meus pais gostariam que eu me casasse, com todas as formalidades e com um homem como você."

"Como eu?" Levantou as sobrancelhas.

"Gentil, educado, cuidadoso, carinhoso..." Sorriu. "Depois de tudo que eu vivi, nos últimos anos... tudo que eu fui, as minhas escolhas... provavelmente vai ser a primeira coisa que eu vou fazer que vai dar orgulho a eles, se os mortos podem mesmo nos observar de algum lugar." Falou, um pouco triste, mas logo abandonou tal tom. "Coloca em mim!" Entusiasmada, ela ofereceu a mão esquerda a ele, que colocou o anel em seu dedo, tremendo um pouco, o que fez ambos rirem.

"Rachel..." Ele suspirou e acariciou a mão dela, admirando a joia que representava o compromisso dos dois. "Seus pais teriam muito orgulho de você, e não porque você vai se casar comigo. Eles teriam orgulho porque você sobreviveu ao inferno! As suas escolhas foram todas pra se proteger e você não fez mal a ninguém, porque todo mundo que você subjugou e maltratou concordou em ter esse tipo de relação com você."

"Era uma vida que nenhum pai ou mãe ia querer pra uma filha." Afirmou a garota, convicta.

"Deixa de ser dura com você, Rach!" Implorou. "Foi o caminho que você encontrou, e tudo isso ficou pra trás na hora que era pra ficar!"

"Quando eu te conheci." Acariciou o rosto dele. "Eu te amo demais, meu noivo lindo!"

"Eu também te amo, Rach! Te amo muito!" Falou, juntando-se enfim a ela na cama, e demonstrando o que palavras tentavam, mas não conseguiam, dizer.

Nenhum noivado tradicional foi marcado, mas o casal, e seus amigos e parentes, ficaram em clima de comemoração por semanas. Como Rachel não seguia a religião judaica havia muitos anos, concordou em se casar na igreja, sabendo que isto faria os Hudson muito felizes. A celebração, depois da qual haveria uma recepção, foi marcada para quatro meses depois, e, durante eles, a noiva contou com a ajuda de Harmony e Kitty para cuidar de todos os detalhes. Tudo foi escolhido com o maior cuidado, deste o salão de festas até os brincos de água marinha, que seriam a "coisa azul" do dia.

Os Berry aprovaram a decisão do casal, e Hiram, mesmo não tendo certeza de estar a altura de substituir o pai de Rachel, aceitou o convite para acompanhá-la ao altar. Blaine, por sua vez, concordou em pegar um avião para a Filadélfia, uma semana antes do dia escolhido para a cerimônia, para participar dos ensaios, uma vez que ele seria um dos padrinhos. E foi assim que o rapaz, que tinha procurado a irmã justamente por se preocupar com a possibilidade de Brody encontrá-la, acabou levando o inimigo até ela.

Até os dezoito anos, Brody Weston tinha sido apenas um filhinho de papai, mimado, cuja única atividade de interesse era gastar dinheiro. Além de não querer nada com os estudos, ele tinha o pai como exemplo e, por isso, achava que tudo aquilo que não podia ser comprado se conquistava na base da força. Vivia se envolvendo em brigas na escola, na qual jamais se formara, e Rachel não havia sido a única garota que ele tentara tocar, sem consentimento.

Quando Norton morreu e ele fugiu da polícia, passando a vagar pelas ruas de São Francisco, acabou envolvido com o pior tipo de ser humano possível e, em pouco tempo, tornou-se o verdadeiro bandido que era agora. No começo, realizava furtos e ajudava os traficantes, apenas vigiando entradas e informando sobre a eventual chegada da polícia, mas logo estava pegando em armas e participando de assaltos, e vendendo drogas pessoalmente, e, passados alguns anos, era parte importante de uma grande organização criminosa, que atuava em vários estados do país.

Logo que conseguiu os documentos falsos que o apresentavam como Preston White, ele saiu da cidade e as mudanças de endereço se tornaram uma constante em sua vida, e foi enquanto morava em Chicago que a vida dele cruzou de novo com a de Blaine. O jovem arquiteto estava hospedado em um hotel naquela cidade, a fim de participar de um importante congresso para profissionais da sua área, e passou pelo hall de entrada no exato momento em que o traficante chegava para encontrar um importante cliente.

O seu primeiro impulso foi ir até o outro rapaz e concluir o serviço que tinha começado tempos antes, mas ele agora era mais esperto e sabia que poderia perder muito com uma atitude impensada. Decidiu tentar obter o máximo de informações que pudesse sobre seu antigo desafeto, e, no fim das contas, o sobrenome falso e o endereço de Blaine em Washington lhe custaram nada mais que um demorado jantar em um dos restaurantes mais caros e badalados da cidade, seguido de uma noite de sexo selvagem, com uma das recepcionistas do hotel.

Desde então, morava na capital do país, como Blaine, e seguia todos os seus passos. Mesmo depois de tantos anos, ele ainda tinha uma obsessão por Rachel tão grande, que era capaz de controlar todo o seu desejo de agredir o irmão dela, apenas na esperança de que, um dia, a encontraria por meio dele. Por anos, sua teimosia não tinha dado nenhum retorno, mas naquele sábado à tarde sua sorte estava para mudar.

"Parceiro, o mané tá pegando um táxi com duas malas." Um dos comparsas que o ajudava a tomar conta de Blaine informou, ao telefone.

"É a segunda viagem em seis meses, depois de anos sem viajar! Ele TEM que estar indo visitar a irmã." Falou, sentindo uma excitação tomar conta de si.

"Na boa, cara! Ele pode estar indo a qualquer lugar, fazer qualquer coisa." Comentou o outro, não muito convencido.

"Eu vivo cada dia da minha vida pra encontrar essa putinha, e eu sei que, um dia, isso vai acontecer!" Falou, irritado. "Foi por isso que eu vi a bicha do irmão dela, do nada! É pra isso que eu dou grana pra você e já molhei a mão de meio mundo, caralho! Então não me vem com essa e se vira pra descobrir pra onde ele vai, já que da outra vez o Ned não conseguiu."

"Ok, chefe." Retorquiu debochado, desligando, e seguiu o táxi até o aeroporto, onde, obviamente, não conseguiu que ninguém lhe desse informações sobre o destino do passageiro.

"Pra onde ele foi, Leo?" Brody atendeu o celular e não se importou em dizer nada, antes de questioná-lo.

"É impossível conseguir arrancar qualquer coisa de alguém aqui e, se eu falar diretamente em dinheiro, vou sair daqui preso, meu chapa. Desiste disso!"

"EU JÁ TE FALEI QUE NÃO VOU DESISTIR, PORRA!" Gritou e Leo bufou, irritado, só continuando na linha porque o trabalho que fazia era bem fácil, considerando quanto o homem do outro lado da linha pagava para que ele o fizesse. "Compra uma PORRA de uma passagem, entra na sala de embarque, e VÊ pra onde vai o voo! Depois você inventa uma desculpa qualquer pra sair... não me interessa qual. E me liga, imediatamente, porque eu vou ter que me virar pra arrumar alguém, no lugar pra onde ele for, que possa ficar no aeroporto e ir atrás dele... ou saber não vai adiantar nada!"

Brody não esperou resposta e interrompeu a ligação. Esperou durante alguns minutos, já pensando na frustração que seria se Blaine fosse para algum lugar onde não havia nenhum braço da organização de que ele fazia parte. Porém, eram muito poucos estes lugares, e a Filadélfia certamente não era um deles. O chefe local nunca tinha trabalhado com Brody, mas devia favores ao superior direto dele, e o tempo de viagem de Washington à Pensilvânia foi tempo mais do que suficiente para que o rapaz fosse colocado em contato com alguém que faria o serviço.

"Eu to te mandando várias fotos, pra que você não tenha dúvidas sobre quem é o cara." Avisou ao novo cúmplice, depois de dar as informações sobre o voo, passadas por Leo.

"Eu já recebi algumas e tão bem nítidas. Pode ficar na boa, que eu vou ficar nos calcanhares dele e anotar todos os endereços dos lugares que ele visitar, características de quem ele encontrar... tudo."

A sorte estava a favor de Brody e todo o esquema em que ele tinha investido, sem retorno, por quase uma década, estava prestes a dar resultado.

Dois dias depois do embarque de Blaine era o homem conhecido como Preston White quem adentrava, com pesada bagagem, o Aeroporto Internacional Washington Dulles, indo rumo a Filadélfia, sem data certa para voltar.