Todos os diálogos em itálico estão na língua – fictícia – dos sereianos.
Capítulo 24 - Mitos
BPOV
Não vou olhar pra trás, não vou olhar pra trás, não vou olhar pra trás.
Meu mantra não estava funcionando. Eu parei de nadar e olhei para trás, para além da água, onde Edward ainda estava sentado na pedra onde nos conhecemos. Havia outra forma sentando ao lado dele, e pelo contorno pequeno, parecia Alice.
Eu gostaria de poder ver seu rosto direito. Sem as ondulações da água. Agora, era apenas um borrão.
Engoli seco e voltei a nadar em direção ao ponto de encontro, que não era muito longe dali. Fui numa velocidade tranquila, sem querer me afastar demais, mesmo que eu soubesse que era impossível ficar.
Logo a visão da superfície sumiu, e eu não tinha motivos para prolongar minha viagem.
Meus pensamentos me impediram de curtir a sensação do oceano sob minha pele novamente. Era bom, poder respirar direito, sentir minha cauda novamente. Mas também tinha um gosto amargo. Edward não estava comigo.
Encontrei Maggie logo que cheguei ao ponto de encontro, que era uma formação de coral não muito longe da cidade.
"Estou surpresa de ver que você cumpriu sua promessa." eu disse a ela.
Maggie, que estivera checando suas unhas, virou pra mim e sorriu aquele sorriso cretino, que sempre me fazia querer bater nela.
"Eu tinha muito a perder, e você sabe, irmãzinha. Eu te ensinei bem a fina arte da chantagem." ela respondeu.
Suspirei e comecei a nadar.
"Vamos acabar logo com isso."
"É o seu funeral." ela bufou.
Nadamos em silêncio pelas formações de corais e entre os peixes e outras criaturas, e então a luminosidade vinda da minha cidade natal alcançou nossos olhos.
Lá estava ela.
Atlântida.
~.~
Eu gostaria de ter passado despercebida entre os milhares de sereianos que iam e vinham dentro da cidade.
Mas, como uma das princesas, isso foi, é claro, impossível.
Principalmente porque Maggie decidiu que queria conversar com as sereias, então ela parava a todo instante. Uma ou outra falava comigo delicada e educadamente, e eu me resignei a um sorriso educado e um aceno para estas.
"Maggie, eu vou sem você." eu disse a ela quando finalmente me enchi de suas paradas no meio do caminho.
Ela se despediu do tritão com quem flertava no momento e se virou pra mim com uma expressão que era ao mesmo tempo azeda e divertida.
"Você não ficou nem um pouco divertida nesse tempo na superfície." ela reclamou.
"Você só está fazendo isso pra fazer com que todos me vejam e saibam que eu voltei." eu disse, sabendo que estava certa. "E eu quero falar com nosso pai logo. Acabar logo com isso, já que eu sei que ele está furioso."
Maggie suspirou e balançou a cabeça.
"Como eu disse, é o seu funeral."
Não lhe dei mais ouvidos, e continuei nadando até o castelo. Ela eventualmente me seguiu, mesmo quando tentou parar novamente, mas eu continuei nadando.
Os guardas do castelo nos deixaram passar tranquilamente, e eu me permiti um suspiro de alívio por ter saído da multidão.
Eu não gostava de multidões. Me deixavam desconfortável, pra dizer o mínimo. Acho que era por isso que eu tinha o apelido de 'princesa antissocial'. Maggie tomou outro caminho para o seu quarto, não me dizendo nada enquanto o fazia. Eu entendi o recado: eu estava sozinha nessa.
Passei pelos portões do castelo com um ar tranquilo, mas por dentro eu estava tremendo de medo. Meu pai não era conhecido por ser tolerante com a desobediência, mesmo com suas filhas. E assim que ele soubesse que eu não estava caçando, e sim cantando na superfície apenas por diversão, eu sofreria as consequências.
Suspirei. Como eu queria que eu pudesse ter ficado na superfície com Edward... Meu coração já doía de saudade dele, e eu não sabia o que faria a partir de agora, sem vê-lo, tocá-lo, sentí-lo... Beijá-lo. Seria difícil. Muito difícil.
Mas eu seria forte. Por ele. Porque eu sabia que se meu pai soubesse que eu me apaixonara por um humano, minha punição seria dez mil vezes pior.
Marcus, o tritão conselheiro que era o braço direito de meu pai, me recebeu assim que entrei no interior do castelo, recebendo olhares de relance de todos os criados que iam pra lá e pra cá com seus afazeres.
"Princesa Isabella, é um imenso prazer vê-la novamente." Ele disse, em seu tom calmo e sempre formal. "Vossa alteza está bem? Não foi machucada pelos humanos?"
'Estou bem, Marcus. Obrigada. Onde está meu pai?" Eu respondi com um sorriso forçado.
"Ele está em uma reunião no momento, mas sua mãe a espera no Salão de Baile. O rei a verá assim que estiver livre, eu garanto."
"Tudo bem." eu disse, me animando um pouco com a perspectiva de ver minha mãe. Ela sempre me acalmava.
Marcus me acompanhou até o Salão de Baile, onde minha mãe dava ordens às criadas que arrumavam o lugar. Eu franzi, percebendo que a decoração indicava uma ocasião especial.
"O que estamos comemorando?" perguntei hesitante quando cheguei perto o suficiente.
Minha mãe levantou os olhos de uma prancheta para me ver, sorriu brilhantemente – quase tanto quanto o sol visto da superfície – e correu para mim.
"Oh, Isabella querida! Pensei que tinha perdido você!" ela disse, a voz emocionada, enquanto me abraçava.
Eu a abracei de volta com força, matando um pouco da saudade. De todas as coisas que eu tinha sentido falta sobre o oceano, minha mãe tinha sido a maior delas.
"Eles machucaram você? Aqueles humanos desprezíveis?" ela perguntou, me olhando atentamente para qualquer sinal de machucados.
Eu neguei com a cabeça.
Tudo bem, o tal doutor que me capturara tinha machucado meus braços, mas eu já tinha ficado curada disso, e minha mãe não precisava saber.
"Estou bem, mamãe." respondi com um sorriso tenso. "Eu prometo."
Ela estreitou os olhos, sabendo que eu não estava sendo completamente sincera, mas deixou passar. Sorriu de leve e apertou meus ombros em conforto.
"Seu pai não está tão zangado quanto você pensa." ela assegurou.
Arqueei uma sobrancelha, sem acreditar nisso por um minuto sequer.
"Duvido."
Ela riu. Então eu decidi tirar o foco de mim.
"Você não respondeu." apontei para o salão. "O que estamos comemorando?"
Ela pareceu lembrar onde estava e bufou de frustração.
"Seu pai está dando um baile para as criaturas do mar que estão visitando hoje." ela rolou os olhos. "Nada demais, mas eu quero tudo perfeito."
"Como sempre." zombei dela.
Ela riu e assentiu, e então Marcus reapareceu.
"Princesa, seu pai a espera em seu escritório." ele disse com uma reverência para mim e minha mãe.
Eu engoli em seco e assenti, e minha mãe apertou minhas mãos em conforto antes que eu saísse.
"Estarei aqui se precisar de mim." ela ofereceu.
Eu agradeci e segui Marcus até o escritório do meu pai, meu coração martelando no peito. Nem percebi quando chegamos lá, de tão distraída que estava em pensar que história eu contaria.
Meu pai me esperava com uma postura séria, mas tranquila, olhando pela janela para o exterior do castelo. Daquela janela, ele podia ver a maior parte da cidade que governava.
"Majestade," Marcus começou. "a princesa Isabella."
Ele fez uma reverência e saiu do escritório, fechando a porta, e meu pai não se mexeu um centímetro sequer. Eu sabia que ele tinha ouvido, porém, já que seus ombros tinham ficado um pouco mais tensos.
Eu suspirei e decidi começar a falar.
"Olá, pai." eu disse devagar. "Estou de volta."
Parecia algo estúpido a dizer, com tudo que já tinha acontecido, mas eu não sabia por onde começar.
Meu pai suspirou e se virou para mim. Seus olhos estavam cansados, sua postura relaxou para uma completamente vulnerável e ele me olhou com firmeza.
"O que aconteceu? Seja honesta e me conte tudo. Agora."
Sua voz não dava espaço para discussão, então eu respirei fundo e comecei a falar.
Contei como estava na superfície, cantando, e quando voltava para baixo, tinha sido capturada com uma rede enorme em um barco particular. Falei do Dr. Barnes e sobre o Aquário, e como tinha sido mantida num tanque de água salgada por um período. Então, sem saber quanto Maggie tinha dito, contei sobre o humano que tinha me salvado e me mantido em sua casa enquanto eu me recuperava e diminuía suspeitas, e como ele tinha me trazido de volta.
Não contei sobre meu amor por ele e ele por mim, e com certeza não contei quantos humanos foram envolvidos nisso. Disse apenas o básico, para que ele soubesse que eu estava falando a verdade. Tentei olhar nos seus olhos pela maior parte da história, mas eu não conseguia falar e encarar seus olhos decepcionados.
Quando terminei, meu pai não tinha dito uma palavra, e suspirou de frustração.
"Você percebe o que fez? Agora humanos sabem da nossa existência!" ele reclamou.
"Não exatamente." eu retruquei. "Eu não fui exposta para o público, e o humano que me ajudou teve certeza que não houvesse nenhum registro sobre mim. Antes que eu voltasse, vi que estavam chamando o homem que me capturou e o Aquário de mentirosos, porque não existiam sereias. Acho que estamos seguros."
"Achar não é suficiente, Isabella!" ele rosnou. "Precisamos ficar em alerta constante e ir caçar em litorais mais distantes agora, tudo por causa de sua desobediência e falta de cuidado!"
Eu me encolhi com seus gritos, sabendo que ele tinha razão, em parte. Mas o que eu poderia ter feito?
"Isso é imperdoável. A primeira regra é nunca deixar que um humano que a viu saia da água." Ele disse, nadando para um lado e para o outro, nervoso. "Você quebrou essa regra."
"Eu sinto muito, papai."
Ele bufou. "Desculpas não são suficientes. Vá para o seu quarto. Direi aos dignatários que você não estava se sentindo bem. Não vá para o baile. Mandarei que entreguem seu jantar. Amanhã pensarei em sua punição, mas até lá: não saia do quarto sob nenhuma hipótese. Estamos entendidos?"
Eu assenti. "Sim, senhor."
"Ótimo. Agora vá."
Com uma reverência apressada, sem olhar no rosto furioso e decepcionado do meu pai, eu me virei e fui embora, trancando a porta do meu quarto assim que cheguei lá.
~.~
A festa já durava há algum tempo. Uma criada viera me trazer o jantar – uma bandeja cheia de coisas não-humanas que não me abriram o apetite. Eu belisquei a comida, mas a maior parte permanecia intocada.
Estava sentada na minha cama, explorando meus objetos pessoais que não eram mais tão importantes.
Meu corpo poderia ter voltado para o oceano, mas minha mente e coração estavam muito longe dali.
Suspirei de tédio e tristeza pelo que pareceu ser a milésima vez. Então ouvi uma batida na minha porta, e minha mãe entrou logo depois disso.
"Olá querida." ela fechou a porta atrás de si e sentou ao meu lado na minha cama. "Como você está?"
"Como você acha?" perguntei com sarcasmo.
Ela suspirou e acarinhou minhas costas, nossas caudas balançando levemente em conjunto, fora da cama.
"Seu pai me contou o que aconteceu. Quer conversar?"
Eu mordi o lábio, incerta se deveria falar sobre isso.
"Querida, eu sei que você falou menos do que aconteceu." ela disse. "Não sou boba. Agora, quer desabafar comigo? Talvez ajude a tirar um pouco dessa tristeza que está te consumindo agora."
Então eu olhei nos olhos da minha mãe, cheios de amor e compreensão, e não pude fazer outra coisa a não ser contar tudo pra ela.
Absolutamente tudo. Sobre a captura, o aquário, Edward... sobre como nos conhecemos antes de eu ser capturada, sobre como ele tinha me tratado e como ele era comigo. Como eu tinha me apaixonado.
No momento em que eu terminei, estava abraçada com minha mãe, chorando lágrimas salgadas que se misturavam com a água, meu coração doendo de saudade e minha mente repassando cada momento que tivemos juntos.
Minha mãe só escutou, como sempre. Nunca me deu um olhar atravessado e nunca disse que eu estava errada. Apenas me ouviu, e entendeu.
Era tudo que eu precisava naquele momento.
~.~
Durante a madrugada, minha mãe apareceu no meu quarto de novo, me acordando com pressa.
"Vamos, querida." Ela disse num sussurro. "Vamos, levante."
"Aonde vamos?" perguntei grogue enquanto ela me arrastava pelos corredores para fora do castelo, que a essa hora estava quase deserto.
"Você verá." ela disse simplesmente.
Uma carruagem de golfinhos nos esperava na entrada, um criado a segurando para nós. Assim que estávamos acomodadas, minha mãe pegou as rédeas e levou os golfinhos para fora dos limites de Atlântida, passando por formações rochosas e de corais, num caminho escuro que eu conhecia.
"Mãe, o que está fazendo?" perguntei num sussurro apressado.
"Não precisa sussurrar, não estamos mais no castelo." ela disse. Com um sorriso pra mim, completou. "Estou levando você para a única que pode ajudar a colocar um sorriso no seu rosto de novo, minha filha."
Bem nesse momento, paramos em frente a uma caverna escura e sombria, que eu sabia muito bem a quem pertencia.
A Bruxa do Mar.
Então, o que acharam? Palpites sobre o que vem por aí? Hehe Digam tudo nas reviews.
O próximo capítulo sairá assim que possível. ;)
Beijo, beijo e até lá.
- Kessy R. (kessy_rods no twitter)
