24

Ao dar-se por si, já estava parada no meio do seu quarto, apertando a toalha de rosto como esta fosse uma boia salva-vidas. Por algum motivo, seu coração estava descompassado e sua respiração irregular. Voltou-se para a porta, notando-a aberta e apressou-se em cerrá-la.

Encontrou-se somente quando se deparou com sua imagem no grande espelho na entrada do closet. A Relena do reflexo apertava os cabelos úmidos e amarelados com a toalha azul-celeste tirada do armário. Destemida, emitia um fito indagador para aquela que a observava, exigindo uma explicação para tal reação tão impetuosa e descabida.

Só que naquele momento, ela não sabia responder, ainda emaranhada no estranhamento.

Embrulhou o cabelo em um turbante feito da toalha e sentou-se encolhida em uma das poltronas. Começou assim a desfazer os nós do fato tal qual este fosse um novelo que havia sido tratado com descuido.

O que o telefonema de Sylvia poderia significar?

"Precisamos resolver nossa situação" – e qual seria esta?

Afinal, o que existia entre Sylvia e Heero naquele momento?

E então mais fragmentos começaram a afluir formando a figura total de um mosaico.

Heero chegando tarde todos os dias.

Heero incomodado com a presença dela, alegando que o estava vigiando.

A aliança abandonada na pia do banheiro.

A verdade.

Mas Relena temia falá-la em voz alta, porque não conseguia aceitá-la.

Não ousaria ir ao ponto de dizer que Heero a estava traindo. Não, porque ela se lembrava do que haviam decidido no Verão anterior.

Abraçou a si mesma, sentindo um aperto no estômago. Ela não tinha provas nem a favor nem contra Heero, mas esbarrara-se em um detalhe bastante perturbador que a permitia concluir que, o que quer que exista entre Heero e Sylvia, ainda não havia acabado.

Não era à toa que Sylvia a evitava e ficava sem graça na presença dela – alguma coisa a podia estar condenando.

Fechou os olhos apertados, soltou o ar dos pulmões até crer-se toda vazia. Respirou fundo a seguir, desfez o turbante e levou a toalha até o banheiro para que pudesse secar.

Por que Heero achava ter permissão para aquilo? Como é que ele podia ser tão inconsequente e mesquinho? Ela não cansava de surpreender-se com a crueldade dele. Jamais pensou que houvesse no mundo alguém capaz de agir sem um pingo de cuidado como ele fazia. E ali descobriu o que realmente importava a Heero: ele mesmo e suas vontades. Uma resposta tão fácil, mas que estivera passando por alto todo o tempo.

Contra sua vontade, uma lágrima escorregou por seu rosto cálido de tensão. Ela a apagou com rudeza, esfregando a bochecha com força desnecessária. Era quase um pranto de raiva que ela chorava, um pranto de inconformidade, de revolta, de dor.

Dor pelo que nem tinha, dor pelo que não achava estar no direito de ter.

E depois, riu, nervosa. Precisava se fortalecer e não permitir se afetar por algo que não a interessava.

Se Heero queria Sylvia, que a tivesse! Melhor para ela que outra pessoa o entretivesse e fosse alvo de seu descontrole ferino. Melhor para ela que alguém o mantivesse longe de si, que a protegesse dele… era isto mesmo que precisava!

E ao mesmo tempo, as lágrimas caíam de seus olhos desbotados, inexplicáveis, incontidas, seguiram caindo até que Relena sentisse sono e desconforto.

Usou o secador de cabelos olhando para a parede porque lhe faltava coragem de olhar a própria face então. Depois, deitou-se abraçada ao travesseiro e adormeceu profundamente. Não queria mais pensar e a única forma de conseguir isso era se entorpecendo definitivamente.

Ela acordou bem antes do que programara. Ficou deitada olhando o teto enquanto a luminosidade da cidade criava um ambiente irrealístico no interior do quarto. Ouvia o tiquetaquear do carrilhão como se fosse dentro de sua cabeça. Porém, não se lembrava mais de porque sentia-se mal. Estava se protegendo.

O dia nasceu, ela ouviu o tráfego se intensificar. A luz dentro do quarto ficou maior e a levou erguer-se da cama e ir até a janela ver os primeiros minutos da manhã de sábado.

Não se trocou para tomar o café da manhã. Vestiu o penhoar e foi para a mesa parecendo ter passado a noite em claro. Estava tão distraída e aérea, Manon a observava silenciosamente, sem saber se devia se preocupar.

_Não se esqueça do almoço hoje na sede do clube em Muttontown. –Manon murmurou, tirando a mesa.

_Obrigada, Manon. –Relena mostrou-se ciente.

Saiu de casa ao meio dia e meio. O almoço começaria às duas horas e, embora não quisesse chegar muito cedo, não suportava mais estar naquele apartamento. Dirigiu o mais devagar que conseguia, observou os cenários, respirou um pouco daquela sensação de liberdade.

Chegando ao clube, foi ao vestiário com sua mala trocar seu jeans e camiseta pelo belo tailleur malva-claro ornado de babados românticos, e, ao aparecer no salão do almoço com meia hora de antecedência, encontrou a senhora Baumgarten e Lori supervisionando os últimos retoques.

_Oi, Lena! Como foi a viagem? –Lori sorriu sempre bem humorada.

_Tudo bem. –Relena assentiu, embora aparentasse cansada.

Lori assentiu também, um pouco incomodada pelo inicial modo superficial da amiga.

_Eu vou dar uma volta, tudo bem? –Relena comentou, quase dando as costas para Lori.

_Vou com você, posso?

_Sim…

Relena queria ver o local que só conhecera por fotos e aprazíveis descrições feitas por Athina, porque ali também seria o baile de primavera. Depois das nevadas, os jardins exibiam graciosas florezinhas e os prédios, uma pintura nova. Tudo era impecavelmente limpo e Relena sentia certo alívio ao olhar o horizonte livre de carros e prédios obstrutores.

O dono da propriedade onde se instalava o clube era, obviamente, o senhor Octo Van der Ven, pai de Dwight.

_Venha, vamos conhecer o famoso Clover! –Lori animou-se quando começaram a chegar perto das baias.

Relena acabou soltando um risinho, ao passo que Lori ia correndo na frente com alguma dificuldade, visto os saltos dos sapatos.

Conversaram com os cavalariços e passaram alguns segundos alisando o focinho meigo de Clover, tentando controlar-se para não irromperem em uma crise de gargalhadas, já que pensavam coisas muito engraçadas sobre a obsessão de Dwight com aquele animal.

Regressaram ao salão do almoço às duas e quinze e então este se mostrava completamente preenchido pelos convidados e pelas jovens debutantes, suas mães e tutoras. Nem parecia mais o mesmo lugar do qual acabaram de sair.

_Querida, você está aí! –Athina aproximou-se, sorrindo lúcida e suave. –Venha, está na minha mesa.

Relena mostrou contentamento nos modos, mas não conseguiu sorrir. E seguiu a sogra sem despedir-se de Lori, somente obedecendo e cumprindo a programação.

Esforçou-se durante a refeição em sentir prazer em estar lá, mas não conseguia. Se sorria, sentia-se falsa, se ficava séria, sentia-se rude. Seu humor estava inexplicável até para si mesma. E sempre se julgou conhecer-se tão bem!

_Não é verdade, Relena? –Athina a tentou incluir em uma conversa que entabulava com a senhora sentada ao seu lado, sem muito sucesso.

Relena sorriu diminuto e disse que era, apesar de ser óbvio de que ela nem desconfiava do que falavam.

Queria sair dali e ir para algum lugar onde a deixariam em paz.

Comeram a sobremesa e depois ouviram algumas declarações das organizadoras do debute daquele ano e da líder das debutantes, que informaram o calendário de eventos até o Verão. Era esperado que as adolescentes se envolvessem na organização de acontecimentos para já se integrarem ao grupo e aprenderem como funcionava a vida de uma mulher rica e respeitável.

Mas nada daquilo significava alguma coisa para Relena.

O que aquelas garotas achavam que estavam fazendo? Estavam apenas continuando um costume superficial que mascarava as dores das esposas desde o começo do século.

Bem, pelo menos era isso que Relena estava fazendo, envolvida com o clube de campo.

_Relena, o que aconteceu que você não está usando seus anéis hoje? –Lori resolveu perguntar, visto estranhar notar a mão esquerda de Relena tão vazia.

_Achei que não estavam combinando muito comigo. –Relena pontuou friamente.

_Hã? –Lori se fez de confusa. –Aconteceu alguma coisa? –e isso seria muito interessante…

Relena negou com um movimento descuidado de cabeça, ficando cada vez mais circunspecta.

_Vocês acabaram de completar dois meses de casamento, não é? –Lori continuou a conversa, ambígua.

_Não sei… –Relena respondeu assim somente por raiva.

_Eu, em meus trinta e um anos de casamento, nunca passei um dia sem usar minha aliança. –a senhora Noventa, que por ominoso acaso estava presente durante a conversa das moças, repreendeu sutilmente.

Relena olhou-a em muda revolta. Depois, fitou Lori, e, apesar de querer, não conseguia falar o que precisava para pô-la no lugar devido.

A sociedade não mudara. Sempre se esperava tanto da mulher e tão pouco do homem. Por que as duas não iam até o escritório de advocacia e falavam para Heero aquilo que ela estava tendo de aturar ali? Ninguém nunca pensava na realidade, aquelas mulheres só condenavam qualquer uma que se esquivasse de qualquer convenção social que era tradicional, e deste modo, importante.

_Lembra-se daquela pergunta que você me fez, Lori, semanas atrás? –e Relena soltou suas próprias rédeas. –Às vezes, quando se é casado, não dá vontade de usar a aliança. Isto também sua mãe nunca lhe diria!

A senhora Noventa ergueu as sobrancelhas o máximo possível e Lori manteve os lábios entreabertos, deixando escapar todo o ar dentro de si, porque não obteve palavras para responder. E ficou observando Relena lhe dar as costas e procurar a primeira porta disponível.

_O que deu nessa menina? –e a senhora Noventa por fim vocalizou seu alarme.

Lori deu de ombros, mexendo no cabelo de leve depois. E quando prestou atenção a quem mais assistira o diálogo, viu Athina com uma aparência solene e pensativa, estudando-a.

Relena saiu na varanda e esfregou o rosto. O que tinha dado nela? A pseudo-convivência com Heero a tinha transformado a tal ponto? Agora ela também era grosseira com as pessoas?

Apoiou os cotovelos no balcão e respirou fundo. E decidiu: Lori mereceu.

Olhou o céu, olhou o grande pasto diante de si. Lá tudo era tão amplo, talvez contivesse o tumulto emocional que assolava o peito dela.

_Relena, você quer conversar? –e então ouviu uma voz que a fez confusa um instante devido a grande carga de cuidado maternal em sua textura.

Seu coração disparou repentinamente, forçando que ela levasse uma mão ao peito. Relanceou Athina ao seu lado e depois virou o rosto, envergonhada.

_Os homens Yuy podem ser difíceis às vezes, não é? –e Athina seguiu, olhando a figura da nora, tentando imaginar que expressão ela usava na face.

Relena começou a torcer as mãos, ao passo que a declaração ecoava em sua mente. Negou com a cabeça, Athina viu o movimento pelo modo como os cabelos balançaram.

_Deixe-me olhar para você, sim? –e pediu, carinhosa, chegando mais perto.

_Por que tem de ser assim, Athina? Por que tem que ser comigo? –Relena murmurou, certa de que Athina não compreenderia o que ela falava, porque o som saíra tão baixo e cacofônico.

Porém, a mulher aguardava, vestida de toda a paciência.

_Só faz dois meses e eu não aguento mais. –Relena murmurou ainda mais baixo. E depois olhou a sogra. –Eu não sei mais explicar o que estou sentindo.

_O que foi que houve?

Relena meneou a cabeça outra vez, olhando para o céu em sua frente. Não se ouvia contando o fato ou dizendo o que tanto a feria. Por que ela não acreditava que estava ferida por um telefonema! Ela não amava Heero e não devia se importar se, por acaso, ele estivesse envolvido com outra mulher. Ela só era a esposa dele, a esposa de conveniência dele.

_Nem sei o que dizer. –e decidiu por ser sincera. Não lhe restava mesmo muito mais. E facilmente sentia-se uma adolescente, atrapalhada pela ânsia de falar daquilo que mal decifrava. –As coisas não são nem de perto o que pensei que seriam… estou tão sozinha. E nunca antes havia me sentido assim. –e pouco considerava se estava sendo desconexa, contudo precisava falar do modo com que as palavras vinham. –Ela falou aquilo de propósito!

_Quem?

_A senhora Noventa. Ela também me odeia. Isto porque eu… –e mordeu o lábio inferior para reprimir sua própria fala. –Nunca foi minha intenção… eu não fiz nada de caso pensado. –e mudou de assunto, ou era o que parecia, o soluço distorcendo suas próximas palavras.

Athina não se preocupava com o que não compreendia. Assistia a nora lutar contra o choro quando sabia que era melhor entregar-se logo de uma vez.

_E o que devo fazer? Como é que devo me sentir? –Relena indagou mais a si mesma do que à sogra, que ali era uma testemunha, não uma interlocutora. –Ele age como se eu não existisse… nunca vem jantar em casa, sempre chega tarde, sem explicação, e ainda me acusa de estar vigiando-o… O que ele ainda quer? Confiança?

_Você não confia nele? –Athina incentivou Relena a falar mais daquele assunto.

_Não sei. Eu nem o conheço. Na verdade, Heero não me acha merecedora de conhecê-lo, ele já tem quem ocupa este privilégio. Acha que está conseguindo esconder… mas eu vi o telefonema… o telefonema dela…

As lágrimas de Relena por fim quebraram a barreira por insistência e transbordaram copiosamente. Seu choro era belo e triste, ingênuo e confuso.

Odiava o fato do telefonema de Sylvia afetá-la tanto. Tinha prometido a si mesma que não permitiria Heero humilhá-la daquele modo e que nem faria conta se acontecesse de ser desrespeitada, mas não conseguia evitar, mesmo que não entendesse o que a forçava a chorar. Olhava o céu azul perguntando-se onde é que estava com a cabeça quando decidiu aceitar aquela vida.

_De repente não me lembro mais do porque me casei. –e confessou em pura amargura.

_Ainda é cedo para você tomar uma decisão… –Athina ousou pontuar em uma espécie de consolo sensato. Não ignorava quão atormentava Relena estava, sobretudo por si mesma.

_Mas quanto tempo mais eu terei de esperar? Quantas cobranças vazias mais e desdém agudo terei de suportar com um lindo sorriso, totalmente sem apoio?

Athina julgou melhor não responder, limitou-se a assentir outra vez, organizando o assunto em um diagnóstico objetivo. Colocou a mão no ombro de Relena enquanto ela chorava ainda com a mesma imerecida poesia que Poe usava – fúnebre, intensa e melancólica. Chorava por chorar, sem o menor interesse em resgatar o motivo. Concluía que, se chorasse, escoaria de si aquela raiva pura e ácida que a envenenara contra si própria.

Nunca antes alimentara aquele sentimento, mas ali ele parecia extremamente natural para si – ódio. Odiava muitas coisas, mas principalmente a si própria por ter falhado em tão pouco tempo. Doía-lhe fisicamente a reprovação como jamais pensara que fosse possível. Segurou o peito outra vez, respirando fundo, buscando encontrar qualquer fissura de sanidade na qual se segurar de modo a não escorregar para o fundo do desfiladeiro daquela crise nervosa.

_Quero ir… embora daqui. –e anunciou, como se se referisse a um sentido mais amplo daquela sentença. Esfregou o rosto com as costas das mãos, obtendo pela sensação de umidade do pranto uma dimensão ainda maior de sua ruína.

_Tem certeza? Por que não vamos até a pousada? Você pode tomar um pouco de chá e deitar-se…

_Não quero que mais ninguém me veja assim. –e mostrou uma dureza tão abrupta que fez Athina dar um passo para trás.

Relena saiu para encontrar seu PT Cruiser. Trocou os scarpins da Jimmy Choo pelas suas sapatilhas de dirigir já sentada frente ao volante. Notou o leve tremular das mãos enquanto virava a chave e ajeitava o câmbio. O carro movia-se devagar ao passo que se afastava do haras, não era como se ela estivesse fugindo. As paisagens deslizavam em câmera lenta, acenando um adeus dúbio.

O apartamento no Paterno a esperava, complacente. Ele também não lhe pertencia, mas era o único que a receberia. Podia ser um abrigo arriscado, visto conter o campo de batalha, mas era suficiente, porque a pior guerra Relena travava dentro de si mesma.

Trocou-se de roupas e deitou-se sobre a colcha da cama. Só sabia chamar de dor a sensação que a assolava. Sua cabeça e seus olhos latejavam e suas mãos estavam agitadas, seu coração não se controlava, obrigando-a apertar o peito às vezes. Mas o quarto estava escuro e, assim, a realidade quedava a uma distância confortável.

-8-8-8-8-

Athina não deixou de rever durante um minuto sequer a face angustiada da nora ou como ela torcia as mãos e meneava a cabeça. Voltou para a companhia das amigas, formulou boas justificativas para Relena ter se ausentado e lançou fitos condenatórios para Lori, tentando ser discreta, embora desejasse também lembrar à jovem Baumgarten algumas velhas lições de boa educação. Enquanto dirigia de volta para casa nos arredores da cidade de Nova York, Athina perguntava-se se Dante previra aquela situação. Se ele de fato contasse com o sofrimento de Relena, realmente havia se tornando um homem insuperavelmente calculista e cruel.

Encontrou-o durante o jantar, realizado em completo silêncio. Não que costumassem conversar animadamente nas refeições, mas naquela noite havia algo particular naquele silêncio absorvente que até Yacob detectava.

_Dante, não acha que está sobrecarregando Heero com trabalho demais? –Athina decidiu murmurar, e olhou a face distante do marido para ver sua reação. –Ainda mais enquanto ele está concluindo a universidade…

Ele bebeu um gole de uísque:

_Ele tem de arcar com as consequências. Já era para estar formado. –sentenciou.

_Claro, sobre os estudos paralelos ao trabalho eu concordo, mas há mesmo necessidade dele trabalhar até tarde todos os dias? –e sua astúcia feminina lhe permitiu fazer um pequeno teatro.

_Trabalhar até tarde? Há dias que ele deixa o escritório antes de mim. –Dante era rigoroso com os horários e só não jantava em casa quando algo muito urgente surgia.

Athina simulou ingênua surpresa:

_Oh… que estranho…

Dante ficou encarando Athina exigindo uma justificativa para aquela conversa, captando imediatamente motivos ocultos.

_Relena não está nada bem. Conversamos hoje e ela estava arrasada… Nunca vi uma jovem mostrar-se tão menosprezada e infeliz, Dante. Você tem de fazer alguma coisa.

Ele não alterou a posição ou expressão, e Athina entendeu que ele não estava satisfeito.

_Ela diz que Heero não lhe dá a menor atenção, chegando tarde todos os dias sem qualquer explicação… além de… –e usou de uma pausa dramática.

_Diga logo!

_Ela não me explicou muito bem, mas me falou de um telefonema. Parece que Heero tem… outra pessoa em sua vida. –e não gostou de como pôs, mas teve medo de usar palavras mais assertivas e depois tê-las voltadas contra si. –Vê-la foi de partir o coração, Dante. Estou terrivelmente preocupada com ela.

Dante tomou outro gole de uísque, desta vez um muito longo. Não falou nada, o descontentamento foi grande demais para permiti-lo. A mudez dele não incomodou a esposa, que o conhecia bem a ponto de saber quão grande era raiva que o marido curtiu.

Em seu silêncio, Dante potencializou sua fúria para acertar Heero fulminantemente, de uma vez por todas. Aquela seria a última vez que Heero o decepcionaria e desobedeceria. Não mais abriria concessões para ele, que ultrapassara o limite conscientemente.

Passou o domingo praticamente trancado no escritório, e, na segunda-feira, convocou o filho antes de sair, às seis horas.

Heero entrou aborrecido no gabinete e cerrou a porta. Seu pai estava de pé, voltado para a janela, e sobre a mesa, alguns documentos estavam apresentados ordeiramente.

_Está tudo acabado. –e bramiu, sem nem olhar o rapaz.

_Do que está falando?

_Não está entendendo? –e virou-se para ele então. –Muito bem, aqui está a sua rescisão, o distrato de nosso contrato e o distrato do acordo pré-nupcial. Lembre-se que a indenização devida à Relena é de duzentos mil dólares.

Heero ousou olhar os documentos na mesa e revoltou-se ao ver o pai lhe estender a caneta. Dante mesmo já havia assinado todas as vias que precisava.

_O que o senhor está querendo dizer?

_Que você foi pego! Descoberto!

Heero meneava a cabeça cada vez mais rápido:

_Agora o senhor resolveu me caluniar? Do que está me acusando?

_De adultério. Onde você tem passado suas noites, se não é aqui, trabalhando, ou com sua esposa em sua casa? O que você tem feito todo o tempo em que não está com Relena?

_Então é assim! Ela fica mesmo me vigiando, me controlando só para depois vir correndo falar ao senhor que eu a estou traindo!

_Você não tem mais nenhum antecedente que te livre desse tipo de conclusão.

_Quer dizer que não é necessário provas para me condenar, só a palavra dela!

_Ela é sua esposa! Acha que a palavra dela não conta?

_Acho! Ela nem me conhece e nem sabe o que tenho feito.

_Exatamente! Por que não fala para ela? Por que não explica porque deve ser considerado inocente? Nada que você fale agora pode contar a seu favor. Se ela sustenta a menor suspeita de adultério é porque algum motivo foi dado!

_Bonito, o senhor sendo tão cavalheiro! –rebateu, carregado de ironia ácida. –E quais motivos o senhor pode me apresentar?

_A aliança, onde está?

_Esta idiotice! Que diferença faz uma merda de aliança?

_Toda! E agora, me diga: quem é a outra garota?

_Que outra? –e seguindo seu questionamento, Heero irrompeu em imprecações alteradas.

_A garota dos telefonemas.

_Telefonemas…? O quê? Como sabe dos telefonemas?

_Relena sabe dos telefonemas!

Heero foi privado de reação por um segundo. Não lhe passava pela cabeça como Relena descobrira sobre a insistência irritante de Sylvia em ligar-lhe. Quem dissera a ela? Alguém tinha de ter dito a ela!

_Vocês enlouqueceram! Todos vocês! –e precisava defender-se, de algum modo. –O senhor não passa de um juiz arbitrário! Agora, estou condenado sem direito à defesa ou prova! E ainda se orgulha de sua carreira o direito! –e passou o braço ferozmente sobre a mesa, jogando todos os papéis no chão. –Não estou traindo ninguém! Todo maldito dia eu fico até quase meia-noite trabalhando para essa merda de firma sentado naquela droga de café quadras daqui e o que é que ganho? Hã? Uma sentença! –a voz chegava ao teto da sala e os braços dele se moviam com a força para provocar tempestades. –Quer saber, vou assinar aquela rescisão! E os distratos, sim, vou assinar todos. Não vejo a hora de acabar com tudo isso! –e chutou os papéis, faltando muito pouco para começar a vandalizar o gabinete.

Contudo, Dante não se movia ou se afetava. Só deliberava.

_Você é deplorável, rapaz. Entretanto, há algo errado nesta questão. Você pode ter feito muitas coisas, mas uma você nunca fez: você nunca mentiu.

Heero ofegava tanto que por um instante não foi capaz de ouvir o que o juiz dissera.

_Por isso, ouça bem: você precisa explicar tudo isso para sua esposa. Resolva esta questão feito um homem e nunca mais faça Relena sentir dúvida! Está ouvindo? –e ele derrubava o discurso em Heero num dilúvio gelado de palavras afiadas. –Você pode não ter feito nada errado desta vez, mas seu histórico é suficiente para te incriminar sem esforço. Não vê que ninguém espera mais atitudes elogiáveis de você? Não vê que todos contam com seu mau comportamento? A culpa é toda sua se sua esposa duvidou de você! Isto porque não teve a decência de comunicar-se com ela.

Heero engolia seco e imobilizara-se completamente.

_Me comunicar com ela da mesma forma que o senhor faz com mamãe? –e desafiou.

_Não estamos aqui para falar de mim. Eu já lhe disse o que deve fazer. A sua responsabilidade é cumprir. Só você pode mudar sua situação. Agora arrume todos estes documentos e os destrua. Quando terminar, vá para casa. Direto para casa! –e Dante apanhou sua maleta e paletó, deixando a sala naturalmente. Cerrou a porta com o mesmo som solene de um calabouço que é selado pela eternidade.

Heero jazeu ainda estático. A sala, antes repleta dos shakespearianos som e fúria, era um túmulo ominoso. As folhas de papel espalhadas pelo carpete acresciam à atmosfera de desolação. O rapaz erguia-se ali, mas estava derrotado. Bagunçou o cabelo violentamente, assaltado pelas frases do pai que sutilmente voltavam a ecoar no ambiente, pleno da soberania do juiz.

Por que duvidavam dele? Por que concluíam suas ações? Quem tinha este direito? Ele odiava aquele hábito humano de interpretar detalhes e enxergar sinais que não existiam! Porém, sua reprovação não impedia que todos fizessem isso com ele…

Aos poucos, sua pulsação baixou e um cansaço súbito desceu nele, forçando-o apoiar-se na mesa em sua frente. Olhou os papéis no chão e agachou-se para começar a juntá-los. Levou o maço consigo para seu escritório onde havia uma trituradora de papel. As folhas que entravam inteiras morriam reduzidas a tirinhas, e assistir aquela execução lhe distraía um pouco, abrandando a ira ofendida que se recalcava em seu peito.

Em seguida, apanhou seus pertences e deixou a firma. Conduzia o BMW galgando todo e qualquer espaço disponível nas grandes avenidas, tal qual estivesse em uma missão inadiável.

Fazia meia-hora que Relena despertara de um cochilo imprevisto. Deitara-se para ler um pouco, mas a sonolência venceu-a sem que notasse e acordou com o livro a seu lado, o barulho do relógio na parede a chamando de volta para a realidade. Depois que se refez um pouco, decidiu ir ver o que Manon aprontara para o jantar dali meia-hora.

Mantinha aberta a porta de seu quarto e passou por ela, arrastando preguiçosamente seus crocs rosa-bebê pelo corredor, a trança nos cabelos desfazendo-se aos poucos.

O fim-de-semana havia sido tão desgastante… o que será que Athina estava pensando dela depois do que houve? Ela não desejou preocupar-se com aquilo ali, porém… De repente, pensava ter recuperado a serenidade e queria poupá-la o máximo possível, visto que dependeria dela para estar presente ao baile de primavera no próximo sábado. Respirou fundo e arriscou sorrir pequenino, brincando distraidamente com o pingente de seu colar.

Contudo, a porta de entrada do apartamento moveu-se e Heero revelou-se para Relena que acabara de chegar à sala de estar. O olhar dele caiu nela como se a estivesse esperando encontrar ali, o coração batendo feito o da fera que anseia a caçada. E não havia como descrever Relena sem citar como se mostrou despreparada. Limitada pelo espaço, cercada pela figura dele, lembrava uma gazela privada de sua agilidade perante o leão, por não contar com espaço hábil de escape.

Levou as mãos ao peito, exibindo olhos vazios, mas alarmados. Os lábios dela esboçaram alguma palavra que ficou inconclusa, detida pelo espanto. Sentiu o olhar dele cobri-la toda e depois, luxento, ele deu as costas e rumou para seus aposentos.

Relena suspirou, determinada a não perder a oportunidade de fugir, apressando-se para a cozinha. Lá, Manon terminava o preparo da refeição.

_Tudo bem, Relena? –e ao notar a moça, logo indagou, deixando de cantarolar alguma velha canção.

Relena suspirou com dificuldades então como introdução a seu anúncio:

_O senhor Yuy está aqui. –e foi só o que conseguiu dizer, tal qual ainda precisasse convencer a si mesma.

_Está? –Manon franziu a testa.

Relena assentiu.

_Não estou preparada para isto. –e avisou, olhando as porções de arroz, vegetais e carne que só serviam duas pessoas.

_Oh, Manon, sinto muito… não me passava pela cabeça que ele viria. –e Relena murmurou, encostando-se ao balcão da pia desoladamente, olhando para baixo.

_Não tem problema, eu preparo outra coisa para mim. Está cedo ainda. –e apresentou sua solução, tranquilamente, soando bastante maternal.

Relena assentiu imperceptivelmente e ficou examinando a barra de sua segunda pele preta.

_Vamos, vou pôr a mesa. –Manon anunciou, indo para a sala de jantar com a toalha e os guardanapos. Relena a seguiu, levando os pratos e talheres.

Juntas organizaram a mesa, Manon colocou as taças e Relena trouxe o vinho, sentindo-se como se preparasse para receber um amo intolerante. Não aparentava tensão, embora mal pudesse respirar. Sabia que agia pateticamente, dando indevida importância a Heero, porém, atuava assim porque não estava preparada para encará-lo.

Ouvia Manon cantarolar novamente. Relena pensava se era possível para Manon notar a insegurança que controlava seus gestos ali. Sentou-se em seu lugar ao passo que a mulher ia chamar o patrão para a refeição.

Heero sentara-se em seu escritório e ligou o laptop, passando os últimos minutos encarando o papel de parede da área de trabalho.

_Senhor Yuy, o jantar será servido agora. –Manon disse com toda pompa e consistência que lhe era esperado. Heero assentiu descuidadamente, movendo os olhos para a figura da mulher.

Entrou na sala de jantar como se estivesse vazia e tomou seu lugar, em paciente descaso. Relena não sabia se devia sentir-se mais incomodada pela atitude dele. Definitivamente não estava pronta para encará-lo e não tinha previsão de quando estaria. Heero a despia completamente de sua autoconfiança, até mesmo fazendo-a analisar o que vestia e sentir-se totalmente inapropriada. O terno Hugo Boss marrom-nogueira e a camisa luminosamente branca dele condenavam a segunda pele preta de decote v combinada com a calça sarouel de malha cinza e crocs que Relena usava. Tudo de repente conspirava para fazê-la inferior.

Mas na realidade, era ela mesma quem se inferiorizava ali.

Ouvia de longe Manon perguntar solícita se algo mais era necessário e Heero despedi-la. Segurou os talheres sem qualquer vontade de comer. E então encarou Heero, porque ele a encarava de volta, silenciosamente demandando atenção. Intrigava-a como ele conseguia transmitir tanta coisa sem usar uma palavra sequer.

Entretanto, apenas o jantar aconteceu. Heero seguia agindo como se estivesse só e ela passou a imitá-lo.

Manon veio retirar a louça da sobremesa e enquanto recolhia os pratos lançou um olhar para o rapaz:

_Senhor Yuy, gostaria de saber se virá jantar aqui amanhã de modo que eu possa planejar a refeição.

_Virei, bem como depois de amanhã e depois… –ele respondeu contrafeito.

Manon assentiu e foi pra a cozinha imediatamente.

_Venha comigo, Relena. –e Heero levantou-se da mesa, lançando um olhar imperativo para Relena.

Ela foi atrás dele, apesar de sem querer, ocultando suas sensações em uma forma de defesa.

Heero fechou a porta do escritório assim que ela entrou.

Cada passo que Relena dava para o interior do cômodo a fazia consciente de que algo decisivo iria acontecer. Fora assim quando estivera ali da última vez – atendera aquela ligação telefônica – e não via porque seria diferente então.

Postado atrás de sua mesa, Heero imitava inconscientemente o pai, assumindo a posição que ironicamente criticara. Ocupava sua poltrona fazendo dela seu trono e lançava fitos de menosprezo à ré diante de si, que sempre em pé e calada, transparecia expectativa.

_Qual o problema? –mas foi ela que iniciou o interrogatório. Sua voz resolvida preencheu o ar sem combinar com sua postura submissa.

_Você podia me dizer primeiro. Afinal, foi você quem o inventou. –ele devolveu, jogando os ombros para trás. Se houvesse um espelho ali, observaria quão insidiosos eram seus olhos e quão afiado seu fito.

_Não entendo. –ela murmurou, simples, tentando não se impressionar.

_Não entende… –ele reiterou, aborrecido. –Exatamente! Desde o começo, você tem se negado a entender o que está acontecendo, o que existe, ou melhor, o que não existe entre nós.

O rosto dela se moveu criando linhas confusas.

Ele prosseguiu:

_Hoje eu descobri que estou te devendo duzentos mil dólares porque, aparentemente, estou te traindo.

Relena deixou os olhos cair.

_Pensei que você fosse mais esperta, senhora Yuy. –desdenhoso, observou sem motivo. Era uma espécie de ameaça, embora Relena não a levasse em conta:

_E eu pensei que você honrasse seus compromissos. –redarguiu.

_Olhe este apartamento, olhe você… quem mantem tudo isso? Quem paga seu jantar, suas compras, seu conforto? –havia algo que fazia as palavras dele se assemelharem a um rosnado contido.

_Quando disse compromissos, me referi à lealdade conjugal que me prometeu.

_Palavras bonitas. –desdenhou. –E baseado em que você falou para meu pai que estou te traindo? Você não tem vergonha? E nem sabe dar um golpe! Realmente, você é uma oportunista barata… nem sabe o que está fazendo!

Relena não deu atenção às acusações imprecisas que Heero fazia, nem ao fato do juiz então ter sabido sobre o que ela dissera à Athina. Somente ergueu os olhos para o rapaz e replicou:

_Eu sei que existe alguma coisa entre você e a Sylvia ainda!

_Sabe? Ótimo! Então me diga o que sabe sobre eu e ela! Vamos!

_Vi o telefonema! Vocês têm se encontrado, não têm? Por qual outro motivo você estava tão esquivo e ausente?

_Você é muito ingênua por achar que sou assim fácil de ler. Odeio pessoas concluindo mentiras sobre mim! –rugiu, só que Relena não se assustava.

_Seu alto conceito sobre si mesmo está turvando sua visão da realidade! –ela rebateu, de uma vez.

_Não faço ideia do que você está falando! –e dizendo assim a taxava louca. – Quando assinei o acordo pré-nupcial, falei que não queria aborrecimentos! Será que não fui claro? Eu não sou seu marido, Relena! Apenas assinei um contrato. É claro que não irei agir contra as cláusulas dos documentos… por que vou te dar duzentos mil dólares de presente? Acho que seria tão fácil?

_Você me dá nojo, Heero Yuy! –teimosamente, observou, mas já estava exausta daquela conversa. Ele era sempre o mesmo: indesafiável, incontestável, ativo e supremo. Era irritante demais! –A verdade é que não faço a menor questão de você ser meu marido. Também assinei um contrato! –e respirou fundo. –Você fala que sou oportunista porque fiz um grande negócio enquanto você saiu perdendo! Você é um covarde sem personalidade! Um vendido! Já te falei isso? Não importa, você é um vendido mesmo! –e esquecia-se de regular o volume da voz, perdia o controle dos gestos que fazia.

_Me diz, para que tudo isso?

_Porque quero o que é meu!

_O dinheiro, não é?

_É, o dinheiro! O dinheiro! A droga do dinheiro! É só nisso que você pensa, então? É só isso que significa algo para você, não é mesmo? Você nunca pensa na minha reputação, já que a sua não lhe serve para nada, certo? Quando aceitei este casamento, não foi para ser feita de idiota! Se você quer ficar com a Sylvia Noventa, vá lá e diga a seu pai de uma vez por todas e me livre deste vexame, me livre de ter de ser a coitada, a inapropriada, a esposa incompetente que não usa a aliança depois de dois meses de casamento!

_A Sylvia não significa nada para mim! Eu não a quero, será que não vê? Antes mesmo de você aparecer, eu já a tinha dispensado. Você nem conhece a história, do que é que está falando? Não se meta mais neste assunto! Se não estiver convencida, o problema é seu. Não tenho porque me provar pra você. –ele explicou enquanto Relena assentia sarcástica. –Para mim, esta conversa acabou.

_Não. Eu ainda tenho que saber onde você tem estado até tarde já que não é com a Sylvia. –ela exigiu.

_Que inferno! –bufou. –Eu estive trabalhando! Acha que sou como você? Tenho muito para fazer! –e transformava cada frase em uma ofensa.

Ela assentiu novamente, sem saber mais o que pensar. Lágrimas ardentes pingaram de seus olhos, mas ela não chorava. Cerrou os dentes e respirou fundo, procurando um ponto onde se equilibrar. Sabia que poderia ficar ali eternamente retrucando as tolices que ele atirava nela, mas preferiu ser a parte madura da discussão e ir embora.

Eles não sabiam conversar e resolver-se, permitindo que o calor do momento levasse a melhor e os conduzisse como quisesse. Mesmo Relena, sempre mais razoável, acabava não resistindo às emoções e agia como nunca esperaria de si própria. Parada no centro de seu quarto, ela relembrava os instantes anteriores como se na verdade ouvisse alguém contar-lhe uma história antiga sobre uma personagem inexistente.

E não sabia dizer se a surpresa sobre o modo como lutava com Heero era boa ou má. De qualquer modo, a parte principal da disputa parecia esclarecida. Se ele decidira confrontá-la é porque certamente não estava mentindo, já que seus modos arrogantes não lhe permitiam ser nada mais que cruamente franco sobre si e os outros.

E a provou errada. E a provou precipitada. Como lidar com isso? E se talvez Heero tivesse razão sobre seu desgosto por todos sempre pensarem errado sobre ele? Ela daria essa razão a ele? Daria a ele o benefício da dúvida na próxima vez? Aprendera alguma coisa com aquela discussão?

Não ia pensar nisso. Estava contrariada demais para derivar proveito daquilo.

Heero entrou no banho pouco depois da grande batalha, tentando recordar-se da última pessoa que se atrevera a desafiá-lo da maneira com que Relena o desafiava, mas não conseguia. Acelerado, não era capaz de concentrar-se em nada. Tentou dormir, tentou estudar, tentou e tentou, mas sua mente exigia toda sua atenção, indagando ainda como Relena descobrira os telefonemas de Sylvia.

Por que ela tinha de se ofender tanto pela possibilidade de estar sendo traída? O que ela sabia sobre ele? Ele sempre questionava isso, tentando se reafirmar. Ela não sabia nada sobre ele e não podia determinar possuir qualquer autoridade sobre ele. Ele não tolerava aquela atitude.

Por isso decidia-se convicto a jamais dar o prazer a Relena de mostrar-se certa sobre ele e assim conquistar todos os privilégios de parte lesada daquela união.

_No sábado acontecerá o baile de primavera. –Relena informou friamente no jantar do dia seguinte. Desta vez, estava extremamente bem vestida, abundando um poder que seria atordoante para outros, mas talvez não para Heero.

_Trowa já me avisou a respeito. –haviam conversado sobre isto no telefone, naquela manhã.

_Como sou do comitê, irei na tarde de sexta-feira para Muttontown. Irei com a senhora Yuy. Seu convite está no escritório e a apresentação é obrigatória. –e deu as últimas informações.

Ele não reagiu, o que não constituiu nenhuma surpresa.

_Você vai ao baile, não é, Heero? –Quatre lhe indagou, no almoço do próximo dia, quando os cinco amigos se reuniram.

E outra vez, Heero não reagiu.

_Vai deixar a patroa sozinha? Não tem medo? –Duo resolveu provocar, então.

_Cala a boca. Não me venha falar de ciúmes e infidelidade! –Heero não pensou em usar de paciência, e rechaçou.

_E por quê? Rolou algum lance do tipo? –Duo gostou do assunto.

_Duo, Heero disse para não falar sobre isso… –Quatre advertiu, meigo e solene.

Trowa não resistiu o riso:

_Ninguém vai sentir sua falta se você não for. –e cutucou, sem levar o assunto muito a sério.

_A não ser o juiz. –Wu Fei lembrou. –Qualquer coisa é motivo para seu pai pegar no seu pé, não é?

_Se você quer manter o segredo sobre o casamento guardado, é necessário ser visto mais com Relena. –e Quatre seguiu, soando sério.

_Agora não é mais hora de bancar o resolvido. Vou te considerar ainda menos se não levar seu segredo até o fim. Afinal de contas, você até beijou aquela garota! –Wu Fei não se conformava e tampouco podia deixar de expressar.

_Controle-se, Wu Fei. –Trowa mediou, aristocrático, a face inexpressiva.

_Heero sabe que é verdade. –e ainda assim, Wu Fei alfinetou.

Duo levantou as sobrancelhas ruivas, aguardando a reação do amigo, mas esta, mais uma vez, não veio. Ele limitou-se a olhar para baixo e bufar, algo que comumente podia ser lido como anuência.

Exatamente. Heero não queria concordar, entretanto, se privara de escolhas. Vivia um paradoxo que o transformava em um barco que singra uma tempestade marítima. Detestava estar detido por sua fraqueza e queria negá-la; posava de superior para Relena, rebatendo as exigências e reclamações dela ao mesmo tempo em que seguia o que se esperava daquele que se vendeu para entrar na situação corrente, que era mais confortável e conveniente. Lutava contra uma realidade que ele optou viver. Odiava o segredo, porém não podia deixar de zelar por ele, receando expor a covardia que o coagia irresistivelmente a obedecer ao pai.

Seus amigos não questionavam. Heero estava em conflito, no fim todos concordavam ser mais prudente servir ao juiz do que vagar livre e sem qualquer apoio no mundo. Isto porque Heero sempre trilhara um caminho tão autodestrutivo que talvez não vivesse muito após ser deserdado. Além do vexame que se abateria sobre os Yuy, algo com que era melhor não conviver.

_Se você não vai, pode deixar que eu acompanho minha cunhada com o maior prazer, já que Akane não virá… –Duo voltou a brincar, arejando a tensão, mesmo que zombasse de sua própria tristeza. Trowa riu novamente, mesmo que sua situação fosse idêntica, já que Cathrine também não deixaria Las Vegas para comparecer à festa.

Mas Heero não prestava atenção aos gracejos de Duo e à revolta de Wu Fei quanto a ir ao baile.

Pensava ainda sobre a última segunda-feira, pensava em porque cedera, porque se vendera, porque Relena estava em sua vida, e decidia que nada fazia sentido.

Enquanto jantava sozinho no apartamento naquela sexta-feira, olhava o lugar que Relena ocupava sempre e refletia sobre o que o levara estar na vida dela. Porque ela também era fraca e vendida… mesmo que insistisse no contrário. Ela não era diferente dele – cedeu completamente, negou sua personalidade e entrou em relação com um segredo que detestava ter de manter.

E suspirando fundo antes de tomar um gole de vinho, Heero questionou-se por que odiavam tanto algo que haviam escolhido?

De fato nada fazia sentido.

Talvez nem Dante soubesse explicar exatamente e ainda se surpreendesse por sua manobra ter funcionado tão perfeitamente como a propôs.

Athina olhava Relena na mesa do jantar junto de Lori e a senhora Baumgarten. Estavam no clube de campo em Muttontown. As jovens conversavam como boas amigas enquanto as senhoras falavam sobre a última semana, assunto no qual não havia nenhuma novidade. Na verdade, Athina mais ouvia do que falava, concentrada demais em sua observação.

Dante não comunicara nada sobre as providências que tomara, tampouco sobre seus resultados. De qualquer modo, Relena voltara a usar a aliança e seu anel de noivado. Se ela fizera isso mecanicamente para evitar mais falatórios e críticas – porque houve comentários sobre a situação do casamento dos jovens durante a semana, mesmo que poucos – não era possível afirmar, apesar de suas mãos chamarem mais atenção com os anéis do que sem.

Conforme a conversa entre as meninas seguia, Athina achava que Lori estava se comportando bem. O contraste entre as duas era tão incômodo… enquanto Lori vicejava, os olhos faiscantes e o rosto corado, Relena exibia compleição pálida e olhos embaçados, exatamente como o sorriso. Parecia cansada demais para estar ali, e talvez nem estivesse ali de fato, já que seus modos eram tão distraídos. Pensava em outras coisas ou mal tolerava o assunto de Lori.

_Como se sente? –Athina convidou Relena para beber chá em seu aposento na pousada e assim, indagou.

Relena mostrou uma face livre de emoções:

_Não tenho prestado atenção nisso… –e confessou, voltando a atenção para o interior de sua xícara.

_E por quê? –cuidadosamente, Athina pediu explicação.

Relena deu de ombros e sustentou o olhar parado. Não sabia o que dizer. Preferia desconsiderar o passado.

Athina captava bem isso. Assentiu e achou por bem mudar de assunto, encontrando por fim a Relena de sempre consigo: aquela que, apesar de aparentar desgaste, era atenta, doce e sensata, que ria ao mesmo tempo em que transmitia a serenidade do cisne que agoniza.


Boa noite, leitores!

Como vão? Por aqui, tudo bem!

Estou aguardando o show do Snow Patrol no Rock in Rio 4 enquanto posto um capítulo para vocês!

E devo dizer que este é um capítulo bem grande! Não consegui remanejar os parágrafos para o capítulo 25.

Já estou ansiosa em saber o que vocês acharam! Esse casamento é realmente uma guerra (Sr. &Sra. Smith 2, segundo a Suss ;D)! Eu me divirto escrevendo os duelos deles! E calma que ainda não acabaram! XD

Quero agradecer especialmente as reviewers! Beijos no coração das queridas Rayara, suss (Miyavi Kikumaru), kaos, Lica, Midori-chan, Letiiicia' e Nike-chan. Espero que tenham gostado!

Beijos!

24.09.2011