7VERSE : REALIDADE 5

EPILOGO VIDA 5: SOBREVIVENDO AO INFERNO

CAPÍTULO 22

PASSANDO UMA BORRACHA

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SANTA MONICA

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– O Jasão? Ele PEDIU que você cuidasse de mim?

– Isso.

– Essa realmente me surpreendeu. Não esperava nada daquele sujeito. Acho que fui injusto com ele.

– Ele está sumido há semanas. Faz idéia de onde ele se meteu?

– Jasão convocou seus antigos comandados dos tempos da Argo para resgatar seu irmão Adam do Inferno.

– Seus comandados? Os argonautas? Eles estão vivos? Mas, faz o quê? Três mil anos? Quatro?

– Três mil e trezentos anos. Mas, vários deles são semideuses. São imortais.

– Você é um deles? Um dos argonautas originais?

– Não. Eu não tenho nem 300 anos e sou um nyx. Sou alemão e eles são ou eram gregos.

– E de onde os conhece?

– Daqui mesmo. Dos Estados Unidos. Alguns dos argonautas sobreviventes vivem aqui há centenas de anos. O Samuel conheceu o Calaïs. Foi ele quem me salvou quando fui empalado em plena Rodeo Drive. Sou amigo do irmão dele, o Zetes. Foi o Zetes quem me transmitiu o pedido do Jasão.

– Calaïs e Zetes, os argonautas filhos do vento Bóreas. O Zetes não seria, por acaso, o homem desta foto no porta-retratos? O ator Chad Murray?

Necker não responde. Apenas pega o porta-retrato e olha demoradamente para a foto, com um meio sorriso no rosto.

– Eu não estava legal. Nem poderia estar. Afinal, eu vi o Adam ter o corpo destroçado pelos Cães do Inferno. Ele ainda está preso lá abaixo. Sofrendo. Mas, isso não significa que eu precisasse de uma babá. Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesmo.

– Você tinha acabado de perder seu irmão. O Jasão tinha medo que fizesse alguma besteira. Eles todos conviveram com dois argonautas que eram irmãos e eram muito ligados entre si. Κάστωρ e Πολυδεύκης.

– Castor e Pólux, os Gêmeos.

– Quando Castor foi morto por Idas, Pólux abriu mão da imortalidade para seguir com o irmão para o Hades. Zeus acabou transformando os dois em uma constelação. A constelação zodiacal de Gêmeos.

– Eu não ia me suicidar. Isso nunca me passou pela cabeça.

– Πολυδεύκης também não se suicidou. Mas, ele não caminha mais entre os vivos. Mas, esse não foi o único motivo. Jasão tem as memórias de um homem chamado Dean Winchester, que veio de outra realidade e, nesta realidade, ele era irmão de um Sam muito parecido com você. Ele acredita que sabe como você pensa. E temia que você fizesse o que o Adam fez antes: um novo pacto demoníaco. Ele achava que você iria atrás da demônio Ruby. Ou que ela viesse atrás de você. Como veio.

– E você a matou.

– Jasão aconselhou que o fizesse na primeira oportunidade que aparecesse. Foi o que eu fiz.

– E essa de irem ao Inferno resgatar Adam?

– Jasão convocou cinco semideuses que foram argonautas para ajudá-lo na tarefa. Não conseguiram contatar Calaïs e deixaram Hércules de fora.

– Hércules? O verdadeiro? Mas, ele não morreu envenenado?

– Quando ele foi levado para o Olimpo, estava praticamente morto. Demorou muito tempo até ele que estivesse totalmente recuperado. Os humanos que conviveram com ele na época de seus feitos lendários morreram antes que ele retornasse à Terra. A História guardou o registro de que ele morrera. Ele deixou por isso mesmo e anda por ai desde então. Mas, eu concordo com o Zetes. O Hércules consegue ser realmente insuportável. Ele se acha a cereja do bolo. O Zetes ODEIA ele. Nunca perdoou o Hércules por um dia ele ter tentado matá-lo. Mas, o Hércules também sabe se mostrar adorável quando quer. E, não há como negar que ele é muito bonito. Muito. Mas, é claro que não posso dizer isso na frente do Zetes.

Necker dá um longo suspiro e fica um tempo pensativo, com um brilho no olhar. Sam e Bobby trocam olhares. Talvez o motivo de Zetes não gostar do Hércules não fosse só o problema que tiveram 3000 anos antes.

O clima foi quebrado pelo telefone tocando. Necker conversa com sua agente pela primeira vez desde sua quase morte. Informa que ainda precisa de uma semana para voltar à ativa e que ela pode marcar a sessão de fotos.

Não se passaram nem duas horas dessa conversa e o interfone já estava tocando. Sam, que fora até a cozinha atender o interfone, volta com as novidades.

– Amigos seus, Necker. Uma pequena multidão. Estão subindo.

Logo o apartamento de Necker está cheio de gente animada. E Bobby pode constatar que era gente mesmo. Gente de verdade. Pessoal da agência de modelos, principalmente. Desde supermodelos até a recepcionista da agência. Todos preocupados pelo longo período sem notícias e os boatos de que estaria doente. Ninguém ali estava sob controle mental. Tinham vindo simplesmente porque gostavam dele.

– Se você tivesse matado o Necker, teríamos agora um sério problema com todo esse pessoal.

– Você estava certo, Sam. Ele pode ter sido um dia um monstro. Mas, o monstro já deixou de existir. Eu vou voltar para Sioux Falls. Você vem comigo?

– Ainda não. Preciso saber com detalhes essa história do resgate do Adam. E você podia ficar um pouco mais. Posso precisar de você.

– Não pára de chegar gente. Parece que convidaram a cidade inteira. Uau! Olha só o tamanho do sujeito que acabou de chegar. Que camarada enorme.

O recém chegado abre um grande sorriso e abraça forte Necker, que precisa conter-se para não gritar de dor.

– Lars! Ninguém sabia de você. Deu um susto enorme na gente. Vim assim que soube que estava de volta.

– Preciso sumir com mais freqüência para confirmar que sou realmente querido.

– Claro que você é alguém muito querido. Devia me dar a chance de provar o quanto.

– Vem cá. Deixe-me apresentá-lo a dois novos amigos. Sam. Bobby. Este é Hρακλῆς. Mais conhecido como Hércules.

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INFERNO

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Não eram somente demônios e criaturas infernais.

Teriam que enfrentar também o meio ambiente, ele próprio um inimigo traiçoeiro. O Inferno não é estático. Sua natureza é fluida. Ele se transforma continuamente. Um desafio vencido é imediatamente seguido por outro ainda pior, como num videogame com milhares de fases.

O Inferno não é somente fogo, como muitos cristãos acreditam. O Inferno reúne todos os extremos. Fogo e gelo. Calor ressecante e umidade insuportável. Silêncio absoluto e sons apavorantes. Escuridão por todo lado, exceto onde há fogo e lava. No Inferno há sombra e há escuridão. Não há luz. Muito menos luz solar.

Em alguns lugares por onde passaram, o ar era parado e denso, com um insuportável cheiro de enxofre. Em outros, o ar era rarefeito e soprava um forte vento cortante que podia ser horrivelmente quente - como a saída de um secador de cabelos - ou terrivelmente gelado, como nas mais altas montanhas.

Havia desfiladeiros silenciosos, onde o mínimo som podia ser ouvido a muitos quilômetros de distância, bem como cânions cheios de sons apavorantes vindos de criaturas que o melhor era não tentar descobrir o que eram.

Eufemo indicava a direção e eles caminhavam. Idmon podia invocar fogo, na forma de pequenas esferas flutuantes, e a espada de Gabriel podia tornar-se flamejante. Isso indicava suas posições à distância e atraía predadores, mas não tinham escolha. Precisavam ver onde estavam pisando. O Inferno era cheio de armadilhas.

Eles atravessaram um deserto de areia que parecia interminável, onde seus pés afundavam e avançar poucos metros exigia um esforço sobre-humano. Depois um deserto rochoso, onde o simples contato com as saliências da pedra e suas bordas cortantes significava cortes profundos e esfolamentos que deixavam a pele em carne viva. Depois, campos de algo que parecia capim, mas que tinha bordas afiadas que cortavam como navalha. Bosques de vegetação espinhosa cuja seiva venenosa causava dores horríveis e desordem mental. Florestas cheias de criaturas, principalmente insetos, em medonhas versões infernais dos seres nada agradáveis que existiam no mundo real.

No mundo real, ainda não havia se passado uma semana desde que cruzaram o portal do Hades. A eles, parecia que caminhavam sem parar há dezenas de anos. E eles ainda estavam longe de seu objetivo. Muito longe das cidades demoníacas onde viviam os arquiduques do Inferno.

Eles eram sete e cada vez mais agiam em equipe, protegendo uns aos outros. A invulnerabilidade recém-adquirida protegia Autólico de quase tudo e ele usava o corpo como escudo para proteger os demais companheiros. Zetes podia controlar a densidade do corpo, mantendo-se imaterial mesmo num plano espiritual. Mas, ele também podia criar uma barreira de ar forte o bastante para manter afastadas as criaturas aladas e os insetos infernais. Eufemo não afundava na areia macia, assim como não afundava na água, o que permitiu que ajudasse o pesado Palemon a não ser engolido pela areia na travessia do deserto. Com as pernas protegidas pelo exoesqueleto, Palemon avançou como um tanque de guerra pelo terreno hostil carregando Eufemo e Idmon. As espadas de Gabriel e Jasão abriram caminho entre o capim cortante e plantas espinhosas. As visões de Idmon os alertavam a tempo de se prepararem para os ataques das criaturas. Muitas delas tiveram sua existência definitivamente encerrada pelas espadas de Gabriel e Jasão.

Até então eles não tinham encontrado resistência. Tinham passado despercebidos pelos que detinham o Poder no Inferno. Mas, isso não duraria muito.

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– Zetes!

– O que tem o Zetes, Idmon?

– É o Zetes que não vai sair vivo do Inferno. A próxima vez que ele se tornar totalmente imaterial será o seu fim.

Os argonautas imediatamente cercam um atordoado Zetes como se pudessem salvá-lo de seu destino. Zetes até queria dizer uma bobagem, uma frase de humor negro, qualquer coisa que ajudasse a desanuviar o ambiente que se formara. Mas, seu rosto denunciava o quanto estava assustado. Pensou em Calaïs e lamentou não ter a chance de consertar as coisas com o irmão. Morrer no Inferno. A morte definitiva. A extinção total. Lembrou-se então que era um ator e que, independente do que lhe acontecesse, o show TINHA que continuar.

– Se for para eu sair de cena, que seja em grande estilo. De uma forma que seja realmente memorável.

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SANTA MONICA

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Já estava tarde e o pessoal da agência, que tinha trabalho no dia seguinte, já tinha ido quase todo embora. Bobby há muito tinha se retirado para o quarto de hóspedes e dormia profundamente. Um sono mais pesado e relaxante que o habitual. Cortesia de Necker, quando ele reclamara do barulho pela segunda vez.

Claro que, para evitar mal-entendidos, Necker pedira autorização para Bobby antes de sugestioná-lo. A última coisa que queria era voltar a levantar suspeitas de quem já era paranóico por necessidade de sobrevivência.

Apenas uma aspirante a modelo não arredava pé, apesar de já ter recebido diversos passa-foras de Sam. O que ela tinha de bonita, tinha de inconveniente. Como não conseguira enredar Sam em sua teia de sedução, queria a todo custo arrancar de Sam a confissão que havia um envolvimento amoroso entre ele e Necker. Quando ela disse com todas as letras que para resistir a ela só sendo muito gay, Sam perdeu a paciência e a empurrou porta afora.

Sam ainda estava com as costas apoiadas na porta, respirando fundo para afastar toda a irritação que estava sentindo pela garota, quando escutou vozes exaltadas.

– Pensei que isso aqui fosse melhor frequentado.

– Comprando as dores do irmãozinho, Κάλαϊς? Ou é dor-de-cotovelo mesmo?

Calaïs tinha se condensado próximo à janela aberta e caminhava com a expressão fechada na direção a Necker e Hércules.

– Hércules, se eu estou vivo é graças ao Calaïs e, portanto, ele é muito bem-vindo aqui. Calaïs, por favor, pega leve com o Hércules. O que aconteceu, aconteceu há muito tempo. É hora de passar uma borracha no passado.

– Κάλαϊς, estávamos muito bem aqui antes da sua chegada. Aos incomodados, a direção da porta é aquela. Se o Lars não se importar, posso conduzi-lo até lá para que não se perca no caminho. Já se preferir a janela ... O prazer vai ser ainda maior.

– Ainda não nasceu quem consiga me tirar de onde eu não quero sair. Seus músculos não me impressionam, Hρακλῆς. Força bruta não tem efeito contra alguém como eu. Mas, sou eu que não tenho nenhum interesse em ficar aqui respirando o ar que você está poluindo. Eu vou sair assim de tratar do assunto que me trouxe aqui. Podemos conversar um instante a sós, Necker?

– Não sabia que você respirava.

– Chega, Hércules. Vamos, Callum. A gente conversa no quarto.

Sam, que estava esperando uma oportunidade para conversar a sós com Hércules, vai em sua direção. O Hércules do mito tinha resgatado Teseu do Hades e Sam queria o máximo de informações que pudesse sobre o assunto. Mas, é surpreendido quando Hércules, sem dar atenção a ele, se levanta e segue na direção do quarto de Necker.

– Não. Infelizmente, não tenho nenhuma notícia deles desde que partiram.

– Droga! Acordei angustiado. Com um mau pressentimento. Como se algo ruim tivesse acontecido ou estivesse prestes a acontecer com o Zetes. Repeti para mim mesmo que era besteira, mas estou cada vez mais angustiado. Queria ir atrás deles, mas não tenho a menor idéia de onde fica o portal para o Hades.

Sem pedir permissão, mas olhando para o chão, para sua atitude não ser interpretada como uma afronta a Calaïs, Hércules entra no quarto.

– Um dia fomos amigos, Κάλαϊς. Eu quero passar uma borracha no passado. Posso ajudá-lo. Eu conheço o caminho para o Hades.

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24.01.2015