Capítulo 25 - Golden Slumbers

Capítulo 25 - Golden Slumbers

Elizabeth abriu os olhos lentamente. Seus longos cabelos rubros caiam, completamente desgrenhados, por sobre seu rosto. Ainda sentia a cabeça pesada devido ao forte golpe que recebera.

Levantou o rosto com cautela, tentando apreender o máximo possível de detalhes do local onde se encontrava, qualquer brecha que lhe possibilitasse escapar.

Parecia a masmorra de um velho castelo. Era bastante escura, sem janelas, iluminada apenas por dois archotes posicionados ao lado da única saída, uma maciça porta de madeira. Também era muito úmida, como a auror pôde comprovar pela visão da vasta colônia de musgo esverdeado que recobria quase por completo as sólidas paredes de pedra que circundavam o aposento. Havia uma velha e quase apodrecida mesa de madeira em um canto, com uma jarra de barro em cima.

Sentado em uma cadeira próxima, estava um homem jovem e bonito, cabelos avermelhados muito bem aparados. Seus olhos verdes fitavam com atenção a moça indefesa a sua frente.

Um mistura de ódio e rancor brotou no peito da bruxa ao ver quem a observava, fazendo com que ela, instintivamente, tentasse se levantar para atacar o maldito. Mas os pesados grilhões de ferro que lhe prendiam os pulsos fizeram com que caísse novamente sentada no pequeno monte de palha que cobria a região onde estava acorrentada.

-Finalmente acordou, minha querida - disse o homem, aproximando-se da feiticeira.

A auror permanecia calada, olhos crispando de ódio. O comensal abaixou-se até seu rosto ficar na mesma altura do dela, segurou-lhe, então, o queixo por entre os dedos.

-Maninha, maninha... Você é muito mais resistente do que eu poderia supor, sabia? Tentei usar legimância em você enquanto estava inconsciente, mas não consegui absolutamente nada! Seu treinamento como auror lhe deu habilidades realmente surpreendentes.

A caçula dos Black-Thorne continuava calada. Apenas limitou-se a lançar uma forte cuspidela em direção do rosto de seu irmão. Ludovic limpou o local atingido, próximo do olho esquerdo, sorriu e beijou a fronte da irmã.

-AHHHHH!! - gritou a ruiva, em um acesso de fúria, tentando novamente se soltar, inutilmente, das correntes. Não suportava olhar para Ludovic, nem mesmo ouvir sua voz. Sentia-se como se estivesse diante de uma imagem distorcida e doentia dela própria. - Ludovic!! Me solta, seu cretino!! Me solta!! O que você quer comigo afinal??

-Ora, ora, maninha, você é tão esperta e inteligente, será que não pode adivinhar? - respondeu ele, com ironia.

Elizabeth estreitou os olhos. Conhecendo Ludo como conhecia, sabia que o irmão poderia muito bem tê-la seqüestrado por motivos pessoais, mas, como tivera ajuda externa e arquitetado todo aquele teatro envolvendo a pobre Lucy, era muito mais provável que a verdadeira razão de sua captura tenha sido o que aconteceu em junho passado.

-Você está cumprindo ordens, não é? - disse ela, seca e direta - Apesar de nossos laços de sangue, minha presença aqui não está ligada a isso...

Os olhos de Ludovic brilharam de satisfação. Estava orgulhoso do inteligência de sua "querida irmãzinha". Por mais que tenha feito escolhas erradas, Betsy sempre, sempre demonstrava a superioridade de um Black-Thorne quando era preciso.

-Sabia que não ia me decepcionar, Betsy. Você está certa. Nós já sabemos que você se encontrou com a vidente... Que é uma das responsáveis pelo registro da profecia. O mestre precisa saber todos os detalhes do presságio... Então, me ofereci para o serviço. Era a oportunidade perfeita de unir minhas obrigações com o Lord e os meus deveres com minha família.

-Você vai me matar...- a pergunta era quase uma afirmação. Elizabeth tentou não demonstrar qualquer sinal de temor ante a resposta que Ludovic lhe daria.

-Claro que sim! - o comensal tinha um meio sorriso nos lábios - Não apenas porque o Lord me ordenou, mas, principalmente porque eu quero!

-Você me odeia tanto assim, Ludo? - a voz da ruiva era baixa, quase inaudível, uma pontada de dor teimava em ferir-lhe o coração. O mesmo tipo de dor que sentira quando fora expulsa de casa pelos pais. - Sou tão abominável para você a ponto de me querer morta? Só por que nunca consegui ser como você e nossos pais esperavam? Por que segui um caminho que vocês julgavam inadequado?

Ludovic balançou a cabeça.

-Você entendeu tudo errado, Betsy. Eu não odeio você, nunca odiei. Muito pelo contrário, eu te amo, minha irmã. Depois de nossa mãe, você é, certamente, a pessoa que eu mais amo nesta vida. Por isso mesmo eu não poderia deixar que ninguém mais te matasse além de mim.

-Você é um demente, Ludo, um demente! - Elizabeth soltou uma gargalhada nervosa, e continuou, irônica - Vai me dizer que armou tudo aquilo para matarem Aldo por que o amava também?

O ruivo cerrou os dentes, tentando conter a ira frente a acusação da irmã. Obtivera a satisfação ao observar o auror ser morto pelo inferi. Ele próprio não teria feito um trabalho melhor. Só não ficara completamente feliz porque a traidora, aquela que ele julgara um dia amar, fugiu sem deixar rastros. Portanto, não poderia permitir que sua vingança final contra Aldo fosse interpretada de modo tão errôneo pela irmã caçula.

-Claro que não! Com nosso irmão mais velho era diferente. Aldebaran era um bastardo indigno de carregar nosso nome e compartilhar nosso sangue. Como eu desprezava e odiava aquele engomadinho hipócrita e seu ar de superioridade. Você não, maninha, você é uma jóia preciosa que infelizmente deixou-se cair na lama. Uma pérola atirada aos porcos, como costumam dizer. Mas ainda há salvação para você.

-O que quer dizer com isso? - ela perguntou. As palavras dele não pareciam fazer sentido algum.

-Que a principal razão para eu te matar pessoalmente é que apenas assim serei capaz de garantir que você seja purificada do pecado de ter se envolvido com um trouxa, de ter procriado com um animal imundo que você ainda tem a ousadia de chamar de marido.

Elizabeth sentiu o estômago embrulhar. Não conseguia se perdoar por ter se deixado cegar sobre o verdadeiro caráter de Ludovic por tanto tempo. Talvez porque ela chegou a pensar que ele realmente a amara...talvez por acreditar que ele fosse, como ela, um ser humano e não um monstro.

-Você é bem mais doente do que eu acreditava ser possível.- Betsy disse. Sua voz era firme e segura. - Desde quando amor é pecado, Ludo? Você diz que me ama, mas não sabe o que isso significa. Amor é o que eu sinto por Nick, é o que eu sinto por minha filha. Por eles eu seria capaz de morrer, não para me tornar "pura" como você diz, mas porque o que eu sinto por eles é maior que a vida, maior mesmo até que a morte. Você é uma casca vazia, incapaz de sentir qualquer coisa além de uma louca obsessão por aquilo que é incapaz de controlar.

Ludovic levantou-se da cadeira, os punhos cerrados e o cenho franzido. O rosto começou a adquirir um tom quase tão rubro quanto os seus cabelos.

-Cale a boca, Elizabeth, cale a boca!! - ele gritou, soltando sua pesada mão sobre o rosto da irmã caçula.

Um fino filete de sangue escorreu pelo canto dos lábios da ruiva. Mesmo assim, a jovem bruxa não se deixou amedrontar pelo gesto brutal e encarou o irmão com ainda mais veemência e altivez.

Ludovic retribuiu o olhar. Nos orbes esmeraldinos do comensal, tudo o que a moça poderia vislumbrar era o brilho da insanidade queimando ao fundo, forte e implacável.

-Eu não queria te machucar, Betsy, mas você me obrigou a fazer isso! - ele disse, ainda alterado - Não me faça repetir. Eu não quero te ferir de novo, por isso, te peço, me diga logo o que o mestre quer saber para que possamos terminar tudo de uma vez.

A feiticeira fechou os olhos momentaneamente, era cada vez mais insuportável olhar para Ludovic. O que sentia em relação a ele era mais que ódio ou asco. Era um sentimento tão forte que parecia-lhe comprimir a garganta.

-Nunca, Ludovic, nunca - Betsy murmurou, de forma quase inaudível - Eu jamais vou trair minhas obrigações como auror ou aqueles que dependem daquilo que eu sei.

-Você não me deixa outra escolha a não ser tomar medidas mais drásticas! Lamento muito pelo que vou fazer.

Ludovic levantou-se sacando a varinha, e, apontando para a irmã, conjurou:

-Crucius!

O corpo de Elizabeth tremeu em um espasmo involuntário. Apenas uma única vez sentira tamanha agonia em toda a vida, quando realizou o Tearmann. Contudo, a dor do cruciatus era mais concentrada e imediata. Era como se milhares de agulhas em brasa estivem perfurando-lhe o corpo simultaneamente. Ainda assim, não soltou nenhum gemido de dor. Não daria a Ludovic esse prazer. Lágrimas mornas escorreram em suas faces. O comensal retirou do bolso um delicado lenço de seda e começou a limpar o rosto molhado da irmã, que por sua vez tentava afastar-se daquele toque que só lhe causava repulsa.

-Sei exatamente como se sentiu.- disse ele, tentando dar à irmã aquilo que supunha ser uma palavra de consolo- Muito antes do mestre nos brindar com seus castigos peculiares, nosso irmão já havia me apresentado à Maldição Cruciatus.

-É mentira! Aldo jamais faria isso! - ela retrucou, indignada.

-Aldebaran não era esse santinho que você acha.- respondeu o comensal, levantando-se e afastando-se da irmã- Mas nada do que eu disser vai te fazer mudar de idéia. Sei o que sentia por ele. Então, acredite no que quiser, maninha. O que eu te peço agora é que se lembre exatamente de cada detalhe do tormento pelo qual acabou de passar. Pense nisso e decida se prefere um outro crucius reverberando em seu corpo ou me contar tudo o que sabe. Não precisa responder agora. Irei deixa-la sozinha para refletir.

Ludovic cerrou a porta de madeira atrás de si, deixando Elizabeth na câmara escura acompanhada apenas por seus próprios pensamentos. A jovem auror queria chorar, mas não poderia deixar-se cair em desespero. Não podia aceitar que tudo terminaria ali, naquele calabouço fétido, morta pelas mãos do próprio irmão. E pensar que um dia ela chegara a acreditar que poderia resgatar Ludovic do caminho das Trevas. Como fora tola.

Precisava fugir. Queria sentir o calor dos lábios de Nick junto aos seus, sentir o cheiro de seu cabelo molhado em dia de chuvas. O marido sempre perdia seus guarda-chuvas e chegava, em casa, ensopado. Queria ver de novo aquela dobrinha no meio de sua testa, quando ele fingia que ia falar alguma coisa séria, mas sempre terminava fazendo alguma gracinha... Queria aninhar Meri novamente em seus braços, sua pequena princesa de cabelos de fogo. Queria vê-la dando os primeiros passos, segurar sua mão depois do primeiro tombo, ver cair o primeiro dente, leva-la para pegar o trem em seus anos de escola...

Não podia permitir que Ludovic roubasse todos esses preciosos momentos dela. Mas as algemas que a prendiam, apesar de antigas, eram muito fortes. O que fazer? Como escapar?

Não precisou pensar muito, o próprio destino se encarregou de lhe dar a resposta quando percebeu que alguém abria a porta da masmorra novamente. Mas, ao invés do irmão, viu outro rosto adentrando o recinto: Agamennon Star.

-Vim ver como você está.

-Quanta consideração vinda de um servidor de Voldemort - respondeu a ruiva, de modo sarcástico - Tirando as correntes que prendem meus braços e as dores por todo o corpo, além do fato de estar prestes a morrer, nunca estive melhor em toda a minha vida.

O herdeiro dos Star baixou os olhos.

-Sinto muito, Elizabeth. Você não faz idéia do quanto. Não queria que você terminasse assim. Você sempre foi melhor que muitos de nós, filhos de puro-sangue. Nunca se deixou iludir pelas sombras. - Havia uma imensurável melancolia em sua voz, a ponto de fazer com a que a bruxa aprisionada deixasse de lado a postura agressiva e chegasse até mesmo a se sentir comovida.

-Agamennon... Olha, não precisa ser assim. Nunca entendi por que você se tornou um comensal. Você não é uma pessoa ruim. A própria Frida costumava dizer isso. Se você me ajudar a fugir, posso te garantir proteção. Ninguém nunca poderá te encontrar.

-Eu não posso, não posso mesmo.- o moreno respondeu, sentia-se verdadeiramente arrependido do papel que representara naquela história toda, mas não havia muito que pudesse fazer - Lamento, mas há muito mais em jogo para mim do que você pode imaginar... Tudo o que eu posso fazer é tornar o pouco tempo que lhe resta o menos desagradável possível dentro das circunstâncias.

A ruiva observou atentamente as feições carregadas de Agamennon. Inexplicavelmente sabia que ele estava sendo sincero.

-Já que é assim, será que poderia me dar um pouco d'água? Tenho sede.

O comensal dirigiu-se até a mesa, pegando a jarra que estava sobre ela. Aproximou-se da moça e encostou delicadamente o gargalo da mesma nos lábios sedentos de Elizabeth, que sorveu o líquido refrescante com gosto. Sentia-se um pouco revigorada. Ao mesmo tempo, já começava a elaborar uma forma de escapulir dali.

-Obrigada - disse ela, quando Star afastou a jarra. - Já que você está sendo tão solícito, será que poderia me levar ao toalete?

-Eu não sei se seria adequado...Ludovic não aprovaria que eu lhe soltasse dos grilhões.- ele respondeu, o receio impresso em sua voz.

Betsy suspeitou que não seria tão fácil convencer o comensal a solta-la momentaneamente. Contudo, ela precisava insistir. A vida dela estava em jogo. Era hora de colocar em prática tudo o que aprendera na Academia, tudo que aprendera em campo durante suas missões de infiltração.

-Por favor...- disse ela com uma voz doce e quase inocente - Eu estou completamente desarmada e você tem a sua varinha. Sua vantagem sobre mim é clara, não há nada que eu possa fazer. Estou indefesa. Eu realmente preciso ir... E também, gostaria de me lavar um pouco. Sou herdeira de uma casa antiga e nobre. Tenho o meu orgulho próprio. Já que vou morrer, quero estar pelo menos apresentável.

-Tudo bem, então. - Star consentiu. Não lhe custaria nada acatar ao último desejo da moça.

Agamennon retornou à mesa, depositando novamente a jarra em cima dela e trazendo consigo uma pesada chave de ferro que todo o tempo estivera ali. Retirou a varinha das vestes e a manteve apontada para Elizabeth enquanto a libertava.

A ruiva esfregou os pulsos, havia pequenas lacerações e marcas no lugar, resultado do esforço de tentar se soltar. Levantou-se, as pernas ainda dormentes de ficar tanto tempo sentada. Precisava se recuperar um pouco antes de agir.

Deixou que Star a guiasse, ficando à sua frente, varinha quase fincada entremeio suas costelas. Puxou a pesada porta e seguiu pelo corredor na direção indicada pelo comensal. Andou alguns passos, e, quando percebeu que estava o suficientemente afastada de sua cela, decidiu que era hora de colocar seu plano em ação. Apertou um pouco mais o passo para ganhar distância do comensal, mas de modo quase imperceptível para que ele não suspeitasse da intenção dela. Quando notou que havia ganhado a brecha necessária, girou o corpo com toda a sua força, aplicando um chute certeiro na cabeça de Agamennon, que caiu, desfalecido. Abaixou, pegando a varinha do comensal.

Era óbvio que Elizabeth estava em desvantagem. Não conhecia o território inimigo, não sabia se havia ali outros servos de Voldemort além de Ludovic e Agamennon. Mas o mais difícil ela já conseguira...

Precisava continuar em frente, encontrar a verdadeira saída daquela ratoeira. Pelo marido, pela filha. Por eles precisava ser mais forte do que jamais fora na vida. Apertou com força o pingente em forma de fada que trazia no pescoço. Queria tanto que Aldebaran estivesse ao seu lado. Mas isso era impossível. Só podia contar com ela mesma agora.

Seguiu a passos largos, porém silenciosos, pelo labirinto de corredores do castelo. Cada porta encontrada, uma nova decepção. Onde estava a maldita saída? Seu tempo estava se esvaindo como os grãos de areia de uma ampulheta. Era apenas uma questão de minutos até que o irmão retornasse de onde quer que tivesse ido, e que Agamennon recobrasse a consciência

. Dobrou o corredor seguinte, com urgência, mas ao invés da salvadora passagem para fora do castelo, viu apenas uma cegante luz esverdeada, sem nem ter ao menos uma chance de reagir.

Seu corpo tombou para trás, os olhos, agora duas pequenas esmeraldas sem brilho e sem vida, deixaram escapar uma lágrima furtiva...

E apesar de tudo ter ocorrido em uma questão de segundos, Elizabeth ainda pôde levar consigo uma última lembrança. Nos ouvidos ecoavam sua própria voz, que, suave, cantava:

Once there was a way, to get back homeward.
Once there was a way, to get back home.

Meridiana estava deitada de barriga para cima. Mexia os pezinhos agitadamente. Sua pequenina mão apertava com força o polegar da mãe, olhando para ela com os brilhantes olhos verdes que herdara de Elizabeth. Parecia gargalhar, emitindo sons baixinhos e divertidos.

Sleep pretty darling, do not cry.
And I will sing a lullaby.

Nick, encostado no batente da porta, observava em silêncio, a esposa e a filha, deitadas na cama do casal. Olhava, embevecido, para as duas, seus mais valiosos tesouros. Sorriso brotando nos lábios, alegria preenchendo o coração.

Golden Slumbers fill your eyes.
Smiles await you when you rise.
Sleep pretty darling, do not cry.
And I will sing a lullaby.

Betsy levantou os olhos, encontrando-se com os do marido. Não precisou dizer nada, apenas sorriu de volta.Nunca se sentira tão feliz em toda a sua vida, como naquele dia, naquele quarto. Era o quadro perfeito de uma vida perfeita. Fora abençoada como poucos. Recebera muitos mais do que esperava. Pena que durou tão pouco... Como sentiria falta dos dois. De seu marido, metade de sua alma, eterno amor... De sua menininha, jóia preciosa e promessa cumprida...

Once there was a way, to get back homeward.
Once there was a way, to get back home.

Mas, não para Elizabeth. Hoje ela não voltaria para casa.

Sleep pretty darling, do not cry.
And I will sing a lullaby.

Naquela noite, para Meridiana, a mãe não entoaria uma canção de ninar.

Ludovic abaixou-se próximo do corpo inerte da irmã, fechando-lhes os olhos com a palma da mão. Beijou-lhe, então, as faces que começavam a perder o viço.

-Agora sim, minha querida, você voltou a ser uma de nós, uma verdadeira Black-Thorne. Pura e imaculada. Pode, enfim, seguir em paz a sua jornada.

Passos rápidos ecoaram pelo corredor. Agamennon surgiu, esbaforido.

-Você...a matou?!

-Foi o que o mestre ordenou, não foi? - respondeu o ruivo, sem demonstrar qualquer sentimento em sua voz.

-Mas ela era...sua irmã. - disse, Star, chocado.

- Por isso mesmo requisitei esse serviço.

O outro comensal balançou a cabeça, não conseguindo compreender o terror que se descortinava diante de si.

Ludovic permanecia agachado, ao lado da irmã, praticamente ignorando o outro comensal. Para ele , Agammenon era como um inseto insignificante, que inadvertidamente chegara em uma hora inapropriada. Ignorando a presença do outro, retirou das orelhas da irmã um par de brincos de esmeralda que ele sabia ter sido presente da mãe. Levaria aquilo consigo, como uma lembrança de sua irmãzinha amada, já que sabia que não poderia prestar-lhes as devidas homenagens por ser um foragido.

-Eu...eu acreditava que no fim...você não seria...capaz...- Star balbuciou.

-E quem iria faze-lo? Você? Me poupe de besteiras,Agammenon - Ludovic retorquiu, levantando-se e encarando o colega com olhos frios e contundentes. - Você sempre foi um fraco, nunca gostou de sujar as mãos como a maioria de nós. Não conseguiria matar Elizabeth, e nem eu permitiria que alguém indigno como você desonrasse o momento glorioso da morte de minha irmã. É exatamente por essa sua covardia que foi designado para me auxiliar, para provar novamente a sua lealdade.

-Eu sei... Eu não deveria ter ido para a Irlanda...Mas eu estava desesperado, depois da morte da minha esposa.- o moreno tentou se justificar.

Ludovic observou o outro com ainda mais desprezo.

-Como eu disse, um fraco, nada mais que um fraco e insignificante inseto é o que você é! Nunca será um comensal de valor como eu ou Rigel. O mestre foi por demais generoso lhe dando essa última chance de se mostrar fiel. E ainda assim, você falhou miseravelmente. Minha irmã quase escapou. Eu, no lugar do Lord, já teria te eliminado muito tempo atrás.

Agamennon engoliu seco. Não era o covarde que Ludovic dizia que ele era, não poderia ser. Não foi exatamente para se mostrar forte que se juntara aos seguidores do Lord das Trevas? Mas, também não podia enfrentar Black-Thorne. Havia muito em que pensar, muito o que proteger para se arriscar desnecessariamente. Ludovic era insano e perverso. Não era por um acaso que o ruivo era um dos principais torturadores e assassinos do Senhor do Escuro. Naquela noite, Star tivera muito mais do que provas concretas da loucura de seu companheiro de horda das trevas. Decidiu mudar de assunto:

-Descobriu o que o mestre queria?

-Não e sei que serei punido por isso.- respondeu o ruivo, com desdém - Mas pouco me importa, estou satisfeito. Hoje foi uma noite de triunfo.

Ele retirou das vestes um pergaminho, abaixando-se novamente e colocando no bolso da calça que Elizabeth vestia.

-O que é isso?

-Uma cartinha para meu querido cunhadinho. - o ruivo respondeu, sorrindo - Um pequeno ganho pessoal depois de deixarmos o corpo de minha irmã no local indicado pelo Lord.

-Não sei se o mestre aprovaria isso...

-O mestre não precisa ficar sabendo, precisa?- Ludovic lançou um olhar ameaçador em direção de Agammenon - Espero que você seja discreto quanto a isso, Star, caso contrário farei uma alegre visita à sua filhinha.

As cores sumiram por completo do rosto de Agamennon. Como era possível que ele soubesse sobre a sua garotinha? Fora tão cuidadoso ao deixa-la sob os cuidados de seu primo Peter e da esposa, Millie.

-Você...sabe?

Ludovic riu.

-Claro que sim. Sempre considerei você nosso calcanhar de Aquiles. Precisava de garantias de que não iria nos trair. Por isso fiquei de olho em você. O nome dela é Katarina, não? Uma bela menina... Mas não se preocupe, seu segredo está a salvo comigo. Caso nos traia, prefiro matar todos eles, sua filha e seus primos, a revelar seu segredo.

Agamennon fechou os olhos, em desespero. Sentia medo, muito medo. Que tipo de aberração da natureza era Ludovic? Como alguém podia ser tão hediondo? Pelo bem de sua filha, Star preferiu concordar com tudo que Black-Thorne lhe pediu ou viesse a pedir.

-Faça o que quiser, Ludovic, como você mesmo disse, esse é um assunto de família.

-Ótimo! Vou apenas dar um último beijo de despedida em minha amada Betsy e então a levaremos daqui.

Era a sétima vez que Nicholas reescrevia aquele parágrafo. As coisas simplesmente não estavam funcionando. Desde que Elizabeth saíra no meio da noite para atender a um chamado relativo ao trabalho dela ele simplesmente não conseguia se concentrar.

Não era a primeira vez que ela precisava sair daquele modo, contudo, desta vez, Nick sentia que havia alguma coisa errada, embora não soubesse explicar os motivos. A garganta comprimia-lhe e o ar parecia não adentrar em seus pulmões. Fazia algumas horas que Betsy havia saído de casa e ele estava realmente preocupado.

Embolou o papel, jogando na cesta de lixo próxima da mesa de seu estúdio. Não conseguiria escrever mais nada naquela noite...Eram mais de duas horas da manhã...Estava cansado e a ausência da esposa só fazia piorar a sensação de desolação.

Talvez ele pudesse ligar para Alexandre Sinclair e pedir que o antigo professor da esposa entrasse em contato com o Departamento de Aurores para saber alguma notícia. Mas o que ele diria ao homem? Que justificativa ele teria para acordar Alex no meio da madrugada a não ser aquela sensação infundada de que algo não estava certo?

Saiu do escritório, seguindo escada acima, disposto a varrer para o fundo da mente aquelas idéias sem sentido. Logo Betsy estaria em casa e ele riria, aliviado, da própria tolice, por ter-se deixado levar por uma imaginação hiperativa, capaz de construir cenários de terror na mesma velocidade que criava poesia.

Estava quase no quarto que dividia com a esposa quando escutou o choro baixinho da filha. A passos suaves, entrou no quarto da bebezinha, pegando a pequena no berço. Ela pareceu se acalmar com a chegada do pai, aninhando-se confortavelmente no colo dele.

Nicholas sentou-se na cadeira de balanço que Betsy costumava usar para amamentar Meridiana. Deixou o corpo balançar para frente e para trás, a suave cadência trouxe-lhe à mente uma canção e uma lembrança...De um dia, não fazia muito tempo, Betsy deitada na cama deles, cantando para Meridiana...Nunca a vida deles pareceu-lhe tão perfeita quanto naquele dia. Deixou, então, que a própria voz desse vida à música que a esposa entoara na ocasião:

- Once there was a way to get back homeward...Once there was a way to get back home Sleep little darling, do not cry…And I will sing a lullaby…. Once there was a way to get back homeward…Once there was a way to get back home…Sleep little darling, do not cry…And I will sing a lullaby…

A medida que a música avançava, ele sentiu um nó no peito crescendo...Uma forte melancolia tomando conta de si...E quando encerrou a última estrofe e, Meridiana dormia profundamente, Nicholas chorava envolto pelas sombras que cobriam o quarto da filha.

Nota da Autora

Oi novamente a todos!

Bem, chegou o momento em que Elizabeth finalmente se despede da nossa história. Mas ainda temos algumas pontas para fecharmos nossa história e espero que continuem nos acompanhando até nosso derradeiro final.

Apesar de ser uma das primeiras coisas que escrevi, a morte da Betsy foi um dos capítulos mais difíceis, juntamente com a morte do Aldo, porque acabamos por nos apegar a um personagem e por mais que a morte dele seja necessária, nem sempre é fácil de concretiza-la.

Vamos direto à referência principal do capítulo.

Golden Slumbers é uma música dos Beatles. Descobri ela meio por acaso, e quando li a letra achei perfeita para o capítulo e para o momento de despedida de Elizabeth.. Quem quiser baixa-la , recomendo também duas versões nacioanais, uma cantada pela Cássia Eller e outra pela Elis Regina.

É isso!

Espero que tenham gostado do capítulo e não deixem de comentar no fim da página

Abraços, Meridiana (Ana)