Rachel e Finn caminhavam juntos pelo corredor, para que ela fosse guardar a parte do material de que não iria precisar no final de semana, em seu armário. Finalmente, era a sexta-feira daquela semana exaustiva, em que os dois tanto discutiram, além de ele ter tido de lidar com o desânimo do irmão, que acumulava cartas do seu ameaçador secreto, e de ela ter precisado se desdobrar para animar uma das melhores amigas, que passava por um dos momentos mais difíceis de sua vida.
A insistência de Finn em discutir a revelação do namoro dos dois a todos tinha dado uma trégua, afinal no sábado e no domingo eles praticamente namoravam sem nenhuma restrição. Então, os dois aproveitavam para falar sobre a tarefa do dia do clube glee, que era justamente para onde iriam, logo depois que Rachel guardasse seus pertences. O professor Schuester, que tinha decidido pedir a Srta. Pillsbury em casamento depois do escândalo sexual em que os dois se envolveram, tinha pedido uma ajuda especial a seus pupilos.
Na realidade, Will já havia feito a proposta. Porém Emma era uma mulher moderna que não gostava de colocar rótulos em seus relacionamentos e nem se sentia preparada para assumir as responsabilidades de uma mulher casada, então ela havia pedido um tempo para pensar. Inconformado, o professor de educação física e mentor do coral decidira que precisava fazer o pedido novamente, dessa vez em grande estilo, e a tarefa de seus alunos era dar sugestões de músicas e performances que poderiam ser utilizadas para isso.
"Vocês, garotas, entendem melhor dessas coisas." Afirmou Finn. "Vocês são mais românticas... assistem àquele monte de filmes de comédia, em que os caras fazem coisas inusitadas para conquistar, ou reconquistar, as garotas. A gente não entende muito a cabeça de vocês."
"É... você tem razão. Mas, mesmo assim, eu to meio sem criatividade, sabe? Músicas tem muitas, é claro. Mas só cantar pra ela não vai ser grandioso como ele quer." Rachel respondeu.
"O Sam tava saindo do vestiário, viu o pessoal do nado sincronizado treinando, e acha que o Sr. Schue deveria juntar a gente com eles, pra um número musical dentro d'água." Ele riu.
"Será?" Ela questionou, pensativa, já abrindo seu armário, de onde, imediatamente, caíram algumas coisas.
Rachel não reconheceu as revistas que estavam guardadas em seu armário e agora tinham se espalhado pelo chão, mas se abaixou para pegá-las, pensando ser algo que Quinn ou Santana tinham colocado ali, como faziam de vez em quando. As três tinham as senhas dos armários umas das outras, para casos de emergência, em que precisassem devolver ou pegar algo emprestado, sem que pudessem se encontrar. Algumas vezes, elas faziam surpresas e Rachel pensou que era esse o caso, naquele momento.
Sem dar maior importância para nada daquilo, a garota pegou tudo o que havia caído, inclusive uma caneta daquelas usadas para marcar texto na cor rosa, que ela julgou ser de Quinn, e continuou a falar sobre o mesmo assunto de antes. Ao levantar, no entanto, foi surpreendida por um forte barulho, resultante de um soco que seu namorado desferira contra o armário ao lado do seu.
"Eu não posso acreditar que foi você, Rachel!" Ele gritou, com raiva. "Eu não posso acreditar que eu fui tão idiota!" Bufou, enquanto ela o olhava, sem nada entender e sem conseguir falar, como se estivesse em estado de choque. "É claro! É claro que não queria contar pra ninguém que a gente tava namorando. Tem vergonha de namorar o irmão do vi-a-di-nho... não foi assim que você o chamou, Rachel?"
"O... o que?" Conseguiu falar, finalmente, mas em um tom de voz extremamente fraco.
"Pra ficar com você, depois que você se cansou do seu namoradinho idiota ficar te chifrando com qualquer uma que aparecia na frente dele, eu sirvo, claro! Mas namorar o irmão do garoto que você quer ver longe daqui? Claro que não!" Ele estava descontrolado.
"Finn, calma... eu nem sei do que você tá falando." Ela falou, mais firme, mas confusa.
"Ah, não sabe?" Respirou fundo. "São só uma coincidência essas revistas cortadas?" Mexeu nas revistas, mostrando a ela. "E essa caneta rosa? ROSA, É CLARO... pra eu nunca desconfiar de você! E, aqui, dentro do seu armário, esses dois envelopes... Pelo amor de DEUS! Vai tentar negar?" Gritava ainda mais.
"Babe, eu não sei como essas coisas foram parar no meu armário... eu achei que eram coisas da Quinn ou da Santie..." Suspirou. "O que fizeram com o Kurt?"
"Não me chama de babe! E não fala nem o nome do meu irmão!" Mandou, firme. "Fica longe da gente, ok? E saiba que o Kurt não vai a lugar nenhum... você não é dona desse colégio... felizmente."
O rapaz virou as costas e foi embora, muito irritado com Rachel, por acreditar que ela havia mandado as cartas para Kurt, mas principalmente triste por ter sido ela, entre todas as pessoas. Justamente ela, a garota por quem ele estava irremediavelmente apaixonado. Isso não importava, no entanto, porque seu irmão estava acima de tudo. Ele brigaria com qualquer pessoa para defender Kurt, inclusive com ele mesmo e todos os sentimentos que gritavam dentro de sua cabeça e de seu coração.
Rachel não sabia o que fazer, pois não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo. Então, ela apenas guardou as coisas que lhe pertenciam e as que não lhe pertenciam no armário e correu para a sala do coral. Ainda tentou conversar com Finn, mas ele disse, dessa vez baixinho para não chamar a atenção de ninguém, que não tinha mais nada para conversar com ela, e que o namoro dos dois tinha acabado, antes mesmo de começar, conforme ele não conseguiu deixar de ironizar.
Alguns alunos apresentaram sugestões ao Sr. Schue, e vários deles inclusive cantaram músicas que julgavam que o professor desconhecesse. Rachel não conseguia prestar atenção em nada, não ria das coisas engraçadas que aconteciam à sua volta, só via Finn perto de si, com o semblante carregado e igualmente imune a qualquer alegria ou ao ritmo das canções que iam sendo apresentadas naquela sala. Ela precisava fazer algo, tentar de alguma forma chegar ao coração dele e convencê-lo a, pelo menos, dar a ela a chance de provar que não havia feito aquilo que ele julgava que ela tinha feito.
"Sr. Schue, eu também tenho uma sugestão." Na verdade, ela não tinha pensado em apresentar sugestão alguma, mas ela precisava cantar para Finn, usando como desculpa a tarefa de classe.
"Tudo bem, Rachel. Nos apresente."
A banda começou a tocar e todos prestavam atenção. A canção, bem atual e conhecida, foi logo reconhecida pela maioria dos membros do clube.
"I can't win, I can't reign... I will never win this game... without you... without you..." Ela começou a cantar, depois dos acordes iniciais da música.
O namorado, agora ex, soube que ela estava tentando dar um recado a ele, desde que ouvira a introdução da música. Ela estava pegando pesado com aquela letra, e parecia cantar cada palavra com tanta sinceridade!
Ele não conseguia deixar de imaginar a sala vazia, só com os dois ali, juntos. Ela se aproximando dele, e ele tocando o rosto dela com delicadeza, como se ela fosse quebrar se ele tocasse mais forte, como se ela fosse frágil. Ficou em um transe, durante quase toda a música, deixando o seu amor por ela falar, por meio de suas feições. Trocaram olhares e ele até sorriu um pouco, sem perceber, porque naquele momento era como se só houvesse os dois no mundo e mais ninguém. Só os dois, uma forte paixão e mais nada!
Porém o mundo não era só dos dois. O mundo era também de Kurt, de seus pais, da honra de sua família, do orgulho que ele sentia daquele garoto de aparência frágil e de natureza sensível, mas com uma enorme força interior, que crescera com ele. E Rachel não era só aquela doce menina, com voz de anjo e aquela pele macia e perfumada que ele queria sentir junto à sua, e que cantava para ele, agora. Ela era a pessoa preconceituosa que achava que seu irmão maculava a reputação do Mckinley e que queria que ele fosse embora. Todo o material utilizado na confecção das cartas estava guardado no armário dela. Ele mesmo tinha visto!
Quando a morena cantava a última parte da música, Finn não aguentou e saiu correndo da sala, indo imediatamente para seu carro, e quase esquecendo que não podia ir embora, pois Kurt estava de carona com ele. Esperou pelo garoto, que não demorou a chegar, pois também saíra correndo, logo depois dele, preocupado com sua reação, e, depois de levar o outro até a casa deles, contando, durante o trajeto, o que acontecera entre ele e Rachel, seguiu para um lugar onde ficaria sozinho com seus pensamentos.
Rachel nunca tinha ido à residência dos Hummel, mas sabia exatamente onde ela ficava, porque, durante uma conversa, o grupo de amigos dos dois havia descoberto que a casa de Finn se localizava na mesma rua da de Tina. Então, foi para lá que ela se dirigiu, pouco depois de terminar de cantar, tendo se dado conta de que só havia uma pessoa que poderia ter colocado revistas, envelopes e uma caneta em seu armário, que aparentemente tinham relação com alguma maldade que alguém tinha feito com Kurt.
Quinn e Santie tinham a combinação, mas não eram do tipo de pessoa que faz mal a uma mosca sequer, apesar de normalmente os populares serem associados às maldades contra os impopulares. Além delas, Rachel só tinha dado a senha para uma pessoa e, não imaginando jamais que esta pudesse mexer em seu armário, não mudara a sequência de números depois disso. Jesse era essa pessoa, que tinha a numeração porque, quando era namorado dela, às vezes lhe fazia o favor de levar suas coisas para guardar.
Pensando friamente, naquele momento, não foi difícil concluir que, além de ele ser a única pessoa que sobrava, tinha todos os motivos do mundo para querer prejudicá-la, não somente porque ela tinha terminado com ele, mas também porque o havia humilhado na frente de vários jogadores de futebol e de hockey, bem como de algumas líderes de torcida. A única peça que faltava era saber como ele tinha concluído que a prejudicaria ao colocar as coisas no armário dela.
Rachel nunca havia imaginado que Jesse desconfiasse do namoro dela com Finn, mas o fato é que ele não somente desconfiava, ele sabia. Ele ficara de olho nos dois, desde que ela terminara com ele e até pedira a Azimio para seguir Finn, algumas tardes. Não tardou para que o brutamontes chegasse à casa dele com a confirmação de que os dois estavam namorando escondido e, desde aquele dia, o garoto começara a pensar em uma maneira de separar os dois, mas não tinha chegado a nenhuma conclusão, até que o destino fora extremamente generoso com ele.
St. James jogava vídeo game com Karofsky, em uma tarde comum de sábado, quando vira alguns papéis em cima da escrivaninha, letras recortadas de revistas e cola, e, apenas por curiosidade, perguntara do que se tratavam. Descobrira, então, que Dave estava mandando cartas anônimas ao irmão de Finn, e não somente adorara a ideia e rira com o amigo, que contara todas as barbaridades que já havia "escrito" nas cartas, como decidira, naquele mesmo momento, usar a atividade que o outro tinha iniciado em seu favor.
Passou a ajudar na confecção das cartas e deu a elas um novo toque: as palavras montadas com letras recortadas de folhas de revista passaram a ser sublinhadas ou envolvidas com caneta rosa fosforescente, que ele achou que daria o toque feminino que faria Finn desconfiar da namorada. A sorte estava tão ao seu lado que, apesar de ele errar completamente sobre Rachel e não lembrar que ela detestava rosa, a caneta fez Finn pensar que ela tinha usado a cor justamente para disfarçar.
Ao ouvir Claire e Hayden fofocando sobre terem escutado uma discussão entre Rachel e Finn, que discordavam sobre ser a hora ou não de contar algo aos colegas de colégio, ele deduzira perfeitamente bem que Finn não estava gostando de permanecer incógnito e que Rachel não estava aceitando assumir o namoro ainda, e assumira ser aquele o melhor momento para colocar lenha na fogueira, colocando as revistas que ele e Karofsky tinham recortado, a caneta usada e envelopes que tinham sobrado no armário da ex.
Rachel podia não saber de nada disso, mas estava certa de que havia sido Jesse quem tinha feito algo para Kurt e agora a estava incriminando. Ela podia não saber ainda como, mas ela tinha que desmascarar o verdadeiro responsável, para o bem de Kurt, de Finn e dela própria. O primeiro passo, certamente, era saber o que exatamente tinha acontecido, para que ela pudesse traçar alguma espécie de plano.
Infelizmente só duas pessoas poderiam contar a ela e uma dessas pessoas não queria falar com ela, de jeito nenhum. Entretanto, felizmente, esta pessoa estava saindo de casa, quando ela chegou lá, deixando a outra sozinha.
A tarefa mais difícil, agora, seria convencer a vítima a ajudar o seu suposto algoz. Mas o fato é que Rachel Berry era teimosa o suficiente para não sair dali sem uma resposta de Kurt Hummel.
Um pouquinho só de drama, mas eu prometo que será breve, ok?
