Capítulo 23

Sem fronteiras

- Amadeus, tu vais compor algo mais que uma música, um dia. Tu vais compor uma lei musical, uma Lei para um paradigma universal chamado Paradigma de Skasas. Essa Lei pode dar o acesso de qualquer um a todos os segredos do universo. Imagina, poder destruir ou alterar tudo só com um estalar de dedos. É por isso que temos de te pôr a salvo, e certificarmo-nos que ninguém a descobre.

Ao fim de algum tempo com ele, depois de saírem de casa e juntarem-se a Who e a Rudolph, Cassidy tinha decidido que aquele rapaz era capaz de entender o que lhe dizia sem estar com rodeios, ou embelezamentos. Apesar de inocente e excessivamente feliz, não era nada burro. Na verdade, era bastante perspicaz para a sua idade, apesar de fantasioso.

- Então, tu és uma feiticeira, eles são os teus guardas, e tu vieste salvar-me. Genial. Onde é que vamos agora?

E seria tudo muito melhor para Rudolph se ele não estivesse às suas cavalitas, dando pulinhos de excitação e a apontar para todo o lado. Tinha engraçado com Cassidy, a sua forma de se vestir como um homem, mesmo sendo uma mulher, e o seu cabelo de duas cores. E decidira apresentar-lhes Salzburg inteira, quando não era interrompido por ataques de riso quando Miroir aparecia. O demónio, contrariamente a tudo o que pensavam, adorava o menino-prodígio. Tinha-lhe o mesmo cuidado velado que Basttete tinha por Cassidy. Se não tivessem estado aquele tempo todo em oposição, talvez tivessem sido aliados mais eficazes. Miroir e Basttete eram, sem dúvida, uma dupla poderosa, mas limitada pelas suas próprias leis. Uma dessas leis, era a de não interferir na ordem natural do tempo e dos acontecimentos.

Cassidy, Rudolph e Who não eram demónios. Assim, nada os impedia de tentarem impedir o que se iria suceder, previsto desde tempos imemoriais por várias civilizações: o apocalipse, ou ragnarok. Para eles, demónios, era o chamada Finite. Até o próprio Paradigma, em parte, apontava para isso. Fora um erro tremendo fazê-lo para evitar o poder e responsabilidade que recairia sobre cada um, estavam agora a pagar por ele.

De repente, Doctor Who pára, como uma estátua. Demorou um bocado até que percebessem que estava parado, e que havia qualquer coisa errada na sua expressão. Um misto de pânico e adrenalina correu-lhe nas veias, subitamente despertos e atentos.

- Cassidy, pega no rapaz e sai daqui. Desconfio que estamos a ser seguidos. - Disse, a olhar para trás por cima do ombro.

- E vocês?

- Nós empatamos. Vai para a TARDIS, agora. Procura um lugar sem ninguém onde se possam esconder. E depois, já sabes o que fazer.

Engoliu em seco e aceitou o que ele lhe dizia. Agarrou no rapaz, emprestou-lhe a capa para ele se tapar com ela, e, encobertos pela sombra da berma da rua, seguiram em frente enquanto Rudolph e Who ficavam para trás. O primeiro tinha uma pequena pontada no coração. Porém voltou a sentir as mãos de Cassidy no ombro. Estava sem óculos, e os seus olhos amarelos claros, ácidos e vidrados, estavam mais furiosos que duas estrelas cegantes. Deu-lhe os óculos escuros dela, entrelaçando-lhe a correia dourada nos dedos. Reparou também que ela tinha, outra vez, olheiras extensas abaixo das pálpebras, escuras como chumbo.

- Não vou precisar deles. Guarda-os. Vou voltar para os vir buscar.

Voltava-lhe costas com aquela promessa verdadeira. Seria apenas ele a perceber que ela lhe dirigia um sorriso leve e sincero, de cumplicidade. Se a julgava conhecer, então diria que aquele sorriso era como uma confirmação de algo mais. Mas, fosse como fosse, ele nunca a tinha visto sorrir daquela forma. Quando tocava tinha uma expressão mais serena e livre que aquela, porém naquela faceta dela vinham expressos laivos de emoções que costumava conter. Queria poder parar aquilo tudo, para ter tempo de decifrá-la só com o olhar. Ele, que já deduzia muito por um simples olhar. Quando se reencontraram, fora capaz de ver que ela, apesar de não admitir, tinha sentido saudades daquela vida. Só assim se explicava ter começado a guardar o instrumento numa caixa, e não por invocação. Esteve sempre, aquele tempo todo, à espera de partir. Porque ela era calma, gostava de sossego, mas depois dos acontecimentos em Paladina, ficar fechada na sua vida monótona de relojoeira não era já suficiente.

A sensação de que estavam a ser seguidos estava correcta. Um batalhão de Daleks, imóveis, estava ali, para os deter. Fugir era inútil, mesmo que corressem seriam apanhados por um tiro qualquer certeiro deles. Os metais resplandeciam à luz do pôr-do-sol, que já não era mais que uma linha vermelha no fundo do horizonte. Os dois inspiraram fundo, ele e Who, antes do outro lhe dizer ao ouvido, sem se importar em falar muito baixo.

- Posso deitá-los abaixo com a chave sónica, mas preciso que tapes os ouvidos. E depois, correr até te caírem os pés.

Tapar os ouvidos. Era uma das ordens mais constantes de Cassidy quando abusava do violino, lembrava Rudolph. Conseguia bons efeitos em aturdir os inimigos, se estes não fossem surdos. Perguntou-se se aquela chave, com uma luz azulada na ponta, seria capaz de um efeito semelhante. Não se deteve muito nessa questão, pois em cinco minutos, com um estampido comparável ao de um revólver, os Daleks estavam caídos no chão e eles os dois corriam desenfreadamente. Recordou-se, então, da arma dourada que trazia no bolso. Estava na hora de lhe dar mais uso.

Cassidy estava distante, quando o relógio lhe saiu do bolso. O pequeno achou imensa graça ao relógio falante, e como criança que ainda era, não via nada de estranho ou anormal num relógio de bolso com vida própria.

- Cassidy, concentra-te apenas. Não uses a TARDIS, usa-te a ti mesma. Ou eles perdem a oportunidade de nos encontrar. Lembra-te de um lugar, lembra-te da nossa terra, da nossa casa. É para lá que vamos.

- Para casa.

Murmurava isto com um misto de tristeza e determinação. Apertou Amadeus contra si e fechou os olhos com força, comprimindo os lábios e o peito. Sentiu-se, de repente, tão leve como o ar que os rodeava, e no instante seguinte estavam rebolar em neve acinzentada, com fiapos frios a caírem-lhes em cima. Tossiu. Tinha ficado com falta de ar depois daquilo. No entanto, tinha resultado. Estavam em Ivoria, na grande colina atrás da cidade, uma que escondia as minas atrás de si. Tinham conseguido, e não sabia muito bem como.

- Eles disseram-te, lembras-te Cassidy? Partículas de Huon. Podes ir onde quiseres, saltar no tempo. Tens fisionomia para isso. E Rudolph também.

Basttete surgira atrás dela. Miroir tinha ficado com Doctor Who e Rudolph por ordem dela. E então era aquilo. Aquelas partículas que lhe davam aquela capacidade, diferente dos outros povos. Diferente do rapaz, que tinha sérias dificuldades em respirar naquela atmosfera mais agreste. Com um pequeno feitiço, fez-lhe uma bolha de ar terrestre na qual ele podia estar à vontade, mesmo que tivesse a estranha aparência de alguém com um aquário redondo de peixes enfiado na cabeça.

- E, a partir daqui, vamos para onde? - Cassidy perguntou a Basttete, enquanto se tentava lembrar de um lugar minimamente bom.

- Qualquer lugar. Não temos fronteiras.

Sentou-se na neve química, a pensar. Sabia de um lugar onde se podiam esconder, um óptimo lugar onde os Daleks não chegariam, porque qualquer invasão seria retida por uma força mais poderosa que qualquer maquinaria. Só não sabia como conseguiria ela lá entrar, e lá conseguir apoio. Estavam uns largos anos atrás de lá ter estado pela primeira vez na sua vida, e sabia que as quatro rainhas de Trawm não apreciavam muito os visitantes inesperados. Teriam de tentar a sorte, e ela rezava para que fosse, pelo menos, ouvida. Ao seu lado, Basttete pensava no mesmo assunto, com uma expressão mais ligeira. Para ela, não seria problema.

- Pronta para tentar?

Cassidy virou-se para ela, e os olhos de ambas, amarelos e envenenados, encontraram-se por segundos.

- Temos outra opção?

Num salto, levantou-se e agarrou o pequeno rapaz, olhando para o horizonte. Algures, lá longe, a sua torre dava as horas, com algum antepassado seu no seu interior. Os corvos rodeavam-na. Pelos vistos, já desde essa altura os pássaros eram uma praga constante na sua casa. Sorriu, molemente, e fechou os olhos.