"Myka, é fantástico os avanços da medicina!" – Myka riu, sabia que Helena iria ficar encantada com os avanços tecnológicos da medicina.

Ambas estavam em uma livraria, em uma cidade perto do depósito, fazendo 'pesquisas', Myka preocupada com os cuidados que deveria ter, e Helena curiosa em descobrir sobre os avanços da medicina. Artie havia dado a semana toda de folga, para que ambas pudessem visitar os pais de Myka. A viagem fora bastante bem aproveitada, rendendo somente momentos bons, assim como a viagem de volta fora tranquila.

Myka preferira voltar para Dakota do Sul, para averiguar o quanto a Sra. Frederic havia contado aos pais dela, assim como perguntar até que ponto elas poderiam contar assim como contar sobre a gravidez para os restantes do depósito, que receberam a noticia bem melhor do que ambas esperavam. Myka esperava no mínimo uma bronca de Artie, enquanto Helena esperava também uma bronca, mas junto com eventual raiva, desapontamento. Mas ele recebeu a noticia bem.

E então, elas estavam ali, sentadas frente a frente, no chão, rodeadas de diversos livros em um dos corredores da livraria.

"Se existisse apenas 5% da tecnologia e conhecimento atuais no meu tempo, a vida das mulheres certamente seria muito mais fácil." – Myka olhara para Helena, apreciando ver Helena tão excitada, lendo páginas e páginas, com toda a atenção possível, - "As mulheres do século 19 são muito diferentes das atuais." – Helena complementou, fazendo Myka arquear uma sobrancelha.

"O quão diferente?" – Helena percebeu o tom que Myka usou, olhando então para ela.

"Não falo das mulheres em relação à personalidade. Falo daquilo que elas eram obrigadas a viver. Por exemplo, a nossa obrigação era cuidar da casa, ter filhos, e educar os filhos. Não podíamos trabalhar. A mulher tinha que obedecer fielmente qualquer decisão do marido, também não podendo recusar sexo se ele quisesse. Sequer podiam ter propriedade própria. " – Myka continuou olhando-a, com o mesmo olhar, - "Querida, mulheres não tinham nem o direito de usar clorofórmio* no parto.", - Com isso, a expressão de Myka mudou, ficando um pouco chocada.

"É, tem razão. Não sei se conseguiria viver essa situação." – Helena riu silenciosamente, fazendo Myka não entender o porquê.

"E você acha que eu vivia dessa forma? Sempre fui contra esses princípios de que mulher era inferior ao homem, e etc." – Myka se lembrou das notícias que lera sobre H.G. Wells apoiar o movimento feminista, entendendo então a razão.

"Então por isso, seu irmão foi considerado ameaça à sociedade, por sua razão?" – Helena assentira.

"Nós podíamos ser diferentes em diversos aspectos, mas ele sempre apoiou as mulheres, assim como sempre apoiou os direitos que as mulheres deveriam ter." – Myka sorriu ao ouvir Helena falando sobre o irmão. Não era frequente as vezes que Helena comentava algo sobre da família dela.

xxx Dia Seguinte xxx

"Preparada?" – Helena perguntara enquanto parava o carro na frente da livraria dos pais de Myka, que assentira.

Helena percebera o olhar de preocupação de Myka, colocando a mão por cima da mão de Myka.

"Querida, tudo dará certo. Não é como se você estivesse me apresentando a eles pela primeira vez. Eles já me conhecem, e sei que eles ficarão felizes com a sua gravidez." – Myka olhou para Helena, suspirando.

"Não é com isso que me preocupo."

"Você não precisa contar quem sou. Você sabe disso."

Myka sabia que os pais dela sabiam da existência de artefatos, por causa da experiência do pai com um artefato, mas não tinham certeza qual era exatamente o trabalho de Myka, embora soubesse que artefatos estavam relacionados. Helena sabia que Myka queria contar a eles quem ela era de fato, embora não achasse necessário, e acreditasse que eles já sabiam que ela não era qualquer pessoa.

"Bem, vamos lá. Não podemos ficar aqui." – Myka disse, saindo do carro, sendo seguida por Helena que logo andava lado a lado.

O pai de Myka estava organizando os livros em uma prateleira, de uma estante perto da porta, quando ouviu a voz de Myka, se virando imediatamente vendo ambas as mulheres entrando.

"Não sabia que vocês vinham!" – Ele soltou os livros que segurava, indo cumprimentá-las. Myka abraçou-o.

"Queríamos fazer uma visita surpresa." – Myka disse, enquanto Helena cumprimentava-o.

"Espero que a viagem tenha sido excelente." – Helena assentiu, então olhando para Myka, - "Vou avisar sua mãe que vocês estão aqui.", – Ele se virou para Myka.

"Não precisa pai, imagino que ela esteja nos fundos, certo?" – O pai assentiu, observando as duas adentrarem a livraria, ouvindo então as três mulheres conversando, voltando a fazer o que estava fazendo.

Helena sempre se sentira mais confortável com a mãe de Myka, talvez pela ocasião que se viram pela primeira vez. Logo Myka estava chamando o pai, pedindo-lhe para sentar, juntamente com a mãe. Helena e Myka também acabaram por sentar.

"Sei que essa visita é de surpresa, mas viemos aqui para contar uma noticia." – Helena colocou a mão nas contas de Myka, como que a encorajando para continuar.

"E também sei, que eu havia dito que não iria ter filhos, mas desde que Helena me pediu em casamento, tenho tido esse desejo de construir uma família." - Myka fez uma pausa, ao sentir a mão de Helena entrelaçando com a dela, - "Mas não queria adotar. Pai, sei que você sabe o que são artefatos, e sei que você já foi vitima, mas o meu trabalho é coletar todos esses artefatos e estocar em um depósito, protegendo o mundo. Sei que no começo você acreditava que meu trabalho era algo ridículo, mas não é, como você já deve bem saber." - Myka novamente fez uma pausa, respirando fundo, antes de continuar.

"Não fiz a escolha mais sensata, mais ética, mas usei um dos artefatos que temos no depósito para concretizar esse desejo, já que eu queria ter um filho que tivesse o meu DNA e o de Helena." - Helena sabia que Myka estava nervosa e preocupada com a reação dos pais, mas pelo que observava deles, não tinha motivos.

A cada palavra, o pai de Myka percebia mais o que Myka estava tentando dizer, não deixando de transparecer a felicidade. Helena sabia que a noticia seria excelente para eles. A mãe de Myka também logo percebeu onde Myka queria chegar. Myka fez uma pausa na fala, retomando logo em seguida.

"Então, é isso, estou grávida." - Somente quando Myka disse a frase afirmativa do que os pais esperavam, é que ambos sorriram contentes já que nunca haviam tido a real expectativa de ter netos.

"Mas... A criança não corre nenhum risco, por causa do... artefato?" - O pai perguntara, ficando preocupado, se lembrando de que todos os artefatos possuem efeitos colaterais.

"Não se preocupe, essa criança está sendo bem acompanhada. E o artefato nunca apresentou qualquer efeito sobre a criança gerada." - Helena interviu, sabendo que Myka já havia tido dose suficiente de nervosismo, e que ela não conseguiria explicar sem se preocupar mais ainda.

"Myka, não se preocupe, não irei te julgar porque você fez essa escolha. Você teve suas razões e suas vontades, e certamente estamos muitos felizes em saber." - O pai disse, percebendo o nervosismo da filha, e se levantando em seguida, querendo dar um abraço em Myka, que também se levantou ao entender as intenções dele.

A mãe também se levantara, com as mesmas intenções, abraçando-a em seguida. Helena continuou sentada, observando as interações entre Myka e os pais dela. Ela havia ficado talvez, aliviada que a conversa não tivesse rumado por conta própria para a identidade dela. A mãe virou-se para Helena, percebendo que ela ainda continuava sentada.

"Helena, você será uma excelente mãe, assim como Myka." - Helena sorrira, sabendo que ela não sabia muitos detalhes sobre o passado dela. Myka ouviu o comentário da mãe, um pouco preocupada.

"Acredito que Myka será melhor que eu, mas obrigada. Certamente, farei o meu melhor."

"Gostariam de um chá? Ofereceria alguma bebida decente, mas acho que o horário, e a gravidez, não nos favorecem muito." - O pai oferecera, sendo aceito por todos, também aceitando a ajuda de Myka, deixando as outras mulheres ainda na sala.

"Helena, me perdoe por mudar de assunto, mas suponho que você tenha qualquer relação com H.G. Wells por causa do seu sobrenome." - Helena a olhou, suspirando enquanto passava uma mão pelo cabelo.

"Myka pretendia contar, mas somente se o assunto viesse à tona, quando ela desse a noticia. Mas agora que você mencionou, não acredito que seria grande choque dizer que, na verdade, sou H.G. Wells." - A mãe sorriu, tentando não passar uma impressão errônea.

"Desde que Myka começou a trabalhar no depósito, e meu marido foi vitima de um artefato, qualquer coisa é possível. E quando soube do seu sobrenome, apenas supus que de alguma forma, você seria relacionada com H.G. Wells. Apenas não imaginava que o autor favorito de Myka fosse uma mulher." - Helena rira, mas então reparou na ultima frase que ela dissera, focando toda a atenção.

"Mãe, acho que qualquer um acha isso. E talvez qualquer um fique chocado em descobrir que H.G. Wells é uma mulher e ainda está viva." - Myka entrou na sala, surpreendendo ambas as mulheres, sentando-se ao lado de Helena, que olhava-a surpresa.

"Não sabia que eu era sua autora favorita." - Myka deu de ombros, como se não se importasse.

"Ela nunca te contou?" - A mãe parecia surpresa, assim como Helena, que balançou negativamente a cabeça.

"Sabia que ela adorava meus livros, mas não que fossem os favoritos." - A mãe dera uma risada ao se lembrar de quando Myka era criança, fazendo questão de só ir dormir se lesse um capítulo de qualquer livro de H.G. Wells.

"Ela só dormia se lesse qualquer livro seu, embora isso também tenha influencia do meu marido." - Helena sorriu ao ouvir, tentando imaginar a cena.

"Nunca soube disso. Então, ter a primeira edição de qualquer livro meu era um paraíso."

"Era obsessão dela." - Myka assentiu, rindo com as lembranças quando a mãe comentou.

"Minha primeira edição veio de você. Incluindo assinatura." - Helena sorrira com a lembrança do dia em que deixara o livro na estante de Myka, planejando a surpresa, e então, ela se virou para a mãe.

"Eu apenas espero continuar sendo Helena. Atualmente, não me importa a minha verdadeira identidade. Nunca achei necessário vocês saberem disso, e também acredito que vocês já saibam que viver no meu tempo não era tão fácil quanto é atualmente. Existem outros diversos aspectos do meu passado que acredito serem dispensáveis, no mais, gostaria de continuar sendo a Helena que vocês conheceram." - Myka recostou a cabeça no ombro de Helena, sendo abraçada em seguida, enquanto o pai aparecia com uma bandeja com o chá, e as canecas.

Myka sabia que provavelmente o pai havia ouvido toda a conversa, mas sabia que ele não iria aprofundar o assunto com perguntas, embora percebesse a vontade dele de perguntar e discutir as obras de Helena.

"Myka contou-me algumas coisas a seu respeito, mas o que importa no final é que vocês sejam felizes. Não se preocupe, nada mudou." - A mãe sorrira para Helena, pegando uma caneca, enchendo-a de chá.

Naquele momento, eles estavam apenas tentando ter um momento de família.


Clorofórmio: Primeiro anestésico a ser utilizado em cirurgias rápidas(o éter era usado em cirurgias um pouco mais longas), também chegando a ser usado para partos, depois que a rainha Vitória pediu para usar no parto do 7º filho, calando a opinião da Igreja que era a principal oposição do uso em partos. Antes disso, mulheres eram proibidas de usarem qualquer meio de aliviar a dor do parto.

OBS.: Mulheres eram de fato "proibidas" de usarem clorofórmio para aliviar a dor do parto, por causa da Igreja, que dizia que o clorofórmio era "armadilha do Satanás".


Bom, Capítulo 26 está quase pronto, mas acredito que só poderei finalizar na quinta ou na sexta.

Tenho que aproveitar que o meu bloqueio criativo se foi, e escrever certo? xD

Até mais!