SAVE ME
Capítulo 25. Migalhas
O rapaz dentro da banheira tinha o olhar perdido. Seus olhos miravam a parede, mas não enxergavam nada. Seus pensamentos estavam longe dali, inalcançáveis.
Não sabia há quanto tempo estava ali. Suas percepções estavam alteradas. Não era a primeira vez e nem a pior, mas ainda assim não se sentia capaz de processar esse tipo de informação. De qualquer modo o tempo não era algo que pudesse ser medido naquele lugar. Não havia relógios naquela casa. Não era a toa que Yune dizia que ali não havia horas, minutos ou segundos, que o tempo era aquilo que decidisse... que ele era eterno.
Tão eterno quanto o seu inferno.
Acordar e descobrir que Yune não estava ali fora um grande presente. Não estava ao seu lado na cama, nem no quarto ou em qualquer outro canto da casa. Informação escrita em um bilhete deixado sobre o criado-mudo ao seu lado. Dizia que precisava sair e talvez demorasse um pouco pra voltar. Também lhe deixou uma recomendação no final. Uma advertência: comporte-se.
Kai sabia muito bem o que isso queria dizer e não pretendia desobedecê–lo. Muita coisa estava em jogo para que cometesse uma tolice.
Levantou-se da cama, sentindo-se tonto e enjoado. Queria ver como estava o lugar, se Yune o deixara trancado dentro do quarto ou se podia circular livremente pela casa, certamente à prova de fugas, mas sua moleza não permitiu. Na verdade talvez as respostas fossem óbvias demais para buscar confirmação: ele nunca o deixaria com meios de fugir. Nunca.
Diante disso, era melhor para si tentar fazer daquela prisão algo parecido com uma casa. Fazer algo rotineiro e com isso ter a impressão de que tinha uma vida normal.
Foi ao banheiro escovar os dentes e lavar o rosto. Início de dia, de rotina. Sentiu o gosto da pasta de dentes e demorou mais na escovação, numa tentativa de tirar o gosto de Yune dos seus lábios. E o fez duas, três vezes, até sentir apenas o sabor do produto em seu hálito.
Resolveu tomar um banho. Algo mínimo por si. Abriu as torneiras para encher a banheira, algo que não demorou a acontecer. Jogou um pouco de sabonete líquido na água e entrou no seu banho, sentindo a água quente envolvendo o seu corpo.
Sua primeira sensação foi de conforto, mas isso lhe trouxe uma culpa imensa. Era como ceder aos jogos de Yune ainda que minimamente. Desfrutar o conforto mínimo daquela prisão era como fraquejar. Uma pequena derrota. Mais uma para uma vida marcada pelo fracasso.
O que mais poderia dizer de si? As evidências eram tão claras... tantos planos, tantos sonhos mas nada concreto. Nunca construíra nada, nunca realizara nada. Tudo ficava pelo meio. Nada dava certo.
Kai não pedia muito. Queria apenas aquilo que estava ao alcance de todos, coisas banais: amigos, trabalho, amor. Pequenos sonhos que sempre lhe pareceram distantes, e agora eram inatingíveis.
Quanto mais lutava, as coisas pareciam ficar mais distantes. Os amigos que não tinha, as pessoas que tentava conhecer, as entrevistas de emprego que não davam em nada.
Nunca suas coisas tiveram um destino diferente. Tudo que conseguira fora um emprego em um bar, ser o baterista de uma banda que tocava nos fins de semana a troco de pizza, e terminar os estudos com um diploma naquilo que amava fazer, mas cuja profissão não teve chances de exercer. Nada do qual pudesse se orgulhar.
Que graça as pessoas poderia ver em uma pessoa predestinada ao fracasso? Não era a toa que todos se afastavam. Apenas Miyavi fizera o caminho inverso... e isso já tinha desistido de entender. Não havia uma explicação lógica para a aproximação dele e era realmente idiota procurar racionalidade nisso. O próprio tatuado não primava pela lógica quando estavam juntos. Dizia que era perda de tempo, talvez exausto por seu trabalho que exigia um raciocínio frio e calculista. Ele tanto não pensava em lógica, quanto não o deixava pensar nisso também. Miyavi fazia de tudo para lhe provocar, e tirar seus últimos resquícios de sanidade, fosse pela bagunça de seu apartamento, pelas piadas costumeiras ou as gracinhas sussurradas ao pé do ouvido.
Estar com Miyavi certamente era dos melhores momentos do seu dia. Tanto que não pôde conter um sorriso discreto ao pensar nele, embora devesse ser apenas uma lembrança distante. Justamente para segurança dele.
Agora tinha de cuidar daquilo que era sua obrigação: fazer Yune feliz. Algo que tinha de fazer caso quisesse manter seu passado intacto, seguro. Não ia fracassar nisso, nempodia. Essa não podia ser uma das derrotas de sua vida. Não era um dos seus sonhos, mas era sua única razão.
Pegou a esponja, esfregou seus braços com força, tentando tirar os vestígios de Yune de seu corpo. Esfregou tanto que sua pele ficou vermelha, marcada e quase sangrando. E, subitamente cansado, deitou-se, deixando-se afundar naquela água, mergulhando sua cabeça. Um pouco de paz, alguns segundos apenas.
Poucos. Duraram apenas até ouvir um grito que lhe pareceu muito distante pouco antes de mãos brutas arrancarem-no da água com violência. Seus olhos arregalados mal conseguiram focalizar a imagem de um Yune transtornado. E mal teve tempo, pois sua face sofreu o impacto de um forte tapa.
– O que está fazendo, Yuukee?! O que você quer?! Eu não vou te deixar fazer isso! – gritava o outro, apertando o braço do menor, sacudindo-o com força exagerada. – Você não vai me deixar!
Kai não entendeu as acusações, estava tonto, se sentindo mal. Com a voz esganiçada sua pergunta soou alta, nervosa, quase num grito.
– O que foi, Yune?! Do que está falando?!
– Você... você tentou se-se...
– Eu só estava tomando banho... achei que podia, que não ia ter problema. – sua voz falhou, subitamente – Gomen, eu não pensei que fosse te aborrecer.
Kai baixou os olhos, numa atitude respeitosa. Estava constrangido, temeroso. Sua face ardia pelo tapa e temia despertar a fúria do outro. Esperou uma nova agressão e sentiu novamente as mãos delem só que em uma carícia leve. O moreno temeu aquele toque,mas não tentou se desvencilhar.
– Eu pensei que... – a voz de Yune se fez presente, porém num tom baixo e conciliador – Por Kami-sama...
– Gomenasai. Eu não queria causar problemas. Não vai acontecer de novo.
– Ie, não se culpe. Sou eu quem deve pedir perdão. Tirei conclusões precipitadas e acabei te machucando. Você me perdoa?
E como Kai poderia dizer não a ele?
– Hai. – respondeu, dizendo aquilo que Yune queria ouvir, permanecendo de cabeça baixa, temendo fazer algo errado.
Yune sorriu discretamente pela resposta que recebera. Aproximou-se e o beijou, mas nada muito demorado. Logo que se separaram o moreno fez que ia levantar e o algoz estranhou o seu movimento.
– Pode continuar com o seu banho. Não precisa se apressar.
– A água esfriou. Estou com frio.
Yune lhe entregou a toalha e Kai tentou reagir de forma natural a presença dele, assistindo-o enquanto se enxugava e trocava de roupa.
– Saiu há muito tempo? – perguntou, tentando desfazer aquele clima estranho. Um pequeno esforço de sua parte para que aquilo soasse rotineiro.
– Hai, eu não pretendia demorar, mas essa saída me tomou mais tempo do que pensei. Agora vamos descer e comer alguma coisa. Um café da manhã, já que acordou agora.
Yune enlaçou sua cintura e o manteve ao seu lado durante o trajeto até a cozinha. Deixou-o sentado, assistindo-o enquanto preparava a refeição que consistia em vários sanduíches e vitamina. Um lanche reforçado, mas que Kai tinha receios em consumir.
– O que houve, Yuukee? Não está com fome?
– Gomen, Yune. Não estou muito bem.
– Precisa comer, querido. Vai fazer com que se sinta melhor.
– Tem algum remédio aqui dentro?
– Não coloquei nada, não se preocupe. Pode ficar tranqüilo.
Continuou desconfiado, mas não tinha opção. Yune tinha uma preocupação muito clara com sua saúde, e aceitar seus cuidados era um bom caminho para agradá–lo. Acabou comendo lentamente, sob os olhos atentos de seu algoz.
– Dormiu bem, amor?
– Dormi pesado, mas acordei meio tonto, enjoado.
– Você deve ter passado tempo demais na cama, e sem contar que não comeudireito ontem. Precisa se alimentar.
Kai sabia que não havia remédios naquela refeição, pois viu-o preparar, mas ainda assim não sentiu o sabor dos alimentos. Comia porque tinha de comer. Precisava agradá–lo.
– Coma mais um pouco, Yukee. Ainda tem bastante.
– Ie, arigatou, Yune. Não estou com fome.
– Tudo bem, mas vai ter de compensar e comer mais depois.
– Hai. – concordou em voz baixa.
Yune levantou e se aproximou de seu namorado. Abaixou-se e acarinhou seus cabelos. Uma proximidade que deixou o moreno inseguro.
– Eu trouxe uma surpresa pra você, amor.
– Uma surpresa?
– É, um presente. E tenho certeza de que vai gostar. Venha, quero que você veja.
Segurando seu ombro, Yune o levou para a sala. Parecia alegre, satisfeito, como se tivesse acontecido algo muito bom, e Kai não pretendia lhe desagradar. Sentou-se no sofá, como ele lhe indicara e esperou-o. Viu-o indo até a poltrona onde estavam algumas sacolas. Pegou uma delas e estendeu-a ao moreno que hesitou, mas aceitou. Nem passava por sua cabeça recusar, mas tinha medo do que poderia ser esse presente.
Abriu a sacola, e não pôde negar o quanto se surpreendera. E sua reação não passou despercebida aos olhos de seu seqüestrador, cujo sorriso só fez crescer.
– Eu pensei que você ficaria chateado sem ter nada pra fazer. Antes tinha uma vida tão ocupada... acho que desse modo não vai estranhar tanto.
Kai contemplou os presentes de Yune: material de desenho. Blocos de papel, lápis de diferentes grafites e cores. Tudo em grande quantidade, suficiente por muito tempo e muitos desenhos.
Yune realmente não media esforços. Sabia como atingi-lo, mas também como agradá–lo. Desenhar era aquilo que amava, sua profissão e também seu passatempo. Um amor quase como aquele pelo tinha por sua bateria e por cada objeto que tivesse um significado especial. Não podia negar que desenhar era muito importante e que exercê–lo era um mínimo resquício de sua vida passada. Uma válvula de escape.
Aquilo significava muito e Yune sabia disso.
Kai ficou olhando para aquele presente. Olhos fixos, meio em transe, como se estivesse perdido e não soubesse o que fazer. Transe que foi quebrado quando ouviu a voz baixa de seu seqüestrador.
– Yukee, você está bem?
– Hai... hai, estou. Domo arigatou. Eu gostei muito do seu presente.
– Que bom. – disse ele, estendendo a mão, querendo que Yutaka levantasse do sofá – Não vou deixar que lhe falte nada, amor. Você terá todo o material que quiser. É só pedir. – enlaçou sua cintura de forma possessiva, falando bem próximo ao seu ouvido, com uma voz rouca. – Aliás, pode ter tudo de mim, basta que se comporte. Sabe disso, não sabe?
– Hai.
Sentiu quando os lábios de Yune tomaram os seus, num beijo pouco mais lento que o de costume, porém não menos lascivo. Talvez seu seqüestrador lhe quisesse, desejasse tomar seu corpo naquele momento e Kai não poderia recusá–lo e nem fazer qualquer gesto a ser interpretado como uma recusa... então embarcou naquele beijo.
Sentiu as mãos dele buscando a pele por baixo da roupa, os lábios de Yune deixando os seus para sugar a pele da curva do seu pescoço, deixando as primeiras marcas das quais ele não abria mão. Yutaka sabia que ele não lhe soltaria até que seus desejos estivessem todos saciados... e estava pronto pra isso.
Um presente merecia uma recompensa. Kai não poderia recusar.
Não recusou.
ooOOoo
A primeira oportunidade que teve de usufruir do presente ocorreu duas horas depois. Antes, teve de saciar os desejos de Yune. Fez aquilo que era esperado. Decepcioná–lo estava fora de cogitação.
Exercendo pela primeira vez a sua precária liberdade dentro daquela casa, saiu do quarto na ponta dos pés. para não acordar o outro. Seu destino foi a sala, onde Yune deixara as sacolas.
Lá, sentou-se no chão com a sacola ao seu lado. Com algum fascínio, encarou novamente aqueles objetos.
Era irracional sentir algo parecido com alegria estando numa situação daquelas. Era até mesmo errado. Porém, Kai não conseguiu evitar que um resquício de sorriso surgisse em seus lábios. Sua pequena alegria falara mais alto naquele momento.
Yune estava lhe dando migalhas, pequenas recompensas por seu bom comportamento. Ele sabia o quanto um gesto como aquele poderia significar. Um ato mínimo de conforto. Mísero, porém tudo que lhe restava. O único amor antigo que lhe era permitido.
Kai amava desenhar. Fazia isso de tal forma que transformou seu hobby em profissão. Um diploma dizia que Uke Yutaka era um designer e seu certificado mostrava quase perfeição nos anos de estudo. Seus professores lhe diziam que tinha talento, uma grande carreira pela frente... um dos erros de sua vida foi justamente acreditar nisso.
Seu dito talento nunca fazia qualquer diferença naquelas inúmeras entrevistas de emprego. Sempre ia bem nos processos de seleção, mas nunca teve a oportunidade de uma vaga embora muitas vezes tudo lhe indicasse que conseguiria. Era como se, no fim de tudo algo sempre o impedisse.
O máximo que conseguira fora o emprego naquele bar onde trabalhara por pouco mais que dois anos. Lá, teve um salário que lhe garantira pequenas sobras, e essas pequenas economias somadas ao dinheiro da venda de alguns objetos e pequenos bicos lhe renderam o suficiente para comprar sua bateria. Um pequeno avanço pelo qual era grato, e talvez fosse o maior gesto de extravagância de sua vida. O máximo que merecia ter por sua teimosia.
Sua antiga vida estava longe de ser gloriosa ou digna de ser lembrada por alguém. Quem se dignaria a lembrar de uma pessoa tão tediosa, com uma vida de muidezas e mediocridade?
Talvez Miyavi pudesse fazê-lo, mas certamente não perderia seu tempo com isso. Afinal a história deles já tinha terminado. Do jeito que ele era, não demoraria a arranjar outra pessoa. Miyavi era bonito, descolado e sabia até ser gentil com os outros de vez em quando. Seria mesmo bom que encontrasse alguém para fazê-lo feliz. Se era pela vida dele que estava se submetendo a Yune dessa forma, nada mais justo que assim fosse.
Era o mínimo a fazer por quem lhe dera tanto amor, mais do que realmente acreditava merecer. Se não podia esperar que Miyavi o salvasse, desejava que ele seguisse em frente, tendo de si uma boa lembrança. Já seria muito grato se pudesse ocupar um espaço mínimo entre suas recordações, por menor que fosse.
Suspirou.
Pegou o bloco de papel e um lápis preto. Ficou olhando para aquela folha em branco, sem saber o que fazer dela. Sabia de sua vontade, de seu desejo, mas tinha plena consciência que isso era proibido.
E estava tão absorto nisso que se assustou ao sentir os braços de Yune em torno de sua cintura. Por sorte, conteve o primeiro instinto de se desvencilhar das duas mãos, mas seu corpo reagiu: seus músculos se enrijeceram e sua respiração se alterou. Mudanças que não passaram despercebidas aos olhos de seu dono.
– Nossa, amor! Te assustei?
– Assustou... eu estava distraído. - justificou, antes que pudesse ser mal interpretado.
– Imagino. - disse ele, num tom compreensivo – Então saiu do nosso ninho pra curtir seu presente... ainda não desenhou nada?
– Ainda não, não sei como começar.
– Por que não começa comigo? Com a pessoa que mais te ama no mundo?
– Com você?
– Hai, comigo. Quem pode ser melhor que o seu marido? Bem que poderia me dar esse presente.
– Eu lhe darei esse presente, Yune. Será uma honra.
Aquelas palavras doeram muito ao serem ditas, mas Kai não poderia fazer nada quanto a isso. Tinha de agradá-lo e fazer tudo soar o mais natural possível. Era cruel fingir normalidade, mas absolutamente necessário. Muita coisa dependia de sua frieza e sua condescendência. Seu sorriso trataria de esconder todo o nojo e foi com esse mesmo sorriso que pediu a Yune para sentar-se a sua frente e ficasse parado para que pudesse desenhá-lo.
Os seus olhos atentos observaram os traços de seu algoz. Sua mão segurou novamente o lápis, verificando posições e traçando as primeiras linhas, produzindo um pequeno som bastante familiar aos ouvidos do moreno.
Familiar, confortável, acolhedor.
Uma migalha, pequenas trocas. Assim seria dali por diante. Aceitar seu destino como se fosse tudo o que merecesse.
