Capítulo 24 – Isso é Suficiente

(...)

Hermione não sabia exatamente o que sentir. Uma explosão de sentimentos ruins a invadiam de uma forma que ela não conseguia expurgar. Fantasmas, memórias ruins, dores, culpa. Tudo misturava-se de uma maneira cruel dentro da castanha e por um minuto ela sentiu-se como se fosse rachar ao meio. Ainda olhava para Tom sem conseguir piscar. Olhava-o atônita demais para conseguir seguir uma única linha de raciocínio e as lembranças continuavam chegando, ocupando um espaço de sua mente outrora vazio.

Ela ofegava enquanto piscava os olhos nublados pelas lágrimas grossas. Como não chorar diante daquilo?

Seu corpo tremia levemente enquanto outras memórias eram absorvidas por ela. Estava nos braços de Tom e ele lhe sorria cúmplice. Lembrou-se de uma declaração de amor que fora feita tão sinceramente que era impossível que coubesse dúvidas. Ele chorara... Admitira um sentimento tão extenso quanto o que ela mesma carregava em seu peito. E ela continuou ali, olhando-o, enquanto a expressão de raiva era logo substituída por dor. Porque o destino havia lhe sobrecarregado com um amor tão grande, se em seguida lhe negaria o prazer de vive-lo? Ela não era tola. Não podia negar. Ela amava aquele garoto. O amava com cada célula de seu corpo. Amava-o pura e simplesmente. E não percebeu quando a sua mão abaixou e seu corpo cedeu derrotado ajoelhando-se ao chão.

Sua alma quebrava naquele instante e algo murchava em seu coração. Suas mãos trêmulas tocaram o chão de forma espalmada e ela fechou os olhos. Era um pesadelo. Um pesadelo do qual ela queria acordar.

Sentiu um bolo subindo por sua garganta e ouviu ao longe um grito áspero e desesperado sem se dar conta que era ela mesma quem estava gritando...

...

Tom não podia, não queria vê-la assim. As lágrimas constantes, os soluços altos e o desespero angustiante. Olhava para ela desejando poder trocar de lugar se isso significasse que ela não estaria sofrendo daquele jeito. Merlin... Ele a amava. Percebeu um tanto transtornado que Minerva e Abraxas saíram da cozinha entendendo que aquele momento pertencia somente a eles dois. Não precisavam de expetadores, não queriam. E relutantemente Minerva deixou a amiga ali, sabendo que ela nunca teria a capacidade de atentar contra a vida do homem que amava. Independente de qualquer atrocidade que possivelmente ele tenha feito. Abraxas a guiava, abraçando-a pela cintura, enviando a Tom um olhar consternado.

Hermione ainda apontava-lhe a varinha, mas o foco dos seus olhos nem de longe estavam no garoto sentado a sua frente. Ela encarava algo muito além, muito mais profundo em sua cabeça. Via cenas de sua própria vida no futuro e aquilo causava-lhe uma dor indescritível.

E ele viu quando ela abaixou a varinha... E ele viu quando o corpo dela cedeu e ela caiu ao chão, ajoelhada, vencida... E ele viu quando ela gritou. E o seu grito, a pura expressão do seu estado sentimental, fez com que ele se movesse. Ele aproximou-se devagar e a abraçou. Ela não recuou, não o empurrou, apenas deixou-se permanecer cativa dos braços fortes que traziam-lhe a sensação de que com ele era possível resistir a todas as dores que a vida já havia lhe imposto. Ela precisava daquilo. Precisava daqueles braços e daquele amor. Se não o tivesse, se fosse afastada, ela sabia que não resistiria, que sucumbiria e que partiria ao meio.

Mas ele não poderia permanecer ali. Não podia deixa-la naquela cozinha daquele homem deplorável. Abraçado firmemente à ela, ele aparatou.

Estavam em Hogsmeade agora, na casa dos gritos.

Ela somente permaneceu mais abraçada a ele, aconchegando-se, sentindo o cheiro dele.

— Eu a amo... — ele falou novamente. A voz rouca próxima ao ouvido da castanha e dessa vez não esperou a resposta. Ele precisava falar. Precisava falar tudo o que o atormentava naquele instante. — Eu sei que no seu futuro eu sou um monstro... — a sua voz ainda soava incrivelmente rouca. — E sei que sou responsável por toda a sua dor... Eu vi... E isso eu não posso mudar. Não posso mudar Hermione. Não posso devolver as vidas que por causa de mim lhe foram tiradas, não posso ressarcir todas as percas que você sofreu, mas eu lhe prometo... Não serei essa pessoa. Não serei. — ele fechou os olhos sentindo a verdade de sua promessa. Nunca havia sequer imaginado que o seu sonho e o seu plano havia tomado uma proporção tão grande e lastimosa. Não poderia dizer que havia mudado tão rapidamente, não, não fora uma mudança rápida. Mas foi algo sutil. Como não percebera antes? Como não notara que já se questionava mesmo antes de Hermione aparecer em sua vida? Mas fora a sua presença o grande diferencial, foi o amor, o sentimento que ele não se julgava ser capaz de sentir, que lhe indicou que havia um outro caminho.

— Quando você fez isso... — ela perguntou, a voz um sussurro enquanto ela passava as mãos delicadas e finas na marca negra. — Eu já estava em sua vida? — ela precisava saber.

— Sim. — ele não mentiria. Não poderia mentir. — Eu não posso simplesmente abandonar quem eu fui. Há muito envolvido nisso. Eu não sou invencível Hermione, e o fato de estar com você, de te amar, vai suscitar ódio entre os que eu mesmo seduzi e inflamei com essas ideias medonhas. — ele suspirou.

Ela agora estava mais calma. Como não ficaria calma estando em seus braços? Ele fez um carinho nos cabelos macios da castanha.

— Você me ama a ponto de abandonar tudo isso...? — ela tinha que perguntar. — Você me ama o suficiente para superar seus preconceitos, Tom? — ela perguntou, mas dessa vez elevou o rosto para poder olhar nos olhos do moreno. E ela viu a expressão do rosto pálido se suavizar enquanto ele sussurrava as palavras com as mãos postas em cada lado do rosto adorável da garota.

— Não há nada no mundo Hermione... Nada no mundo que eu ame mais. — e fora a verdade mais absoluta que ele já havia falado em sua vida.

Ela permitiu que o sorriso invadisse seu rosto. — Porque eu não consigo odiar você? — ela perguntou lamurienta, contrafeita. Ele apenas deu de ombros, um sorriso polido em seu rosto. Estava admirado com o fato de ela ter uma alma tão pura a ponto de não odiá-lo. Mas uma parte dele sabia que era exatamente isso que ela deveria fazer. Ela deveria correr dele. Ele era um ser corrompido. Corrompido pelas inúmeras magias negras que fizera e ela era uma alma inocente. Alguém a quem a vida exagerara na carga de sofrimento. Ambos, duas almas tristes, com suas próprias dores, com suas próprias percas, mas que ali, nos braços um do outro poderiam de alguma maneira completar-se, manterem-se intactos.

Mas ele sabia. Ele seria cobrado. Seria cobrado por abandonar tudo. E não queria que ela estivesse perto dele quando as cobranças começassem a vim. E viriam. Mas como deixa-la quando isso era o certo a fazer, por ela, quando tudo o que queria era permanecer abraçado a ela, fazer com que o tempo parasse. Tornar o momento eterno. E agora ele não precisava mais fingir para ela. Não era uma boa pessoa e ela sabia, mas ela não havia fugido. Estava ali, abraçada a ele como se ele fosse o seu porto seguro, quando na verdade ele era o maior perigo que havia ali e ele desejou por um momento que ela fugisse, fugisse dele e de tudo de ruim que ele representava.

E salve sua alma... Salve sua alma... Antes de você ir longe demais... Antes que nada possa ser feito...

— Você deveria ir... — ele falou olhando para as paredes decadentes da casa dos gritos. — Deveria se afastar de mim Hermione... — ele falou sério e ela sentiu um arrepio em sua espinha. Porque pareceu a ela que ele queria dizer várias coisas ao mesmo tempo. Queria ficar, queria ir embora.

— Já passamos por isso Tom... — ela falou olhando para ele. — Se você me deixar... Se... Se você resolver se afastar de mim novamente, então eu vou saber que o seu amor nunca foi suficiente. Mas se eu me afastar, quando tudo parecer diferente amanhã... Então eu vou saber que o meu amor por você não foi suficiente.

Eu vou tentar decidir quando ela mentirá no fim... Eu não tenho nenhuma luta em mim em todo esse maldito mundo... Então você se afasta... Ela deveria se afastar... É a única coisa que eu sei...

— E eu entenderia... — ele falou com a expressão contorcida pela dor. — E entenderei se você não me quiser mais.

Garota, salve a sua alma... Vá logo e salve sua alma... Antes que seja tarde demais... E antes que nada possa ser feito...

— Eu entenderia Hermione... — ele falou quando ela levantou-se afastando-se dele. Dando-lhe as costas. Ela soltou um riso estranho.

— Porque tinha que ser você...? — ela falou mais para si mesma do que para ele. — Tudo está errado... Eu me sinto tão culpada.

Ele levantou-se abraçando-a pelas costas, envolvendo seus braços em sua cintura e repousando o queixo nos ombros das castanha. Era uma batalha que decidiria o destino dos dois. Se a culpa vencesse, o amor estava fadado a perder.

— Eu sei que sem mim você tem tudo... — ele falou em seu ouvido. — Mas o problema é que sem você eu não tenho nada... Eu não sou nada.

Porque sem mim você tem tudo. Então segure-se... Sem mim você tem tudo, então segure-se... Sem mim você tem tudo... Sem mim você tem tudo... Então segure-se... Sem mim você tem tudo... Sem mim você tem tudo... Então segure-se...

— Dizem por aí que o amor supera tudo... — ela falou pensativa meneando a cabeça de forma incrédula. Pensou na dor de ter perdido os amigos, pensou na dor de ter perdido os pais, na dor de ter tido que lutar em uma guerra tão precocemente e de ter sido torturada em nome do que achava correto. Pensou que tudo isso não teria acontecido se Voldemort não existisse. Se Voldemort... Não... Existisse... Ela virou-se bruscamente e olhou para Tom. Não. Ele não era Voldemort. Era apenas o seu Tom Riddle e ela lutaria com todas as suas forças e contra tudo o que fosse para mantê-lo assim, apenas dela, apenas um coração quente. Murta estava viva. Sr. Riddle estava vivo. A alma do garoto não havia sido rompida. Ele não havia feito nenhuma horcrux e se dependesse dela nunca faria. Ela sorriu lindamente para ele. — E acho que o que dizem está correto.

Ele sorriu lindamente para ela. O moreno já tinha a resposta. Ela não fugiria, não se afastaria.

— Enfrentaremos tudo juntos... Sempre. — ela falou enquanto acariciava o rosto do garoto que amava.

— Sempre. — ele confirmou enquanto descia o rosto para que os lábios se encontrassem. Beijaram-se. Beijaram-se selando uma promessa. Estariam juntos. Ela o manteria bom e ele a manteria intacta.

Você é minha vida agora. Você não pode ver... Eu atravessaria oceanos... Eu nadaria mares para estar com você. Isso é suficiente para mim.

FIM DA PRIMEIRA TEMPORADA