Depois do incidente no restaurante, ficamos em Revenswood por mais um dia. Spencer ficou abalada com o susto nos primeiros momentos, mas depois que passeamos pela cidade e vimos alguns de seus filmes favoritos, ela ficou mais alegre e parecia até ter se esquecido do ocorrido. Apesar da confusão toda e dos estragos, fiquei orgulhoso de Spencer. Ela enfrentou o próprio pai para fica do meu lado. Nunca pensei que a veria fazer aquilo, ainda mais no meio de tantas pessoas. "Ela realmente deve gostar de mim", pensei.

A noite já estava caindo quando chegamos a Rosewood. Spencer parou o carro na frente da minha casa e deu um longo suspiro.

- Gostaria de poder ficar aqui com você, ela disse pesarosa.

- Bem, o sofá da sala ainda está disponível se não se incomodar, brinquei. Não é nenhuma cama de hotel, mas acho que dá pra dormir bem lá.

- Sua irmã não se importaria de eu dormir na sua casa?

- Jenna não é o maior de seus problemas, ela nem está ficando em casa ultimamente, respondi. Mas você está falando sério? Quer dizer, quer mesmo dormir aqui hoje?

- Sim!, ela exclamou. Achou que eu estava brincando?

- Por um momento achei, disse rindo e pegando em sua mão. Mas eu vou achar ótimo se você realmente passar a noite comigo.

Ela sorriu timidamente e beijou meus lábios, passando suavemente a mão por meus cabelos. Acariciei sua bochecha e ela se deitou em meu ombro, suspirando.

- Você está bem, Spence?

- Sim, sim. Estou ótima, ela respondeu se virando para mim e sorrindo. Por quê?

- Você ficou um pouco chateada depois... depois do encontro com seu pai. Não quero que fique assim.

- Toby, escute bem: eu não vou deixar meu pai interferir em minha vida com você. Nunca! Ele não pode fazer isso, eu não vou deixar! Eu só estou com medo do que ele vai falar para o resto da família e como eles vão reagir, só isso, ela disse levantando-se e olhando-me diretamente nos olhos. Eu só não quero ter de encarar esse problema hoje, agora.

- Spencer... Eu... eu entendo. Ninguém está te obrigando a fazer isso, ok? Você pode ficar aqui hoje. Aliás, pode ficar quantos dias quiser. Pelo menos da minha parte você é e sempre será bem vinda.

- Obrigada, Toby. Muito obrigada mesmo, ela disse sorrindo e me dando um beijo na bochecha.

Dando-lhe uma piscadela, abri a porta do carro e saí, indo para o porta malas pegar nossas bagagens. Ela logo saiu também para me ajudar. Levamos tudo para dentro de casa e as deixamos na sala.

- Você deve estar com fome, quer algo para comer? Acho que tem bolo e chá aqui, perguntei.

- Não, estou bem assim. Obrigada, ela respondeu sorrindo e se sentando na cadeira da mesa de jantar.

- Mais tarde faço algo para comermos então. Não vai ser um prato como o seu risoto de salmão, mas acho que dá pra quebrar o galho por hoje, brinquei indo me sentar junto a ela na mesa.

- Não precisa se preocupar comigo, Toby. Sendo você o cozinheiro, não me importa o prato, ela disse rindo.

Continuamos conversando e rindo na mesa de jantar até pelo menos quase oito da noite. Então eu e Spencer fomos para a cozinha e com muito custo, conseguimos preparar algo parecido com um macarrão à bolonhesa. Comemos ainda rindo e brincando e depois fomos nos arrumar para dormir.

- Eu acho que tem espaço suficiente na minha cama para nós dois, Spence, comentei tentando fazê-la mudar de ideia quanto ao sofá.

- Eu vou te atrapalhar a dormir, Toby. Não quero isso, ela respondeu.

- Spencer, até parece que você não me conhece! Não tenho problema algum com sono.

- Posso mesmo dormir com você, Toby?

- Claro, Spence!

Ela sorriu e enquanto eu arrumava a cama, ela foi trocar de roupa no banheiro. Tirei mais um travesseiro do armário e coloquei-o do lado do meu. Estiquei a coberta na cama e coloquei rapidamente meu pijama. Quando ela voltou, deitamos-nos lado a lado, cabeça com cabeça.

- Spencer, posso te dizer uma coisa?, perguntei olhando para o teto.

- Claro, Toby, ela respondeu também olhando para o mesmo lugar.

- O que você fez com seu pai ontem no restaurante... Eu fiquei orgulhoso de você, Spence.

- Como assim?

- O jeito como você enfrentou seu pai... Mesmo ele não aceitando nós dois, você não se intimidou e lutou contra a ira dele. Achei aquilo legal.

- Obrigada, ela disse timidamente.

Ficamos em silêncio por um momento e ela encostou a cabeça em meu peito. Comecei a acariciar seus cabelos cacheados e ela deu uma pequena estremecida.

- Acho que agora é minha vez de te dizer algo, ela disse virando-se para mim.

- Pois diga.

- Lembra-se de quando você era suspeito do assassinato de Alisson?

- Sim...

- Eu estava correndo pela rua um certo dia e você estava caminhando pela mesma rua que eu, mas bem mais a frente. Eu vi quando um carro cheio de garotos passou e um deles cuspiu em você. Vi também quando alguns meninos correram de você na rua e você se escondeu em um beco. Naquele dia eu fui atrás de você e vi você encostado na parede, no meio das latas de lixo, chorando, ela disse olhando-me diretamente nos olhos. Aquele foi o dia em que me apaixonei por você. Eu não queria admitir para mim mesma, por isso briguei com você no Homecoming. Além disso, também estava com medo de você ter realmente assassinado Alisson.

- Spencer..., exclamei boquiaberto.

- Por favor, não diga nada, Toby. Eu sei que estava errada e não tinha o direito de fazer aquilo. Me desculpe.

- Não precisa se desculpar, Spence. Eu só... Não imaginava que você tivesse me visto aquele dia.

Ela beijou-me suavemente e continuei a acariciar seus cabelos até que ambos dormimos. Quando acordei no outro dia, Spencer já não estava mais ao meu lado. Levantei-me da cama e não a encontrei na sala ou em nenhuma outra parte da casa. Suas malas também não estavam mais na casa então presumi que havia ido embora mais cedo. Já eram onde da manhã e fui para a cozinha tomar meu café da manhã. Escovei os dentes, troquei de roupa então decidi ligar para o celular de Spencer e ver como ela estava. Disquei o número e ninguém atendeu. Antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, o telefone de casa tocou. Atendi, pensando ser ela.

- Seu canalha sem mãe! Pra onde você levou minha filha?, ouvi Peter Hastings gritar nervosamente pelo telefone. Fale agora antes que eu abra um processo contra você!

- Mas... Mas do que você está falando?, perguntei confuso.

- Ah, até parece que você não sabe, seu marginalzinho! Eu sei que Spencer está aí com você, escondida em algum lugar!

- Eu não sei do que o senhor está falando, me desculpe!

- Eu vou te..., a voz dele sumiu e o telefone fez um estranho barulho até que uma voz feminina começou a falar. Toby, aqui é Verônica, mãe de Spencer. Ela está aí com você?

- Não, sra. Hastings, Spencer não está aqui. Por quê? O que houve?

- Peter disse que ela chegou aqui de manhã, quando eu ainda estava dormindo e ele me disse que eles tiveram uma pequena discussão e agora Spencer desapareceu. Ela não está em casa e também não está com nenhuma amiga. Imaginamos que ela estivesse com você.

- O quê!? Como assim ela desapareceu!?, exclamei assustado, dando um pulo.

- Ela simplesmente fugiu de casa e agora não sabemos onde ela está! Pelo visto ela não está com você então... Se souber de algo por favor nos ligue na hora, ok?

- Está bem, farei o possível para encontrá-la!

- Obrigada e desculpe-me os modos de Peter. Tenha um bom dia.

O telefone ficou mudo e eu não consegui tirá-lo da orelha por um momento, assimilando a informação da fuga de Spencer. Por fim, quando coloquei-o novamente no gancho, sai correndo de casa. Havia vários lugares em que Spencer poderia estar e eu tinha que ser rápido. Procurei em todos os cafés que havíamos ido, em todos os cinemas e praças e nada. Já estava quase desistindo quando finalmente lembrei-me de um lugar, o único onde ainda não havia buscado. "Por favor, esteja lá, esteja lá, esteja lá...", pensava angustiado enquanto pegava um taxi. Disse ao motorista onde queria ir e em dentro de alguns instantes, o carro já estava subindo a montanha de Rosewood. À medida que íamos aproximando-nos do pico, dava para se ver a cidade mais amplamente. Antes que pudesse ver mais alguma coisa, percebi uma pequena movimentação. Era Spencer, sentada no mesmo tronco caído da última vez que estivemos lá.

- Motorista, pare aqui, por favor!, gritei batendo no banco da frente e já saltando do carro.

Comecei a correr montanha acima o mais rápido que meus pés conseguiam. Antes que chegasse no topo, comecei a gritar com toda a força que podia:

-SPENCER! SPENCER!

Ela se virou para trás abruptamente, bem na hora em que consegui alcança-la. Ela se levantou e me recebeu com um abraço apertado. Segurei-a ofegante nos braços e dei-lhe vários beijos no rosto quando consegui recuperar o fôlego.

- Graças a Deus te encontrei! Você está bem?, perguntei.

- Não estou fisicamente ferida se é isso que deseja saber, ela respondeu séria.

- Isso já é um começo, respondi rindo. Por que fugiu assim, Spence? Deixou todos preocupados!

- Eu... Posso explicar depois? Não quero falar sobre isso agora.

- Tudo bem, tudo bem. Vamos para casa agora, ok?

- Eu não vou! Não quero voltar, Toby!

- Mas Spencer...

- Não vou voltar para aquela família enquanto eles não aceitarem que estamos juntos! Ouvi meu pai falar horrores de você hoje de manhã! Ele quer me proibir de te ver, Toby! Isso não é justo!

- Spencer, acalme-se, ok? Nós vamos resolver isso tudo, mas só se você colaborar e voltar para casa, ouviu bem? Eu vou estar lá com você para te ajudar, prometo.

- Promete mesmo?

- Juro pela minha mãe!

- Tudo bem...

- Então vamos descer porque o taxi deve estar nos esperando.

Assim que voltamos para Rosewood, o taxi parou na porta da casa de Spencer. Pagamos o motorista e batemos na porta. Verônica veio atender e, assim que viu a filha, deu-lhe um abraço apertado e suspirou.

- Onde você estava, minha filha? Deixou-nos preocupados!, ela exclamou pegando o rosto de Spencer nas mãos.

- Eu agradeço a preocupação, Spencer respondeu séria.

- Ah, você! Eu sabia que esse carpinteirinho estava metido na confusão! Pra onde levou ela, seu canalha?, Peter rugiu atrás de Verônica.

- Peter, não fale assim com ele! Toby trouxe Spencer de volta para casa, você deveria agradecê-lo!, defendeu a sra. Hastings.

- Não vou defender marginal nenhum! Aposto que foi por causa dele que ela fugiu!

- Não, pai. Eu fugi por sua causa, Spencer murmurou.

Fez-se um silêncio constrangedor na porta da casa da família Hastings.

- O quê?, Peter perguntou irônico.

- Isso mesmo que você ouviu. Fugi por sua causa. Por sua grosseria e intolerância. Não fico mais um dia em casa se você ou qualquer outra pessoa da família venha desrespeitar meu relacionamento com Toby. Ele pode não ser nenhum filho de empresário, mas é quem eu amo. E você vão ter de aceitar isso se me quiserem aqui.

- Spencer..., Verônica começou a falar.

- Eu estou falando sério.

- Há, eu sabia! Sabia que ele tinha feito sua cabeça, Sr. Hastings exclamou.

- E então, vão aceitar o Toby ou não?, Spencer perguntou categórica.

- Minha filha, contanto que fique conosco, você pode namorar até um mendigo se quiser!, disse a mãe.

- E você, pai? O que tem a dizer?

- Quer saber? Que se dane! Se quer acabar com sua vida, tudo bem, acabe! Mas não diga que não avisei!

Spencer sorriu e se virou para mim, dando-me um beijo demorado e suave. Depois, pegou em minha mão e me puxou para dentro da casa. Peter Hastings bufou e se afastou da sala. Verônica, depois de dar um beijo na bochecha da filha, também foi embora, deixando-nos sozinhos na sala. Spencer ligou a TV e nos sentamos no chão, um do lado do outro.

- Spencer, me faça um favor, comecei a dizer, quebrando o silêncio.

- O quê?, ela perguntou se virando para mim.

- Se alguma vez sentir a urgência de fugir novamente, me chame primeiro. Ok?

- Ok, ela disse sorrindo timidamente.

Entrelacei minha mão nas delas e ela me deu um beijo na bochecha, colocando a cabeça em meu ombro.