- Nossa cara, como você ta péssimo!

Leon acordou num pulo. Rocco estava do lado dele, segurando uma mala preta.

- Você me assustou! Conseguiu pegar as armas, finalmente!

- Peguei sim, mas pelo jeito que você tá, não vai conseguir levantar nem um porrete – disse Rocco.

Se esforçando para se levantar e arrependido por não carregar seus analgésicos no bolso, ele abriu a mala e pegou uma submachine gun.

- Fala sério, mona! Você definitivamente não vai conseguir usar isso com uma mão só!

- Chega de blá-blá-blá. Vamos embora – disse Leon, irritado.

- Sim, senhor.

Seguiram pelos corredores até chegarem numa porta onde o leitor de cartão estava piscando. O acesso milagrosamente estava liberado.

- Alguém chegou antes da gente – concluiu Rocco.

- Deve ter sido a Claire. Espero que eles estejam bem.

Assim que Leon passou pela porta, um estrondoso rugido fez Rocco parar e olhar para trás. Uma grade de proteção em metal maciço desceu rapidamente, formando uma barreira entre os dois.

- O que é isso? – perguntou Rocco, com os olhos arregalados.

- Eu não sei. Tente achar alguma sala de controle desse andar que eu vou continuar por esse lado.

Inseguro, o soldado apenas balançou a cabeça e correu.

Leon abriu a porta girando uma manivela e entrou. Deparou-se num corredor metálico silencioso. Entretanto esse silêncio foi quebrado por um pedido de socorro:

- Papai!!!

Imediatamente Leon seguiu a voz do garoto, gritando:

- Dean! Dean!

Quando virou-se, de uma maneira sobrenatural ele não estava mais no laboratório. Olhando para os lados, ele estava numa grande sala de aula. As carteiras estavam perfeitamente alinhadas e o sol brilhando pela janela era simplesmente surreal.

- Mas que diabo está acontecendo?

A porta da sala de aula abriu quando um alarme soou fortemente. O mecanismo anti-incêndio regou toda a escola, esguichando água numa tentativa de conter o fogo. Quando Leon correu para fora, viu vários corpos minúsculos torrados. Aquelas pobres crianças haviam sido carbonizadas.

- Meu Deus! – exclamou o pai de Dean, com pesar.

Do meio das chamas, uma criança com o corpo em chamas saiu gritando. Leon não sabia o que fazer quando a menina, já queimada em mais de 90%, caiu do seu lado e morreu.

- O que está acontecendo aqui?! – gritava ele.

Quando tentou sair, ouviu uma voz:

- Você é corajoso. Chegou onde ninguém conseguiu.

A criança carbonizada estava falando.

- Isso é impossível!

- Vocês, adultos, acham fácil abandonarem quem mais precisa. Tem filhos e os jogam na lata de lixo para que eles sirvam de ração para cachorros de rua! – berrava a criança.

- Nem todos são assim – Leon tentava argumentar.

- É claro que são assim. Todos nós somos vítimas de pais negligentes que não se importam com seus dependentes!

- Eu não sou desse tipo! – exclamou Leon.

- Ah, não é? Então você irá me amar? – disse a menina carbonizada, mudando seu tom de voz.

Engolindo a seco, o ex-RPD não sabia o que dizer.

- Você vai me amar? Vai sim, vai sim...

Conforme a pobre garotinha queimada se aproximava de Leon em passos lentos, as outras crianças mortas também levantavam e seguiam marchando a líder.

- Papai, papai, papai! – chamavam todos os pequenos em uma só voz.

Paralisado com o que via, sentiu um forte aperto no calcanhar. Era uma criança rastejante, que subia nas costas de Leon. Quando ele se deu conta, todas aquelas crianças estavam em cima dele. O abraçavam e o sufocavam, sempre chamando pelo pai. Leon já estava ficando sem ar quando ouviu um chamado diferente.

- Pai! Pai!

Ele tentou livrar-se do sufocamento em vão. A única coisa que conseguiu foi ver entre as frestas humanas o que ele ansiava ter visto.

- Dean! Dean! – gritava num tom abafado.

- Pare com isso! Você está machucando o MEU pai! – disse Dean.

Misteriosamente, o cenário escolar havia sumido. Leon estava deitado, recuperando seu fôlego. Dean correu até seu progenitor e o abraçou.

- Isso é mais um delírio? – perguntou o Sr. Kennedy num sussurro.

- Não, papai. Eu estou aqui! Graças a Deus você chegou – disse o garotinho, explodindo num choro desesperado.

Leon levantou-se e abraçou seu filho.

- O que houve? Onde está sua mãe?

Dean só chorava e soluçava sem parar.

- Me fale, Dean! – pediu o pai num tom autoritário.

- Acho que a mamãe está... está... – tentou concluir Dean, que caiu aos prantos novamente.

- Está tudo bem, filho. Leve-me até ela.

Correndo pelos corredores, Dean abriu uma porta dupla e estava no corredor idêntico aos outros. Andando em passos firmes, não demorou para avistar sua esposa caída na poça de sangue.

- Claire! – gritou Leon com toda sua força.

O marido de Claire praticamente voou em direção de sua amada e se ajoelhou perante ela. A primeira coisa que checou foi seu pulso. Estava fraco, porém o coração daquela mãe guerreira ainda lutava.

O ex-RPD abraçou fortemente a esposa e a carregou no colo.

- Sabe onde fica a enfermaria, ou algo do tipo? – perguntou ele, seguindo sem rumo com sua esposa nos braços.

- Não sei – disse o rapazinho, quase chorando.

- Eu sei!

Olhando para o lado, viram uma garotinha de vestido sujo e visivelmente ferida.

- Quem é você?

- Ela é a Leny, pai. É sua...

Num sinal visível de desaprovação de Leny, Dean imediatamente calou-se.

- Posso levá-los até o laboratório experimental. Fica nesse andar.

Leon ainda se perguntava o que uma menina tão pequena fazia naquele lugar caótico. Ele sequer notou a semelhança entre ela e seu filho pois estava muito ocupado pensando no bem-estar de Claire.

- Por aqui – disse Leny, seguindo pelos tão-conhecidos corredores.

Numa porta dupla azul, Dean e sua desconhecida irmã abriram passagem para Leon. Com delicadeza, Claire foi colocada numa maca. Ela gemeu baixinho, parecendo reclamar da falta de seu marido.

- Está tudo bem, querida.

As crianças pularam para o lado da mãe, cada um pegando uma de suas mãos e ficando de prontidão enquanto Leon se perdia no enorme estoque de medicamentos. Infelizmente ele não era médico e não tinha a mínima idéia do que dar para confortar sua mulher.

- Tente dar o remédio do vidrinho laranja – sugeriu Leny, que apareceu de supetão na porta.

- E como sabe que esse medicamento é certo? – perguntou ele.

- Eu apenas sei – disse a garotinha, colocando as mãos para trás e abaixando seu rostinho envergonhado.

Pegando o vidrinho em mãos, nenhuma descrição indicava o uso do remédio. Apenas um código marcava a medicação.

- Merda! – gritou Leon, revoltado.

- Use o terminal de consulta a sua esquerda – sugeriu Leny.

Agora a menininha estava deixando Leon intrigado. Ele se dirigiu até um leitor de código de barras e posicionou o vidrinho embaixo do laser. No visor LCD acima, uma completa bula virtual foi exibida. Os princípios ativos do componente estancavam o sangramento interno ou externo, além de contém uma mínima dose de morfina. Isso era tudo o que eles precisavam.

Pegando uma seringa e rasgando sua embalagem com os dentes, o marido de Claire preencheu o recipiente e bateu levemente no vidro duas vezes.

- Dean, peque aquele elástico para mim!

Obedecendo a indicação do pai, Dean pegou o solicitado.

- Leny, estique o braço dela!

Pegando delicadamente na mão de sua mãe, Leny esticou de leve até que Leon conseguiu achar uma veia. Amarrou o elástico em volta do braço esquerdo de Claire e a veia saltitante dela avisava que estava pronta para receber o remédio. Uma breve picada e todo o líquido laranja foi absorvido pelo corpo de Claire.

- Muito bem, meus ajudantes mirins. Obrigado!

Aliviado, Leon deixou seu corpo cair pesadamente numa cadeira ao lado do leito.

- É questão de tempo até virem atrás da gente – disse Leny.

- Não tem ninguém aqui – rebateu Dean.

- Tem sim!

- Não tem!

- Tem sim!

- Não tem!

- Parem, vocês dois! Parecem até irmãos – disse Leon, de olhos fechados.

Um pequeno estalo fez Leon abrir os olhos. Ele pensou no que havia acabo de dizer e olhou Dean e Leny, lado a lado. A semelhança entre eles era inacreditável.

- Meu Deus! – disse ele, pulando da cadeira.

Leny estava sentada e viu a expressão surpresa que a encarava de longe. A garotinha lentamente ficou em pé.

Em passos longos, Leon agachou perto de Leny e a olhou nos olhos. Aqueles olhinhos inocentes de uma criança encarando os já encharcados olhos de Leon.

- Lenneth?

A garotinha nada respondeu. Apenas abraçou fortemente o que ela poderia finalmente dizer "pai".

- Meu Deus, isso é um milagre! Milagre! – exclamava ele, emocionado.

Dean estava assistindo tudo e se sentiu isolado. Seu pai fez um sinal e ele foi convidado a participar da comovente reunião familiar.

- Dean... Dean... – chamava uma voz, baixinho.

- Mamãe?

Leon se levantou imediatamente e foi em direção à esposa.

- O segundo milagre do dia! – exclamou ele.

- Leon! Você conseguiu chegar – disse ela, numa fala mole.

- Sim, todos estamos bem.

Leny se aproximou receosa.

- Tem alguém vindo.

- Como? – indagou Leon.

Não demorou até ouvirem batidas na porta e berros. Por sorte, a porta estava trancada. Mas isso não serviria de empecilhos, pois diversas faíscas em linha reta cortavam o metal lentamente.

- Alegria de pobre dura pouco – disse Leon.

- Papai! – gritavam as duas crianças.

- Claire, venha! – disse Leon, puxando a esposa zonza pelo braço.

Eles correram até uma porta de vidro. Lá dentro, nada além dos medicamentos.

- Droga! – disse o ex-policial, sentindo-se encurralado.

- Ali – disse Claire, quase recuperada, apontando para a entrada de um duto.

O pai de família correu e forçou a abertura da grade chutando com toda a força. Quando já estava torta o suficiente, puxou-a com as mãos. Uma passagem pequena o suficiente para as crianças passarem.

- Entrem, rápido!

Obedecendo ao pai, as duas crianças fizeram o ordenado.

- Fiquem aí – pediu Leon.

- Não! Você fez tanto estrago na grade que eles saberão que as crianças foram por aí e atirarão com certeza – disse Claire, encostada na estante com a cabeça apoiada nas mãos.

- Sua mãe tem razão. Sigam em frente, nós acharemos vocês.

- Mas, pai!

- Sem mas! Você é um homenzinho forte, Dean. Sei que você consegue! Confio em você!

Entusiasmado com as palavras do pai, Dean entrou no duto. Leny já estava lá dentro, esperando por ele.

- Cuide de sua irmã! – os pequenos ouviram o eco da voz de Leon.

Correndo até a sala, viu que faltava pouco para que as portas fossem derrubadas.

- Leon, o que você fez? – gritou a esposa dele, histérica.

Ele encarou sua amada, sem nada para dizer.

Claire olhava para o vazio do duto. Depois virou-se, furiosa:

- Como você deixou eles seguirem sozinhos?

- Mas foi você que disse que...

- E agora, como faremos para rastreá-los? – dizia ela, descontrolada por ter perdido o filho e a filha que nem sabia ainda.

- Dean e Leny sabem se cuidar. Se preocupe com a gente!

Logo após essas palavras, o som das pesadas portas caindo foi ouvido. Agora era Claire que esperava pelo terceiro milagre.